O crescimento da atividade turística no Douro tem vindo a aumentar a pressão sobre as eclusas, os cais e as restantes infraestruturas de apoio à navegação, levantando dúvidas sobre a capacidade da via para acomodar novas embarcações nos próximos anos. Em declarações ao TNews, a DouroAzul, a Rota do Douro e a Magnífico Douro convergem na necessidade de reforçar o investimento e melhorar a gestão operacional, embora apresentem avaliações distintas sobre os limites atuais da atividade. Enquanto a DouroAzul e a Rota do Douro defendem que existe margem para continuar a crescer, desde que sejam criadas as condições necessárias, a Magnífico Douro considera que a Via Navegável do Douro já atingiu o seu limite operacional.
A discussão ganha relevância num momento em que a Administração dos Portos do Douro, Leixões e Viana do Castelo (APDL) tem identificadas intervenções no valor de cerca de 15 milhões de euros, ainda sem financiamento assegurado, e em que o Douro se prepara para receber novos navios de cruzeiros fluviais em 2027, nomeadamente o Emerald Nova, da Emerald Cruises, e o S.S. São Rafael, da Uniworld.
Os dados mais recentes da APDL mostram que a Via Navegável do Douro recebeu 1.142.540 passageiros entre janeiro e setembro de 2026, mais 0,60% do que no período homólogo.
Para Hugo Bastos, administrador da Mystic Cruises, Mystic Ocean, DouroAzul, Douro Legend e Douro Heritage, a evolução da atividade exige uma resposta ao nível das infraestruturas. “É fundamental assegurar que a capacidade das infraestruturas e os meios humanos disponíveis acompanham a evolução da atividade, garantindo condições de operação adequadas às exigências atuais e futuras”, afirma.
A avaliação é partilhada por Alice Costa, responsável pelo Departamento de Reservas da Rota do Douro, que considera necessário “um novo ciclo de investimento”. Embora reconheça que a infraestrutura continua a responder às necessidades atuais, defende que a sua capacidade e “robustez operacional” devem ser reforçadas para acompanhar o crescimento do setor.
Mais crítica é a posição de Ricardo Costa, CEO da Magnífico Douro, operador sediado no Pinhão. “Consideramos que as condições de navegabilidade e, sobretudo, as infraestruturas de apoio da Via Navegável do Douro não evoluíram ao mesmo ritmo que o significativo crescimento do número de embarcações e das necessidades associadas à sua operação”, sustenta.
Na sua avaliação, “a Via Navegável do Douro chegou ao seu limite há muitos anos”, embora isso não signifique que esteja esgotado o potencial turístico do rio. “Não podemos continuar a aumentar a utilização da via sem adaptar as infraestruturas e o modelo de operação”, sublinha.
“É fundamental assegurar que a capacidade das infraestruturas e os meios humanos disponíveis acompanham a evolução da atividade, garantindo condições de operação adequadas às exigências atuais e futuras”
Hugo Bastos, administrador da DouroAzul

Avarias e atrasos nas eclusas condicionam operações e itinerários
Um dos principais pontos de convergência entre os três operadores é o impacto do funcionamento das eclusas, estruturas que permitem às embarcações ultrapassar os desníveis do rio, através de câmaras onde o nível da água sobe ou desce. A disponibilidade limitada de horários de passagem, bem como os atrasos e interrupções no funcionamento destas infraestruturas, podem comprometer os programas turísticos e provocar constrangimentos na operação.
Hugo Bastos confirma que estas situações obrigam a adaptar itinerários e podem representar custos operacionais de “muitas dezenas de milhares de euros”. O administrador destaca ainda a dimensão reputacional do problema, uma vez que a fiabilidade da navegação influencia diretamente a experiência dos passageiros.
Também a Rota do Douro identifica consequências imediatas quando ocorrem interrupções. Segundo Alice Costa, os operadores enfrentam alterações de itinerários, atrasos acumulados e reajustamentos de programas, com efeitos que se estendem a outras atividades turísticas. “Mesmo quando estas situações são ultrapassadas rapidamente, a imprevisibilidade gera dificuldades acrescidas de planeamento e afeta toda a cadeia de valor associada à atividade turística”, explica.
Na Magnífico Douro, os constrangimentos chegam a impedir a comercialização de determinados serviços. Ricardo Costa afirma que, em algumas situações, não é possível construir um programa turístico por falta de horários de eclusagem compatíveis e que a empresa chega a recusar pedidos pelo risco de incumprimento.
“Mesmo quando conseguimos um horário, podem ocorrer atrasos muito significativos, que em algumas situações ultrapassam as duas horas”, relata. O responsável lembra que os passeios com passagem de eclusa são frequentemente combinados com visitas a quintas, provas de vinhos, refeições ou ligações ferroviárias, pelo que um atraso pode comprometer todo o itinerário.
O operador defende, por isso, regras de utilização mais claras e transparentes, incluindo o cumprimento dos horários atribuídos. “É necessário haver e fazer cumprir regras claras, previsibilidade, e equidade na utilização de uma infraestrutura pública essencial à atividade de todos os operadores.”
Apesar destes problemas, Alice Costa distingue as limitações operacionais de um eventual esgotamento da capacidade. Para a Rota do Douro, “mais do que uma limitação absoluta da capacidade, existe atualmente um desafio crescente ao nível da gestão eficiente dos fluxos e da previsibilidade operacional”.
“É necessário haver e fazer cumprir regras claras, previsibilidade, e equidade na utilização de uma infraestrutura pública essencial à atividade de todos os operadores.”
Ricardo Costa, CEO da Magnífico Douro
Investimento de 15 milhões de euros continua dependente de financiamento
Entre as intervenções previstas pela APDL, num investimento estimado em 15 milhões de euros, estão o alargamento de dois troços do canal e a criação de cais de espera, com o objetivo de melhorar a segurança e a capacidade da via navegável. Segundo a administração portuária, os estudos estão concluídos, mas a execução dos projetos continua dependente da obtenção de financiamento, nomeadamente através de instrumentos europeus.
Para a DouroAzul, as prioridades passam pelo reforço da capacidade dos cais e das infraestruturas de apoio às embarcações, nomeadamente ao nível do abastecimento de água e eletricidade e da recolha de resíduos. Hugo Bastos considera igualmente importante “avaliar o alargamento dos horários de funcionamento das eclusas” e assegurar “uma gestão rigorosa das cotas e dos caudais turbinados”, de forma a melhorar a eficiência e a previsibilidade da navegação.
A Rota do Douro, por sua vez, identifica como prioritários o “reforço dos programas de manutenção preventiva”, a criação de “planos de redundância para equipamentos críticos” e a modernização tecnológica dos sistemas operacionais. Alice Costa defende ainda uma melhoria da comunicação com os operadores e um planeamento estratégico que permita antecipar as necessidades futuras da via navegável.
Já a Magnífico Douro identifica problemas específicos no troço entre o Pinhão e a barragem da Valeira. Ricardo Costa explica que, nos cerca de oito quilómetros a jusante da barragem, “existem fortes limitações ao cruzamento de embarcações”, o que obriga a uma coordenação rigorosa da navegação. Entre as intervenções prioritárias, destaca a necessidade de “assegurar cobertura rádio VHF fiável em todo o troço entre o Pinhão e a Valeira”, uma medida que considera relativamente simples face a grandes obras de infraestrutura.
O responsável propõe ainda “uma maior utilização do período noturno para determinadas eclusagens”, desde que acompanhada das condições necessárias à navegação e de locais seguros de acostagem e pernoita. Na sua perspetiva, esta solução, particularmente relevante para os navios-hotel, permitiria distribuir melhor a utilização das infraestruturas ao longo das 24 horas.

Novos navios e diferentes segmentos aumentam pressão sobre a capacidade
A chegada prevista de novos navios de cruzeiros fluviais ao Douro em 2027 aumenta a pressão para adaptar as condições de navegação ao crescimento da oferta.
Em março, a APDL comunicou aos operadores de navios-hotel que tinha sido atingida a capacidade máxima então estabelecida para este segmento, devido às limitações operacionais e à utilização das eclusas, condicionando novas autorizações até à avaliação das condições de funcionamento.
Ricardo Costa considera que o aumento do número de navios-hotel tem intensificado a pressão sobre as eclusas. “Pelas suas dimensões, estas embarcações têm necessidades operacionais específicas e ocupam a eclusa isoladamente”, explica o CEO da Magnífico Douro, acrescentando que apresentam também “maiores condicionantes de navegação e cruzamento nos troços mais estreitos”.
O responsável defende, por isso, que as medidas adotadas devem beneficiar “de forma equilibrada os diferentes segmentos do turismo náutico: barcos-hotel, ‘diários’, restantes operadores marítimo-turísticos, e embarcações de recreio”, evitando que o planeamento da via se concentre apenas num segmento.
Neste último segmento, Ricardo Costa identifica uma oportunidade económica por explorar. Segundo o responsável, há cerca de dez anos era relativamente frequente encontrar embarcações de recreio privadas, portuguesas e estrangeiras, a navegar pelo Douro durante o verão. No entanto, “hoje essa presença é significativamente menor”, uma evolução para a qual considera que contribuiu a insuficiência de condições de apoio à navegação.
“É uma oportunidade económica que o território está a perder”, alerta, lembrando que estes visitantes podem gerar receitas para restaurantes, comércio, quintas e alojamentos turísticos. Na sua perspetiva, trata-se de “um segmento com potencial para gerar elevado valor económico por visitante”, pelo que o Douro deveria criar condições para voltar a atrair este tipo de turismo náutico.
Segundo os dados da APDL, as embarcações de recreio transportaram 7.323 passageiros nos primeiros nove meses de 2026, menos 6,94% do que no período homólogo de 2025 e menos 21,99% face ao mesmo período de 2023.
A articulação entre operadores, APDL, Governo, EDP e municípios ribeirinhos é outra das áreas apontadas como determinantes para o futuro da atividade.
Hugo Bastos considera que “existe margem significativa para melhorar a articulação entre as diferentes entidades com responsabilidades na gestão e no funcionamento da Via Navegável do Douro”, defendendo mecanismos de comunicação e planeamento mais eficazes.
Alice Costa reconhece a existência de uma base de colaboração positiva, mas entende que o crescimento do setor exige mecanismos permanentes de coordenação e decisão estratégica. A responsável apoia a criação de um plano estratégico de longo prazo, com objetivos concretos, prioridades de investimento e maior integração entre a navegação e os territórios.
A proposta de um Plano Estratégico Nacional para o Turismo Fluvial no Douro até 2030 tem sido defendida pela Associação das Atividades Marítimo-Turísticas do Douro (AAMTD), que também tem alertado para a necessidade de resolver a situação das licenças de exploração que expiram em 2027.
A APDL apresentou aos operadores, no final de julho, uma proposta de novo modelo de gestão e exploração da via, destinada a assegurar a continuidade da atividade e maior previsibilidade para as empresas, encontrando-se o processo sujeito aos procedimentos legais necessários.
Ricardo Costa, embora não se pronuncie especificamente sobre o conteúdo do plano proposto pela associação, defende uma estratégia construída com a participação efetiva de quem utiliza diariamente a via. “Antes de decidir investimentos, é essencial ouvir quem utiliza as infraestruturas e compreender quais são as necessidades reais da operação”, afirma.
O responsável levanta ainda preocupações relacionadas com a articulação entre a gestão das barragens e a segurança da navegação. Segundo a Magnífico Douro, existem situações em que os caudais encontrados pelas embarcações a jusante das barragens ultrapassam os limites definidos nos respetivos certificados de utilização da via, apesar de a eclusagem ter sido previamente autorizada.
“Não estamos aqui perante uma questão de conforto, de cumprimento de horários ou de eficiência operacional”, alerta Ricardo Costa, considerando que estas situações podem afetar a capacidade de manobra das embarcações e a segurança dos passageiros e tripulações. O operador defende, por isso, uma articulação operacional permanente entre a APDL e a EDP.

Crescer em passageiros ou gerar mais valor para a região?
Além das limitações operacionais, os três operadores convergem na necessidade de conciliar o desenvolvimento turístico com a preservação ambiental e os benefícios para as comunidades locais.
A DouroAzul considera que não deve existir uma oposição entre o aumento do número de passageiros e a criação de valor económico. Para Hugo Bastos, o essencial é encontrar um equilíbrio entre ambas as dimensões, através de “decisões responsáveis” e de uma estratégia de longo prazo.
A Rota do Douro defende igualmente um crescimento orientado para o território. “O objetivo não deve ser crescer a qualquer custo”, afirma Alice Costa, considerando que a atividade deve incentivar os visitantes a permanecer mais tempo na região, consumir produtos locais e descobrir outros destinos além do rio.
Esta preocupação tem sido também manifestada pelos municípios durienses. Durante a Porto Maritime Week, João Rodrigues, primeiro-secretário executivo da Comunidade Intermunicipal do Douro, reconheceu que os benefícios económicos do turismo fluvial ainda não chegam ao território na dimensão desejada.
Na perspetiva da Magnífico Douro, a relação entre as embarcações e as comunidades ribeirinhas exige igualmente uma maior atenção aos impactos locais. Ricardo Costa aponta como exemplo o Pinhão, onde considera que a presença prolongada de grandes embarcações condiciona a paisagem da frente ribeirinha. O responsável propõe a criação de locais de acostagem alternativos na margem de Sabrosa e a instalação de capacidade elétrica adequada nos cais, para reduzir a utilização noturna de geradores e o ruído associado.
“O objetivo não deve ser crescer a qualquer custo. A prioridade deve passar por um modelo de crescimento sustentável, capaz de gerar mais valor económico, mais benefícios para as comunidades locais e uma melhor distribuição dos fluxos turísticos ao longo do território”.
Alice Costa, responsável pelo Departamento de Reservas da Rota do Douro
“O Douro não tem vocação para se transformar num destino de turismo de massas. Tem todas as condições, pelo contrário, para se afirmar como um destino de excelência e elevado valor acrescentado”, defende.
Apesar dos constrangimentos identificados, a DouroAzul e a Rota do Douro mantêm uma avaliação favorável das perspetivas para os próximos anos.
Hugo Bastos considera que a procura continua a justificar investimentos em embarcações e novos produtos turísticos, desde que acompanhados pela “melhoria das condições de operação” e das infraestruturas da via navegável.
Também Alice Costa identifica oportunidades para novos investimentos, mas sublinha que “o desafio dos próximos anos não passa apenas por transportar mais passageiros”, passando igualmente pela criação de valor para as empresas, populações e território.
A Magnífico Douro apresenta uma perspetiva mais cautelosa. Ricardo Costa afirma que a empresa tem sentido uma redução da procura, embora reconheça que as causas dessa evolução devem ser analisadas. Na sua opinião, os futuros investimentos devem privilegiar a diferenciação da oferta e a qualidade das experiências, em vez de assentarem exclusivamente no aumento do número de embarcações.
“O Douro não necessita apenas de mais oferta. Necessita de melhor oferta, melhores infraestruturas e de uma estratégia capaz de preservar aquilo que torna este destino verdadeiramente único”, conclui.




