“Preservar o Douro é também cuidar daquilo que vemos quando olhamos das margens para o rio.”
Durante séculos, os rabelos transportaram vinho do Porto pelo rio. Essa função desapareceu, mas os rabelos encontraram outra forma de permanecer no Douro.
Hoje transportam visitantes, fazem passeios turísticos e continuam a ser uma das imagens mais reconhecíveis da região. Talvez seja isso que torna o património vivo tão interessante: a capacidade de encontrar uma função no presente sem apagar a história que transporta.
Tal não significa que tudo tenha de parecer antigo. O Douro de hoje não pode ser o Douro do século XIX. A modernidade também faz parte da sua história.
A questão é outra: como entra essa modernidade na paisagem? Não esperamos necessariamente uma cópia do passado. Algumas das intervenções contemporâneas mais interessantes são assumidamente modernas. Mas esperamos contexto, proporção, respeito pelo lugar.
Talvez seja interessante aplicar a mesma exigência à paisagem fluvial. Porque um barco não deixa de ter impacto na paisagem por estar em movimento.
Uma embarcação também tem escala, volume, desenho e presença. E, quanto maior for a atividade no rio, mais relevante se torna esta reflexão.
Um rio tem diferentes utilizações e nele convivem embarcações de diferentes dimensões, épocas, funções e formas de utilização. Essa diversidade também faz parte de um rio vivo e, naturalmente, quando pensamos as suas infraestruturas, precisamos de falar de segurança, capacidade, eficiência, movimentos e utilização.
São critérios necessários. Mas talvez não sejam suficientes.
Porque, se uma embarcação também é parte da paisagem, há uma dimensão que não conseguimos avaliar apenas através do número de passageiros que transporta ou do espaço que ocupa. Há uma relação com o lugar. E essa relação é muito mais difícil de medir.
Não significa que uma embarcação histórica deva ter prioridade simplesmente porque é antiga. Nem que uma embarcação contemporânea seja menos adequada simplesmente porque é nova.
Significa apenas reconhecer que, quando tomamos decisões sobre um território classificado pela sua paisagem, talvez a paisagem também deva entrar na decisão. Toda ela. Não apenas aquilo que está em terra.
Mostramos rabelos quando mostramos o Douro. Moliceiros quando mostramos Aveiro. Procuramos símbolos que transmitam identidade porque sabemos que são precisamente essas diferenças que tornam um lugar reconhecível.
Queremos autenticidade. Queremos aquilo que não poderia estar exatamente da mesma forma em qualquer outro destino.
Não podemos celebrar essa singularidade no discurso e esquecer-nos dela quando pensamos o território. Talvez seja por isso que a discussão sobre património náutico não deva ser feita entre barcos antigos e barcos novos.
A discussão mais interessante é perceber que diversidade queremos continuar a encontrar nos nossos rios e de que forma o que neles navega dialoga com os lugares que atravessa.
Porque os rios também têm uma paisagem. E, no caso do Douro, não estamos perante uma paisagem qualquer. Estamos perante uma paisagem cultural construída durante séculos pela relação entre pessoas, vinho, agricultura, arquitetura, caminhos e rio. Uma paisagem que continuou sempre a mudar.
O desafio nunca poderá ser impedir essa mudança. É garantir que sabemos mudar sem deixar de saber onde estamos. Talvez seja isso que esperamos de uma boa intervenção arquitetónica no Douro. Talvez possamos esperar o mesmo daquilo que navega diante dela.
Hoje somos capazes de construir embarcações maiores, mais confortáveis, mais eficientes e tecnologicamente incomparáveis às do passado. Isso também é evolução. Mas evolução e integração não são sinónimos. Tal como modernidade e descaracterização também não têm de ser
No fundo, talvez a pergunta seja muito mais simples.
Quando olhamos para uma encosta do Douro, somos capazes de discutir durante horas se determinado edifício respeita a paisagem. Quando olhamos para o rio, colocámos a mesma questão?
Porque uma paisagem não termina na linha de água. E talvez preservar o Douro não seja apenas cuidar daquilo que vemos quando olhamos do rio para as margens. É também cuidar daquilo que vemos quando olhamos das margens para o rio.
Por Ana Clara Silva
É Diretora-Geral da Pipadouro, empresa de turismo fluvial de luxo no Douro. Assina mensalmente a coluna de opinião Contrafluxo, um espaço para pensar o Douro, o vinho e o turismo com autenticidade, elegância e sentido crítico.




