Sexta-feira, Abril 17, 2026
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Cativações: “Tenho a expectativa que as verbas possam aumentar, mas de que me serve se não as consigo gastar?”

Em entrevista ao TNews, José Santos aborda a maior articulação entre o Turismo do Alentejo e Ribatejo e a ARPTA, que “torna a missão de gestão do destino mais eficiente”, após ter passado a acumular a presidência de ambas as entidades este ano. Entre os objetivos estratégicos estão o reforço da marca Alentejo e a digitalização, bem a aposta no enoturismo e em Espanha como mercados prioritários. O presidente da ERT alerta ainda para os entraves causados pelas cativações das verbas, que “retira[m] a capacidade de execução” à entidade.

Leia a 2.ª parte da entrevista a José Santos — Eixo Tróia-Melides: “Estamos a assistir à construção de um destino turístico, e é bom que o Estado esteja presente”

Este ano, passou a acumular a presidência do Turismo do Alentejo e Ribatejo e da Agência Regional de Promoção Turística do Alentejo (ARPTA). Que mudanças práticas resultam desta acumulação de funções? Significa uma maior articulação/proximidade entre as duas entidades?

Penso que não há ninguém que não ache que devia haver apenas uma instituição regional que tivesse, no seu quadro de bordo, toda a linha de desenvolvimento do destino, que começa na estruturação do produto e vai até à promoção interna e promoção internacional. Existe esta divisão, que é desejável que acabe, mas que do ponto de vista instrumental é difícil, porque imaginemos que as verbas da promoção [externa] estão cativas pelo Orçamento de Estado. Já basta as verbas da promoção nacional, quanto mais as da promoção internacional. 

De facto, haver uma visão integrada sobre toda esta cadeia de valor é bastante útil e torna o processo de gestão do destino muito mais eficiente. Dou-lhe um exemplo prático: estivemos agora a montar o primeiro evento de enoturismo subaquático que se realizou em Portugal, em Sines, nos dias 20 e 21 de junho. Ao mesmo tempo que estávamos a montar o evento, já estávamos a fazer a ligação com as equipas do Turismo de Portugal no exterior, nomeadamente do Brasil, para procurar atrair jornalistas para esse evento.

Só podemos promover externamente aquilo que conseguimos desenvolver e construir em termos de produto. Portanto, esta integração de funções e de variáveis torna a missão de gestão do destino mais eficiente, e eu espero que mais eficaz. Ainda é difícil avaliar a eficácia, porque essa visão integrada só existe há três meses, mas já temos bons exemplos. Também nos permite trazer alguma economia. E há uma ligação até entre as próprias equipas — entre a equipa de produtos, a equipa de exploração da oferta, a equipa de prospeção do mercado e a equipa que vende nos mercados internacionais.

Ao fim ao cabo, aquilo que os meus colegas das outras regiões me diziam posso, com esta experiência de três meses, constatar que, de facto, é verdade.

“Só podemos promover externamente aquilo que conseguimos desenvolver em termos de produto. Esta integração de funções [na ERT e na ARPTA] torna a missão de gestão do destino mais eficiente”

De que forma é feito o equilíbrio entre a promoção nacional e a aposta em mercados internacionais?

Temos 10% da quota do mercado nacional, ou seja, o Alentejo ainda pode crescer muito no mercado nacional, mas os mercados internacionais são aqueles que neste momento mais podem crescer. O mercado inglês cresce cerca de 12%, por exemplo, enquanto o mercado nacional cresce 3-4%. Não tenho dúvidas que estes investimentos que estão a ser feitos em projetos muito exclusivos na região serão fundamentalmente remunerados pelo crescimento do mercado externo. Portanto, temos que apostar numa estratégia de ganhar mais notoriedade e projeção do Alentejo nos mercados internacionais. Continuamos a afetar grande parte do orçamento da Entidade Regional de Turismo à promoção do mercado nacional, como é óbvio. É o nosso principal mercado, é o mercado que não falta, mas precisamos de crescer mais nos mercados internacionais.

Estamos a procurar intensificar a nossa promoção e eleger claramente Espanha como a nossa grande prioridade. Promovemos recentemente uma excelente sessão em junho, em que trouxemos a equipa do Turismo de Portugal em Madrid para reunir com os nossos associados. Foi uma reunião muito importante que nunca tinha sido feita em que Maria de Lurdes Vale, a diretora do Turismo de Portugal em Madrid, fez uma apresentação muito técnica e fundamentada caracterizando o mercado espanhol, ajudando os empresários e ajudando-nos a perceber como é que a nossa promoção pode ser mais rentável e mais eficiente. Já estamos a redirecionar a promoção em Espanha segundo essas variáveis. Por exemplo, o Alentejo não investia em marketing digital em Espanha e vai passar a investir. 

A Andaluzia é a região de Espanha com maior população e é a terceira região de Espanha que emite mais turistas para o Alentejo. Portanto, temos de ter uma estratégia de promoção diferenciadora e específica para a Andaluzia e para a Extremadura. Estamos a planeá-la, vamos executá-la já a partir deste ano e, em outubro, vamos fazer um evento de promoção da nossa gastronomia e dos nossos chefs na Andaluzia. Existe também muita apetência em Sevilha, na área metropolitana, para virem conhecer o roteiro dos restaurantes, mas não estamos a fazer essa promoção lá — e vamos fazê-la.

Em que outros mercados internacionais estão a concentrar os esforços de promoção?

O mercado norte-americano está a crescer e é preciso fazer mais promoção. Tivemos este ano um roadshow nos Estados Unidos. Passa também muito por promover junto do mercado norte-americano e do mercado canadiano alguns fatores de diversificação de oferta que creio que não estão a ser exibidos. No Alentejo, temos cada vez mais de pôr na equação aquilo que é o lifestyle alentejano. Temos que oferecer ao mercado uma proposta de valor integrada, onde temos os vinhos, mas temos também a cultura, as herdades do Alentejo, o pôr-do-sol junto às vinhas, o cycling, a riqueza e a diversidade da gastronomia, onde já temos também alguma alta restauração. Este ano, no roadshow dos Estados Unidos, já fizemos uma proposta de comunicação muito centrada nesta ideia do lifestyle do Alentejo.

O mercado inglês tem uma grande apetência pela cultura, e não nos podemos esquecer que, em 2027, o acontecimento cultural mais importante da Europa vai ser no Alentejo. Portanto, tenho procurado, junto do Turismo de Portugal, salientar que Évora como Capital Europeia da Cultura em 2027 tem de estar no topo da comunicação turística do país a partir do próximo ano, porque é um evento de referência. Sabemos que a cultura é cada vez mais uma dimensão relevante da promoção turística dos territórios.

Também o mercado brasileiro, muito pela afinidade cultural que o Brasil tem com Portugal e com o Alentejo, mas temos ainda muito trabalho. É verdade que o mercado brasileiro está a crescer. Não conseguimos ainda recuperar como país, pois os brasileiros estão agora muito focados em Itália, estão a preferir destinos exóticos como o Japão, por isso é que também estamos a tentar apostar na adaptação da oferta. Temos que introduzir fatores de sofisticação, nomeadamente com o Dark Sky [em Alqueva], que é um produto que pode ser mais escalado e mais promovido.

Claro que há mercados de aposta que estão a crescer muito residualmente, e aí estamos sempre muito articulados com o turismo em Portugal, como o mercado argentino, o mercado australiano e alguns mercados na Europa que começam a mostrar interesse pelo Alentejo, como o mercado irlandês. Também o alemão é muito aliado ao Alentejo.

“A nível de ENTIDADE REGIONAL DE TURISMO, elegemos o enoturismo como o produto-aposta. No caso da promoção internacional, elegemos claramente Espanha como um mercado prioritário”

Quais são as grandes prioridades traçadas para este ciclo de liderança da ARPTA?

Reforçar claramente a marca Alentejo. Sentimos que em alguns mercados há um trabalho de afirmação da marca Alentejo, e isso implica termos campanhas de promoção internacionais da marca Alentejo, que é uma coisa que não temos.

A atração de mais eventos internacionais, que é um trabalho que a Entidade Regional de Turismo começou. Tentámos trazer este ano para o Alentejo o Campeonato do Mundo de Gravel e não foi possível, mas vamos ter a Taça do Mundo de Gravel em Ourique este ano, que é uma prova de classificação. Trouxemos para o Alentejo a Cimeira Mundial de Enoturismo Responsável, da Global Wine Tourism Organization. O Alentejo competiu com cinco destinos, entre os quais Mendonza, na Argentina, que é um destino de referência, e ganhou. Vai realizar-se no próximo ano em Beja, no Baixo Alentejo. Estamos também a negociar importantes convenções de algumas associações de operadores de mercados, como o mercado brasileiro e o mercado inglês. Portanto, reforçar a vinda de grupos de operadores e representantes do trade dos nossos principais mercados para o Alentejo, e reforçar a atração de grandes eventos ligados ao desporto para a região. Isto são medidas que contribuem para a representatividade dos 40% de dormidas internacionais que gostaríamos de alcançar em 2030.

Desenvolvemos um conjunto de materiais e de conteúdos direcionados a motivações para os quais há muita afinidade nos mercados, mas que não estamos a comunicar: os casamentos, a atração de grandes produções cinematográficas, um roteiro de restaurantes, a nossa cultura. Há aqui um trabalho de entrega aos mercados internacionais de informação que não foi feito nestes últimos anos. É um trabalho muito em articulação com Entidade Regional de Turismo, portanto diria que a tal integração que falávamos pode ajudar muito.

Também a digitalização. Não temos um assistente virtual no Visit Alentejo para os mercados internacionais, alimentado a inteligência artificial, que possa devolver a quem está no site informação sobre, por exemplo, roteiros personalizados. Não diria que estamos no grau zero da digitalização, mas não andamos muito longe dele. São investimentos pesados que têm de ser graduados, faseados no tempo. Para já, aquilo que identificámos e que vai começar a ser executado este ano são melhorias no atual site. Penso que temos de partir para uma nova infraestrutura. Temos financiamento e ainda este ano vamos colocar uma assistente virtual no Visit Alentejo para os mercados internacionais.

Ainda que seja no contexto de ERT, temos também financiamento contratado para desenvolver uma plataforma específica para o enoturismo, em que a ideia é que funcione um bocadinho como um concierge virtual. Tudo aquilo que precisamos de saber sobre o enoturismo vai estar nessa plataforma. É um projeto interessante para o qual dispomos de alguma capacidade financeira e creio que pode ser um portal muito importante na digitalização.

Sabemos, por exemplo, que em muitas das pesquisas que são feitas nos principais motores de busca os destinos do Alentejo não aparecem muito bem posicionados. Estamos a falar de procura internacional e, em concreto, procura advinda do mercado espanhol. Quando vi esses dados, não fiquei muito surpreendido. Isto reforça a necessidade de termos também uma estratégia de promoção digital. Provavelmente só conseguimos fazê-lo com alguma capacidade em Espanha, porque não temos recursos e meios para fazer noutros mercados, mas por isso é que elegemos Espanha. 

Por vezes, eleger prioridades ajuda. A nível de Entidade Regional de Turismo, elegemos o enoturismo como o produto-aposta, porque é um produto de aba larga, que abrange cultura, gastronomia, etc. No caso da promoção internacional, elegemos claramente Espanha como um mercado prioritário. Nas duas organizações, facilita muito a tomada de decisões em cascata.

Muito recentemente, foi anunciado que a ARPTA passou a ser membro da Confederação do Turismo de Portugal (CTP). O que significa este passo?

Por um lado, é não ficarmos isolados. Éramos o único destino turístico do país que não integrava a CTP. A CTP é uma organização importante que, na minha opinião, tem feito um trabalho importante de afirmação e de alguma pressão, que é boa para a democracia, junto dos vários Governos. A CTP negociou com o Governo em Concertação Social um aumento das verbas para a promoção externa, da qual estamos agora a beneficiar — nós e as outras Agências Regionais de Promoção Turística. 

O facto de estarmos na CTP abre também portas a financiamentos. A CTP desenvolveu no passado recente, no anterior Portugal 2020, um trabalho muito importante ao nível da formação, da qual estávamos afastados por não sermos associados. Para mim é uma normalização porque não fazia sentido estarmos fora. Já não somos a região do “orgulhosamente sós”, mas somos uma região que está na CTP por mérito e por vontade própria.

“Não diria que estamos no grau zero da digitalização, mas não andamos muito longe dele”

O Turismo do Alentejo e Ribatejo e a ARPTA têm vindo a apostar numa oferta diversificada, com produtos ligados ao turismo literário, ao turismo industrial, aos Caminhos de Santiago, entre outros. Qual é a importância desta diversificação na atração de visitantes?

Essa diversificação é uma orientação do Turismo de Portugal, que estava na anterior Estratégia Turismo 2027. Este ano editámos o Roteiro do Turismo Industrial, que não tínhamos. Há orientações e iniciativas nacionais, mas cada destino tem que trabalhar a sua oferta e incluí-la no roteiro. Lançámos o nosso guia de turismo industrial e teve até uma boa divulgação mediática, mas já temos uma série de entidades e de promotores que querem integrar esse roteiro. 

Sentimos muito interesse por parte da operação turística, porque os operadores olham para o turismo industrial, para o turismo literário, para os Caminhos de Santiago, como formas de diversificar os seus produtos. Por exemplo, os operadores olham muito para os Caminhos de Santiago porque é um produto turístico que possibilita desenvolver o cycling na região, porque foram estruturados para possibilitarem uma utilização de bicicleta e não apenas a pé.  São produtos que não conseguimos medir exatamente o impacto que têm, mas conseguimos perceber de alguma forma o impacto em algumas comunidades rurais e em algumas zonas mais periféricas da região. Isso é sempre muito notório com os Caminhos de Santiago e com o turismo literário. 

Somaria também as estações náuticas, que são importantes no esforço que estamos a fazer de adaptação da oferta e de comunicar um Alentejo mais fresco e com mais água. Isto é muito importante, especialmente nesta altura do ano que estamos a atravessar, em que há comunicação social que, na sua preocupação correta de informar os cidadãos sobre o calor excessivo, acaba por vezes por transmitir uma espécie de um país a arder e acaba quase por dizer “Não vão para ali”. É sabido que o Alentejo e Ribatejo é uma região com temperaturas altas, mas temos que desconstruir essa imagem. As estações náuticas são uma espécie de refúgio climático em que os turistas podem passar umas excelentes férias em julho e agosto. Há muita água, há muitas atividades aquáticas, há serviços turísticos de muita qualidade, há excelente restauração, há turismo rural e hotéis com piscinas, há praias incríveis. As estações náuticas também têm um papel de atenuação da sazonalidade porque muito facilmente temos temperaturas muito amenas em abril, maio e outubro.

Estamos a criar no Alentejo a primeira Rede de Hotéis Literários de Portugal. Fizemos o lançamento desse projeto com o Turismo de Portugal em Évora. Já temos uma equipa no terreno, que está a trabalhar com os hotéis na criação dessa rede regional, porque sentimos que para o mercado espanhol e o mercado brasileiro — lá está a ponte que rapidamente fazemos com a procura internacional — é um produto muito interessante. Temos quase uma vintena de alojamentos locais e hotéis muito interessados em integrarem a nossa rede regional de turismo literário.

O Alentejo e Ribatejo foi o Destino Nacional Convidado da BTL – Better Tourism Lisbon Travel Market em 2025. Já começam a sentir efeitos deste investimento? Que retorno esperam obter até ao final do ano?

Não sei se o crescimento de 5% no mercado nacional até maio, que é mais do que o crescimento no mercado nacional em 2024, é ou não fruto disso. Não é fácil percebermos a relação entre o investimento e o impacto. De facto, investimos muito no Destino Nacional Convidado. Foi um esforço muito grande e do qual beneficiámos também muito pelo enfoque que a própria BTL deu à edição deste ano. Diria que tivemos três feiras: a nossa presença no stand; uma campanha de outdoors digitais em Lisboa, uma parceria muito interessante com a Rádio Observador; e a possibilidade de ter um contacto e uma articulação muito mais direta com os canais de distribuição. Investimos muito, trabalhámos muito, e espero que, ao longo do ano, esse reflexo especialmente no mercado nacional se possa traduzir em dormidas, hóspedes e proveitos.

“Já não somos a região do «orgulhosamente sós», mas somos uma região que está na CTP por mérito e por vontade própria”

Cativações de verbas e Lei n.º 33

O Orçamento de Estado vai começar a ser discutido nos próximos meses. Tem expectativas que as verbas para as Entidades Regionais de Turismo sejam maiores no próximo OE?

Já estamos a preparar a nossa proposta. A circular do Ministério das Finanças saiu no dia 23 de junho e temos que submeter o projeto de orçamento até dia 1 de agosto. Ontem [17 de julho] a nossa comissão executiva da ERT reuniu para aprovar as grandes linhas e os grandes eixos que presidirão a esse plano. Temos sempre uma expectativa que as verbas possam aumentar, e muito provavelmente irão aumentar. Quer o secretário de Turismo, Comércio e Serviços, quer o ministro da Economia e Coesão Territorial, penso que estão muito empenhados nisso.

A minha principal preocupação, confesso, é termos na execução dessas verbas previsibilidade e estabilidade. Posso ter um aumento significativo das verbas e entrar no início do ano com um excelente orçamento, mas depois as dotações orçamentais podem ser congeladas parcialmente. Isso, por vezes, retira a capacidade de execução. É verdade que os serviços do Ministério da Economia e, particularmente, o secretário de Estado têm sido rapidíssimos nesse processo, mas há sempre um tempo que tem de ser dedicado a isso: em alguns contratos temos de pedir autorização à tutela e, depois, para a maioria das despesas, temos de fazer concurso. Entre o momento em que suscitamos a questão da autorização prévia de despesa e o momento em que temos uma campanha adjudicada e um consultor contratado, se houver concurso, estamos a falar de três a quatro meses.

É verdade que, mais à frente, as dotações são descongeladas e posso fazer uso delas, mas às vezes já não conseguimos executá-las porque as verbas têm de ser executadas no mesmo ano. O processo orçamental das ERTs tem as suas condicionantes porque tem de haver um acompanhamento e uma fiscalização, e isso é perfeitamente normal. Diria que, se se pudesse aligeirar, como recentemente o próprio Tribunal de Contas veio dizer, podemos ter uma fiscalização mais a jusante, mas de início ter uma maior autonomia e maior liberdade, nem que depois haja um controlo do Estado.

Preocupo-me mais com isso do que propriamente com as verbas, devo confessar. Tenho a expectativa de que este ano as verbas possam aumentar, mas se depois não as consigo gastar, de que me serve ter um aumento? Não serve de muito.

Na prática, estas cativações impossibilitam a execução da totalidade das verbas orçamentadas?

Posso ter um acréscimo de receita, mas depois não consigo executar. Muitas vezes, essas verbas até acabam por ser devolvidas na totalidade ou parcialmente; não são as verbas, são as dotações orçamentais das várias rubricas de investimento. Mas, às vezes, sendo devolvidas, já não tenho tempo para as executar. Executo, mas não consigo executar tudo, porque não podemos ultrapassar etapas do processo. Se conseguíssemos simplificar o processo, não perdendo o controlo das verbas e do Estado, que é perfeitamente fundamental, era melhor.

Todos os serviços do Estado neste momento têm cativações, e a ERT do Alentejo e do Ribatejo não é exceção. Tenho expectativa que essa situação possa ser resolvida no curtíssimo prazo. Já não vamos conseguir executar este ano tudo aquilo que tínhamos previsto, porque é uma questão de tempo, é a questão da previsibilidade e da estabilidade. A ver se muitos dos nossos objetivos e ações que tínhamos previsto para fazer este ano ainda conseguimos executar.

Cativações de verbas: “Já não vamos conseguir executar este ano tudo aquilo que tínhamos previsto”

Que expectativas tem relativamente à revisão da Lei n.º 33 com o novo Governo?

O Governo anterior e o secretário de Estado, que tem tido um papel de muita proximidade com as ERTs e tem-nos posto a par de todas as evoluções que o processo tem registado, têm feito um esforço enorme para procurar melhorar a lei. O Governo anterior praticamente chegou a uma solução quase final de alteração, mas a queda do Governo não possibilitou que o processo fosse concluído.

Tenho expectativa que o papel das Entidades Regionais de Turismo e dos territórios possa ser reforçado e que possa ser introduzida alguma disciplina acrescida, no sentido de que fique claro que quem tem a missão de promoção do turismo interno são as ERTs; ou seja, não termos múltiplos atores a fazer promoção, pois penso que isso não é bom e cria ineficiências. Eventualmente também algum alargamento daquilo que será o escopo e a missão das ERTs. 

Não é fácil a revisão da lei poder resolver ou acudir alguma destas questões que referi do processo orçamental, porque estas questões são das leis do Orçamento. É mais difícil uma lei sectorial procurar melhorar ou resolver algumas questões que têm a ver com as Finanças, mas temos sempre a expectativa que possa melhorar um pouco. 

Digamos que a minha expectativa é que possa ser uma lei que melhore alguns aspectos. A lei já está desatualizada, é de 2013, e tenho a expectativa de ter uma lei que possa também introduzir alguma racionalidade nas questões dos recursos humanos e do pessoal, porque a lei atual é muito dúbia e muito castradora. Um exemplo é que nas ERTs não podemos ter trabalhadores em mobilidade, mas qualquer serviço do Estado pode. Não podemos abrir um concurso para que pessoas da própria administração pública porque o regime jurídico das Entidades Regionais de Turismo, em termos laborais, é um contrato individual de trabalho. Portanto, as minhas expectativas são pequenas coisas, são melhorias gradativas.

Em rigor, as Entidades Regionais de Turismo têm o seu edifício legal definido. Não é por acaso que têm feito, na minha opinião, um trabalho muito importante na valorização da oferta e na promoção dos seus destinos. O turismo é um setor fundamental para a economia do país e, felizmente, os vários Governos, em termos das políticas públicas, têm priorizado isso. 

Há outras coisas que me preocupam mais, como os fundos europeus. Com todas estas medidas de adaptação da oferta, no Programa Regional até 2030, temos conseguido, fruto de uma excelente cooperação com a Autoridade de Gestão do Programa Operacional Regional, encontrar janelas para financiar muitos projetos nossos. Neste momento, estamos a discutir já a Política de Coesão para o próximo quadro comunitário e há muitos riscos associados: principalmente a questão do aumento de investimento na defesa, que vai tirar dinheiro a muitas áreas, mas é necessário começar-se a discutir como é que os Programas Operacionais Regionais, admitindo que continuam a existir, podem financiar a adaptação da oferta dos destinos. Essa é uma discussão muito importante e também penso que deverá estar na ordem no dia. O próprio Governo tem também que discutir como é que, no novo quadro comunitário, o turismo de cada uma das regiões pode continuar a ser apoiado pela Política de Coesão. 

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