“O meu concorrente não é a empresa ao lado. O meu concorrente é qualquer destino que consiga proporcionar uma experiência mais completa do que a minha”
Há uma frase que me incomoda cada vez mais no turismo: “O Douro precisava de…”.
Precisava de mais oferta. Precisava de mais eventos. Precisava de mais vida à noite. Precisava de aumentar a permanência média. Precisava de combater a sazonalidade.
Ao longo dos anos, ouvi estas frases vezes sem conta. E, muitas vezes, dei por mim a concordar, até perceber que concordar já não chegava. Porque há uma diferença enorme entre trabalhar num destino e sentir-se responsável por ele. Essa diferença mudou a forma como penso o turismo.
Há cerca de um ano, deixámos de querer fazer parte das conversas sobre aquilo que faltava ao Douro. Não porque esses desafios não existissem, mas porque percebemos que continuar a identificá-los não os ia resolver. Decidimos experimentar uma resposta.
Lançámos uma experiência noturna, a pensar nas pessoas que já estavam no Douro. Nas que escolheram pernoitar na região. Nas que, depois do jantar, encontravam poucas razões para prolongar a experiência.
Porque sempre acreditámos que um destino de excelência não pode viver apenas entre as dez da manhã e o pôr do sol. Se queremos aumentar a permanência média, não basta pedir que às pessoas fiquem mais uma noite. É preciso dar-lhes motivos para querer ficar.
Mas havia uma segunda convicção. Também acreditávamos que era possível apresentar o vinho de uma forma mais contemporânea, mais descontraída e mais próxima de novos públicos, sem perder identidade nem autenticidade.
Não porque queiramos transformar o vinho em entretenimento. Mas porque queremos aproximá-lo de diferentes formas de consumo, de diferentes gerações e de novos momentos de partilha.
Modernizar não é descaracterizar. É encontrar novas formas de despertar interesse por aquilo que queremos preservar.
Foi precisamente por isso que procurámos envolver hotéis, quintas e outros parceiros desde o início. Nem sempre é fácil. É natural que cada empresa olhe primeiro para o seu próprio negócio. Mas talvez seja precisamente aqui que esteja uma das maiores oportunidades do turismo português.
Continuamos, muitas vezes, a pensar como empresas, quando os turistas escolhem destinos. Antes de ser cliente de um hotel, de uma quinta ou de um operador turístico, cada visitante é cliente do Douro. E quanto melhor for a experiência global do destino, maior será o benefício para todos.
Confesso, por isso, uma coisa que poderá parecer estranha. Este ano fiquei genuinamente feliz quando vi surgir outras iniciativas fora do horário convencional na região.
Senti que o destino estava finalmente a crescer. Porque um destino não se afirma quando existe uma boa ideia, afirma-se quando essa ideia deixa de depender de uma única empresa.
É exatamente isso que espero do Douro. Que um visitante saiba que, independentemente do dia em que chega ou da empresa que escolhe, encontrará uma região viva, dinâmica e com propostas que complementam a sua estadia.
Não é isso que se espera de um destino de excelência?
Que consiga preservar a sua identidade e, ao mesmo tempo, criar novas formas de a viver. Talvez o verdadeiro luxo esteja precisamente aí. Na capacidade de um território surpreender para além da experiência que cada empresa vende individualmente.
E talvez esteja também na altura de mudarmos uma ideia que, durante demasiado tempo, condicionou o nosso setor.
O meu concorrente não é a empresa ao lado. O meu concorrente é qualquer destino que consiga proporcionar uma experiência mais completa do que a minha.
No dia em que percebermos isto, deixaremos de construir negócios isolados. E começaremos, finalmente, a construir destinos.
Por Ana Clara Silva
É diretora-geral da Pipadouro, empresa de turismo fluvial de luxo no Douro. Assina mensalmente a coluna de opinião Contrafluxo, um espaço para pensar o Douro, o vinho e o turismo com autenticidade, elegância e sentido crítico.




