O TNews acompanhou a fam trip promovida pela Travelplan a Cayo Santa María e Trinidad, em Cuba, entre 16 e 24 de setembro. À margem desta iniciativa, quatro agências de viagens portuguesas avaliaram o potencial do destino no mercado nacional, salientando como principais atrativos as praias paradísiacas e a relação qualidade-preço, mas também reconhecendo desafios relacionados com a oferta alimentar e o serviço hoteleiro.
Em setembro, mais de 400 agentes de viagens de Portugal e Espanha viajaram até Cuba, no âmbito da VII Bolsa de Turismo Destinos Gaviota. A fam trip, promovida pela Travelplan, operador turístico da Ávoris, incluiu estadia nos resorts Paradisus Los Cayos e Meliá Trinidad Península, excursões ao Parque Natural Topes de Collantes e à cidade de Trinidad, Património da Humanidade pela UNESCO, além de visitas institucionais a hotéis no destino.
O TNews falou com a Btravel Baixa da Banheira, a Clickviaja Santa Maria da Feira, a Destino X e a Sem Raízes Viagens, que partilharam a sua visão sobre o interesse do cliente português pelo Cayo Santa María. Em comum, destacaram as praias paradisíacas, a hospitalidade cubana e o preço competitivo, ao mesmo tempo que apontaram fragilidades na variedade e qualidade da alimentação e nos serviços hoteleiros, associando estas limitações às consequências do embargo norte-americano vivido no país há mais de seis décadas.


Potencial do destino no mercado português
A perceção geral é de que o Cayo Santa María tem margem para crescer como destino de férias para o mercado português, sobretudo pela combinação entre praias e experiências culturais.
Para Soraia Fernandes, da Sem Raízes Viagens, “o destino em si tem bastante potencial”, sobretudo porque, “comparado com outros destinos das Caraíbas, é um país que tem muito para dar a nível de história e de cultura e, por outro lado, tem praias maravilhosas”. “Duas vertentes” que, defende, tornam o destino “muito completo”.
Também Zita Silva, da Clickviaja Santa Maria da Feira, admite ter ficado surpreendida com o Cayo Santa María. “Tem praias fantásticas. A oportunidade de fazer só praia ou de fazer os combinados com Trinidad pode ser uma alternativa muito interessante para quem já fez outras zonas de Cuba, nomeadamente o clássico Havana-Varadero”.
Já Júlia Pereira, da Destino X, considera que o Cayo Santa María é ainda “um destino relativamente jovem em termos de charter e, portanto, a nível de divulgação junto ao mercado português”, mas sublinha que, no país, sente-se “alguma dificuldade nos serviços hoteleiros e o português dá muito apreço ao serviço”.
“O mercado português gosta das Caraíbas e quer vir a Cuba, mas as redes sociais e o passa-a-palavra dão um feedback de um déficit de serviço, e depois há um recuo” na procura, frisa Júlia Pereira.


“Mesmo nos hotéis mais caros, que são os que mais recomendamos, consegue-se ter um hotel de cinco estrelas de luxo em Cuba com preços mais acessíveis do que noutros destinos no Caribe”
Zita Silva, Clickviaja Santa Maria da Feira
Praias paradisíacas são principal atrativo
As praias surgem, de forma geral, como o principal argumento de venda para o destino. Segundo Soraia Fernandes, “talvez cerca de 90% das pessoas que procuram o destino Cuba é pela praia, porque não é afetada pelo sargaço, como outros destinos nas Caraíbas”. A agente de viagens garante ainda que “é um país muito seguro, onde as pessoas podem vir à vontade”.
“Conheço alguns destinos e são poucos aqueles que têm praias como Cuba, com beleza natural, águas transparentes, cristalinas e quentes, e areias branquinhas. Temos outros destinos do Caribe que até têm melhor serviço, mas não têm estas praias”, sublinha, por sua vez, Zita Silva.
Outro fator relevante é a “excelente relação qualidade-preço” de Cuba “em relação aos destinos vizinhos”, nomeadamente Jamaica, México e República Dominicana, que têm “preços superiores”.
“Mesmo nos hotéis mais caros, que são os que mais recomendamos, consegue-se ter um hotel de cinco estrelas de luxo em Cuba com preços mais acessíveis do que noutros destinos no Caribe”, refere.
Júlia Pereira destaca também a mais-valia dos combinados com a cidade de Trinidad. “O cliente, se vier para o Cayo Santa María, consegue também conhecer o património cultural, em Trinidad. Nos outros destinos de charters que habitualmente se vende não há esta riqueza”, defende.
“Talvez cerca de 90% das pessoas que procuram o destino Cuba é pela praia, porque não é afetada pelo sargaço, como outros destinos nas Caraíbas”
Soraia Fernandes, Sem Raízes Viagens
Desafios: alimentação e serviço hoteleiro num país sob embargo e às escuras
Apesar do potencial do destino, os agentes de viagens são unânimes em identificar a alimentação e a qualidade do serviço como os principais entraves à afirmação de Cuba no mercado português. Mais do que uma questão de gestão hoteleira, sublinham, trata-se de um reflexo do contexto particular do país, condicionado há mais de 60 anos pelo embargo dos Estados Unidos e agravado pelos frequentes cortes de energia.
Por esta razão, os profissionais reconhecem a necessidade de “baixar sempre um pouco as expectativas” antes da viagem e de contextualizar os clientes sobre a realidade cubana, de acordo com Soraia Fernandes, uma vez que, “muitas vezes, as pessoas procuram Cuba só pela praia incrível, mas, na verdade, não sabem a forma como se vive e aquilo que se passa no país”.
“É indiscutível que não tem nada a ver com ir para o México ou ir para a República Dominicana a nível da qualidade e da variedade de comida; não é que as pessoas passem fome, mas estão muito desabituadas noutros destinos e acabam sempre, inevitavelmente, por fazer uma comparação”, refere Soraia Fernandes.
Na mesma linha, Florbela Parreira, da Btravel Baixa da Banheira, afirma que “já sabemos as limitações que Cuba tem por causa do embargo e tentamos sempre avisar em relação à alimentação”, considerando que a oferta gastronómica limitada é o “grande handicap” do destino.
Na prática, o embargo norte-americano afeta desde o fornecimento de bens nas unidades hoteleiras até à disponibilidade de alguns serviços essenciais. Se, por um lado, os grandes hotéis e resorts conseguem colmatar estas falhas através de cadeias de abastecimento próprias e do recurso a geradores, por outro, fora dos complexos turísticos a realidade é bem diferente, com a população a enfrentar apagões diários.
Júlia Pereira salienta que “o embargo sempre se sentiu, mas com a pandemia e a guerra na Ucrânia agravou-se”, relembrando que “houve alturas em que os hotéis não tinham inclusive bens essenciais”. No entanto, atualmente, “nota-se que estão a dar um passo muito grande para melhorar o problema-base, que é o serviço em si”.
Zita Silva fala sobre a importância de “ter uma open mind” quando se viaja para o destino. “Cuba está debaixo de um embargo há tantos anos e não é fácil chegarem lá coisas, portanto as pessoas têm que viajar com a noção que Cuba funciona desta forma. Se querem um hotel com um serviço mais XPTO, não é o destino certo”, alerta.
Para contornar estas limitações, a agente de viagens explica que procura “vender hotéis que garantem a qualidade do serviço – que obviamente os mais económicos não asseguram – e tentar dar a volta aos clientes para ficarem nas cadeias hoteleiras em que a falta de certos bens é colmatada da melhor forma”.
Ainda assim, para Florbela Parreira, “a razão que mais dificulta a venda” é o facto de “os clientes mais informados saberem que, se vierem a Cuba, depois têm que tirar um visto mais complicado para os Estados Unidos”.

“Já sabemos as limitações que Cuba tem por causa do embargo e tentamos sempre avisar em relação à alimentação”
Florbela Parreira, Btravel
Preço competitivo impulsiona vendas
O destino Cayo Santa María integra a programação da Travelplan há dois anos, com um voo direto semanal à terça-feira a partir de Lisboa, operado pela Iberojet, entre abril e setembro. De acordo com as agências de viagens, o preço competitivo tem sido um fator decisivo no crescimento das vendas do destino.
Na Sem Raízes Viagens, “em relação ao ano passado, que foi o primeiro de operação, houve um grande crescimento a nível de procura”, aponta Soraia Fernandes. “Comparando dois locais de praia operados pela Travelplan, o feedback em relação aos próprios hotéis no Cayo Santa María é, atualmente, mais positivo do que em Varadero”. Se a evolução se mantiver, acredita, o destino “tem tudo para crescer ainda mais nos próximos anos”.
Para Florbela Parreira, “um dos fatores determinantes nas vendas” é o preço. “Temos vendido Cuba muito bem também porque o preço tem estado competitivo. Se formos comparar Cuba com a República Dominicana ou com o México, onde a alimentação é bem melhor e os hotéis são bons, está bastante mais barato”, afirma a agente da Baixa da Banheira.
No entanto, adverte que, “se aumentarem muito os preços, as pessoas talvez comecem a ser mais exigentes e a pensar ir antes para o México ou para a República Dominicana. Os preços não podem subir muito porque sabemos as limitações que têm em relação à alimentação”.
Na mesma ótica, Júlia Pereira, da Destino X, considera que o valor acrescentado do destino está no equilíbrio entre custo e experiência. “Consegui vender razoavelmente bem este verão, precisamente porque apostei nisso. Não menti e baixei até um pouco o patamar das expectativas relativamente aos serviços hoteleiros, mas vendi bem o destino e posso dizer que não tive reclamações”.
“Relativamente aos outros destinos, há uma certa hesitação, mas noto que cada vez mais é fácil [vender o destino]: vem um cliente, gosta e passa a palavra a outro, e é assim que se vai conquistando a confiança em Cuba”, refere a agente.
Já na Clickviaja Santa Maria da Feira, o destino Cayo Santa María é vendido “com alguma frequência”, especialmente para “um cliente que valoriza mais a praia, o povo e a cultura, e não propriamente o hotel como principal elemento das férias”, indica Zita Silva.
“Se for esse o foco, haverá outros destinos no Caribe, nomeadamente nos países vizinhos, em que o cliente consegue encontrar melhor essas opções. Quem vier com o espírito enquadra-se perfeitamente e normalmente passa um feedback muito positivo, mas não pode ser aquele cliente que faz questão que um hotel tenha isto ou aquilo, porque pontualmente as coisas vão falhando”, realça.
“Não menti e baixei até um pouco o patamar das expectativas relativamente aos serviços hoteleiros, mas vendi bem o destino e posso dizer que não tive reclamações”
Júlia Pereira, Destino X
Hotéis preferidos: Paradisus, The One Gallery e Vila Galé
Entre as unidades hoteleiras, o The One Gallery destaca-se como o resort mais vendido pelas agências de viagens, seguido pelo Paradisus Los Cayos. Contudo, o novo Vila Galé Cayo Santa María, visitado durante a fam trip da Travelplan, surge como uma alternativa promissora a incluir nas sugestões aos clientes.
“No Cayo Santa María, só vendo The One Gallery e Paradisus Los Cayos. Por serem os hotéis que achamos que estão mais bem preparados a nível de comida, até mesmo de atendimento, só tenho vendido esses dois hotéis, pelo menos por agora”, afirma Soraia Fernandes, acrescentando: “gostei bastante do Vila Galé e, a partir de agora, creio que não há grande perigo em recomendar também esse hotel”.
Também Zita Silva indica que “os hotéis que mais vendemos no Cayo de Santa María são o The One Gallery, que em termos de qualidade-preço é o mais vendido, e o Paradisus Los Cayos, que tem muito bom feedback”.
“Fiquei também muito surpreendida com a visita ao Vila Galé e, possivelmente, em 2026, vai ser uma das opções que, certamente, vamos sugerir porque pareceu-nos que estão a trabalhar para fazer um serviço para o cliente português, que valoriza muito a alimentação e o serviço”, sublinha a agente de viagens.
Florbela Parreira destaca igualmente que, “este ano, vendi sempre o The One Gallery”, uma vez que “o hotel é muito bom”. Já Júlia Pereira recomenda “os Meliá e os Iberostar”, e acredita que “o Vila Galé deverá ser uma aposta no futuro para o português”.
*Viajou para Cuba a convite da Travelplan



