O Governo escolheu o grupo Lufthansa para a aquisição de até 49,9% do capital da TAP, numa operação que poderá avançar para a privatização total da companhia aérea até 2028, anunciou esta quarta-feira o primeiro-ministro, Luís Montenegro. A decisão terá ainda de passar por uma fase final de negociação, assinatura dos acordos contratuais e obtenção das aprovações regulatórias.
Em causa está a venda de até 49,9% do capital social da TAP, dos quais 44,9% se destinam ao investidor selecionado e até 5% estão reservados aos trabalhadores, mantendo o Estado português a maioria do capital nesta primeira fase.
“Avaliadas as propostas, a decisão do Governo recai sobre o grupo Lufthansa, cuja proposta financeira é 16% superior à proposta concorrente e com menor grau de incerteza”, declarou Luís Montenegro após a reunião do Conselho de Ministros.
“Esta é a melhor escolha para o futuro da empresa e a que melhor protege o interesse nacional”, afirmou o primeiro-ministro, defendendo que a operação permitirá assegurar o crescimento da companhia aérea portuguesa.
TAP avaliada em 2.552 milhões de euros
A operação prevê um encaixe financeiro de 1.201 milhões de euros na primeira fase. Numa eventual segunda fase, destinada à aquisição da maioria do capital, o valor adicional será de 1.351 milhões de euros, elevando a valorização total direta da companhia para 2.552 milhões de euros.
Este valor está “muitíssimo acima das avaliações independentes perspetivadas há alguns anos ou mesmo há alguns meses”, sublinhou Luís Montenegro.
O Governo admite que a operação, considerando os dividendos futuros e a valorização da participação do Estado português na Lufthansa, permita recuperar o investimento de 3,2 mil milhões de euros injetado pelos contribuintes na TAP ao longo da última década.
Na conferência de imprensa, Luís Montenegro afirmou que a parceria entre a TAP e a Lufthansa aponta para “o caminho da recuperação total do valor que os portugueses investiram na TAP”.
“É com este mesmo objetivo que o Governo encara a possibilidade de, numa segunda fase até 2028, como propõem de resto os candidatos, trocar o capital remanescente por uma participação social na holding do respetivo grupo”, acrescentou.
A oferta da Lufthansa “para uma segunda fase inclui uma verba de mais 488 milhões de euros e uma permuta de ações que pode vir a posicionar o Estado português como o segundo maior acionista desta companhia”, detalhou o primeiro-ministro.
A concretização desta etapa estará sujeita a um processo autónomo, com o Governo a apontar para julho de 2028 como horizonte para a conclusão da eventual segunda fase.
Crescimento da frota, reforço no Porto e novos investimentos
O Governo considera que a integração na Lufthansa permitirá reforçar a presença internacional da TAP, nomeadamente na América Latina, aumentar a operação no aeroporto do Porto e expandir a frota para até 130 aeronaves.
A proposta salvaguarda ainda a ligação às regiões autónomas, a manutenção da marca TAP, da sede em Portugal e do hub em Lisboa, além de prever investimentos adicionais no país nas áreas da manutenção e engenharia.
O plano contempla igualmente a possibilidade de criação de uma escola de treino militar de pilotos em Tancos, bem como de um centro de inovação em Aveiro e de um centro de serviços corporativos em Santa Maria da Feira, segundo as declarações de Luís Montenegro.
“A integração da TAP na Lufthansa é equivalente a colocar a nossa companhia aérea dentro de um dos maiores grupos europeus”, afirmou o primeiro-ministro, acrescentando que se trata também do “quarto maior grupo a nível global se estivermos a falar em receitas”.
“Estamos a garantir o crescimento da TAP, o crescimento da frota, o crescimento dos passageiros, o crescimento dos destinos e das ligações, e também o crescimento do investimento”, declarou Luís Montenegro, que destacou igualmente as perspetivas de crescimento do emprego.
“A nossa ambição é dar asas à TAP para que ela voe cada vez mais e voe cada vez mais longe”, disse o chefe do Governo, considerando que o negócio traz “esperança a todos os portugueses”.
No mercado transatlântico, a TAP identifica também oportunidades decorrentes da futura integração na joint venture A++ no Atlântico Norte, que, segundo a companhia, deverá reforçar a sua competitividade e criar novas perspetivas de crescimento.
TAP destaca novas perspetivas de crescimento
Em comunicado divulgado esta quarta-feira, a TAP Air Portugal deu as “boas-vindas ao grupo Lufthansa, selecionado pelo Governo como futuro acionista privado e parceiro estratégico da companhia”, agradecendo igualmente à Air France-KLM “o interesse demonstrado”, bem como o “profissionalismo, empenho e seriedade com que participou neste processo”.
A transportadora considera que a decisão, anunciada no ano em que celebra 81 anos de atividade, “representa um marco importante na história da companhia e abre novas perspetivas de crescimento, escala e competitividade no mercado global”.
A proposta selecionada contempla a preservação da marca, da sede em Portugal e do hub em Lisboa, assim como o desenvolvimento da operação no Porto, a expansão da frota e a relevância da área de Manutenção & Engenharia.
Carlos Oliveira, presidente do Conselho de Administração da TAP, destacou o percurso da companhia e o contributo dos trabalhadores para esta nova etapa. “Esta decisão abre uma nova perspetiva para o futuro da companhia. Mais do que a entrada de um novo acionista, importa assegurar que esta parceria se traduz em oportunidades concretas de crescimento, numa TAP mais forte e competitiva e na criação de valor para Portugal”, afirma.
“Temos ainda etapas importantes pela frente. Até à conclusão da operação, continuaremos focados na nossa estratégia, nos nossos clientes e nas responsabilidades que temos perante a companhia. Encaramos o futuro com confiança, ambição e sentido de responsabilidade”, acrescenta.
Governo sublinha convergência das propostas
No comunicado divulgado, o Governo refere que ambas as propostas foram “consideravelmente melhoradas nas últimas semanas durante a fase final de negociação, tendo convergido ao nível da proposta estratégica e das condições contratuais”.
O Executivo destaca a “elevada maturidade técnica das propostas apresentadas pelos proponentes” e considera que as condições apresentadas salvaguardam a posição do Estado, permitindo simultaneamente ao parceiro privado assumir a gestão operacional da companhia.
A decisão teve por base a avaliação das componentes técnica, contratual e financeira, tendo o Governo optado pela proposta que considerou “financeiramente mais robusta”, incluindo “um ambicioso plano de crescimento para a TAP e possibilidade de novos investimentos em Portugal”.
O Executivo reitera ainda que o “sucesso da reprivatização” assenta numa estratégia articulada para o setor da aviação, incluindo o lançamento do processo do Novo Aeroporto de Lisboa e a expansão e melhoria da restante rede aeroportuária; num modelo de venda que maximize a concorrência e o prémio de controlo; e na preparação da TAP para o mercado, através da conclusão do plano de reestruturação imposto pela Comissão Europeia e das operações societárias necessárias.
A escolha da Lufthansa marca, assim, uma nova etapa no processo de reprivatização da transportadora aérea nacional, mas a conclusão do negócio permanece dependente das negociações finais e das aprovações regulatórias necessárias.




