“Lisboa não quer turismo de massas. Lisboa quer turismo de qualidade.” A mensagem foi deixada esta segunda-feira, 28 de setembro, por Carlos Moedas, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, na sessão de abertura da VIII Cimeira do Turismo Português, organizada pela Confederação do Turismo de Portugal (CTP), no Salão Nobre do Four Seasons Hotel Ritz Lisbon.
Perante representantes do setor turístico e o Governo, Moedas procurou também clarificar a discussão em torno da pressão turística na capital: “Lisboa, no seu todo, não tem excesso de turismo”, afirmou, sustentando que a questão está concentrada em determinadas zonas da cidade.
“Entram em Lisboa mais de 500 mil pessoas todos os dias. Dessas 500 mil, 50 mil são turistas, são 10%. Mas temos que ser claros: há excesso de turismo em certas zonas da cidade. É esse o ponto. Não é em toda a cidade, é em certas zonas da cidade”, afirmou.
É neste contexto que o presidente da Câmara defende uma aposta num turismo de maior qualidade e numa regulação capaz de equilibrar a atividade turística com a vida dos residentes.
Moedas pede “limitação dos TVDE” em Lisboa
Entre as áreas em que considera necessária uma intervenção está a mobilidade. Carlos Moedas afirmou que “há um excesso de TVDE’s em Lisboa” e pediu ao Governo que avance com uma limitação deste tipo de transporte na capital.
“Pedimos ao Governo a limitação dos TVDE’s”, afirmou, dirigindo-se ao ministro da Economia e da Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida, que participava na cimeira.
O autarca criticou ainda situações de incumprimento das regras de trânsito e defendeu uma intervenção ao nível nacional. “Há TVDE’s que não cumprem as regras de trânsito, que não falam português, há tuk-tuks que não investem na qualidade, desconhecem a história da cidade”, afirmou.
Moedas deixou, contudo, uma nota positiva relativamente ao trabalho que está a ser desenvolvido pelo Governo nesta matéria. “Sei que o seu ministro está a trabalhar nisto e que vamos para a frente e, portanto, também lhe agradeço”, acrescentou.
A intervenção surge depois de Lisboa ter vindo a reforçar a regulação e fiscalização dos transportes turísticos e TVDE. Em março deste ano, a Câmara Municipal de Lisboa acordou com a Uber e a Bolt novas regras para a operação de TVDE, incluindo zonas onde deixou de ser permitido iniciar ou terminar viagens. Também os tuk-tuks têm sido alvo de novas restrições na capital, com regras de circulação mais apertadas e reforço da fiscalização.
Para Carlos Moedas, o debate sobre o turismo em Lisboa não deve ser colocado numa oposição entre residentes e visitantes. “O debate aqui não pode ser de turistas ou não turistas. É um falso debate. A verdadeira questão é saber que turismo queremos”, afirmou.
O autarca defendeu um modelo que seja simultaneamente competitivo e capaz de gerar benefícios para quem vive na cidade. “Um turismo que melhora a vida daqueles que cá vivem”, resumiu.
Na intervenção, Moedas destacou o peso económico da atividade turística em Lisboa, afirmando que 20% da economia da cidade e 25% do emprego estão ligados ao turismo, abrangendo empresas e trabalhadores de áreas como restauração, hotelaria, comércio, cultura, transportes e eventos.
“Criticar o turismo não cria um único emprego. Criticar o turismo não gera riqueza”, afirmou, defendendo que a discussão deve centrar-se na criação de valor e na capacidade de distribuir os benefícios da atividade.
O presidente da Câmara de Lisboa associou ainda a aposta no turismo de qualidade à preservação da identidade da cidade. Nesse contexto, destacou o papel da taxa turística no financiamento de investimentos municipais, nomeadamente em limpeza urbana, espaços verdes, cultura e património. Moedas referiu ainda a renovação de 13 museus, num investimento de 67 milhões de euros em parceria com a Associação Turismo de Lisboa, bem como a abertura dos novos painéis de Almada Negreiros e o trabalho desenvolvido através do programa “Lojas com História”.
“O turismo não destrói a identidade quando é bem orientado. O turismo preserva e valoriza essa identidade”, afirmou. Para o autarca, a autenticidade é precisamente um dos principais ativos de Lisboa numa competição internacional entre destinos. “Nenhuma cidade vence a competição global a ser uma imitação das outras cidades”, defendeu.
Moedas destacou também a posição de Lisboa no mercado internacional de congressos, afirmando que a cidade lidera atualmente o ranking mundial de congressos internacionais, com 188 eventos num ano, acima de Paris, com 174. A aposta deverá, segundo o autarca, continuar a privilegiar eventos capazes de gerar valor para a cidade e de contribuir para o investimento nas pessoas.
No final da intervenção, Carlos Moedas enquadrou o turismo como um projeto coletivo, que deve procurar um compromisso entre quem visita e quem vive nos destinos. “Não um turismo que expulsa as pessoas, mas um turismo que constrói emprego. Não um turismo que dilui a nossa identidade, mas um turismo que valoriza. Não um turismo que cria divisão, mas um turismo que projeta Portugal”, afirmou.
A intervenção de Carlos Moedas começou, contudo, com uma referência especial a Francisco Calheiros, presidente da CTP, naquela que é a sua última Cimeira do Turismo Português enquanto líder da confederação.
“Fez um trabalho extraordinário e não será esquecido”, afirmou Moedas, considerando que Calheiros marcou os seus anos à frente da CTP por ser “uma voz forte, uma voz respeitada por todos” e por nunca ter tido medo de “enfrentar o poder”.
“Se hoje estamos aqui, Francisco, a tua voz foi a voz de todos e essa voz foi sempre uma voz corajosa”, afirmou.
O presidente da Câmara de Lisboa destacou ainda a defesa que Calheiros fez das empresas e dos trabalhadores do setor, considerando que esteve “sempre do lado das empresas, daqueles que criam emprego, daqueles que pagam salários, nos bons e nos maus momentos”.
“E, ao contrário de muitos que vivem, sobretudo no passado, tu és um homem que vives no futuro”, concluiu Moedas, antes de agradecer a Calheiros o trabalho desenvolvido e dar as boas-vindas aos participantes da VIII Cimeira do Turismo Português.




