Francisco Calheiros considera que o turismo português entrou numa nova fase de “maturidade”, marcada pela passagem para a “era do crescimento do turismo em valor”, afirmou esta segunda-feira, na sessão de abertura da VIII Cimeira do Turismo Português, em Lisboa. O presidente da Confederação do Turismo de Portugal (CTP) deixou ainda vários recados ao Governo, com destaque para a capacidade aeroportuária de Lisboa, a TAP, a fiscalidade e a legislação laboral.
“Há uma realidade que devemos encarar com clareza e sem medos ou tabus: o crescimento do turismo em Portugal está mais moderado”, afirmou Francisco Calheiros, esta segunda-feira, durante a sessão de abertura da VIII Cimeira do Turismo Português, no Salão Nobre do Four Seasons Hotel Ritz Lisboa, o mesmo local onde tomou posse há 15 anos.
Para o presidente da CTP, a desaceleração não deve ser encarada como um problema. “Deixámos para trás os ritmos de crescimento a dois dígitos que caracterizaram os anos anteriores e isso não é motivo de preocupação. É, pelo contrário, um sinal de maturidade”, sublinhou.
“Fechámos o ciclo de crescimento em escala para abrir a era do crescimento do turismo em valor”, afirmou, defendendo que um crescimento indefinido “não é sustentável: nem para o território, nem para as comunidades, nem para a qualidade da experiência que oferecemos a quem nos visita”.
O responsável lembrou que, entre 2009 e 2019, o turismo português “praticamente dobrou” em dez anos, considerando que taxas de crescimento semelhantes serão difíceis de repetir. Ainda assim, destacou a recuperação do setor após a pandemia: Portugal foi, em 2022, “o primeiro país da Europa a repor os números do turismo de 2019” e, em 2024, registou um desempenho superior ao de 2023, enquanto em 2025 voltou a crescer face ao ano anterior.
“Enquanto outros destinos europeus debatem hoje limites, taxas e moratórias para travar o turismo que os visita, Portugal escolheu antecipar-se”, disse, considerando que esta decisão é “uma vantagem competitiva que o país não pode desperdiçar”.
Até julho deste ano, os dados disponíveis apontam para um crescimento de 1,5% nas dormidas e de 4% nas receitas de viagens e turismo, segundo os últimos dados de setembro do Banco de Portugal, destacou.
“Entre janeiro e julho continuamos a crescer, ainda que de forma mais moderada”, afirmou Calheiros, sublinhando que o turismo português continua a gerar valor num contexto internacional marcado por conflitos como a guerra na Ucrânia e o conflito no Médio Oriente.
Aeroporto de Lisboa é “o principal obstáculo ao crescimento”
A capacidade aeroportuária foi outro dos temas centrais do discurso. “Não tenhamos dúvidas de que os constrangimentos do maior aeroporto do país são o principal obstáculo ao crescimento do Turismo em Portugal”, afirmou.
Segundo Francisco Calheiros, o aeroporto de Lisboa “está a funcionar acima das suas capacidades”, enquanto a solução de Alcochete poderá demorar “mais de dez anos até ver a luz do dia”.
Neste contexto, deixou um aviso sobre os riscos de prolongar a atual situação: “se daqui a dez anos ainda estivermos a explicar aos investidores porque é que Lisboa não tem capacidade aeroportuária, não terá sido a geografia a falhar-nos. Terá sido a decisão”.
O presidente da CTP reiterou, por isso, que o Governo equacione uma solução aeroportuária intermédia que seja “viável em termos de alternativa ao aeroporto da Portela, muito antes de termos Alcochete”.
TAP, fiscalidade e legislação laboral entre os recados ao Governo
Francisco Calheiros aproveitou ainda o último discurso de abertura da Cimeira do Turismo Português enquanto presidente da CTP para deixar um conjunto de prioridades ao Governo.
Entre os dossiers destacados está a privatização da TAP, que espera que “termine em porto seguro”, garantindo um “bom encaixe financeiro” para o país e a integração da companhia num dos grandes grupos internacionais de aviação. Defendeu também a manutenção do hub de Lisboa e das ligações às ilhas e aos países de língua portuguesa.
Na agenda estão ainda a reforma do Estado e a simplificação administrativa. “As empresas precisam de agilidade, não precisam de complicações burocráticas”, afirmou, defendendo, nomeadamente, “um simplex para o Turismo, uma simplificação de regras e de licenças que facilite a execução de novos investimentos”.
A redução da carga fiscal, a resolução da falta de mão de obra e a retoma das negociações sobre a revisão da legislação laboral foram outras das prioridades apontadas.
“O país precisa de uma legislação laboral mais moderna e mais adaptada aos novos tempos. Não podemos é cair no mesmo erro. Houve e há demasiado radicalismo e foi este radicalismo que matou a revisão da lei laboral que estava em curso”, frisou.
“Estes não são pedidos de um setor. São condições para que Portugal continue a crescer”, afirmou.
IA, sustentabilidade e qualificação vão marcar próxima década
O discurso abordou também as transformações que estão a alterar o setor turístico, com Francisco Calheiros a destacar a inteligência artificial, a sustentabilidade e a qualificação das pessoas.
“A inteligência artificial está a alterar a forma como se planeia uma viagem e as alterações climáticas estão a alterar para onde e quando se viaja”, afirmou.
Para os próximos anos, identificou três áreas de transformação: a inteligência artificial, a sustentabilidade e a qualificação dos trabalhadores.
Sobre a primeira, defendeu que as empresas, “sobretudo as mais pequenas”, precisam de apoio para a sua capacitação. Já a sustentabilidade, considerou, “deixou de ser um argumento de marketing para passar a ser uma condição de acesso aos mercados mais exigentes e às gerações mais jovens de viajantes”.
Quanto às pessoas, sublinhou que “nenhuma tecnologia substitui a hospitalidade genuína que sempre distinguiu Portugal”, defendendo trabalhadores “bem formados, bem pagos e orgulhosos da profissão que escolheram”.
É neste contexto que enquadra a missão da CTP: “preparar o turismo português não para o próximo ano, mas para a próxima década”.
Turismo “mais duradouro”
No balanço dos 15 anos à frente da CTP, Francisco Calheiros afirmou estar “orgulhoso” do “caminho percorrido até aqui” e de ver “hoje uma atividade turística mais robusta, mais qualificada, mais bem preparada para os desafios que aí vêm”.
O responsável destacou ainda que o turismo é a “melhor parceria público-privada do país”, apontando exemplos como o desenvolvimento turístico das várias regiões do país, as novas ligações aéreas diretas aos Estados Unidos e o crescimento do mercado sul-coreano com a ligação direta entre Seul e Lisboa. Referiu também o Programa Integrar para o Turismo, que junta CTP, AIMA e Turismo de Portugal na formação e integração de imigrantes no mercado de trabalho turístico.
A “poucas semanas” da apresentação da proposta de Orçamento do Estado, Calheiros defendeu que o documento deve ser “de apoio ao crescimento e reformista” e apelou à continuidade do diálogo em Concertação Social.
No final, deixou uma definição sobre o turismo que considera que Portugal deve construir: “não o maior, mas o mais duradouro”.
Montenegro: “O desafio já não é apenas trazer mais turistas, é gerar mais valor”

A presença de Luís Montenegro estava confirmada na abertura da VIII Cimeira do Turismo Português, mas o primeiro-ministro acabou por não comparecer presencialmente na sessão, esta segunda-feira, 28 de setembro. Em sua substituição, deixou uma mensagem em vídeo, na qual defendeu que o turismo português entrou numa “fase mais madura e também, por isso, mais exigente”.
“O desafio já não é apenas trazer mais turistas, é gerar mais valor”, afirmou Montenegro, defendendo um crescimento sustentável, com maior receita por visitante, melhor emprego e maior benefício para as comunidades. O primeiro-ministro sublinhou ainda que o país não deve seguir um processo de “massificação sem critério”.
Entre as prioridades apontadas esteve também a modernização das infraestruturas, com destaque para o novo aeroporto Luís de Camões, garantindo que o Governo está concentrado no cumprimento dos prazos dos grandes projetos.
Montenegro deixou ainda uma palavra a Francisco Calheiros, que termina este ano o mandato como presidente da CTP, destacando os seus 14 anos de liderança. “Estes 14 anos, caro Francisco, passaram a voar, mas é a minha convicção profunda que não vão ser necessários tantos anos para ver os aviões a voar no Luís de Camões”, afirmou.




