“Neste mês em que se falará tanto de mulheres, talvez o maior compromisso que o turismo pode assumir seja este: colocar verdadeiramente a pessoa no centro. Não como discurso, mas como prática”
Março convida-nos a falar da Mulher. No turismo, convida-nos ainda mais a falar de Pessoas. De quem acolhe, de quem cuida, de quem serve, de quem lidera, muitas vezes sem palco, sem título e sem reconhecimento proporcional ao impacto que gera. Falar de empoderamento feminino neste setor não é levantar bandeiras nem repetir slogans. É olhar de frente para a realidade humana que sustenta uma das indústrias mais relevantes do país.
O turismo é, historicamente, um setor profundamente feminizado. Em hotéis, restaurantes, agências, eventos, animação turística ou serviços de apoio, são maioritariamente mulheres que garantem a experiência, a operação e a continuidade. São também, em muitos casos, mulheres altamente qualificadas, com formação superior, domínio de línguas, competências relacionais e uma enorme capacidade de adaptação. Ainda assim, continuam sub-representadas nos lugares de decisão, mais expostas à precariedade, a horários desregulados e a uma cultura que normaliza o “dar sempre mais” como prova de profissionalismo.
Empoderar mulheres no turismo passa, antes de tudo, por reconhecer este paradoxo sem o romantizar. Um setor que vive de hospitalidade, mas que nem sempre acolhe bem quem nele trabalha. Um setor que vende experiências memoráveis, mas que frequentemente esquece a experiência humana de quem as cria.
Ao longo do meu percurso, em contextos muito diferentes — desde comunidades em situação de vulnerabilidade até organizações em ambientes altamente competitivos — identifiquei um padrão. Quando as condições são instáveis, quando o futuro é incerto e quando os recursos são escassos, são muitas vezes as mulheres que demonstram maior compromisso com a aprendizagem, com a melhoria contínua e com a construção de alternativas. No turismo, isto vê-se todos os dias: mulheres que investem em formação por iniciativa própria, que assumem funções informais de liderança, que sustentam equipas emocionalmente e que encontram soluções criativas para contextos complexos.
Este padrão não nasce do conforto. Nasce, a meu ver, da consciência e da perceção clara de que desenvolver competências humanas é tão ou mais determinante do que qualquer ferramenta técnica.
No turismo, humanizar o empoderamento feminino não deve passar por exigir resiliência infinita. Deve, sim, passar por potenciar a criação de sistemas de trabalho que respeitem ciclos, limites e contextos de vida, com organizações que cuidem de quem cuida, culturas que valorizem o trabalho invisível que mantém o setor de pé e lideranças que saibam escutar.
Implica também rever a forma como desenvolvemos pessoas, não partindo apenas de métricas de desempenho, mas da escuta ativa da realidade humana de quem está no terreno, promovendo espaços e ambientes onde a história pessoal não é vista como fragilidade, mas como parte do capital humano que, consequentemente, enriquecerá, a par da empresa, a própria experiência turística.
O futuro do turismo será tão forte quanto a dignidade, o desenvolvimento e o reconhecimento das pessoas que o constroem todos os dias. E aí, as mulheres não são apenas parte da solução, mas, muitas das vezes, o seu coração silencioso.
Neste mês em que falaremos da Mulher, talvez o maior compromisso que o turismo pode assumir seja o de colocar a Pessoa no centro. Quando empoderamos mulheres de forma humana, não transformamos apenas carreiras. Transformamos equipas, serviços, comunidades e, em última instância, a sustentabilidade real do setor.
Por Susana Garrett Pinto
Fundadora e CVO by THF | @ byTHF.pt



