Sexta-feira, Junho 14, 2024
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Entrevista ARAC: Rent-a-car enfrenta desafios em 2023 com queda nas taxas de ocupação e preços mais baixos

O setor de rent-a-car em Portugal enfrenta desafios ao longo de 2023, com taxas de ocupação mais baixas do que o ano anterior, especialmente em Lisboa e no Algarve, revelou Joaquim Robalo de Almeida, numa entrevista ao TNews. Além disso, os preços de aluguer estão mais baixos do que em 2022. De acordo com o secretário-geral da ARAC – Associação Nacional dos Locadores de Veículos, a pressão inflacionária e a diminuição dos hábitos de consumo das famílias afetaram o desempenho, apesar de uma recuperação tardia durante o verão. As perspetivas para 2024 permanecem incertas, mas a indústria está a investir na modernização e na transição para veículos elétricos, antecipando um futuro mais sustentável.

Qual o balanço que se pode fazer da operação de rent-a-car até setembro de 2023?

Ao contrário do ano de 2022, a atividade de rent-a-car registou em junho, julho e primeira quinzena de agosto deste ano taxas de ocupação inferiores, nomeadamente nas regiões de Lisboa e Algarve, aliás à semelhança do que se passou com outros produtos turísticos como sejam a hotelaria e a restauração.

Na segunda quinzena de agosto e setembro registou-se uma recuperação das taxas de ocupação, mas com preços de aluguer claramente inferiores aos registados em 2022 e até aos praticados em 2019.

Num ano em que o rent-a-car se encontra com uma maior oferta de viaturas disponíveis, o mundo e especialmente a Europa estão a viver para além da guerra, uma inflação com taxas que já não se verificavam há vários anos. Pressionados pela inflação e subida dos juros a maioria das famílias reduzirem alguns hábitos de consumo, reduções essas que incidem também no gozo de férias, levando mesmo muitos turistas a cortar nas tradicionais férias de verão.

Em síntese no verão que acaba de terminar as taxas de ocupação foram claramente inferiores às registadas em igual período do ano passado, com os valores de aluguer também a registarem descidas, aliás à semelhança do que se passou noutros destinos turísticos, nomeadamente nos países do sul da Europa.

“Ao contrário do ano de 2022, a atividade de rent-a-car registou em junho, julho e primeira quinzena de agosto deste ano taxas de ocupação inferiores, nomeadamente nas regiões de Lisboa e Algarve”.

As regiões do país que registaram maiores quebras foram Lisboa e Algarve, com o Porto, Madeira e Açores a registarem melhores taxas de ocupação face ao resto do país, mas ainda assim com valores inferiores aos registados em 2022, o qual foi claramente o melhor ano de sempre da atividade de rent-a-car.

A atividade de aluguer de veículos sem condutor está intrinsecamente ligada às movimentações do trade turístico.

O segmento de turismo (turismo de lazer e turismo de negócios) representou, em 2022, 49,9% do total de volume de negócios da atividade de rent-a-car.

Como perspectivam a atividade até ao final de 2023? E para 2024?

De posse dos elementos disponíveis preveem-se taxas de ocupação até ao final de 2023 ligeiramente mais baixas que as registadas em 2022, mas com preços claramente inferiores, os quais impactam de forma direta na rentabilidade das empresas, que foram confrontadas com um forte aumento do preço das viaturas (principal ativo e matéria-prima das empresas de rent-a-car), dos recursos humanos, das rendas das instalações e de um modo geral de todos os custos inerentes à atividade das empresas.

As previsões em sede da atividade turística em 2024 devem ser aferidas com prudência, pois existem diversas variáveis que certamente influenciarão o desempenho das empresas ligadas à atividade turística, destacando-se desde logo a taxa de inflação, o aumento do preço das energias, o aumento das taxas de juro, a criação de uma taxa de carbono para as companhias aéreas (que onerará o preço das passagens), as diminuições do poder económico das famílias constituem entre outros, fatores, que certamente conduzirão á diminuição da procura turística no próximo ano.

“Preveem-se taxas de ocupação até ao final de 2023 ligeiramente mais baixas que as registadas em 2022, mas com preços claramente inferiores”.

Com menores recursos económicos emagrecidos fruto da crise económica que estamos a viver, na atividade de rent-a-car poder-se-á eventualmente assistir a uma diminuição da procura, à semelhança de outros produtos turísticos, devendo o setor procurar oportunidades, ferramentas e novos mercados com vista a prevenir eventuais quebras, que esperamos não venham a acontecer.

A atividade de rent-a-car, como atividade de vanguarda da mobilidade há muito que antecipou a modernização e tem investido fortemente na digitalização de processos, com por exemplo a criação de sistemas de entrega e devolução de viaturas com recurso a sistemas completamente digitais, salientando que se encontram em circuito legislativo as revisões dos diplomas legais que regulamentam as atividades de rent-a-car e rent-a-cargo com vista à introdução de alterações no sentido da digitalização, descarbonização e sustentabilidade desta atividade que alo longo dos últimos anos tem sido o porta estandarte da mobilidade.

Na ARAC foi adotada a sigla DDDS – desenvolvimento – digitalização – descarbonização – sustentabilidade, pretendendo esta estrutura associativa estar sempre na vanguarda de uma economia verde.

Também ao nível da qualidade de atendimento e satisfação do cliente é seguramente o setor da mobilidade que mais tem investido nesta área, numa aposta que coloca o cliente no topo das prioridades.

2024 será mais um ano de forte investimento na modernização da frota, em que iremos assistir a uma massificação de frota verde (veículos zero emissões e híbridos) com substituição de parte da frota ainda com motores a combustão, salientando aqui a necessidade de apoio das entidades publicas, nomeadamente do Fundo Ambiental, do Turismo de Portugal, CCDR’s  e autarquias locais com vista à instalação de uma rede de postos de carregamento elétricos que permita aos utilizadores de veículos de rent-a-car viajar sem preocupações de carregamento do veículo em que se deslocam.

Sendo o nosso país fortemente dependente da atividade turística, a disseminação de postos de carregamento para veículos elétricos por todo o país numa articulação entre as entidades atrás referidas e a ARAC é fundamental, pois não podemos esquecer que o acesso ao interior do país – ex libris da sustentabilidade territorial – é feito maioritariamente por via rodoviária, sendo esta região o “ouro” ainda por garimpar do turismo nacional.

“2024 será mais um ano de forte investimento na modernização da frota, em que iremos assistir a uma massificação de frota verde (veículos zero emissões e híbridos)”.

Que fatores impactaram a atividade este ano?

Forte aumento dos custos de exploração com os veículos a registarem aumentos de preço de aquisição superiores a 40% face a 2019, aumentos salariais, escassez de mão de obra, aumento do preço dos combustíveis e o decréscimo das taxas de ocupação nos meses de julho e agosto.

É expectável uma subida de preços no próximo ano no setor da rent-a-car?

Tendo em atenção a inflação que atinge toda a economia poderá ser inevitável a subida de preços dos serviços praticados pelas empresas de rent-a-car.

O aumento de preços abrange todo o tipo de contratos de aluguer, mas com especial incidência nos contratos celebrados por períodos mais curtos, os quais implicam maiores custos (preparação e higienização das viaturas, maior número de trabalhadores para preparação e entrega de viaturas, maior consumo de combustíveis e custos de transporte para deslocação de viaturas entre estações de aluguer, etc.).

O problema da falta de viaturas manteve-se este ano?

Quanto ao problema do fornecimento de viaturas registado em 2022 que afetou as empresas de rent-a-car face à inexistência de veículos novos para entrega, devido à crise de fornecimento de semicondutores, tal problema ficou parcialmente resolvido. Para a resolução também tem contribuído a mudança de paradigma da propriedade para a utilização, o que tem feito crescer a procura pelo aluguer de viaturas sem condutor em detrimento da propriedade.

Que desafios se colocam à atividade neste cenário económico e social e incerto?

Com vista a um crescimento/manutenção do turismo à semelhança dos anos anteriores, e para que este continue a ser o motor da economia nacional, é urgente a revisão de quadros legislativos penalizadores deste importante setor de atividade, os quais não têm paralelo com nenhum país europeu.

Para uma maior competitividade no rent-a-car, urge também fazer-se uma revisão do quadro da fiscalidade automóvel aplicada a esta atividade tão importante para o Turismo e para a Economia Nacional.

“Com vista a um crescimento/manutenção do turismo à semelhança dos anos anteriores (…) é urgente a revisão de quadros legislativos penalizadores deste importante setor de atividade”.

No que respeita à descarbonização da frota, diria que os grandes desafios em matéria de transição energética são na nossa opinião a mudança de paradigma da utilização de combustíveis fósseis para combustíveis neutros em sede de emissão de CO2 e outros gases poluentes, sejam estes últimos a energia elétrica (sem recurso a combustíveis fosseis para a sua produção), o hidrogénio, outras energias preferencialmente renováveis que venham a ser descobertas e mesmo eventualmente (pois existe ainda pouca informação sobre a produção dos mesmos) os combustíveis sintéticos.

Tal desafio deve ser enfrentado não só pela atividade dos transportes (transporte aéreo, transporte marítimo e transporte terrestre), mas também por toda a indústria, nomeadamente a transformadora e todas as atividades que se desenvolvam com recurso a máquinas e equipamentos que emitam gases poluentes para a atmosfera.

Ao contrário de muitos outros setores, a descarbonização no setor automóvel já começou há alguns anos e é talvez a que vai mais avençada, tendo a Europa estabelecido o ano de 2035 como o ano do fim da produção e venda de veículos novos com motores a combustão.

Apoio do Fundo Ambiental Mobilidade Sustentável à compra de viaturas elétricas e postos de carregamento é fundamental.

“Ao contrário de muitos outros setores, a descarbonização no setor automóvel já começou há alguns anos e é talvez a que vai mais avençada”

Temos a convicção de que o rent-a-car será neste século o porta-estandarte da descarbonização da mobilidade automóvel e da racionalização do número de veículos em circulação, nomeadamente através da alteração do paradigma da propriedade pelo da utilização e à semelhança do que aconteceu no início do século passado com a substituição dos veículos de tração animal pelos veículos motorizados, o rent-a-car será mais uma vez o motor da transformação da mobilidade.

Enquanto os postos de carregamento são insuficientes, as empresas de aluguer de veículos sem condutor têm adquirido um grande número de veículos híbridos maioritariamente plug-in com vista a poderem reduzir as emissões de CO2, contribuindo deste modo para um planeta mais sustentável.

Quando é que a ARAC irá realizar a sua próxima convenção?

A V Convenção Nacional da ARAC encontra-se prevista para abril do próximo ano em local ainda a definir na Região Centro, cujo tema se centrará no Desenvolvimento – Digitalização – Descarbonização – Sustentabilidade, contando com oradores de excelência e importantes e atuais painéis de reflexão e debate.

Nunca é de mais referir de que sem Mobilidade não existe Turismo.

“A V Convenção Nacional da ARAC encontra-se prevista para abril do próximo ano em local ainda a definir na Região Centro.”

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