Sexta-feira, Abril 17, 2026
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“Não estamos a dar as condições necessárias para que os migrantes se sintam integrados”

Ana Jacinto, secretária geral da Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP), defendeu que o setor do turismo “não pode viver sem os migrantes” e que, na verdade, “não estamos a dar as condições necessárias para que eles se sintam integrados, porque temos inúmeros obstáculos que não estamos a saber contornar”.

A profissional falava na 2.ª edição da conferência de Recursos Humanos no Setor do Turismo, uma iniciativa organizada pela Universidade Autónoma de Lisboa, em parceria com o TNews, que decorreu esta terça-feira, 23 de setembro. O primeiro painel teve como tema “Os desafios da demografia na sociedade e no trabalho” e contou com as intervenções de Ana Jacinto, da AHRESP, Miguel Andrade, da PHC Hotels, e Isabel Heitor, da ANA Aeroportos.

Ana Jacinto começou por dizer que a questão da migração “não é algo novo”. “Estes problemas já existem há 20 anos, com alguns perigos e desafios diferentes, mas são iguais: continuamos a ter uma dificuldade enorme em reter os nossos talentos e em contratá-los”.

“Não podemos viver sem os migrantes nos nossos setores de atividade. E a verdade é que não estamos a dar as condições necessárias para que, de facto, eles se sintam integrados, porque temos inúmeros obstáculos que não estamos a conseguir contornar”, afirmou a responsável.

Ana Jacinto identificou o problema crónico da habitação como um dos obstáculos, referindo que a AHRESP tem sistematicamente avançado com propostas concretas para o Orçamento de Estado.

A responsável reiterou que não percebe o porquê de estas medidas não serem implementadas. “Se a empresa constrói habitação e se tem condições para construir, por que não haveria de ter isenção de IVA? Por que é que a empresa não pode ter redução da tributação sobre os rendimentos prediais nestes casos? E por que é que todas as ajudas que as empresas dão de apoio ao alojamento não podem ter isenção de TSU e de IRS? Isto tudo é inexplicável”.

Sobre a nova lei da imigração, Ana Jacinto disse que esta se prende, uma vez mais, com o problema da habitação. “Um dos requisitos é que ninguém pode contratar se não der habitação ao trabalhador. Nós queremos dar habitação, mas não podemos esperar 10 anos para construir uma residência e, ainda por cima, não ter nenhum apoio fiscal, nem incentivo. Tudo isto tem que ser articulado e pensado. O que me parece é que toda a gente continua a falar do mesmo, mas cada um no seu lugar, sem trabalhar em rede”.

Por sua vez, Miguel Andrade disse que esta situação não é nova e que, há décadas, se tem vindo a verificar a necessidade de integrar imigrantes em vários setores de atividade, em particular na hotelaria. “Nós, na PHC Hotels, temos cerca de 65% de colaboradores portugueses que moram em Lisboa e nos arredores e 32% de colaboradores estrangeiros dos PALOP. Os restantes são oriundos da Ásia”.

Para haver uma maior atração pelo posto de trabalho, a PHC Hotels começou, há cerca de três anos, a melhorar as condições do refeitório e dos balneários das suas unidades. Além disso, introduziu componentes remuneratórias variáveis para todos os trabalhadores, seguros de saúde e prémios de produtividade.

O grupo hoteleiro tem ainda um programa de integração de colaboradores, com o objetivo de facilitar a comunicação entre colegas e colocar trabalhadores estrangeiros em funções de front office.

Miguel Andrade considera que, cada vez mais, os trabalhadores estrangeiros vão assumir essas funções devido à dificuldade que existe em recrutar ativos para a hotelaria, mas que, para isso, é necessário que a comunicação com o cliente seja eficaz e em português.

Em resposta à Ana Jacinto, Isabel Heitor afirma que os processos de mudança trazem sempre estas coisas e que não devemos estar à espera do Estado para as executar. “Creio que o segredo passa por não estarmos à espera do Estado ou da mudança das leis – temos de ser nós a fazer e termos a capacidade de encontrar respostas”.

Isabel abordou o tema da inclusão no trabalho, afirmando que a ANA Aeroportos prioriza o contacto pessoal e as formações: “Queremos que as pessoas se sintam verdadeiramente acolhidas e, para isso, priorizamos o contacto pessoal e realizamos roadshows ao longo do ano. Além disso, apostamos em programas de onboarding (…), não podemos deixar as pessoas desemparadas”.

Atração de talento no Turismo

Quanto ao tema da atração de talento, Miguel Andrade referiu que PHC Hotels facilita o trabalho remoto nas aéreas administrativas, como o marketing, a contabilidade e os recursos humanos. No que respeita a colaboradores estrangeiros, o grupo hoteleiro permite 30 dias seguidos de férias para que possam ir a casa.

“Além disso, tentamos que haja mais flexibilidade nos horários, ou seja, que os colaboradores também participem e digam: ‘hoje, prefiro fazer o turno da manhã porque tenho de ir buscar a minha filha’. Por outro lado, e graças aos contratos de franchising que temos com marcas internacionais, damos aos nossos colaboradores a possibilidade de trabalharem em França ou nos Estados Unidos, se quiserem”.

Por seu lado, Isabel Heitor afirmou que uma das grandes apostas da ANA Aeroportos nos últimos anos são programas trainee. “Aquilo que fazemos é admitir pessoas mais jovens e criar grupos de trainee. Além disso, fazemos programas de intercâmbio com outros países e apostamos no trabalho com as escolas, fazendo várias ações escolares a nível nacional”.

Ana Jacinto, por outro lado, referiu que já há vários restaurantes a implementar modelos mais adaptados às novas gerações. “Nós temos vários restaurantes que permitem aos trabalhadores definirem os seus dias de folga, dentro daquilo que é o quadro legal, porque, hoje em dia, os trabalhadores não valorizam apenas o salário – questões como os horários ou os dias de férias também são muito valorizadas”.

Para terminar, Ana Jacinto falou sobre a Lei Laboral que está em cima da mesa, garantindo que a AHRESP já teve a oportunidade de fazer um caderno de encargos sobre esta matéria. “Sobre este tema, propomos alterações no banco de horas, que é um instrumento fundamental, e em questões que têm a ver com a sazonalidade da nossa atividade, que não se compagina com aquilo que é a regra geral. Portanto, estamos com expectativa à espera do resultado desta discussão”.

“Por isso é que digo que temos de estar todos no mesmo caminho. Se os parceiros sociais – neste caso, sindicatos e associações – conseguem entender-se e evoluir, então a legislação laboral também tem de acompanhar. Temos de evoluir ao mesmo ritmo, caso contrário vamos andar sempre a patinar”, concluiu Ana Jacinto.

O encontro, dividido em dois painéis, contou com a presença de especialistas e representantes do setor em Portugal, entre eles Carlos Abade, presidente do Turismo de Portugal, e Gonçalo Rebelo de Almeida, Gestor para a área de Turismo e Hospitalidade do Grupo Autónoma e administrador do grupo Vila Galé.

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