Apesar de um contexto global marcado por incerteza económica, tensões geopolíticas e pressão crescente sobre os orçamentos, a indústria MICE mantém uma trajetória de crescimento e resiliência. A análise foi apresentada por Catherine Chaulet, presidente e CEO da Global DMC Partners, numa sessão dedicada às tendências observadas em 2025 e às perspetivas para 2026.
Na apresentação, realizada esta sexta-feira, 9 de janeiro, no segundo dia da convenção anual da Global DMC Partners, em Lisboa, Catherine Chaulet começou por traçar um retrato do setor em 2025.
Catherine Chaulet destacou um conjunto de desafios estruturais, desde a instabilidade geopolítica à inflação, passando pelo impacto da inteligência artificial. “As situações geopolíticas, em constante evolução e muitas vezes assustadoras, criaram uma enorme incerteza económica”, referiu, sublinhando que, apesar de alguns indicadores apontarem para uma desaceleração da inflação, os custos reais continuam a pressionar o setor. “Mesmo mantendo os mesmos orçamentos, os preços estão tão mais altos que, no final, temos muito menos margem de manobra”, exemplificou, apontando a área de F&B como um dos casos mais evidentes.
Sobre a inteligência artificial, reconheceu o seu potencial, mas também os efeitos disruptivos, lembrando que vários clientes, sobretudo do setor tecnológico, registaram despedimentos associados à sua adoção. Alertou ainda para a perceção, cada vez mais presente, de que os profissionais seriam facilmente substituíveis: “Esta ideia de que a IA pode fazer o nosso trabalho melhor e mais barato não é verdadeira, mas ouvimo-la com frequência, e muitos profissionais têm de justificar o seu papel”.
As dificuldades estendem-se ainda a tarifas comerciais e, sobretudo, à mobilidade internacional. “Hoje em dia, há mercados em que, se organizarmos uma conferência com um público verdadeiramente internacional, simplesmente não conseguimos levar as pessoas para determinados destinos”, explicou, referindo que muitos clientes pedem recomendações com base na facilidade de obtenção de vistos.
Apesar deste cenário, Catherine Chaulet sublinhou que o MICE continua a ser um forte motor económico e, acima de tudo, uma atividade centrada nas pessoas. “O turismo representa cerca de 10% do PIB global e suporta milhões de empregos”, lembrou.
Paradoxo entre incerteza e otimismo

Quanto às perspetivas económicas, Catherine Chaulet reconheceu diferenças regionais, com alguns mercados europeus a enfrentarem um abrandamento em 2026, enquanto os Estados Unidos deverão registar crescimento. Ainda assim, sublinhou que o setor mantém uma trajetória positiva. “Mesmo que o ritmo pareça mais lento, existe uma trajetória de crescimento para o futuro”, afirmou.
Os dados apresentados revelam que cerca de metade dos clientes mantêm o investimento em MICE estável, enquanto cerca de 30% reportam aumentos. “Isto significa que, na prática, há menos margem, porque os custos continuam a subir”, explicou.
Este contexto traduz-se num paradoxo que caracteriza o setor. “Por um lado, há muita incerteza; por outro, há muito otimismo”, resumiu, referindo que, embora o World Sentiment Index se mantenha estável em 2025, o World Uncertainty Index está “em níveis extremamente elevados”. Ainda assim, o outlook do MICE aponta para um crescimento anual composto na ordem dos 10%, considerado “forte e consistente”.
“Cada dólar investido em meetings e incentivos gera 12,50 dólares em receitas e 3,80 dólares em lucros”.
O valor do presencial e o retorno do investimento
A responsável reforçou a importância dos encontros presenciais, aprendida durante a pandemia. Nesse sentido, destacou os dados de retorno do investimento: “Cada dólar investido em meetings e incentivos gera 12,50 dólares em receitas e 3,80 dólares em lucros”.
A relevância do contacto direto mantém-se clara. “Um encontro presencial é mais impactante do que três reuniões virtuais”, afirmou, acrescentando que 75% das pessoas preferem eventos presenciais.
A apresentação abordou ainda o crescimento do turismo de luxo, num contexto de economia em ‘K’. “O mercado de luxo continua a crescer, enquanto o turismo de lazer mais massificado está a abrandar”, explicou, referindo que as viagens de luxo registaram um crescimento de 38% em termos homólogos. Segundo a responsável, este fenómeno beneficia também o MICE, sobretudo nos segmentos de incentivos e conferências, tradicionalmente associados a hotéis de quatro e cinco estrelas e a experiências mais personalizadas.
Esta tendência reflete-se também nas companhias aéreas, que estão a reforçar a oferta premium. “Mesmo companhias que não associamos ao luxo estão a apostar em segmentos como a premium economy, porque a procura está lá”, observou.
“Um encontro presencial é mais impactante do que três reuniões virtuais”
Principais tendências para 2026

Entre as principais tendências para 2026, Catherine Chaulet destacou a combinação entre o FOMO – o receio de “ficar de fora” – e a procura por agendas mais lentas e significativas. “As pessoas querem estar presentes, mas também querem mais tempo, agendas mais equilibradas e experiências com significado”, explicou, sublinhando que esta abordagem pode também beneficiar os orçamentos.
A par disso, destacou a importância crescente das parcerias e da resiliência. “O poder da parceria nunca foi tão importante”, afirmou, num contexto de programas cada vez mais complexos e de última hora. “E se há uma qualidade essencial para um meeting planner hoje, é a resiliência”.
A sustentabilidade e a responsabilidade social continuam no centro das decisões, mas com uma abordagem mais prática. “Já não se trata apenas de medir o consumo de plástico ou combustível, mas de participar e apoiar as economias locais”, explicou, destacando o papel dos eventos na criação de impacto positivo nos destinos.
“Parceria, resiliência e criatividade são hoje os pilares fundamentais para os meeting planners”
A escolha dos destinos é cada vez mais influenciada por questões de segurança, embora Catherine Chaulet tenha alertado para a diferença entre perceção e realidade. “Muitas vezes, o que lemos nas notícias não corresponde ao que se passa no terreno”, referiu, acrescentando que, em situações de crise, “um DMC é o melhor apoio que se pode ter”.
Por fim, abordou a adoção da inteligência artificial, reconhecendo a sua crescente utilização no setor. “Cerca de 62% dos planners já utilizam IA, e este número continua a crescer”, afirmou, sublinhando, contudo, que a tecnologia vai muito além de ferramentas básicas e não substitui a experiência humana.
A concluir, Catherine Chaulet sintetizou a mensagem central da apresentação: “Parceria, resiliência e criatividade são hoje os pilares fundamentais para os meeting planners”. E reforçou o posicionamento da Global DMC Partners: “Criámos esta rede para sermos o melhor recurso para os nossos clientes, com qualidade, fiabilidade, conhecimento local e uma aposta contínua na formação”.




