ENTRE O RIO E AS PEDRAS
Por Jorge Mangorrinha
O NEYA Porto Hotel nasce de parte das ruínas do antigo Convento da Madre Deus de Monchique, junto ao rio Douro, como um gesto de reconciliação entre o passado e o presente. A arquitetura respeita o silêncio da história, deixando que a pedra antiga dialogue com o vidro contemporâneo. O edifício, marcado por séculos de fé, ruína e trabalho, renasce agora como espaço de serenidade, conforto e consciência ambiental, tendo sido distinguido com o selo LEED Gold. Cada pormenor reflete harmonia entre luxo e sustentabilidade, entre o sagrado e o humano. O hotel é refúgio e metáfora, um corpo reconstruído de uma cidade que se revê nas suas memórias. À beira-rio, o NEYA é poema e testemunho, uma prova viva de que o tempo, mesmo ferido, pode renascer em forma de luz e hospitalidade.
Uma das imagens fotográficas que trouxe da estada neste hotel é o testemunho de um hóspede chinês, escrito na caligrafia própria:
Gosto de Portugal, gosto do Porto e de Lisboa.
Gosto do rio Douro a correr tranquilamente diante do hotel.
Gosto da tranquilidade daqui, gosto da beleza deste lugar.
Se houver oportunidade, voltarei a Portugal, voltarei ao Porto.
Também espero que os amigos que venham ao Porto tenham tempo e oportunidade de ir à China para sentir a atmosfera e a beleza de lá.
Eu, na China — em Pequim e Tianjin — dou-vos as boas-vindas!
Bem-vindos à China! Pequim! Tianjin!
Bobby
4 de fevereiro de 2026
Este hóspede escreveu com a delicadeza de quem atravessou um rio e ficou a escutá-lo. Diz que gosta de Portugal, e a palavra “gosta” ali não é turismo, é afeição. Gosta do Porto, gosta de Lisboa, como quem enumera não cidades, mas estados de alma. Gosta do Douro a correr diante do hotel, não como postal ilustrado, mas como respiração lenta, água que passa e ensina a permanecer. Há quem visite monumentos; ele visitou a quietude. Gostou da tranquilidade. Gostou da beleza. Gostou desse modo português de deixar o tempo pousar nas fachadas, nas varandas, no rumor das pontes. E prometeu voltar — voltar é verbo de quem levou consigo mais do que fotografias. Voltará ao Porto como quem regressa a uma conversa interrompida. Mas a mensagem não ficou aqui. Abriu-se em ponte.
Ele convida os amigos que chegam ao Porto a atravessarem o mundo e irem sentir a atmosfera da China. Pequim. Tianjin. Não como destinos num mapa, mas como espaços de encontro. Há no gesto uma reciprocidade antiga: quem foi acolhido aprende a acolher.
O Douro corre diante do hotel. E, do outro lado do mundo, há outro rio que também corre. Entre eles, uma página manuscrita e a caligrafia firme de quem percebeu que viajar é isto, ou seja, levar um lugar dentro de si e deixar outro a crescer no coração.
O NEYA Porto Hotel ergue-se à beira rio como uma respiração nova sobre um corpo antigo. É o passado que renasce sem ruído e pedra lavada pela memória, agora tocada pela luz de um tempo que não se impõe, apenas continua. O arquiteto soube escutar o lugar antes de o desenhar: ouviu o rumor do rio, o murmúrio das ruínas do antigo convento, e devolveu-lhes forma, serenidade e permanência. Nada aqui é espetáculo. A arquitetura avança como quem pede licença à paisagem. As linhas são contidas, mas seguras; o espaço, claro e disciplinado. Há um diálogo entre o peso da história e a leveza do presente, entre a pedra que recorda e o vidro que sonha. A matéria é tratada com respeito quase litúrgico, cada parede respira o passado e cada recanto devolve o silêncio das antigas orações.
Até à instalação deste hotel, o convento era um corpo fragmentado sobre a encosta, um sonho de pedra que desceu em cascata até ao rio e ali repousa, exausto, como se o tempo lhe tivesse arrancado o véu e deixado apenas o osso sagrado da sua forma. Foi um conjunto conventual de grande dimensão, um labirinto de volumes e alturas, onde o sagrado se movia entre escadas e corredores, e onde cada degrau era um degrau de alma. Era ruína, ou seja, igreja sem cobertura, edifícios despojados do seu telhado, como corpos abertos ao céu, deixando ver a anatomia da fé que os sustentou. Ainda assim, havia beleza na decadência: os telhados que sobreviviam, de duas, três e quatro águas, pareciam asas partidas de um anjo que ainda tentava erguer voo. A Igreja é de planta longa e solitária, nave única e uma capela-mor retangular, ou seja, o coração geométrico da oração. Nos tempos antigos, o coro alto e o coro baixo dialogavam sobre arcos sobrepostos, como duas vozes de um mesmo cântico. Da sacristia ao campanário, a torre ocidental marcava a fronteira entre o convento e o mundo, entre o recolhimento e o rumor do Porto que subia do rio.
Amplo e retangular, o edifício respirava em três pisos: os dois superiores acolhiam o repouso das freiras, o sono das almas disciplinadas; o piso inferior era o refeitório, um vasto espaço de quarenta metros, de três naves sustentadas por colunas inteiriças, como se cada coluna fosse um voto de silêncio erguido em pedra. A abóbada, apoiada nesses arcos de cantaria, era o céu interior do convento, o firmamento humano onde a fé se fazia estrutura. A oriente, uma torre-mirante oferecia às freiras um respiro, ou seja, o único lugar onde o olhar podia viajar para além dos muros, tocar o horizonte, sentir o vento do Douro. As torres, ambas coroadas de ameias, guardavam a dignidade do conjunto: eram sentinelas do tempo, vigias da memória. Atrás dos coros, o claustro principal abria-se como um pulmão de luz, ao nível da cozinha e da arcaria. Havia ainda um segundo claustro, mais modesto, de tijolo, com um chafariz antigo ao centro — uma nascente de frescura e de silêncio —, onde a água talvez repetisse o nome de Deus. Junto dele, a capela do Senhor dos Passos, humilde e piedosa, lembrava às freiras o caminho da cruz e da paciência. O convento ainda acreditava, porque há lugares que não cessam de rezar, mesmo quando já não têm voz.
Em parte do espaço onde este hotel foi construído, corpo esse mantido, refuncionalizado e restaurado, estava a empresa Osório & Sottomayor, Lda. A sua fundação ocorreu a 25 de agosto de 1945, com atividade no setor industrial no comércio por grosso e importação ou distribuição de máquinas e equipamentos usados na metalomecânica e noutros setores produtivos, num período em que o Porto tinha um tecido industrial forte. Este ramo de atividade encaixa bem no perfil industrial da cidade entre as décadas de 1940 e 1970, quando se concentravam oficinas, fábricas e comércio técnico.
Assinado pelo atelier PK Arquitetos, em colaboração com o Coletivo ODD e com o contributo de Inês Albuquerque Lima, o projeto do hotel nasceu da escuta atenta das ruínas. Foi uma conversa entre séculos. Concluído em 2020, o hotel de quatro estrelas, com os seus 11.000 m², substituiu parte do convento e os antigos armazéns industriais. O claustro ajardinado permanece como um coração verde, respirando luz e serenidade no interior do conjunto. À sua volta, a contemporaneidade revela-se discreta, mas firme: linhas depuradas, que espelham o antigo que ficou, por sinal, ainda pertencente a um dos anteriores dois proprietários, que não vendeu para o projeto hoteleiro.
Sob a direção dos arquitetos Francisca Magalhães Ramalho, Sérgio Bernardo, André Almeida e Gonçalo Moreira, o projeto de arquitetura deste hotel estendeu-se até à decoração, numa coerência rara, onde cada espaço conta a mesma história, porque preservar é também reinventar. O resultado é um todo coeso, onde o património não é cenário, mas protagonista.
Situado junto à Alfândega, em plena zona classificada como Património Mundial da UNESCO, o NEYA Porto Hotel inscreve-se na paisagem como um exemplo de reabilitação sensível e contemporânea, reconhecimento que o levou a ser finalista do Prémio Nacional de Reabilitação Urbana. Entre pedra antiga e vidro novo, entre silêncio conventual e murmúrio citadino, o NEYA Porto Hotel é mais do que um lugar de demora, porque é um espaço onde o Porto se contempla a si próprio, fiel às suas raízes e aberto ao horizonte.
A intervenção feita é, assim, mais do que uma obra de reabilitação e construção, é um ato de reconciliação. Reúne a cidade com o seu rio, o convento com o tempo, a ruína com a vida. Os arquitetos não reconstroem, mas revelam. Deixam que o antigo fale através do novo e que a sombra e a luz coexistam em paz. E quando o entardecer se reflete nas janelas voltadas para o Douro, parece que o edifício respira ao ritmo da água, como se a cidade, por um instante, se lembrasse de tudo o que foi e aceitasse, serena, o que ainda será.
O Porto estende-se em convite, ou em tentação, que dá no mesmo. A Torre dos Clérigos levanta-se como um farol que não guia navios, mas turistas; as caves chamam pelo vinho e pela história, e a Lello continua a guardar a alma da cidade, ainda que agora com bilhete e fila, e o Bolhão renovado já tem outras coisas para vender. O Douro, esse, segue indiferente, cheio e paciente, como se já tivesse visto tudo isto muitas vezes. O cinema faz deste hotel um cenário para que as equipas permaneçam. O filme “Não Falarei” (I Will Not Speak), produzido pela Olhar de Ulisses e realizado por Eloy Domínguez Serén, é uma curta-metragem de ficção e uma presença testemunhada pelo escrito no Livro de Visitas.
Chego ao hotel e o sorriso transborda o balcão comprido com a eficiência calorosa que só a hotelaria bem treinada sabe produzir. Soraia e Leonor estão na linha da frente, simpáticas e rápidas, como quem segura o ritmo das chegadas. Mariana Godinho, chefe de receção, garante a engrenagem invisível onde tudo parece simples, tal como Sandra Ribeiro, chefe de manutenção, que cuida do funcionamento do hotel e se confronta com o ar condicionado que dá frio em vez de calor ou as caixilharias que não vedam plenamente os sons da rua. Ao fundo, um grande écran serve para seguir as chegadas e partidas do aeroporto. Com o assistente de direção, Luís Pereira, combinei a hora de uma visita guiada.
Há 124 quartos — 124 silêncios bem medidos — onde o descanso se apresenta com a promessa de rio e de claustro. As suítes evocam o ferro e o fumo do Porto antigo, numa elegância pensada ao milímetro para parecer espontânea. Nos pavimentos, madeira e alcatifa alternam-se, ora o passo firme, ora o silêncio, como se até o caminhar, ele próprio, tivesse etiqueta. Coube-mo o quarto 419, com vista para o rio, ali bem perto, cheio da água que cresce pelo caminho a montante. Subo ao piso e encontro Alexandra ainda a limpar o quarto. Ela é brasileira e farmacêutica. Está em Portugal há cinco anos para cursar o mestrado nessa área científica.
Este hotel permite-me refletir sobre este assunto.
Chamam-lhes colaboradores como se o nome fosse pequeno para o que são. Como se o gesto de arrumar um quarto ou alinhar um copo fosse apenas isso: um gesto. Por trás da bata ou da camisa branca, há licenciaturas penduradas na parede de quartos arrendados, mestrados guardados em pastas digitais, teses defendidas diante de júris atentos que agora nunca os veem equilibrar três pratos no braço esquerdo.
Nos corredores ou nos salões de hotel, eles movem-se como atores discretos de uma peça sem aplauso. A arte deles é não interromper. A ciência deles é antecipar. A ética deles é servir sem humilhar-se. Há uma dignidade que cresce como raiz entre pedras, porque servir também é compreender. É aprender o ritmo do outro, ajustar o passo, ouvir o não dito. É um exercício constante de empatia, essa disciplina que nenhuma universidade certifica com diploma dourado.
Entre o corredor, a cozinha e a sala, há sonhos adiados, mas não mortos. Há concursos públicos por fazer, projetos por escrever, candidaturas enviadas na madrugada depois do turno. Há a esperança teimosa de que a vida é mais longa do que um contrato a prazo. E, ainda assim, quando a travessa chega à mesa com a elegância de um gesto bem ensaiado, quando o cliente agradece com um sorriso verdadeiro, há uma centelha de sentido, porque o trabalho, qualquer trabalho, quando feito com rigor e humanidade, é também uma forma de cultura.
Talvez um dia regressem às áreas que estudaram. Talvez não. Talvez descubram que, entre aspiradores, pratos e copos, aprenderam uma outra ciência: a do encontro. A de perceber que cada limpeza e cada refeição é um breve teatro da condição humana, ou seja, higiene, fome, desejo, celebração, ausência. E assim permanecem, firmes como colunas invisíveis da hospitalidade, sustentando com saber e silêncio o que muitos julgam simples. Não são apenas empregados, são bibliotecas ambulantes com esfregona ou bandeja na mão, são curricula vivos que escolheram — ou aceitaram — servir enquanto o mundo decide onde os quer sentar.
No Restaurante Viva Porto, a terra e o tempo sentam-se à mesa com ar entendido. A gastronomia portuguesa reinventa-se — ou, pelo menos, finge não se repetir — e o Douro, por perto, parece brindar em cada copo, mesmo quando ninguém levanta o olhar. A sala respira luz dourada e silêncio macio. Os anéis suspensos no teto lembram luas modernas, ou alianças gigantes, dependendo da imaginação. Flutuam sobre mesas de madeira clara, onde o tempo abranda e, por um instante, parece que até a pressa paga entrada. O piso de pinho exibe os veios com orgulho rústico. As pilastras de pedra, originais, erguem-se sólidas, guardiãs de outra época, sustentando grandes vãos abertos ao rio. Lá fora, o Douro vai cheio, espesso e determinado, refletindo as luzes da noite como um espelho inquieto. Dentro, tudo é abrigo, e bem pensado para parecer natural.
Os pequenos almoços foram servidos pelo Gabriel, brasileiro e formado em Biologia e Engenharia Informática. Trata-se de uma oferta normal, sem surpresa.
É o primeiro jantar no Viva Porto e João Pedro — brasileiro de olhar atento e curioso — segura o menu verde como quem abre um mapa sentimental onde cada prato é uma promessa; a luz circular suspensa desenha-lhe um halo discreto, quase cinematográfico, enquanto a mesa se povoa de sinais e sabores: a sopa de cenoura chega quente e aveludada, luminosa como um fim de tarde que se bebe à colher, e logo a omeleta de cogumelos, dourada por fora e macia por dentro, traz um sabor a terra húmida que dispensa tradução; a salada, fresca e vibrante, hesita até que o azeite, generoso e brilhante, a convença de si mesma, porque às vezes basta um fio dourado para que o mundo encontre o seu eixo; e, como se outra noite e outro jantar decidissem aprofundar o enredo, surgem azeitonas galegas divinais com raspa de limão e orégãos, pequenas epifanias salgadas, seguidas do camarão em tempura de “panko”, crocante e leve, com maioneses de lima e “shichimi togarashi” e a surpresa doce da banana, como se o Atlântico conversasse com o Pacífico num sussurro estaladiço; depois, o robalo braseado repousa entre legumes da época, banhado num molho de espumante da Bairrada que cintila como celebração discreta, e a sobremesa — creme “brûlée” de amêndoa com frutos do bosque — quebra-se sob a colher como vidro fino para libertar doçura e memória; a acompanhar, o Casa Amarela Douro Branco Reserva 2022 corre no copo com a elegância mineral do Douro, costurando todos os instantes num só gesto líquido, e agora Beatriz, sob a luz redonda, percebe que jantar pode ser isto: um país inteiro servido em camadas, entre a surpresa e o reconhecimento, entre o que se prova e o que fica a arder, lento e feliz, na lembrança.
O “chef” executivo é Diogo Pimental. Nasceu em Coimbra, a 29 de outubro de 1994, quando o ar já trazia aquele frio leve que pede mãos ocupadas e fogo aceso. Talvez tenha sido aí, no primeiro sopro, que começou a aprender o sentido do calor, ou seja, o calor que mais tarde viria a guardar nas cozinhas, nas panelas, nos pratos que levam conforto antes mesmo de levarem sabor.
Diogo Pimentel começou pequeno, como começam todos os caminhos que valem a pena. Um ajudante de cozinha entre vozes apressadas e vapores quentes, num ritmo onde o tempo não espera por ninguém. Aprendeu a escutar o som do metal a tocar no metal, a cadência do corte, o silêncio concentrado de quem sabe que um gesto mal feito muda o destino de um prato. A cozinha foi-lhe ensinando, pouco a pouco, que não se cresce de repente: cresce-se ao lume brando, como as coisas que precisam de durar. Formou-se em Cozinha e Pastelaria, e depois em Gestão e Produção. Mas a verdadeira escola foi feita de madrugadas, de cansaço nos ombros, de erros que ficaram gravados como marcas invisíveis nas mãos. Cada jornada acrescentou uma camada ao que viria a ser: não apenas um cozinheiro, mas alguém que entende o peso e a beleza de servir.
Presentemente, como “chef” executivo do Grupo NEYA Hotels, carrega a responsabilidade de várias cozinhas como quem guarda um território vivo. No restaurante Viva Porto, como antes no Viva Lisboa, os pratos falam de origem, de respeito pelo produto, de sustentabilidade. Há ali uma tentativa serena de fazer da gastronomia portuguesa um gesto contemporâneo, sem lhe retirar a alma. Como se cada prato fosse uma conversa entre o passado e o presente.
Diogo acredita que as melhores recompensas não se encontram em caminhos curtos, mas que se constroem ao longo de jornadas demoradas, feitas de aprendizagem e superação contínuas. Talvez por isso a sua história não tenha pressa. Vai sendo escrita aos poucos, como se cada prato fosse uma linha e cada serviço uma página. E, no fim de cada dia, fica sempre a mesma ideia: cozinhar é um gesto de cuidado. Um gesto que começa no fogo e termina no rosto de quem prova. Um gesto simples e antigo que, quando feito com verdade, transforma o instante numa recordação duradoura.
Os talheres Vista Alegre repousam com elegância, discretos e seguros de si, refletindo a luz quente dos candeeiros. Há cuidado em cada pormenor: nos copos âmbar, no linho suave, no arranjo seco que observa a cena como quem sabe mais do que diz. E então, o copo branco de rosé, delicado, guarda dentro de si o reflexo das luzes circulares e do rio lá fora. Um brinde silencioso ao Porto, ao Brasil e a esse instante suspenso entre dois mundos que ninguém comenta, mas todos reconhecem.
E o Douro segue cheio. Lá dentro, a sala respira e o jantar transforma-se em memória antes mesmo de terminar, com uma certa consciência de que também foi pensado para isso. Vê-se em plenitude desde o último piso, no Último Sky Bar, que se abre como uma espécie de promessa vertical. Felipe serve o lanche com simpatia eficaz. Na televisão, o Porto Canal fala das coisas desta cidade; o som ambiente é algo tranquilo; ao fundo, o telemóvel de Felipe entrou sem pedir licença e deixa escapar conversas com sotaque, criando uma mistura impensável de vozes e lugares, ou melhor, uma pequena confusão doméstica. E então, com a naturalidade das coisas que já deixaram de surpreender, o robô chega com a refeição vinda do piso 0. Desliza pela sala com a segurança de quem não pede desculpa. Entre o rio ancestral e o empregado mecânico, o Porto continua a fazer o que sempre fez melhor, ou seja, cruzar tempos diferentes e fingir que sempre foi assim.
Num outro dia, subir de novo ao topo do hotel propiciou-me encontrar Marcelo, também brasileiro, com uma simpatia merecedora de ser fotografado para esta rubrica. Na hotelaria, o sorriso é a primeira chave. Antes do cartão magnético, antes do número do quarto, há essa curva discreta que transforma um edifício em refúgio. Quem chega traz o cansaço da estrada, o peso das horas, a ansiedade do desconhecido. O sorriso acolhe tudo isso sem perguntas. Não é ornamento, é linguagem. Traduz culturas, apazigua falhas, aproxima estranhos. Num mundo de reservas digitais e respostas automáticas, ele continua a ser o gesto mais humano do serviço. Pode esquecer-se a vista da janela, a textura dos lençóis ou a bebida no balcão, porém, dificilmente se esquece o modo como se é recebido. Na hotelaria, o sorriso não é protocolo. É promessa.
Neste hotel, há mobiliário da Varaschin, que é uma marca italiana (fundada em 1969) especializada em mobiliário e ambientes para exteriores. O conceito central que desenvolveu chama-se Outdoor Therapy, uma filosofia de design baseada na ideia de que o contacto com o exterior, o conforto e a natureza têm um efeito restaurador no corpo e na mente. Em termos práticos, isso traduz-se em mobiliário ergonómico pensado para relaxamento e convivência, integração entre interior e exterior, atenção à estética contemporânea e ao detalhe artesanal e aposta em materiais sustentáveis e soluções eco-conscientes, ao encontro de uma unidade hoteleira conhecida por integrar uma identidade ecológica e de bem-estar na sua proposta de alojamento e experiência. Designadamente, em áreas exteriores (terraços, zonas lounge, pátios ou “rooftop”); na criação de ambientes de descanso e contemplação com design italiano e no reforço da experiência sensorial do hóspede através do conforto e do contacto com o exterior. O hotel apropria-se do conceito para qualificar os seus espaços exteriores como lugares de pausa, relaxamento e bem-estar, alinhando-os com a sua imagem sustentável e contemporânea.
Por baixo da grande Cozinha Conventual, cujo pavimento era suportado por uma segunda abóbada de pedra, nesta fachada do lado sul para o rio, entre as sólidas paredes e arcarias de pedra, existiam os armazéns e dispensas cujo abastecimentos era feito através do cais fronteiro. É o que diz a placa à entrada do refúgio de serenidade e bem-estar que estava à minha espera, como se o corpo tivesse marcado encontro com o silêncio muito antes de eu ali chegar. Sofia, coordenadora do NEYA Day Spa Porto e terapeuta, recebe com a calma de quem aprendeu a medir o tempo pelo ritmo da respiração dos outros. Tudo se dispõe para que o mundo abrande: o corpo repousa, a alma dissolve-se em aromas e silêncios, e as massagens — nas salas Amarílis, Jasmim e Lavanda — são pequenos territórios de cuidado onde cada gesto parece saber exatamente o que faz. Todos pagam, não há convidados.
Há rituais de chá, tecidos suaves, vozes baixas. O tempo ali é feito de leveza, quase suspenso. Cada toque torna-se uma viagem interior, um reencontro discreto com o essencial, como se o corpo se lembrasse de algo que já sabia e tinha esquecido.
A experiência que me coube começou com um sumo detox, fresco e luminoso, como uma abertura de janela. Depois, já deitado na marquesa, o mundo reduziu-se a sensações simples: o óleo de amêndoa doce, aquecido, espalhado pelas mãos de Sofia com uma precisão tranquila; o perfume leve da lavanda, que parecia baixar o volume aos pensamentos; o corpo, lentamente, a deixar de resistir. Era um cuidado antigo, quase maternal, feito de silêncio e presença.
No fim, um ritual de chá de frutos vermelhos, quente e delicado, devolveu-me ao tempo. Segurei a chávena com as duas mãos, como se ali coubesse ainda um resto daquele abrigo. Foi então, quase em confidência, que Sofia me contou o mistério do túnel. Disse-o com naturalidade: há um túnel, fechado, com a dimensão de um claustro. Um espaço antigo, subterrâneo, onde foram encontrados vestígios de ossadas. E, de súbito, o spa pareceu-me ainda mais fundo, como se aquele lugar de cuidado tivesse crescido sobre camadas de tempo e de vida.
Imagino esse túnel como um corredor de pedra fria, húmida, onde o ar se move devagar e as vozes antigas ficaram presas às paredes. Um espaço onde, outrora, passos ecoaram com outro propósito, por exemplo, monges em recolhimento, doentes em silêncio, gente anónima atravessando a sombra. As ossadas, discretas e sem nome, seriam apenas o que resta do que um dia foi presença. Ali, sob o repouso e os óleos perfumados, dorme um passado que não se mostra, mas que sustenta. Pensei na estranha harmonia disso: acima, mãos que cuidam, chás que aquecem, corpos que se libertam do peso. Abaixo, a memória mineral de quem já não precisa de descanso. Como se o edifício guardasse, ao mesmo tempo, a dor antiga e a cura presente.
Talvez seja por isso que o silêncio ali é tão profundo. Não é apenas o silêncio de um spa. É o silêncio de um lugar que já viu muitas vidas, muitas despedidas, muitos começos. Um silêncio cheio. E, por um instante, pareceu-me que cada massagem, cada aroma, cada pausa, era também uma forma de reconciliar os dois mundos — o que se vive à superfície e o que permanece escondido, intacto, na sombra do tempo.
Este hotel é mais do que refúgio, é consciência, é compromisso. “Sustainability has another meaning”, porque cada gesto foi pensado para respeitar o planeta e o futuro. Com o selo LEED Gold, o hotel ergue-se como exemplo de harmonia entre o conforto e a Terra, entre o luxo e a responsabilidade. Da energia ao silêncio, tudo respira equilíbrio, num propósito que une pessoas, comunidades e o Douro. Assim é o NEYA Porto: um poema à beira-rio, onde o corpo descansa, o espírito floresce, e a hospitalidade ganha nova forma — sustentável, humana, duradoura.
Todo este complexo é um palimpsesto, ou seja, um texto reescrito por reis e monges, por freiras e operários, por arquitetos e poetas. Onde outrora se rezou, martelou-se ferro; onde se ouviu o rumor da oração, ouve-se agora o rumor do rio. Há algo que nunca cessou, nomeadamente, o sopro de continuidade, o espírito que se recusa a morrer, porque Monchique é, antes de tudo, a prova viva de que o tempo também tem fé. Até a ferrugem do tempo é metáfora deste lugar.
Tudo flui e nada permanece, tudo dá forma e nada permanece fixo.
Heráclito
Diz a placa junto a uma das bancadas de lavatório:
“A ferrugem que propositadamente se pretende assumir como valor estético, mas também numa ética de um devir constante. A ferrugem como uma potência do contínuo questionar. Que nos revela uma nova forma, um inesperado, um novo olhar. A ferrugem como a suprema metáfora da infinitude. Uma cicatriz a irromper na pele num descontinuo na superfície anteriormente lisa. Um sobressalto. Uma partícula da surpresa. Um renascer. Um convite a um tempo de dúvida.”
Parte do antigo Convento da Madre Deus de Monchique ergue-se — ou antes, resiste — como uma prece interrompida entre o céu e o rio. A sua pele de pedra guarda séculos sobrepostos: o traço quinhentista que sonhou a fé, o gesto seiscentista que a adornou e o suspiro setecentista que lhe deu alma. Foi paço antes de ser clausura, casa de fundadores antes de ser morada de freiras; depois ruína e memória; agora hotel, o corpo fragmentado de uma história que a cidade insiste em não esquecer.
Descrevendo-o em pormenor, sabe-se que nasceu de uma disputa e de um sonho, de terras antigas, doadas por reis, erguidas sobre o chão da antiga judiaria do Porto, onde outrora se cruzavam vozes, crenças e silêncios. Tudo começou com D. João I, que entregou a Gil Vaz da Cunha o que fora da cidade e do seu povo, e daí brotou uma linhagem, uma teia de poder, fé e ambição.
No século XV, Fernão Coutinho, neto de Gil Vaz da Cunha, quis ali levantar uma casa nobre, um paço que desafiasse os muros e os costumes. O Porto, ciumento da sua liberdade, ergueu-se contra ele, ou seja, a cidade não queria nobres entre as suas ruas, como quem protege a pureza do seu pulsar. Durante quatro anos a contenda arrastou-se, até que o rei D. Afonso V, com a pena e o poder, concedeu o privilégio da permanência breve, quarenta e cinco dias de nobreza tolerada, repartidos em respirações de quinze dias. Era um pacto entre o orgulho da cidade e a obstinação da linhagem. Os Coutinho persistiram. O tempo mudou, os reis sucederam-se, e em 1503 D. Manuel I rasgou o interdito: a família podia, enfim, habitar o Porto em permanência. As casas também se transfiguram, e o que fora morada de poder tornou-se, um século depois, morada de oração.
Em 1533, quando o desejo de eternidade já crescia sobre os alicerces do paço, pediu-se ao Papa autorização para fundar um convento feminino, e antes mesmo que a bênção chegasse, Diogo de Castilho, mestre da pedra e da fé, traçava linhas no papel e iniciava a metamorfose. Em 1535, já falecido Pêro da Cunha Coutinho, a Bula do Papa Paulo III consagrava o lugar: ali se erguia o Convento da Madre Deus de Monchique. Três anos depois, as monjas entraram, levando consigo o silêncio e o perfume das promessas.
O convento nasceu da adaptação da residência nobre da família em Monchique, com autorização papal concedida em 1535. As obras começaram antes dessa autorização e, por volta de 1538, já estava instalada a comunidade religiosa. A iniciativa resultou da afirmação social e patrimonial da família, depois de longos conflitos com a Câmara do Porto acerca do direito de manter casas nobres dentro da cidade.
A igreja original tinha planta longitudinal, capela-mor retangular e nave única iluminada por quatro janelas cuja cobertura abobadada em cruzaria de ogivas, de linguagem construtiva igual à utilizada no refeitório de Santa Cruz de Coimbra, também da autoria de Diogo de Castilho. Além disso, tinha coro alto e baixo, sacristia, um campanário em forma de torre ameada, pórtico principal em estilo manuelino de arco pleno enquadrado por pilastras e colunas, ladeadas por medalhões com esculturas, e ao centro as armas dos fundadores, rematado por um frontão triangular interrompido, com duas coras de espinhos colocadas junto dos vértices do triângulo, e ao centro uma cartela elíptica assente em pequeno pedestal com as chaves de São Pedro e a coroa papal.
Ao longo dos séculos, o conjunto sofreu alterações, incluindo intervenções na capela-mor no final do século XVII. No século XIX ainda se destacava como um edifício imponente, com fachada ricamente ornamentada, portada escultórica e elementos simbólicos religiosos e heráldicos. Parte significativa dessa riqueza artística degradou-se ou desapareceu, restando fragmentos da estrutura e da decoração original.
Em 1834, o eco do decreto liberal extinguiu as ordens religiosas, e as freiras partiram, deixando o convento vazio como um coração depois da fé. O 1.º Conde das Antas, Francisco Xavier da Silva Pereira, pediu que se preservasse o templo — “um primoroso monumento de arte”, escreveram — mas o destino tinha outros planos. Veio a febre da indústria: fundição, cerâmica, mobílias, serralharia, cortiça, massas. O incenso deu lugar ao fumo, o cântico ao ruído das máquinas. O convento, que fora templo, tornou-se oficina; o que fora clausura, tornou-se fábrica. Era o século XIX, o tempo do ferro e do lucro, o tempo em que até as pedras tiveram de trabalhar.
João Baptista Ribeiro, em resposta a um ofício de 21 de agosto de 1839, que lhe enviara o 1.º Conde das Antas sobre a possibilidade de vender-se ou conservar-se “pela sua raridade ou primor d’arte, as guarnições de madeira dourada do extinto Convento de Monchique”. Três dias depois, em resposta, dá-nos uma visão do interior da igreja:
“Mal se pode explicar a suma profusão de riqueza que ostenta esta igreja. Contém sete altares de um carácter riquíssimo pelo trabalho da talha, ornatos, relevos e figuras que apresenta, sendo quase tudo dourado e o resto pintado e estofado por modos muito variados.”
Estes séculos foram de devoção e de arte. Luísa da Madre Deus, abadessa, mandou erguer muros sobre o rio; Manuel Vieira, Manuel Moreira e João Moreira deram nova forma à capela-mor. No interior, o ouro da talha iluminou o espaço, porque a luz do barroco beijava as paredes como quem beija uma ferida antiga.
Nada é eterno.
Ainda assim, o passado insistia em ressurgir. Em 1863, uma lápide hebraica foi encontrada, ou seja, um testemunho remoto da antiga judiaria sobre a qual tudo se erguera. E em cada camada de terra, em cada parede gasta, repousava o murmúrio de todas as épocas — o sagrado, o profano, o humano.
O tempo, esse escultor invisível, fez do convento o que faz de tudo: transfigurou-o em ausência e reabilitou-o em frequência. As paredes que abrigaram oração e disciplina são presenças do luxo e do prazer. O sagrado tornou-se civil, o silêncio tornou-se eco e a vontade tornou-se belo e acolhedor. Quem se detém diante dele sente algo maior do que a matéria: sente o espírito da beleza sobrevivente, o sopro de um tempo em que a fé e a arte se confundiam, e se confundem de novo.
No silêncio dos séculos, ergue-se na memória o desenho do claustro, traçado com delicadeza por Joaquim Cardoso Vitória Vilanova. O chafariz murmura ainda nas linhas do papel, e a capela do Senhor dos Passos, silenciosa, guarda ecos de orações há muito dispersas. Cada traço do desenho respira história, servindo de guia para quem procura entender a organização e a alma dos espaços conventuais que um dia vibraram de vida.
Em síntese, o convento foi um dos mais notáveis edifícios religiosos do Porto renascentista, resultante da iniciativa de uma família nobre e do trabalho de um importante arquiteto, refletindo tanto a história urbana da cidade como a evolução da sua arquitetura religiosa.
Da planta longitudinal, restam sombras. A capela-mor, retangular, é como o coração que ainda pulsa, e a nave única – que outrora se enchia de cânticos e depois o rumor do vento que passa pelas janelas abertas, quatro olhos rasgados para um céu que já não abençoa – é, agora, um dos espaços mais admiráveis do complexo hoteleiro e patrimonial.
As fotografias antigas, em tons de preto e branco, capturam a ruína junto ao rio Douro, vistas de um ângulo elevado que quase toca o céu. As pedras gastas pela memória parecem murmurar segredos da cidade do Porto, enquanto o rio, impassível, observa a passagem do tempo. Em algumas imagens, vestígios da envolvente urbana do século XIX ou início do XX insinuam a vida que circulava pelo convento, lembrando que os muros de pedra eram também parte de um tecido humano pulsante. Uma outra fotografia documental revela o conjunto conventual integrado na cidade que o abraçava, ajudando a imaginar o Porto antes que o abandono ou a ruína silenciassem grande parte de sua presença. Há também registos mais recentes, onde a ruína se mostra antes de qualquer reforma, antes que mãos modernas tentassem devolver-lhe forma, ainda que o espírito permanecesse intocado. Entre linhas, fotografias e mapas, a memória do convento permanece viva, convidando-nos a caminhar com olhos atentos, descobrindo a história que o tempo deixou escrita nas pedras, nas ruas e no coração do Porto.
Em 2001, arqueólogos escavaram o ventre do convento, à procura das suas memórias soterradas, trabalho dirigido pelo professor de Arqueologia Armado Coelho Ferreira da Silva, na antiga refinaria situada em espaço do convento. Em 2009, um novo projeto, traçado pelo arquiteto José Paulo dos Santos, sonhou devolver-lhe a dignidade, ou seja, um hotel, um abrigo contemporâneo erguido sobre as ruínas do tempo, entre o Douro e a eternidade, porém, como se referiu, não foi construído esse projeto.
O antigo Convento da Madre Deus de Monchique continua a rezar. Reza pelos que o olham e ainda o entendem. Reza, sobretudo, pela arte de permanecer e se revigorar. Ele repousa sobre a margem onde o Douro ainda murmura segredos de pedra e silêncio. Ali, o tempo parece deter-se num instante suspenso entre o sagrado e o profano, entre o que foi oração, o que restou ruína e agora hotel. As suas paredes, antes gastas e agora vivas, respiram memórias de clausura e de promessa e, agora, tempos de modernidade. O convento foi corpo e ferida, abrigo e desamparo, como se a fé tivesse ficado presa nas rendas do ar e o eco dos passos das freiras se misturasse com o rumor dos amantes que por ali passam, sem saber que caminham sobre histórias que ainda sangram.
E é então que o espírito de Camilo Castelo Branco parece suspender-se no ar, como se ainda percorresse as arcadas silenciosas. “Amor de Perdição” poderia ter germinado ali, naquele claustro feito de sombras longas e de amores condenados à clausura do destino. Simão Botelho e Teresa de Albuquerque poderiam ter trocado olhares nas frestas estreitas, por onde a luz entra oblíqua, semelhante a um perdão que chega sempre tarde demais.
O convento e o romance reconhecem-se na mesma dor: um, corroído pela decadência paciente dos séculos; o outro, consumido pela chama de uma paixão impossível, que tudo devora e nada redime. Ambos guardam o timbre trágico de um certo fado português, amar para além da medida, amar até ao limiar da destruição, como se o excesso fosse a única forma legítima de sentir.
Mais além, o Cais da Ribeira fervilhava de partidas e chegadas. As embarcações vindas de montante e de jusante aportavam por múltiplas razões, entre elas, a sombria tarefa de recolher os condenados ao degredo. E junto a Monchique, onde a corrente do Douro se espraia com aparente placidez, encontrou o romancista o cenário derradeiro para as últimas páginas do seu drama. Dali, do mirante do convento, Teresa de Albuquerque despede-se para sempre de Simão. Ele parte degredado para a Índia. Entre o claustro e o rio, entre a pedra e a água, fica suspenso o instante final, esse adeus que é, ao mesmo tempo, amor absoluto e sentença irrevogável.
Monchique é o túmulo e o altar. Camilo é o escriba e o penitente. Entre ambos, há um fio invisível que cose o destino das pedras e das palavras. Neste hotel, talvez ainda se escute o rumor de uma pena a riscar o papel, escrevendo o que o coração não devia sentir. E talvez, quando o vento sopra do rio, ele traga consigo o eco de uma frase que resume o país inteiro: — “Amar é perder-se.”
“Amor de Perdição”, publicado por Camilo Castelo Branco em 1862, é uma das obras mais intensas e trágicas da literatura portuguesa. O próprio autor a escreveu num momento de profunda dor — preso na cadeia da Relação do Porto, acusado de adultério —, e é dessa clausura que nasce a voz do desespero e da paixão que percorre o livro. A história decorre na cidade de Viseu, no século XIX. Simão Botelho, jovem nobre e impulsivo, apaixona-se perdidamente por Teresa de Albuquerque, filha de uma família rival. É um amor proibido, condenado desde o primeiro olhar. As duas famílias, inimigas e orgulhosas, recusam qualquer aproximação, e é nesse muro de proibições que o amor cresce, clandestino e absoluto. Quando Teresa é encerrada num convento para apagar a chama da paixão, Simão enlouquece de dor. O destino, no entanto, é mais cruel, porque, ao defender o nome de Teresa, ele comete um crime e é condenado à prisão. Mesmo recluso, continua a escrever-lhe cartas, numa correspondência que se torna o único espaço de liberdade e de vida possível. Teresa, por sua vez, definha no convento, é a mártir do amor, consumida pela espera. E quando Simão é deportado para a Índia, ela morre de tristeza, antes mesmo que ele embarque. Simão, ao saber da morte de Teresa, sucumbe durante a viagem, com o nome dela nos lábios. Morre o corpo, mas permanece a ideia — o amor que resiste à morte, o sentimento que nenhum cárcere, convento ou rio consegue destruir.
A obra é, ao mesmo tempo, romance e confissão, ficção e espelho da vida de Camilo, porque o escritor viveu o seu próprio “amor de perdição” com Ana Plácido, mulher casada por quem foi preso. Assim, o romance é mais do que uma história de amores impossíveis, é a expressão mais pura do fatalismo português, onde o amor é força e ferida, salvação e condena. No fim, o leitor fica com a sensação de que o verdadeiro cárcere não é o das grades nem o das paredes conventuais, mas o do coração humano, esse lugar onde o amor e a perdição são apenas dois nomes da mesma eternidade.
Por Jorge Mangorrinha, escritor de viagens. No TNews, presentemente, com a rubrica mensal Há História no Hotel.



