Domingo, Junho 23, 2024
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Falta de capital e inércia das entidades públicas impedem empreendedorismo em Portugal, aponta mentor do The Presidential Train

Após cinco edições, o The Presidential Train, ou Comboio Presidencial, prepara-se para a sua última viagem no dia 29 de outubro. Nessa data, o comboio que transportou presidentes, chefes de Estado, reis e papas, durante mais de um século, leva a bordo os melhores chefs portugueses para uma experiência turística e gastronómica de luxo. O mentor do projeto, Gonçalo Castel-Branco, conta que esta iniciativa vai chegar ao fim “porque estamos em Portugal, é sempre mais fácil acabar uma coisa do que começá-la, é sempre mais fácil arranjar razões para não fazer algo do que para fazer”.

Na conferência organizada pela Universidade Europeia “New Tourism – Challenges and Opportunities”, durante o painel “As tendências do turismo e o papel dos novos intervenientes do setor”, que se realizou esta segunda-feira, 17 de outubro, Gonçalo Castel-Branco explicou que o projeto nasceu de forma orgânica. “Eu fui visitar o Museu Nacional Ferroviário, no Entroncamento, um dos melhores museus em Portugal, e por acidente tropecei no corredor em que estava o comboio presidencial português. É um comboio de 1890 que era utilizado em exclusivo pelos nossos chefes de estado, até ao Salazar.” O CEO contou que a última viagem oficial foi feita no funeral de Salazar. O Comboio Presidencial transportou o caixão do chefe de Estado desde uma estação improvisada em frente ao Mosteiro dos Jerónimos até Santa Comba Dão. “Só em 2009 é que o Museu Nacional Ferroviário e as restantes empresas da ferrovia se juntaram e fizeram uma recuperação incrível, demorou três anos e meio a recuperar”.

Quando eu descobri aquele comboio apaixonei-me por ele e decidi ali que aquele exercício de história precisava de ser convertido num exercício de turismo“, sublinhou. Depois de retornar do museu, nessa noite ao jantar, partilhou com a família a descoberta e afirmou: “Temos de ter uma ideia para esta comboio”, ao que a sua filha de 10 anos respondeu: “Porque não fazemos um restaurante?”.

Gonçalo Castel-Branco conta que, nessa noite, começou a desenhar aquilo que seria sete anos mais tarde o produto mais premiado em Portugal, vencedor do prémio nacional de turismo, e melhor evento público do mundo em 2017. “Está em todas as listas dos 10 melhores comboios de luxo do mundo, e recebe uma média de 12 nacionalidades diferentes por dia. É um exercício de storytelling que acabou por atingir muito mais do que alguma vez imaginámos”, revelou.

“O Comboio Presidencial é uma carta de amor a Portugal. É um exercício de tentar, num espaço muito curto, cerca de nove horas, contar uma série de histórias interligadas sobre aquilo que é Portugal desde o início do século até agora, e que as pessoas saiam de lá apaixonadas, que felizmente acontece-nos todos os dias. Temos gente a sair de lá a querer comprar casa, a querer vistos gold”.

O cliente de luxo valoriza a autenticidade

O mentor do projeto disse que a autenticidade é uma tendência no turismo e que é um veículo de diferenciação, no entanto acredita que é mais fácil apostar na autenticidade numa escala pequena. “Na nossa operação todos os nossos produtos e produtores são locais, as pessoas que vêm trabalhar connosco estudam uma Bíblia de 30 páginas em que sabem cada coisa, desde o pão; ao azeite; à loiça; ao cheiro do comboio que é desenhado pela Castelbel a partir de bagas de uvas do Douro e é o cheiro do sabonete que só existe a bordo do comboio; à banda sonora de minuto a minuto, que passa durante nove horas, e que é desenhada pela Casa da Música do Porto. Nós fazemos um trabalho tremendamente rendilhado. Há uma verdade inerente áquilo que nós estamos a fazer”.

“O nosso bilhete custa 750€ por dia, por um almoço, o comboio não tem eletricidade, não tem ar condicionado, portanto estamos a falar de um comboio que está em todas as listas dos 10 comboios mais luxuosos do mundo e não tem ar condicionado, nem cozinha. O nosso cliente sai da viagem normalmente a dizer que pagava o dobro amanhã. Porquê? Porque esta experiência tremendamente autêntica é uma carta de amor a Portugal, é uma Disney para adultos”, defendeu Gonçalo Castel-Branco.

“Portugal tem um problema de capital e tem um problema de atitude dramático”

Gonçalo Castel-Branco explica que o Comboio Presidencial só funciona na temporada alta, é uma peça de museu e como tal tem uma limitação de quilómetros, só está autorizado a fazer seis mil quilómetros por ano, o que representa 20 viagens anuais na linha do Douro. “Como não tem ar condicionado, não pode fazer viagens nos meses mais frios nem quentes devido às temperaturas. No resto do ano o comboio está em exposição no museu.”

Quando questionado sobre o motivo para a conclusão do projeto, o CEO defendeu que em Portugal “as oportunidades não existem, as estruturas governamentais estão orientadas para a inércia, não estão orientadas para a evolução. Os dois grandes impeditivos do empreendedorismo em Portugal é a falta de capital e a inércia e incompetência das entidades públicas.”

“Este é o último ano do comboio, o Presidencial acaba este ano, dia 29 de outubro é a última viagem”, avançou Castel-Branco, referindo que este projeto alcançou “10 milhões de euros em retorno, em cinco anos, para o Douro e tem um impacto para na economia local de 600 mil euros em duas semanas, só em viagens, estadias e restaurantes das pessoas que vêm, a pergunta óbvia que eu recebo todos os dias é: ‘Porque é que o projeto vai acabar?’ Vai acabar porque estamos em Portugal, é sempre mais fácil acabar uma coisa do que começá-la, é sempre mais fácil arranjar razões para não fazer do que para fazer”, sustentou, concluindo que “o difícil não é ter ideias, o difícil é ultrapassar o ecossistema de inércia, de entropia que existe em Portugal e que vos diz todos os dias: ‘Não façam'”.

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