A instabilidade geopolítica no Golfo está a alterar os padrões de viagem a nível global, levando os viajantes a privilegiar destinos considerados mais seguros. Um novo estudo da McKinsey & Company revela que Portugal está entre os mercados que beneficiam desta redistribuição da procura, com o Algarve, o Porto e o Alentejo a registarem uma evolução positiva da ocupação hoteleira.
Segundo o estudo “How conflict in the Gulf is remapping global travel”, a procura por viagens mantém-se “resiliente apesar da incerteza geopolítica”, embora os consumidores estejam a adotar uma abordagem mais cautelosa. A McKinsey destaca que os viajantes estão a privilegiar maior flexibilidade e a adiar as reservas até existir “maior visibilidade sobre preços, rotas e condições de segurança”.
Num inquérito realizado pela consultora junto de consumidores italianos, 74% afirmaram pretender viajar durante este verão. No entanto, 63% ainda não tinham efetuado as reservas na altura da realização do estudo. Além disso, 56% indicaram que os seus planos de viagem foram afetados pela situação geopolítica, embora apenas 3% tenham cancelado totalmente as férias, enquanto 24% optaram por adiar a decisão até existir maior clareza sobre a conjuntura internacional.
A segurança assume um peso crescente na escolha dos destinos. Nos Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, entre 60% e 70% dos consumidores afirmam estar a ajustar os seus planos de viagem para os próximos meses devido à situação no Médio Oriente. Segundo a McKinsey, a perceção de segurança surge agora “entre os principais fatores de decisão, à frente de critérios tradicionalmente determinantes, como conveniência ou preço”.
À medida que os viajantes reavaliam destinos e rotas, os fluxos turísticos internacionais estão também a reorganizar-se. A consultora identifica uma deslocação da procura para destinos alternativos e mais próximos das origens dos viajantes, tendência que está a favorecer vários mercados fora das zonas diretamente afetadas pelo conflito.
Neste contexto, Portugal destaca-se pela evolução da ocupação hoteleira entre março e abril, face ao mesmo período do ano anterior. O Algarve registou um aumento de 5,7 pontos percentuais, o Porto de 3,3 pontos percentuais e o Alentejo de 2,7 pontos percentuais. O estudo assinala ainda crescimentos em destinos como Tânger (+9,9 p.p.), Alicante (+8,0 p.p.), Agadir (+7,5 p.p.) e Marbella (+7,1 p.p.).
A reorganização dos fluxos reflete-se igualmente na aviação. Entre março e abril deste ano, o número de passageiros internacionais em ligação através dos principais hubs do Médio Oriente diminuiu cerca de 5,1 milhões face ao período homólogo, o equivalente a uma quebra de aproximadamente 53%. Como consequência, companhias aéreas e passageiros têm recorrido “cada vez mais a rotas alternativas e a ligações diretas”.
A McKinsey considera que esta tendência poderá ter impacto na competitividade dos destinos turísticos, uma vez que, com base na análise de mais de 90 variáveis relacionadas com a procura internacional, “a existência de voos diretos surge entre os fatores com maior influência na capacidade de atrair visitantes internacionais de lazer”.
O estudo alerta também para o aumento dos custos operacionais da aviação. Num cenário ilustrativo analisado pela consultora, um voo entre Londres e Bombaim poderá registar um aumento de custos até 63%, devido às restrições de espaço aéreo e à subida dos preços dos combustíveis. Caso estes custos sejam repercutidos nos passageiros, os preços dos bilhetes poderão aumentar entre 13% e 44%, consoante a rota e a política comercial das transportadoras.
Apesar de alguns mercados beneficiarem da redistribuição da procura, a McKinsey sublinha que “os impactos continuam a ser particularmente significativos nos mercados mais expostos ao conflito”. Entre março e abril, o Dubai registou uma quebra de 75% na receita hoteleira, equivalente a menos 1,8 mil milhões de dólares face ao período homólogo. Abu Dhabi apresentou um declínio de 49%, enquanto o Qatar registou uma queda de 43% e Riade, na Arábia Saudita, de 42%.




