O Algarve continua a bater recordes “ano após ano” e quer consolidar um crescimento “sustentado e sustentável” em 2026. Em entrevista ao TNews, André Gomes, presidente da Região de Turismo do Algarve (RTA), destaca o reforço da conectividade aérea e aponta como “próximo passo” a captação de uma ligação à América do Sul, nomeadamente ao Brasil, com a TAP. Sublinha ainda a aposta na diversificação de segmentos para atrair turistas fora da época alta – estratégia que já se traduz na “taxa de sazonalidade mais baixa da história” – e alerta para o “déficit de financiamento” das ERTs, além de comentar o investimento na BTL como destino nacional convidado.
Quais são as perspetivas do Turismo do Algarve para este ano, após ter atingido resultados recorde em 2025?
Ano após ano, continuamos a bater recordes e a nossa expectativa para 2026 é continuarmos com estes níveis de crescimento sustentado e sustentável. Quero frisar aquilo que foi talvez o mais positivo dos resultados atingidos em 2025, que foi claramente a valorização da nossa oferta e o crescimento em valor superior em percentagem àqueles que foram os crescimentos registados nos indicadores que colocam mais pressão no nosso território e nas nossas infraestruturas: hóspedes e dormidas.
Em hóspedes crescemos 2% e em dormidas crescemos entre 0,5% e 1%, mas ao nível dos proveitos do alojamento turístico crescemos 7%, ao nível do ADR e do RevPAR crescemos 6%. Portanto, demonstra claramente que tivemos essa capacidade de crescer ao nível da atividade de uma forma geral, mas também crescemos na perspectiva da valorização da oferta.
A minha perspectiva para 2026 — não obstante eventualmente o arranque mais ténue no início do ano em função das intempéries que afetaram o país — é que conseguiremos recuperar durante o ano e manter estes níveis de crescimento, como temos vindo a crescer até aqui.
“Neste momento, estamos com a taxa de sazonalidade mais baixa da história do turismo do Algarve”
Mercados emergentes e diversificação da oferta para atenuar sazonalidade
Atualmente, qual é o Top 5 de mercados emissores da região algarvia?
Em termos de mercados emissores de hóspedes, o principal mercado é precisamente o nacional, contrariamente à perceção que muita gente tem. De resto, continuamos com todos os nossos principais mercados mais consolidados: o mercado britânico, o mercado irlandês, o mercado holandês e agora, com o crescimento que tem existido nos últimos anos, o mercado norte-americano a ocupar a 5.ª posição, tendo subido duas posições nos últimos dois anos.
É de registar com muito apreço [o facto de] não só continuarmos a crescer nestes mercados onde estamos mais consolidados e mais historicamente ligados, mas também é muito bom vermos este crescimento ao nível destes mercados de diversificação nos quais temos vindo a apostar nos últimos anos.
O mercado norte-americano é aquele que se destaca atualmente como o principal mercado emergente?
Pelo crescimento exponencial nos últimos anos e pelo aproveitamento que podemos fazer deste crescimento, o mercado norte-americano e o mercado canadiano. Com a conectividade aérea que obtivemos através da United a partir do ano passado, vimos um push, não muito grande, porque já vínhamos a ter um crescimento antes desta rota direta.
No entanto, de facto, esta rota trouxe-nos outro potencial de crescimento junto destes mercados, que são mercados bastante interessantes por duas razões. São mercados de valor, ou seja, são mercados que acrescentam valor ao nível da nossa oferta turística; e, por outro lado, são mercados que procuram muito do Algarve fora da época alta e fora dos produtos pelos quais somos mais internacionalmente e mundialmente reconhecidos, como o sol e praia e o golfe.
São segmentos de oferta que nos permitem trabalhar o Algarve durante todo o ano, o que contribui bastante para os resultados que atingimos ao nível da redução e atenuação da sazonalidade, sendo que, neste momento, estamos com a taxa de sazonalidade mais baixa da história do turismo do Algarve.
Para 2026, quais serão os principais segmentos em que irão apostar para promover um Algarve que vá além do tradicional sol e praia?
Nunca deixaremos de apostar nos nossos produtos premium. Continuaremos a valorizar a nossa oferta natural — as nossas praias per si — e todos os serviços associados ao [segmento de] sol e praia, mas também ao nível do golfe, nomeadamente com a captação do PGA Tour Championship. O regresso do Algarve aos grandes palcos mundiais do golfe, que voltamos a ter a partir deste ano e nos próximos cinco anos, é bastante importante para nós.
[Além disto, investiremos] no que diz respeito a segmentos de aposta que nos permitam continuar este trabalho de atenuação da sazonalidade e de mostrar que o Algarve tem motivos de visita e capacidade para conseguir receber turistas durante todo o ano.
Continuaremos claramente com esta forte aposta ao nível do turismo de natureza, porque permite-nos experienciar o território do ponto de vista da sustentabilidade, que interessa bastante à própria sustentabilidade do destino, às relações com as comunidades locais e à preservação dos recursos naturais. Creio que o turismo de natureza na última década terá sido aquilo que nos terá permitido mais desenvolver atividade fora da época alta e dar a conhecer os nossos territórios do interior, desde o Barrocal à Serra, desde a Costa Vicentina até ao Guadiana. Há muita estruturação de oferta ao nível deste segmento de turismo de natureza nos últimos anos, com as rotas cicláveis e as rotas pedestres, com o apoio e incentivo ao desenvolvimento de projetos nestes territórios do interior.
Deixo referência também para a nossa oferta cultural e para o segmento náutico, no qual reconheço que ainda temos muito trabalho para fazer no sentido de explorar o seu potencial perante o potencial da própria região — a ligação ao mar, ao rio, às rias.
Dos eventos, falamos em duas medidas: o MICE, com a captação de grandes congressos e eventos cooperativos das empresas, que, por norma, 90% ocorrem fora da época alta, dando um forte contributo para a atenuação da sazonalidade; e a aposta que temos feito na captação dos grandes eventos internacionais, que também, em grande maioria, acontecem todos fora da época alta. Tivemos em fevereiro a Volta ao Algarve em bicicleta, mais uma grande edição que mexeu muito com a região. Vamos ter já em março o grande prémio de Superbikes no Autódromo Internacional [do Algarve], com a estreia do piloto Miguel Oliveira nesta categoria, e em novembro o grande prémio de MotoGP. Obviamente que terei de referir uma grande novidade do final do ano passado: a captação dos grandes prémios de Fórmula 1 nos próximos dois anos, em 2027 e 2028.
Qual é a expectativa do impacto deste regresso da Fórmula 1 ao Algarve?
Será certamente extraordinário. Saibamos nós, quer o Algarve quer Portugal, aproveitar o potencial enorme que esta marca de Fórmula 1 nos traz. Temos de aproveitar desde já na própria BTL, com uma presença específica de elementos alusivos a esta captação dos eventos, em colaboração com o Turismo de Portugal.
A expectativa é enorme perante aquilo que são os impactos que sabemos que estes eventos provocam. Já tivemos a experiência de 2020 e 2021, ainda que experiências diferentes porque um ano foi sem público e no outro estávamos limitados a meia lotação do Autódromo.
“Gostaria muito de ter a operação com a TAP reforçada em Faro, em particular os voos intercontinentais, seja para os Estados Unidos ou seja para o Brasil”
Conectividade aérea: Brasil e EUA com a TAP no topo das prioridades
Falando de conectividade aérea, no ano passado a grande novidade foi a rota Faro-Nova Iorque com a United Airlines. Que outras ligações aéreas consideram prioritárias capturar no futuro próximo?
[É relevante] reforçar a importância do mercado interno. Neste momento, o aeroporto de Faro está ligado com todos os aeroportos de Portugal, com Lisboa, Porto e o Funchal, falando do recente anúncio desta rota [para a Madeira, operada pela TAP] passar a ser rota de ano inteiro.
Temos trabalhado esta questão da conectividade em três vertentes. Por um lado, novas rotas para novos mercados, na tal perspetiva de diversificação de mercados que até possam ter mais apetência para visitar a região fora da época alta e não tanto por aquilo que são os produtos pelos quais somos mais reconhecidos. Por outro lado, [refiro] os resultados do trabalho que temos vindo a realizar em articulação com o aeroporto de Faro e o Turismo de Portugal para aumentar a capacidade das rotas existentes, bem como o prolongamento das rotas existentes, com algumas só de verão a passarem agora a ser rotas de ano inteiro ou a estender os períodos [de operação].
É de salientar um crescimento de mais de 600 mil lugares para o verão de 2026, num crescimento de mais de 4%. Estamos a falar provavelmente de números muito próximos em percentagem no inverno de 2026-2027.
No que diz respeito a mercados, tenho que salientar as concretizações que temos atingido relativamente a mercados como o Norte da Europa ou o Centro da Europa, com novas ligações, por exemplo, para a Roménia e para a Finlândia. Temos de compensar algumas perdas [de conectividade], nomeadamente com o término da operação da Condor para a Alemanha, sendo que estamos a trabalhar com outras companhias aéreas.
Mas [há] também uma contínua aposta no reforço das ligações intercontinentais. Foi um conseguimento esta nova rota para os Estados Unidos a partir do ano passado, mas pretendemos continuar a reforçar esta aposta nos mercados intercontinentais, não só para os Estados Unidos e Canadá. Com a Air Transat, temos a possibilidade de a conectividade com o Canadá vir a ser reforçada a curto prazo.
Continuo a reafirmar o desejo da região de conseguir a ligação para os Estados Unidos. O próximo passo seria conseguirmos uma ligação para o Sul da América, nomeadamente para o Brasil. Ainda [na BTL] tive reunião com a TAP, com quem gostaria muito de ter a operação reforçada em Faro, em particular estes voos intercontinentais, seja para os Estados Unidos ou seja para o Brasil.
“Quando me perguntam se há necessidade de mais hotelaria na região, diria que sim – provavelmente não na costa litoral, não nos concelhos onde já temos o maior número de oferta”
Hotelaria do Algarve: requalificação e novos projetos no interior da região
Que leitura faz do atual panorama do mercado hoteleiro do Algarve?
Faço uma avaliação extremamente positiva perante um processo de requalificação da oferta que temos vindo a atravessar nos últimos anos, fruto de investimentos que estamos a receber na região. Arriscaria a dizer que 90% [destes investimentos] são de requalificação ou qualificação de hotelaria já existente na região, contrariamente àquilo que muitas pessoas costumam comentar, que há mais e novos hotéis no Algarve. Isto é uma das nossas apostas na perspectiva da valorização da nossa oferta ao nível do alojamento turístico.
Por outro lado, também referir um incentivo que damos e recebemos de braços abertos, que são todos os investimentos no sentido do desenvolvimento de novos projetos hoteleiros, em particular nos territórios do interior da região. Muitas vezes, quando me perguntam se há necessidade de mais hotelaria na região, diria que sim — provavelmente não na costa litoral, não nos concelhos onde já temos o maior número de oferta. Mas, se queremos dar a conhecer os nossos territórios no interior, temos que ter condições para que as pessoas usufruam desses territórios — tanto do ponto de vista da mobilidade, para que lá cheguem, mas também do ponto de vista do usufruto do território em si, com alojamento turístico, animação turística e restauração.
Por isso, apoiamos todos os desenvolvimentos de projetos que venham contribuir quer para a valorização e requalificação [da oferta hoteleira], quer para trazer novos destinos para o panorama turístico da região.
E que destinos em ascensão no Algarve destacaria?
Destacaria por força dos crescimentos que verificámos nos últimos anos em alguns concelhos da região. Dou dois exemplos a dois níveis. Por um lado, no Top 15 de concelhos a nível nacional em termos de hóspedes, temos sete concelhos da região, o que mostra bem a vitalidade e a força que a região do Algarve tem dentro do segmento turístico. Todos os anos, mês após mês, Albufeira apenas rivaliza com Lisboa como primeiro concelho do país a receber mais hóspedes e dormidas no país. A nível nacional, em 2025, ficou em segundo lugar.
Albufeira, Loulé e Portimão concentram cerca de 63% das dormidas registadas em 2025 na região. Em 2024, quando fizemos a revisão do Plano de Marketing Estratégico do Turismo do Algarve, tivemos a oportunidade de fazer um retrato da atividade turística registada [nesse ano]. Recordo-me que, em 2024, estes três municípios representavam 70% dos 21 milhões de dormidas. Tendo recebido novamente 21 milhões de dormidas em 2025, o peso destes três municípios passou de 70% para 63%, o que demonstra que tivemos capacidade para crescer noutros concelhos que não aqueles mais tradicionalmente procurados ou aqueles que têm maior número de oferta em termos de camas turísticas na região.
É de realçar os crescimentos exponenciais em municípios como Lagos, que junto do mercado nacional teve crescimentos muito grandes, mas também Tavira e Aljezur, que nos últimos cinco anos cresceu mais de 40% ao nível de dormidas em camas turísticas da região. É este o trabalho que queremos continuar a desenvolver, não só com Aljezur, mas também com São Brás de Alportel, com Alcoutim, com Monchique.
Esta questão da gestão dos fluxos turísticos, quer no tempo, quer no espaço, será um dos principais desafios como um destino maduro e consolidado como é o Algarve neste momento.
Qual é a previsão do número de novos hotéis que serão inaugurados no Algarve em 2026?
Em termos de número específico, não lhe consigo dar agora. Já tivemos em 2025 muitas das unidades hoteleiras que foram alvo deste processo de qualificação a reabrir. Recordo-me que, na BTL do ano passado, tinha algum receio do resultado ou desempenho da atividade, nomeadamente por termos tido muita hotelaria encerrada no primeiro semestre. Não obstante, temos algumas novidades. Diria que serão talvez cerca de uma dezena ou mais de hotéis novos ou requalificados a abrir em 2026.
“Continuamos com um déficit de financiamento ao nível do Orçamento de Estado que nos coloca muitos constrangimentos”
“Déficit de financiamento” das Entidades Regionais de Turismo
O Turismo do Algarve tem sentido dificuldade na execução total das verbas orçamentadas devido às cativações do Estado?
Sentimos mais em 2024. Reconheço que sentimos muito menos em 2025 por força da ação do secretário de Estado do Turismo, que junto do ministro da Economia e do ministro das Finanças, trabalharam no sentido de termos acesso a essas verbas que nos foram inicialmente cativadas aquando da atribuição das verbas do Orçamento de Estado (OE). De facto, isso foi positivo, mas não resolveu de todo o problema de base, que é o déficit de financiamento das entidades regionais.
Teremos que continuar a frisar que a verba atribuída anualmente por força do OE às entidades regionais é exatamente a mesma ao cêntimo desde 2016. É incompreensível que em dez anos o OE nos tenha cortado capacidade de ação — basta pensarmos, por exemplo, na taxa de inflação. Isto parece-nos totalmente injustificável perante a importância do setor ao nível do panorama da economia nacional.
O problema das cativações atenuou a partir do momento em que o Governo tomou a decisão de [estas] deixarem de estar na esfera das Finanças exclusivamente e passarem a estar na esfera do respetivo ministro do setor. Confesso que em 2025 não foi problema de todo. Isto também depende muito da nossa ação. De forma muito prática, o que fizemos foi: iniciámos o ano, começámos a executar as verbas todas que tínhamos disponíveis e, a partir do momento em que não tínhamos mais verbas disponíveis, solicitámos a descativação. E a verdade é que solicitámos a descativação de quase a totalidade da verba que nos tinha sido cativada, foi-nos automaticamente descativada e pudemos continuar a trabalhar.
Agora continuamos claramente com um déficit de financiamento ao nível do OE, que nos coloca muitos constrangimentos, nomeadamente do ponto de vista da gestão da estrutura da Entidade Regional do Turismo do Algarve.
Tenho de reconhecer também o bom trabalho desenvolvido com o Turismo de Portugal, tendo por base a ação do secretário de Estado do Turismo, no reforço de verbas para a promoção. Em particular para a promoção externa, temos vindo a conhecer um reforço de verbas da promoção ano após ano, que de alguma forma tem vindo a compensar este déficit de financiamento por via do OE.
No entanto, temos muitas questões relacionadas com a gestão da estrutura, a progressão da carreira dos nossos trabalhadores e a valorização das nossas equipas que não podemos fazer. Estamos completamente limitados na capacidade de desenvolvermos essas progressões e essa valorização dos técnicos, em função da limitação que as verbas do Orçamento de Estado que nos são atribuídas nos colocam, porque a esse nível só podemos trabalhar com as verbas do OE; não podemos trabalhar com as verbas do Turismo de Portugal, nem com as verbas para a promoção.
“Os números ajudam-nos a contrariar as narrativas que todos os anos temos de um eventual divórcio do turismo nacional com o Algarve”
Investimento na BTL 2026 como destino nacional convidado
O Algarve é o destino nacional convidado da BTL 2026. Qual é o retorno que espera obter deste grande investimento?
Diria desde já que estamos extremamente satisfeitos pelo retorno que estamos a obter [até ao terceiro dia da BTL]. Por um lado, creio ser um reconhecimento para a importância da região e do setor turístico regional no panorama turístico nacional. É um reconhecimento também do contributo de uma região que, neste momento, representa talvez mais de 30% do total da atividade turística realizada no nosso país, continuando a ser claramente um dos destinos preferenciais de férias a nível nacional.
Por outro lado, estamos a fazer desta participação como destino nacional convidado uma oportunidade para nós próprios reconhecermos os milhões de turistas que visitam a nossa região, não só os turistas internacionais, mas muito em particular para fazer um reconhecimento da importância do mercado nacional. Os números ajudam-nos a contrariar as narrativas que todos os anos temos de um eventual divórcio do turismo nacional com o Algarve. Fechámos o ano a crescer mais de 3% no que diz respeito ao turismo nacional, isto sem termos contabilizados o desempenho da atividade realizada pelo Alojamento Local inferior a dez camas.
Continuamos com esta pecha que, para o Algarve, é extremamente grave e extremamente prejudicial. No Algarve temos mais de 40 mil registos de Alojamento Local e 90% deles são inferiores a dez camas. Portanto, se calhar estaríamos a falar de um terço de atividade da região que não está a ser contabilizada do ponto de vista estatístico pelo INE e, por isso, quando falamos dos números do INE, sabemos que não representam efetivamente o total da atividade desenvolvida na região.
*A entrevista foi realizada à margem do terceiro dia da BTL – Better Tourism Lisbon Travel Market 2026, a 27 de fevereiro.



