O modelo Buy Now, Pay Later (BNPL) tem vindo a ganhar terreno em Portugal e começa a marcar presença no setor do turismo e hotelaria. Luís Gama, diretor de Marketing da Unicre, explica, em entrevista ao TNews, como esta solução pode ser implementada em diferentes tipos de empresas – das agências de viagens aos hotéis, de PMEs a grandes grupos – e de que forma pode criar benefícios tanto para consumidores como para operadores.
Para Luís Gama, trata-se de uma tendência global com impacto crescente no país, onde “os consumidores portugueses estão a recorrer cada vez mais aos pagamentos parcelados nos seus consumos online e, de igual forma, a procurar essa opção junto dos pontos de venda físicos”.
Apesar de reconhecer que, no turismo, a adoção “ainda se encontra numa fase inicial”, considera que “o potencial é evidente”, uma vez que se trata de um setor marcado por transações de valor elevado. Dados recentes confirmam essa tendência: 61% dos consumidores portugueses já utilizaram pagamentos fracionados e 60% das empresas acreditam que o modelo vai crescer, reconhecendo o BNPL como “um fator competitivo”.
Na perspetiva do especialista da Unicre, instituição financeira de crédito que atua no mercado português, a aplicabilidade do BNPL neste setor “é clara e crescente, posicionando-se como um importante facilitador numa área onde as despesas são frequentemente planeadas, mas significativas”.
“O turismo, pelas suas transações de valor elevado, está naturalmente posicionado para beneficiar desta evolução”
Ao permitir o pagamento em prestações sem custos adicionais, a solução “democratiza o acesso a experiências de viagem e estadias, amplia a capacidade de compra dos consumidores e contribui para a antecipação de reservas”. Trata-se de “uma lógica de win-win”, defende, já que traz benefícios “tanto para os clientes, que podem aceder a opções de maior valor acrescentado, como para os operadores, que registam melhorias na conversão e no ticket médio”.
Do ponto de vista do consumidor, o principal benefício é a gestão mais equilibrada do orçamento, segundo Luís Gama. “Ter a possibilidade de dividir o pagamento, sem juros ou burocracias complexas, pode fazer a diferença num momento de decisão”, explica. Esta vantagem aplica-se tanto a famílias que planeiam férias como a jovens adultos que organizam uma “viagem mais ambiciosa”.
As empresas turísticas também encontram “vantagens significativas”. Para além de receberem o valor total da reserva de imediato, enquanto o cliente paga de forma faseada, o BNPL “contribui para o aumento das vendas, reduz o abandono do processo de reserva e atrai novos segmentos de consumidores, especialmente os mais jovens”. Acresce ainda o efeito de fidelização, ao “tornar experiências de viagem mais acessíveis”, bem como o encurtamento do ciclo de decisão e a maior previsibilidade das reservas, respondendo “às preferências de consumidores que valorizam maior autonomia financeira”.
“Ter a possibilidade de dividir o pagamento, sem juros, pode fazer a diferença num momento de decisão. Isso aplica-se tanto a famílias a planear férias, como a jovens adultos a organizar uma viagem mais ambiciosa”
Implementação prática nas empresas de turismo e hotelaria
Luís Gama destaca que a “integração eficiente” do modelo BNPL nos sistemas de pagamento existentes é “essencial para o seu sucesso no setor turístico”. Neste sentido, as empresas devem “garantir uma implementação fluida e ter especial atenção à experiência do utilizador e à transparência das condições”. Outros fatores importantes são a “formação adequada das equipas”, bem como a realização de uma avaliação prévia do impacto operacional e do alinhamento com o perfil de cliente habitual, acrescenta.
Embora muitas vezes visto como uma solução ligada ao e-commerce, o BNPL está “em clara expansão” para os ambientes físicos. “No contexto do turismo, pode ser aplicado em agências de viagens, balcões de reserva ou hotéis. Com os terminais de pagamento atuais, é simples oferecer esta opção de forma integrada e fluída no ponto de venda”, afirma.
Quanto à sua aplicabilidade em pequenas e médias empresas, Luís Gama considera que o BNPL é uma solução “escalável e acessível”, não sendo destinada somente às organizações de maior dimensão. “Pode, inclusive, funcionar como um diferenciador competitivo face às grandes cadeias, especialmente quando a sua implementação responde diretamente às necessidades do público-alvo”, realça.
“No contexto do turismo, pode ser aplicado em agências de viagens, balcões de reserva ou hotéis. Com os terminais de pagamento atuais, é simples oferecer esta opção de forma integrada e fluida no ponto de venda”
De acordo com o especialista, a recetividade das empresas à adoção deste modelo tem sido positiva, ainda que gradual. “Temos verificado uma maior abertura à discussão deste tema. Embora a adoção ainda esteja numa fase inicial no setor, há interesse crescente por parte dos operadores, sobretudo à medida que percebem os benefícios para si e para os seus clientes”, indica.
A nível geral, a digitalização é “uma peça-chave para melhorar a experiência do cliente e otimizar a gestão do negócio”. Olhando para o turismo, onde “a agilidade e a confiança no processo de pagamento são essenciais”, a adoção de “soluções mais modernas e integradas” pode contribuir para “uma imagem mais profissional”, além de facilitar “a operação diária, especialmente em ambientes de alta rotação”.
Para além do BNPL, existem outras tendências que também estão a marcar os pagamentos no turismo e hotelaria. “Estamos a assistir à consolidação dos pagamentos por aproximação, ao aumento do uso de carteiras digitais e à integração de soluções tecnológicas, como a inteligência artificial, na personalização do serviço e na deteção de fraude”, conclui. “Estas transformações têm impacto direto na experiência do consumidor e na forma como as empresas se posicionam num mercado cada vez mais dinâmico”.



