Bolt quer integrar todos os transportes numa só app para transformar a mobilidade turística

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Em entrevista ao TNews, Mário de Morais, diretor-geral da Bolt em Portugal, defende que o futuro da mobilidade turística passa pela integração de todos os meios de transporte num único ecossistema digital, capaz de facilitar a deslocação dos turistas e residentes, reduzir a pressão nos centros urbanos e tornar as cidades mais sustentáveis.

Segundo o responsável, as plataformas de mobilidade partilhada não agravam a pressão turística — pelo contrário. “A Bolt, na verdade, vem ajudar a que a pressão turística seja menos sentida”, afirma, sublinhando que estas soluções oferecem alternativas que antes não existiam. “Hoje em dia, não faz sentido um turista ter que alugar um carro por sete dias porque faz três locações. E a Bolt vem resolver este problema”.

Ao facilitar deslocações rápidas entre periferias e centros urbanos, estas soluções permitem também uma maior descentralização do turismo. “Se tenho uma forma rápida de, a qualquer hora, ir de uma periferia para o centro, podemos dispersar o turismo de uma forma que seja mais sustentável”, explica.

Um ecossistema integrado para turistas

Apesar da crescente adoção destas soluções, Mário de Morais identifica ainda um desafio relevante: o desconhecimento do ecossistema de mobilidade e da lógica da multimodalidade. “As pessoas têm que conhecer o ecossistema que existe, o tipo de transportes e o desafio da multimodalidade”, afirma, explicando que muitos turistas continuam a escolher apenas um meio de transporte, quando poderiam combinar vários ao longo da sua jornada.

É aqui que a estratégia da empresa se posiciona. “Esse é o espaço onde a Bolt quer entrar: ter todas as formas de mobilidade numa app só, para que o turista chegue e perceba que tem que ir do ponto A para o B. Não interessa se vai de bicicleta, se gosta de andar a pé, ou se apanha um transporte e um TVDE”, sublinha.

Esta visão de mobilidade integrada é, segundo o responsável, o eixo central da estratégia futura da empresa. “O grande foco até 2030 é construir o ecossistema”, sublinha.

Ainda assim, a utilização da plataforma em Portugal continua a ser maioritariamente feita pelos habitantes. “Hoje em dia, temos mais residentes a utilizar do que turistas”, refere, acrescentando que a comunicação com visitantes tem sido reforçada nos principais pontos de entrada no país. 

“Temos funcionalidades que dão uma notificação a quem já tem a nossa aplicação, ao chegar a um país, [a informar] que existe este serviço. A ideia é continuarmos a comunicar desta forma, mas também em todos os grandes hubs de transporte, os aeroportos, as estações ferroviárias, todos os grandes centros”.

Os hábitos de utilização revelam também diferenças geracionais claras. “As gerações locais mais novas já vivem principalmente com essas aplicações e não com as suas viaturas próprias”, enquanto os mais velhos estão a aderir progressivamente. “Mesmo os turistas das gerações mais velhas que vêm a Portugal começam já a preferir utilizar uma aplicação como a Bolt do que propriamente ter um carro para andar com eles”.

“Esse é o espaço onde a Bolt quer entrar: ter todas as formas de mobilidade numa app só, para que o turista chegue e perceba que tem que ir do ponto A para o B”

Sustentabilidade, micromobilidade e infraestrutura

A sustentabilidade surge como outro eixo central da estratégia da Bolt. Segundo Mário de Morais, “o parque TVDE que trabalha com a Bolt são 30% de veículos elétricos, muito acima do 1.5% nacional”. Além disto, a empresa “só trabalha com veículos recentes de emissões reduzidas e, portanto, as viagens de mobilidade partilhada são sempre mais eficientes”.

O responsável alerta, ainda assim, para as limitações existentes em termos de infraestrutura adequada, como de carregamento dos veículos elétricos, especialmente “do centro das grandes cidades para a periferia das grandes cidades”.

O responsável destaca ainda “duas grandes apostas” da empresa. Por um lado, a integração com transportes públicos é vista como essencial. “O turista que vai fazer Lisboa-Porto pode fazer este trajeto com comboio ou autocarro e, [quando chegar ao destino], depois tem lá um TVDE à espera, o que lhe facilita a jornada e poupa muitas emissões”, explica. “Estamos a fazer o transporte massivo, onde ele é eficiente, e estamos a fazer o transporte individual, onde também é eficiente”.

Esta lógica contribui também para reduzir o uso do automóvel particular. “Estamos a diminuir a pressão do número de carros a andar nas ruas, bem como o número de carros parados e parqueados”, afirma, acrescentando que a circulação se torna mais fluida.

A segunda aposta é o desenvolvimento de “produtos relacionados com o turismo”, como as Bolt Tours na Madeira, “para garantir que o turista consegue conhecer as cidades de uma forma simples e eficiente a nível de movimentação”.

Paralelamente, a Bolt tem vindo a reforçar a aposta na micromobilidade, com trotinetes e bicicletas elétricas. “Lisboa é um excelente exemplo, onde a infraestrutura se preparou para adotar este tipo de micromobilidade”.

“Acabamos por estar presentes onde há infraestrutura, onde faz sentido e onde é seguro ter a micromobilidade”, explica. “Conseguimos promovê-la porque promovemos um ecossistema de mobilidade completa. Nunca vamos deixar uma pessoa que não gosta de andar de bicicleta sem uma opção viável, mas também vamos dar à pessoa que gosta de andar de bicicleta essa opção”.

“Se tivermos uma fraca mobilidade, só conseguimos ter turistas interessados no centro das grandes cidades”

Diálogo com autarquias e entidades públicas

O diálogo com as autarquias tem sido, segundo o diretor-geral, positivo. “Hoje em dia, as autarquias — também com o benefício de estarmos no início de um ciclo político — estão muito interessadas em resolver este problema”, reconhecendo que “percebem que a mobilidade é chave, e percebem que o turismo também é chave para Portugal”.

“Sentimos muita receptividade em fazer projetos estruturais”, acrescenta, ainda que sublinhe que se trata de iniciativas com impacto a médio prazo. “São projetos que vão ter resultados ao longo dos próximos quatro a cinco anos. Não são resultados imediatos.”

Entre os exemplos, destaca projetos em Lisboa e no Porto, tanto na micromobilidade como nos TVDE, bem como iniciativas para ligar grandes terminais de transporte, “por exemplo, Sete de Rios e Campanhã, com autocarros que venham através da aplicação da Bolt.”

Ao nível das políticas públicas, Mário de Morais identifica três vetores essenciais. “O primeiro vetor é o da multimodalidade”, defendendo a evolução digital e a integração dos transportes públicos. O segundo prende-se com a infraestrutura sustentável, salientando que o fim da exclusividade da Mobi.E nos carregamentos elétricos “mostra que as entidades já estão a pensar que precisamos de realmente alargar o espectro”. O terceiro passa por “ter um enquadramento legislativo que ajude à introdução dos veículos autónomos, que vão ser mais um fator de ajuda à mobilidade”.

Olhar para o futuro da mobilidade turística

Para o diretor-geral da Bolt, o papel da empresa está bem definido: “integrar todos os transportes num sítio só, seja metro, TVDE, bicicleta ou autocarro”, reitera.

A mobilidade, sublinha, é determinante para a forma como o turismo se distribui nas cidades. “Se tivermos uma fraca mobilidade, só conseguimos ter turistas interessados no centro das grandes cidades”, o que gera pressão excessiva e aumento de preços. Já uma mobilidade eficiente permite outro cenário. “Se tivermos uma mobilidade bem conseguida nas cidades, vamos conseguir dispersar o turismo pela cidade”, criando diferentes ofertas e reduzindo a pressão sobre os centros urbanos.

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