DMC’s apontam “maior pressão” sobre preços e capacidade e destacam crescimento do mercado norte-americano

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As empresas de incoming mantêm uma perspetiva positiva para o mercado português, mas alertam para uma evolução marcada por “maior pressão ao nível dos preços e da disponibilidade de hotéis e transportes”, bem como por decisões de compra cada vez mais tardias. Entre as principais tendências identificadas pelas três DMC contactadas pelo TNews estão ainda o crescimento do mercado norte-americano, a procura por novos destinos e a necessidade de garantir uma relação equilibrada entre preço e qualidade.

A Bright Site DMC considera que o primeiro semestre de 2026 foi “muito positivo, especialmente no segmento MICE”, enquanto a Forum d’Ideias PCO & DMC descreve o período como positivo, com “boa atividade comercial e vários eventos de dimensão internacional”. Já a Portugal by TravelTailors registou “um contexto de procura positiva, mas também por maior volatilidade e prudência na tomada de decisão”, mantendo, ainda assim, perspetivas positivas para o resto do ano.

Entre os fatores que continuam a sustentar a procura, as empresas destacam a segurança, a oferta turística, a hospitalidade e a acessibilidade de Portugal. No entanto, a Bright Site DMC aponta uma “maior pressão ao nível dos preços e da disponibilidade de hotéis e transportes”, enquanto a Forum d’Ideias identifica clientes “mais exigentes e mais atentos ao equilíbrio entre qualidade e orçamento”.

A par da pressão sobre a oferta, as DMC’s identificam também alterações no processo de decisão dos clientes. A Bright Site DMC refere que estes “decidem cada vez mais tarde e esperam respostas rápidas e soluções flexíveis”, enquanto a Portugal by TravelTailors observa uma tendência para pedidos e confirmações de última hora. “O que sentimos agora é um mercado ainda interessado e ativo, mas com decisões tomadas muito mais em cima da hora”, explica Paula Alves, partner da empresa, acrescentando que também têm surgido pedidos de menor valor médio.

Mercado norte-americano ganha peso

Os mercados emissores continuam relativamente diversificados, embora o mercado norte-americano surja como uma das principais tendências identificadas pelas DMC’s.

Na Bright Site DMC, o Reino Unido e alguns mercados da Europa Central, como Polónia e Países Baixos, continuam a ser os principais mercados, mas a empresa regista “um crescimento do mercado norte-americano”. A Forum d’Ideias trabalha sobretudo com Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, França, Bélgica, Países Baixos, Suíça e países nórdicos e também identifica “um crescimento particularmente interessante do mercado norte-americano”.

Para a Portugal by TravelTailors, os Estados Unidos são “de forma muito clara” o principal mercado emissor, seguidos pelo Canadá. Paula Alves salienta, contudo, que mais do que o aparecimento de novos mercados, a empresa tem observado “uma alteração no comportamento do consumidor”, com maior sensibilidade ao preço e maior exigência relativamente ao valor dos serviços contratados.

Tnews
Sofia Faísca e Maria Veríssimo, fundadoras da Bright Site DMC

Apesar da concentração da procura em Lisboa, Porto e Algarve, as três empresas identificam interesse crescente por outras regiões.

A Bright Site DMC refere procura pela Comporta, Alentejo, Centro de Portugal, Açores e Madeira, considerando que o desafio passa por criar experiências que incentivem os visitantes a explorar estes territórios e a prolongar a estadia.

No segmento MICE, a Forum d’Ideias considera que Lisboa e Porto continuam a ter “claramente” a maior procura, devido à combinação entre capacidade hoteleira, espaços, acessibilidade aérea e serviços especializados. A empresa reconhece, contudo, interesse crescente por outras regiões, embora sublinhe que, nos eventos internacionais, “a logística é um fator decisivo”. Os tempos de transferência a partir dos principais aeroportos podem, segundo a DMC, limitar a competitividade dos destinos do interior.

O Algarve continua igualmente a ser valorizado pela oferta hoteleira e pelas condições para acolher eventos, mas a Forum d’Ideias considera que “a limitada disponibilidade de ligações aéreas diretas a partir de muitos mercados internacionais continua a condicionar a sua competitividade face a Lisboa”.

A acessibilidade aérea surge, assim, não apenas como uma questão de chegada ao destino, mas como um dos fatores que condicionam a capacidade de regiões fora dos principais centros para captar determinados segmentos, sobretudo o MICE. A Forum d’Ideias considera que a dispersão territorial terá de ser acompanhada por investimento na conectividade e na capacidade das diferentes regiões.

Na operação da Portugal by TravelTailors, o Douro assume um papel relevante, sobretudo junto do mercado norte-americano, enquanto o Alentejo interior e litoral, incluindo Comporta e Melides, também registam procura crescente. A empresa identifica ainda novos polos fora dos circuitos tradicionais, como Vila do Conde, Amarante e Santar, que começam a reunir condições para integrar determinados itinerários internacionais.

Para Paula Alves, esta diversificação “permite diversificar a oferta turística, criar itinerários mais ricos e autênticos e distribuir melhor os fluxos turísticos pelo território”.

Capacidade e preços pressionam operação

A disponibilidade de alojamento, transportes e espaços para eventos surge como um dos principais constrangimentos apontados pelas DMC.

“O principal desafio continua a ser a disponibilidade de hotéis, transportes e espaços para eventos durante a época alta, aliada ao aumento dos custos”, afirma a Bright Site DMC. A Forum d’Ideias identifica igualmente “a capacidade instalada durante os períodos de maior procura”, sobretudo em hotelaria e espaços para grandes eventos, além da pressão sobre os custos e da necessidade de manter Portugal competitivo face a outros destinos europeus.

A Portugal by TravelTailors coloca a questão também ao nível do posicionamento do destino. Segundo Paula Alves, Portugal foi durante anos associado a um conceito de “affordable luxury”, mas o aumento dos preços na hotelaria, transportes, restauração e serviços turísticos está a alterar essa perceção.

“Não basta ser mais caro; é necessário justificar esse valor através da qualidade da experiência, do serviço, da autenticidade e da atenção ao detalhe”, afirma a responsável, acrescentando que existe margem para Portugal crescer em preço, mas também a necessidade de garantir que a experiência acompanha essa evolução.

Paula Alves e Lisete Cardoso, fundadoras da Portugal by TravelTailors

A empresa identifica ainda a escassez de recursos humanos qualificados como uma preocupação, considerando que “o turismo de qualidade depende muito das pessoas” e da capacidade das equipas para aconselhar, desenhar, operar e resolver problemas.

Outro dos temas abordados pelas DMC’s foi o impacto da implementação do novo Sistema de Entrada/Saída (EES) nos aeroportos europeus. O sistema não está a provocar impactos significativos na operação da Bright Site DMC e da Forum d’Ideias, que dizem estar a acompanhar a implementação e a preparar os clientes para eventuais alterações nos procedimentos de entrada no espaço europeu.

A experiência da Portugal by TravelTailors é diferente, sobretudo devido ao perfil dos seus clientes. A empresa, que trabalha maioritariamente com viajantes dos Estados Unidos e Canadá, diz ter sentido impacto do novo sistema, particularmente no aeroporto de Lisboa.

“Temos sentido necessidade de reforçar a preparação da chegada dos clientes, em particular no aeroporto de Lisboa, onde os processos nem sempre têm decorrido com a fluidez desejável”, explica Paula Alves. A empresa diz recorrer com maior frequência a parceiros especializados em handling VIP para agilizar os processos de entrada.

Em sentido contrário, a DMC considera que o aeroporto do Porto tem proporcionado uma experiência de chegada “geralmente mais fluida”. Para a responsável, “a qualidade da experiência começa no aeroporto”, defendendo maior coordenação e eficiência na aplicação dos novos procedimentos.

As três empresas identificam alterações nas motivações dos viajantes internacionais, com maior procura por experiências personalizadas, contacto com a cultura local e programas que ultrapassem a visita convencional aos principais pontos turísticos.

A Bright Site DMC observa uma procura crescente por “experiências autênticas, contacto com a cultura local, gastronomia, bem-estar e programas personalizados”, enquanto a Forum d’Ideias destaca a experiência global do evento, a gastronomia, a cultura local e atividades que permitam conhecer melhor o destino.

Na Portugal by TravelTailors, a tendência é particularmente evidente entre os clientes norte-americanos e canadianos. “Os viajantes americanos e canadianos procuram hoje menos turismo de checklist e mais viagens com significado”, afirma Paula Alves, que identifica procura por experiências privadas, gastronomia, património, natureza e contacto com comunidades locais.

A empresa identifica ainda uma tendência para o slow travel, com clientes a preferirem “passar mais tempo em menos locais”, bem como o crescimento das viagens relacionadas com ancestralidade, viagens multigeracionais e deslocações associadas a celebrações familiares.

Equipa da Forum d’Ideias DMC

DMCs querem maior dispersão da procura

As três empresas atribuem às DMC um papel na diversificação territorial, embora a Forum d’Ideias sublinhe que esta não depende apenas da ação das empresas. A acessibilidade aérea, a oferta hoteleira e as infraestruturas são, segundo a DMC, fatores estruturais para que regiões fora dos principais centros possam receber mais eventos internacionais.

A Bright Site DMC considera que as empresas podem contribuir para uma distribuição mais equilibrada através da promoção de destinos menos conhecidos, do trabalho com fornecedores locais e da integração de projetos das comunidades.

Para a Portugal by TravelTailors, a sustentabilidade passa também por “distribuir melhor os fluxos turísticos, valorizar parceiros locais, respeitar os ritmos dos destinos e criar programas que deixem valor nas comunidades visitadas”. A empresa defende que os destinos mais conhecidos continuarão a ser importantes, mas podem ser apresentados com outros ritmos e experiências menos convencionais.

A diversificação territorial surge, assim, associada não apenas à criação de novos produtos turísticos, mas também à existência de condições para os comercializar. No segmento MICE, a Forum d’Ideias considera que a dispersão da procura exige “melhorar a conectividade aérea, reforçar a capacidade hoteleira e desenvolver infraestruturas adequadas para eventos”, além de uma promoção coordenada dos territórios.

Crescimento deverá ser mais “qualitativo”

Para os próximos três a cinco anos, as perspetivas mantêm-se positivas, mas as empresas apontam diferentes condições para a manutenção da competitividade de Portugal.

A Bright Site DMC antecipa crescimento sobretudo nos segmentos premium e MICE, com oportunidades na diversificação da oferta e promoção de novas regiões, mas considera que o desafio será “crescer de forma sustentável, mantendo a qualidade do serviço, a autenticidade e a hospitalidade”.

A Forum d’Ideias espera que Portugal continue a consolidar a posição entre os principais destinos europeus para congressos e eventos internacionais, identificando como principais desafios a “competitividade internacional, a gestão da capacidade nos principais destinos e a inovação na forma de receber participantes”.

Já a Portugal by TravelTailors considera que “a principal oportunidade estará no crescimento qualitativo, mais do que no crescimento em volume”. A empresa aponta o segmento premium, a preservação da autenticidade e o desenvolvimento de produtos fora dos circuitos tradicionais como áreas de oportunidade, ao mesmo tempo que identifica a pressão sobre os destinos mais procurados, a relação qualidade-preço e os recursos humanos como desafios.

A tecnologia e a inteligência artificial também deverão ganhar espaço na atividade das DMC, sobretudo para melhorar a eficiência, organizar informação e acelerar a elaboração de propostas. No entanto, Paula Alves considera que, no segmento tailor-made, “o conhecimento local, a sensibilidade humana e a capacidade de interpretar o perfil de cada cliente continuarão a ser determinantes”.

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