“É essencial que o vinho do Porto ocupe um lugar central no turismo do Douro: presente em roteiros, visitas a caves, experiências a bordo de barcos e harmonizado com a gastronomia local”
A redução acentuada do consumo de vinho do Porto, a nível global, justifica profunda reflexão e apresentação de propostas concretas para contrariar a tendência, numa altura em que se aproxima a celebração de mais um Porto Wine Day, que assinala a data de criação da Região Demarcada do Douro, a 10 de setembro de 1756, pelo Marquês de Pombal.
O vinho do Porto é uma das maiores joias de Portugal, símbolo da nossa cultura, história e identidade, tendo conquistado o mundo pela sua singularidade, qualidade e autenticidade. Mas para que este legado continue a florescer, é fundamental que o Porto seja celebrado de forma constante, integrando-se na vida da comunidade e na oferta turística da região.
Tenho uma ligação emocional muito forte ao vinho do Porto, que me transporta para uma das memórias mais felizes da minha infância. Recordo-me dos fins de semana em família, com os meus irmãos e pais reunidos, e do meu pai a saborear sempre um cálice de vinho do Porto pela manhã, naquele momento simples e íntimo que fazia parte do nosso ritual familiar.
É essa ligação afetiva, feita de pequenos gestos e memórias, que desejo ver perpetuada — para que o Porto continue a ser não só um símbolo, mas também uma presença viva e carinhosa na vida das pessoas.
Tenho visto com bons olhos a forma como o setor tem derrubado preconceitos antigos. Durante décadas, dizia-se que o Porto não deveria ser consumido fresco. Hoje, sabemos que é exatamente o contrário: para o apreciarmos nos dias quentes, baixar-lhe a temperatura é não só permitido como recomendado. As marcas têm investido na modernização do consumo — do popular Porto Tónico, já disponível pronto e até em lata, aos cocktails criativos que revelam novas facetas desta bebida.
Mas por que não ir mais longe? Porque não ter um Porto Branco seco a abrir uma refeição, em vez de relegá-lo para o final? Ou tornar quase “obrigatório” que o corte dos bolos comemorativos seja acompanhado por um cálice de vinho do Porto — como fiz no meu próprio casamento — em vez do igualmente digno espumante, ou a par deste?
São gestos simples, mas que ajudam a manter vivo o hábito e a ligação afetiva com este património.
Curiosamente, a valorização do vinho do Porto é, por vezes, mais evidente além-fronteiras do que na própria região produtora. Na Dinamarca, por exemplo, existem eventos e feiras dedicados exclusivamente ao Porto, como a renomada “Feira do Vinho do Porto” em Roskilde, que já soma várias edições e atrai grande interesse pelo vinho português. Além disso, iniciativas criativas como a da Quinta da Boeira, que usou réplicas de naus portuguesas para promover o Porto no país nórdico, mostram uma relação forte e entusiasta entre os dinamarqueses e um produto único.
Deixo aqui publicamente um convite para que o Douro se inspire nestes exemplos e intensifique as suas próprias celebrações locais, garantindo que o vinho do Porto faça parte viva do dia a dia da comunidade, das festas, da cultura e do turismo.
O Porto não precisa ficar preso ao estereótipo de bebida formal. Ele pode estar num pôr do sol com amigos, numa festa descontraída ou num evento cultural. Provas interativas, workshops de harmonização com gastronomia contemporânea e festivais que unam vinho do Porto, música e arte são caminhos para envolver novas gerações e criar memórias.
Além disso, é essencial que o vinho do Porto ocupe um lugar central no turismo do Douro: presente em roteiros, visitas a caves, experiências a bordo de barcos e harmonizado com a gastronomia local. Só assim conseguimos oferecer ao visitante uma experiência completa e autêntica.
E afinal, não nos cabe a nós — que vivemos, trabalhamos e sentimos esta região — enaltecer, preservar e partilhar a nossa paixão pelo vinho do Porto?
Celebrá-lo é garantir que continua a atravessar fronteiras e gerações, adaptando-se ao presente sem nunca perder a alma.
Por Ana Clara Silva
Diretora de Operações da Pipadouro, empresa de turismo fluvial de luxo no Douro



