“Mais do que um desporto, o golfe é uma atividade económica premium do turismo em Portugal”

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O golfe quer afirmar-se como muito mais do que uma modalidade desportiva. Em entrevista ao TNews, Nuno Sepúlveda, presidente do Conselho Nacional da Indústria do Golfe (CNIG), defende um reposicionamento premium para o setor e sustenta que a indústria é um “braço armado do turismo em Portugal”, destacando o seu papel na atração de turistas de maior valor acrescentado, na mitigação da sazonalidade e na valorização dos destinos. 

“O golfe não é aquilo que se fez crer durante muitos anos. Não é um desporto de elite, não é algo que faz mal ao ambiente, e queremos ajudar a desmistificar isso. Somos um braço armado do turismo em Portugal”, sublinha Nuno Sepúlveda, que acumula também as funções de co-CEO da Details – Hospitality Sports & Leisure, entidade que gere campos de golfe no país, incluindo Vilamoura, Palmares, Aroeira e Vale Pisão. “Mais do que um desporto, o golfe é uma atividade económica premium do turismo em Portugal”.

No total, existem cerca de 90 campos de golfe em território nacional, dos quais 95% são representados pelo CNIG. Segundo um estudo da Nova SBE, realizado a pedido do Conselho, a indústria do golfe contribuiu com 760 milhões de euros para a economia nacional entre 2014 e 2024, através do turismo residencial e do mercado imobiliário.

“O grande valor do negócio está em tudo aquilo que existe à volta do golfe. O [desporto] talvez seja até a parcela mais pequena. Todos os serviços à volta do golfe – desde os voos, os hotéis, os rent-a-cars, os táxis, os restaurantes – são o maior valor agregado”, destaca o responsável.

De acordo com os dados mais recentes, citados por Nuno Sepúlveda, a atividade transversal associada ao golfe terá representado, em 2024, cerca de “4,5 mil milhões de euros” em Portugal, excluindo o imobiliário. “O golfe é só um enabler que cria a capacidade para que estes negócios se desenvolvam”, acrescenta, apontando que perfaz “uma grande percentagem do PIB do turismo em Portugal”.

Atualmente, o setor encontra-se numa nova fase de evolução. Embora considere que o negócio “já está consolidado, em particular no Algarve, onde a maior parte dos campos de golfe está [localizada]”, Nuno Sepúlveda acredita que existe ainda um importante caminho de valorização a percorrer.

“O negócio do golfe existe em Portugal há 15 ou 20 anos, mas ainda não tem a maturidade de um posicionamento mais premium, e isso é algo que está a acontecer agora”, explica. Segundo o presidente do CNIG, vários empreendimentos estão a investir na renovação dos seus ativos para responder às exigências de novos mercados internacionais, “como o norte-americano, o canadiano e o asiático”.

“O tempo de vida útil de um campo de golfe vai entre 20 a 40 anos. A maioria dos campos de golfe em Portugal está na casa dos 30 anos, por isso está na altura de os renovar”, afirma. “Portugal é bem visto como um produto que pode ser premium, em que as pessoas estão dispostas a pagar mais, mas os campos de golfe têm de se atualizar, da mesma forma como os hotéis e os aviões se estão a atualizar”.

“Todos os serviços à volta do golfe – desde os voos, os hotéis, os rent-a-cars, os táxis, os restaurantes – são o maior valor agregado”

O papel do golfe no turismo: da atração de turistas à mitigação da sazonalidade

Para Nuno Sepúlveda, o golfe assume um papel essencial no turismo em Portugal. Embora reconheça que a perceção do setor nem sempre foi essa, considera que a visão sobre a sua relevância tem vindo a evoluir.

“Eu vejo o golfe como crítico e central [na estratégia turística nacional]. Como os Governos o veem é que é a questão”, afirma o presidente do CNIG, sublinhando que a atividade “é fundamental para a coesão nacional em regiões como as ilhas, o Norte e o Algarve, bem como para a questão de haver empregos durante o ano todo e de quebrar a sazonalidade”.

Além da sua importância para o turismo, destaca também o efeito multiplicador do golfe no setor imobiliário. “A maior parte dos desenvolvimentos imobiliários em resorts existe por causa dos campos de golfe”, refere, acrescentando que estes ativos contribuem para valorizar os empreendimentos e reforçar a atratividade dos destinos.

Numa altura em que Portugal continua a registar um crescimento turístico significativo, Nuno Sepúlveda defende que o país deve apostar mais na valorização do que no aumento dos volumes. “Somos um país pequeno e, por ser pequeno, temos de nos posicionar melhor. Não temos capacidade para ter estas pessoas todas”, sustenta. “Há uma limitação nos aeroportos, em particular em Faro e em Lisboa, que impacta o golfe como impacta toda a atividade económica e turística em Portugal”.

Na sua perspetiva, a modalidade pode desempenhar um papel importante nesse reposicionamento no segmento médio-alto. “O golfe tem a capacidade de posicionar, subsequentemente, os hotéis e as próprias companhias aéreas”, defende. O seu contributo torna-se particularmente evidente na época baixa. Segundo o presidente do CNIG, trata-se de “um desporto e um negócio de inverno”, capaz de gerar procura em períodos em que outros segmentos turísticos registam menor atividade. 

“O negócio do golfe, que vale 20% do PIB do turismo em Portugal, vale muito mais em determinados meses. Estamos a falar, se calhar, de 50% em março, abril, maio, outubro e novembro, que é a época alta do golfe”, refere. “É quando as pessoas do Norte da Europa viajam para Portugal, é quando o Algarve ou as ilhas sentem mais dificuldades em ter clientes, porque não há praia, não há aquele turismo típico”.

“Há uma limitação nos aeroportos, em particular em Faro e em Lisboa, que impacta o golfe como impacta toda a atividade económica e turística em Portugal”

No que diz respeito aos mercados emissores, a Inglaterra, a Alemanha e os países escandinavos continuam a liderar a procura, uma tendência que se tem mantido “nos últimos dez anos”. No entanto, começam a surgir novas geografias com ritmos de crescimento mais acelerados.

“Começa-se a ver agora uma alteração: estão a entrar os Países Baixos, os Estados Unidos e o Canadá. [Os principais mercados emissores] continuam a crescer, mas existem outros mercados novos a crescer mais rápido. São mercados importantes devido à sua capacidade financeira, que muito ajuda o nosso negócio”, afirma.

O responsável aponta também para uma evolução positiva da procura norte-americana, impulsionada pelas ligações aéreas diretas entre os Estados Unidos e o Algarve, com a United Airlines. “Duplicámos o mercado americano no Algarve, mas a base era muito baixa. O mercado americano, em alguns campos do Algarve, pode valer 3% e antigamente não chegava a 1%. Isto não é verdade para todos os campos, porque nem todos têm a capacidade ou a qualidade para receber o mercado americano, que é muito exigente”, indica.

Já o mercado nacional continua a ter uma expressão limitada, embora apresente sinais de crescimento. “É um negócio de nicho em algumas zonas de Portugal, mas na generalidade representa muito pouco, infelizmente. Está a crescer e esperemos que cresça muito mais, porque nos daria uma estabilidade e um garante de futuro ter um mercado interno forte”, acrescenta.

“O golfe não é aquilo que se fez crer durante muitos anos. não é um desporto de elite, não é algo que faz mal ao ambiente, e queremos ajudar a desmistificar isso. Somos um braço armado do turismo em Portugal”

Grandes eventos, estudos e sustentabilidade são os pilares da ação do CNIG

Eleito presidente da direção do CNIG em maio de 2024, Nuno Sepúlveda traçou três prioridades estratégicas para o mandato: reforçar a notoriedade internacional do destino através de grandes eventos, aprofundar o conhecimento sobre o impacto do setor e promover a sustentabilidade da atividade.

O primeiro objetivo, explica, passa por “fazer parte da solução para trazer um grande evento de golfe para Portugal novamente”, uma meta que está já concretizada com a realização do Portugal Invitational, novo evento do PGA Tour Champions, em Vilamoura, entre 31 de julho e 2 de agosto deste ano.

Outra das prioridades tem sido a produção de conhecimento e dados que permitam quantificar a relevância da indústria. “Começámos numa base baixa, com pouca informação”, admite, referindo que existiam poucos estudos sobre o impacto económico, fiscal e imobiliário do golfe em Portugal.

Nesse sentido, o Conselho tem vindo a desenvolver trabalhos em parceria com entidades como a Nova SBE e a Ernst & Young. “Queremos arranjar estudos suficientes para que o golfe possa ser defendido e promovido”, afirma Nuno Sepúlveda. Em particular, destaca que “o estudo sobre o impacto financeiro do golfe em Portugal vai ser anual”, acrescentando que a edição referente a 2025 deverá ser apresentada nos próximos meses e que as expectativas apontam para “um crescimento significativo” dos indicadores. 

A sustentabilidade constitui o terceiro eixo estratégico da atual direção. “Vamos avançar com um estudo sobre a água e os campos de golfe, juntamente com a Universidade do Algarve, a Universidade Nova de Lisboa e a Universidade de Évora. Este estudo tem sido uma dificuldade de financiamento, mas queremos arrancar nos próximos meses”, informa.

“Temos vindo a conseguir cumprir [estes objetivos], devagarinho e com algum esforço, mas chegaremos lá”, conclui.

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