A Lufthansa prevê sinergias líquidas anuais de até 450 milhões de euros com a TAP e discutiu com o Governo português um caminho para adquirir a totalidade do capital da companhia aérea portuguesa, anunciou esta quinta-feira, 15 de outubro, o grupo alemão.
Numa conferência telefónica com analistas e investidores, o presidente executivo da Lufthansa, Carsten Spohr, considerou que a TAP foi uma “oportunidade” que o grupo não podia perder, destacando a complementaridade entre as redes das duas companhias e o potencial de crescimento no mercado sul-americano, sobretudo no Brasil.
“A TAP foi uma oportunidade que não podíamos perder”, afirmou o gestor, sublinhando que a integração da transportadora portuguesa constitui uma oportunidade estratégica de longo prazo. “Esta é uma decisão geracional. Não fazemos isto para os próximos dois, três ou quatro anos. É algo em que temos de pensar em décadas”, acrescentou.
Segundo Carsten Spohr, embora a entrada inicial no capital da TAP seja minoritária, o grupo alemão discutiu com o Governo português um caminho para adquirir posteriormente a totalidade da companhia. “Há um caminho que desenhámos com o Governo português, que discutimos com o Governo português, para chegar a 100% do capital, ou talvez com algumas ações a permanecerem nas mãos dos trabalhadores”, afirmou.
Na quarta-feira, o Governo admitiu avançar com uma segunda fase da privatização, que poderá permitir à Lufthansa adquirir os restantes 50,1% do capital da transportadora, ressalvando, contudo, que essa decisão dependerá de uma avaliação política.
O diretor financeiro da Lufthansa, Till Streichert, confirmou que o grupo apresentou uma proposta de 1.300 milhões de euros para adquirir os restantes 50,1% da TAP, embora tenha salientado que esta segunda fase constitui um processo separado e sujeito a novas negociações.
A proposta prevê ainda a possibilidade de o Estado português se tornar acionista do grupo Lufthansa, com uma participação de até 5%.
Lufthansa prevê sinergias de até 450 milhões de euros por ano
Durante a mesma conferência, Till Streichert explicou que a Lufthansa prevê sinergias líquidas anuais de até 450 milhões de euros com a integração da TAP, sendo que a maior parte dos ganhos deverá ser gerada na transportadora portuguesa.
As sinergias identificadas deverão resultar da otimização das redes de voos, da cooperação comercial, das compras conjuntas e da integração das atividades de manutenção e transporte de carga das duas empresas.
Questionado sobre o prazo necessário para concretizar estes ganhos, o diretor financeiro estimou que cerca de dois terços das sinergias previstas poderão ser alcançados em três anos, apontando para aproximadamente quatro anos até à concretização da totalidade do potencial identificado.
O montante de até 450 milhões de euros corresponde ao potencial de sinergias líquidas anuais recorrentes no conjunto da TAP e do grupo Lufthansa, tendo em conta os custos de integração e outros fatores.
“Estas sinergias não dependem de uma participação maioritária”, afirmou Till Streichert, sublinhando que o modelo de governação acordado com o Estado português permite concretizar os ganhos previstos ainda durante a fase em que a Lufthansa será acionista minoritária.
O responsável explicou ainda que foi acordado com o Governo português um mecanismo de aumento progressivo da distribuição de dividendos, que poderá atingir 75%, permitindo à Lufthansa beneficiar dos ganhos gerados na TAP enquanto detiver uma participação minoritária.
Uma eventual passagem a uma posição maioritária poderá gerar sinergias adicionais, mas não constitui uma condição necessária para a viabilidade financeira do investimento inicial, acrescentou.
O diretor financeiro adiantou ainda que a Lufthansa espera que a aquisição contribua positivamente para os resultados por ação do grupo no primeiro exercício completo após a conclusão da operação e que gere uma rentabilidade de “dois dígitos sobre o capital investido”.
Conclusão da operação prevista para o primeiro semestre de 2028
Carsten Spohr defendeu que, após a aprovação da operação pelas autoridades da concorrência, prevista até ao primeiro semestre de 2028, as equipas do grupo devem passar a considerar a TAP um “membro da família”, sem esperar pela aquisição da totalidade do capital.
O gestor destacou ainda a situação financeira da transportadora portuguesa, afirmando que, tanto quanto se recorda, será a primeira vez que a Lufthansa adquire uma companhia aérea já lucrativa.
“Penso que é a primeira vez que compramos uma companhia aérea lucrativa”, afirmou, acrescentando que a TAP apresenta atualmente uma margem de rentabilidade superior à das companhias que integram o grupo.
Questionado sobre a possibilidade de Bruxelas exigir a cedência de slots a companhias concorrentes para autorizar a operação, o presidente executivo da Lufthansa evitou antecipar eventuais medidas, defendendo que essa avaliação cabe às autoridades europeias da concorrência.
Spohr mostrou-se, contudo, otimista quanto à análise da Comissão Europeia, considerando que a sobreposição entre as redes da TAP e da Lufthansa é inferior à que existiria com outros potenciais compradores.
A Lufthansa foi selecionada na quarta-feira pelo Governo português para adquirir inicialmente 44,9% da TAP, por 1.025 milhões de euros, podendo a participação aumentar até 49,9% caso os trabalhadores não subscrevam a totalidade das ações que lhes estão reservadas.
Till Streichert assegurou que a aquisição será financiada integralmente com disponibilidades de caixa do grupo alemão, sem necessidade de emitir novas ações, acrescentando que a operação não comprometerá a flexibilidade financeira da Lufthansa.




