“Não existe sobreturismo. Existe má gestão de fluxos”

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Recém-reeleito para um novo mandato à frente do Turismo de Cascais, Bernardo Corrêa de Barros defende que o debate em torno da saturação turística está mal colocado. Para o presidente da entidade, o crescimento deve ser analisado à luz da qualificação do destino, da gestão inteligente de visitantes e do equilíbrio entre economia e qualidade de vida. Nesta entrevista, fala de inovação, sustentabilidade, captação de mercados de longo curso e da aposta em crescer em valor — sempre com uma premissa clara: Cascais é pensada primeiro para os cascalenses e só depois para quem a visita.

Foi recentemente reeleito para um novo mandato à frente do Turismo de Cascais. Que balanço faz do quadriénio que agora termina e quais considera terem sido os principais resultados alcançados pelo destino?

O mandato anterior começou com a substituição que fiz do Duarte Nobre Guedes, que esteve 24 anos a liderar o Turismo de Cascais. Estávamos em pleno Covid. O Duarte reformou-se, eu, enquanto vice-presidente, assumi funções, fiz um ano e pouco ainda em contexto de pandemia e depois houve a primeira eleição, em 2022.

Naturalmente, trouxe uma visão diferente, mais focada na digitalização e na inovação. O objetivo foi sempre liderar a inovação no turismo em Portugal, algo que julgo que conseguimos. Em quatro anos lançámos quatro inovações diferentes.

Primeiro, a digitalização do passaporte de golfe, algo inédito e único em Portugal, com frutos e provas dadas no mercado do golfe. Fizemos com que os campos de golfe aumentassem as suas receitas e o Turismo de Cascais passou também a ter receitas próprias através dessa digitalização. Os operadores passaram a ter um canal privilegiado através da mesma plataforma.

Lançámos ainda, na área de Meetings Industry, o Cascais Awe&Some, uma digitalização territorial dos espaços para eventos do concelho, uma plataforma que sugere serviços e utilização de espaços em multivenue, que está operacional e trouxe uma visão diferente aos nossos associados, permitindo-lhes trabalhar em conjunto com mais-valias para todos os parceiros envolvidos.

Virtualizámos Cascais com o Cascais Virtual, que acabou por ser um falhanço total. Foi lançado numa altura em que se falava muito do metaverso. Podia-se aceder à plataforma, deambular virtualmente por Cascais, aceder a serviços e comprá-los. O metaverso não avançou como era esperado e, naturalmente, o Cascais Virtual também não. Tomámos a decisão de o deixar cair este ano. Não vale a pena continuar a investir numa plataforma que, na nossa opinião, falhou.

Lançámos agora outra inovação na área da sustentabilidade, o Cascais for Tomorrow, em 2025. É uma plataforma de compensação da pegada ambiental, direcionada para projetos locais. Estamos na fase de implementação. A plataforma está disponível para cliente final ou para organizadores de eventos. O utilizador introduz os seus dados, indica de onde vem e para onde vai, a plataforma calcula a sua pegada e atribui um valor. Esse valor, ao contrário do que acontece noutras soluções no mundo, vai diretamente para projetos locais pré-selecionados. É possível acompanhar o projeto, receber atualizações e, no final, ser convidado a conhecê-lo.

Acreditamos que esta plataforma trará muitos frutos e dará uma grande alavanca à certificação total que queremos alcançar no âmbito do Green Destinations. Já temos o nível platina e estamos a trabalhar para a certificação total enquanto destino.

Agora, no início deste novo mandato, lançámos um rebranding total da nossa marca de golfe, ou melhor, criámos a marca Cascais Golf, unificando os sete campos de golfe de Cascais sob uma imagem sólida e diferenciadora.

Foi um mandato pautado pela inovação e pela proximidade.

“O [ nosso ] objetivo foi sempre liderar a inovação no turismo em Portugal, algo que Julgo que conseguimos. Em quatro anos lançámos quatro inovações diferentes”

Fez tudo o que queria neste mandato ou ficou algum projeto por concretizar?

Creio que não ficou nenhum por concretizar. Tudo o que esteve em plano acabou por acontecer. Trabalhámos muito e uso sempre uma frase que não é minha: ou vencemos juntos ou falhamos separadamente.

A proximidade não foi apenas com os associados e os players do mercado, mas também com outras regiões, com o Turismo de Portugal e com a Câmara Municipal de Cascais, nosso grande parceiro. Trabalhámos em conjunto para crescermos todos.

Não considero que tenha ficado algum projeto por implementar. O que entrou em plano foi executado. Houve, sim, situações que não aconteceram tão rapidamente quanto gostaríamos. Os timings foram dilatados. O mundo gira muito depressa e, por vezes, os processos são mais lentos.

Gostava de ter o Cascais for Tomorrow já plenamente implementado, mas as formações com os hotéis atrasaram-se e houve alguns problemas técnicos na plataforma. Isso fez com que o impacto não fosse o idealizado neste momento. Mas projetos por implementar, não.

Tem sublinhado que “sem os associados não há associações”. Como tem evoluído essa relação com o tecido empresarial e que papel terão os associados neste novo mandato?

A proximidade é total. A equipa e a direção estão muito próximas dos associados. Reunimos frequentemente por áreas de negócio ou interesses comuns e promovemos fóruns como o Better Together.

Queremos que os associados acreditem nesta estratégia comum. Cascais não pode crescer se Lisboa não estiver forte, e vice-versa. Os associados também não podem crescer se Cascais não estiver forte. Temos de estar alinhados com a Câmara Municipal e entre todos.

A estratégia é construída em conjunto, seja no Conselho de Marketing e Estratégia, seja nas reuniões com operadores de M&I, hotéis e equipamentos. Temos de puxar uns pelos outros. Caso contrário, cada um trabalha de forma isolada algo que é comum: o território de Cascais.

Em 2025, Cascais registou crescimento do preço médio e aumento da estadia média. Que leitura faz destes indicadores?

Crescemos 5,6% em preço médio, 1,1% em RevPAR e 0,4% na estadia média. Pela primeira vez em cinco ou seis anos, a estadia média cresce. A taxa de ocupação desceu 3%.

Tudo isto está alinhado com o projetado. Estamos numa fase de qualificação do território e dos parceiros. Não podemos continuar a subir preços sem melhorar o serviço. Com a falta de mão de obra no país, muitos parceiros optaram por não forçar a taxa de ocupação, apostando no crescimento do preço médio e do RevPAR, gerando mais receita para melhorar o emprego.

Os números de 2025 são animadores. Não me preocupam os alarmes do início do ano. No turismo, é comum começarmos com sinais menos positivos e terminarmos com o melhor ano de sempre. Tivemos também alguns encerramentos de hotéis, o que explica a descida nas dormidas. No geral, estamos satisfeitos com a performance económica.

Tem-se falado que o turismo em Portugal pode estar a entrar num período de estabilização, depois de vários anos de forte crescimento. Cascais sente já esse efeito ou ainda há margem para crescer?

Continuamos a crescer. É impossível crescer a dois dígitos todos os anos. Depende do indicador que analisamos. Em preço médio, eventualmente poderá haver estabilização, mas não para já. Ainda temos margem.

Em taxa de ocupação, estamos nos 65,5%. Há ainda margem para crescer. Essa margem pode ser ocupada com preços mais altos ou mais baixos. Se for com preços mais altos, continuamos a crescer em valor.

Há também margem para otimização, nomeadamente ao nível das rotas aéreas. Podemos diversificar entradas pelo Porto ou Algarve, captar mercados mais remotos e estadias mais longas. Cascais estará preparada para os captar.

Aeroporto, rotas e mercados estratégicos

Olha-se já com algum alarme Lisboa, justamente por causa do aeroporto, porque se diz que está esgotado e porque a oferta de hotéis continua a crescer. E, portanto, são os mesmos turistas para mais hotéis. Aqui, não pode acontecer isto também?

O número de turistas continua a crescer. E, se houver mais rotas para o Porto e mais rotas para o Algarve, e se captarmos outras rotas para Lisboa de destinos mais longínquos, ou seja, aviões maiores, com maior capacidade, estaremos também a aumentar o número de turistas.

Portanto, há muito para fazer ao nível da aviação e das negociações de rotas para o aeroporto de Lisboa, neste caso, que podem vir a otimizar e a melhorar o número de turistas. Há também o mercado espanhol, que tem vindo a decrescer, e eu acho que ainda há muitas oportunidades em Espanha.

Assim, não me preocupa tanto o número de camas a serem criadas, porque acredito que vamos continuar a crescer em número de turistas também.

Bernardo Corrêa de Barros, presidente da Associação de Turismo de Cascais
Bernardo Corrêa de Barros, presidente da Associação de Turismo de Cascais

“há muito para fazer ao nível da aviação e das negociações de rotas para o aeroporto de Lisboa, neste caso, que podem vir a otimizar e a melhorar o número de turistas. Há também o mercado espanhol, que tem vindo a decrescer, e eu acho que ainda há muitas oportunidades em Espanha”

Sem capacidade aérea adicional, Portugal pode perder oportunidades em mercados de longo curso. Cascais corre esse risco? Que mercados gostaria de captar que hoje estão mais difíceis de alcançar?

Portugal pode atrasar-se nesses mercados, pode perder o primeiro comboio.

O mercado do México e da Argentina são, para mim, mercados muito interessantes. O que está a ser feito em termos de Brasil e Estados Unidos é uma estratégia que está a dar os seus frutos. Aliás, o mercado americano é o primeiro mercado em algumas regiões, o segundo e o terceiro noutras. Ainda tem muito mais para dar, consigamos nós comunicar de forma eficaz nos Estados Unidos e também no Canadá.

O mercado asiático tem muito potencial, mas ainda estamos a dar os primeiros passos. É um mercado que, para nós, é muito longínquo, pouco estudado, com pouco conhecimento. Exige uma grande adaptabilidade dos destinos que querem vender com relevância na China, desde menus em chinês e outras adaptações. Há destinos que trabalham muito bem o mercado chinês e o mercado asiático; nós ainda estamos numa fase muito embrionária desses mercados.

Temos ainda a limitação das frequências para Lisboa, que são quase inexistentes. Julgo também que com os Emirados Árabes Unidos podemos abrir várias oportunidades, sendo um mercado com uma capacidade financeira muito interessante.

Não tem uma visão pessimista do futuro da atividade turística, sobretudo nesta área que é alimentada pelo aeroporto de Lisboa?

Os constrangimentos do aeroporto de Lisboa são conhecidos e vamos ter esse problema nos próximos 10 anos.

Há uma série de rotas que deveriam ser repensadas e, na minha opinião, deve apostar-se em rotas mais longas, com aviões maiores, para trazerem mais turistas.

Considero que tem de haver uma descentralização, aproveitando também a ferrovia — Porto e Lisboa — e, com a alta velocidade a chegar, temos aqui grandes oportunidades. A mais curto prazo, vejo igualmente oportunidades com o mercado espanhol, por via da alta velocidade.

Vamos ter de trabalhar com as ferramentas que temos, adaptar-nos às novas ferramentas e às novas entradas, procurando também prolongar as estadias médias.

Oferta hoteleira e novas marcas

Qual é a previsão de aumento de camas nos próximos anos em Cascais?

Em 2027, teremos praticamente o mesmo número de camas que tínhamos em 2024. Há quase uma reposição de camas, porque alguns hotéis transformaram-se em serviced apartments, pelo que o número de camas acaba por se substituir.

Existe uma aposta no interior do concelho, com a criação de dois hotéis de três e quatro estrelas, para dar suporte a uma realidade necessária, tanto para a área da Meetings Industry como para um turismo menos alto perfil, se assim quisermos.

Estamos a sentir necessidade de dotar o interior do concelho de algumas unidades hoteleiras, para servir também professores que vêm para as várias faculdades que se têm instalado, alunos em educação executiva e outras situações. Portanto, capacitar o interior com alguns hotéis dará suporte ao restante parque hoteleiro.

Há espaço para novos projetos?

Há espaço, sim, e há espaço para melhores projetos. Tem-se assistido a uma renovação dos hotéis e à entrada de novas marcas internacionais, não necessariamente de luxo — uma palavra que, muitas vezes, é usada de forma pouco refletida.

Há espaço para projetos diferenciados e diferenciadores que aumentem a perceção de luxo em Cascais. Várias marcas instalaram-se no concelho e trouxeram novos públicos e um valor percebido mais elevado.

Essas marcas contribuíram também para o aumento da massa salarial média de quem trabalha nas unidades hoteleiras. Vemos isso com muito bons olhos: há um aumento significativo de qualidade.

Temos muito boas marcas no concelho, mas queremos mais e melhores. Sabemos que existem várias marcas internacionais interessadas em entrar em Cascais que ainda não estão presentes.

A apresentação da marca Cascais Golf marcou este início de mandato. Que resultados são esperados com esta estratégia?

Em primeiro lugar, queremos unificar o segmento do golfe em Cascais. Não apenas a marca Cascais Golf, mas todo o segmento. Queremos dar uma perceção de grandiosidade.

São sete campos, mas, na realidade, nove, porque existem dois campos de nove buracos. Queremos transmitir ao turista a ideia de que está dentro do mesmo ecossistema, um ecossistema de qualidade.

Com isso, pretendemos que cada campo e cada operador ligado ao golfe — incluindo quem aluga tacos — consigam maior receita.

O número de voltas estará relativamente estabilizado. Este ano tivemos um decréscimo de 3%, mas aumentámos significativamente o preço médio da volta, em linha com a estratégia seguida também na hotelaria. O objetivo é crescer em valor, para permitir maior investimento nos campos e elevar a qualidade como um todo, não apenas num campo específico, mas no conjunto.

Não é uma estratégia diferente do que já existe e é adotado noutros destinos no mundo.

Qual foi o investimento neste projeto?

Investimos cerca de 200 mil euros numa primeira fase, que incluiu a criação da marca e a campanha de marketing. Esse valor contempla marketing, vídeo e materiais para os campos de golfe, como bandeiras e outros suportes que serão oferecidos. Estamos atualmente em fase de produção desses materiais.

“O orçamento atual ronda os 12,5 milhões de euros para promoção nacional e internacional e para o plano de eventos, que inclui cerca de 45 eventos internacionais, ou com capacidade de atração turística, realizados em Cascais”

Que verbas tem hoje o Turismo de Cascais para promoção nacional e internacional? Considera que o orçamento disponível é adequado à ambição do destino?

O Turismo de Cascais tem vindo a aumentar as suas verbas, seja através das contrapartidas do jogo do Casino Estoril, seja pela responsabilidade atribuída pela Câmara Municipal de Cascais relativamente aos eventos internacionais que se realizam no concelho.

O orçamento atual ronda os 12,5 milhões de euros para promoção nacional e internacional e para o plano de eventos, que inclui cerca de 45 eventos internacionais, ou com capacidade de atração turística, realizados em Cascais.

É uma verba que implica muita responsabilidade e exigência. Não me parece exagerada; se assim fosse, não nos seria atribuída esta confiança. Sabemos geri-la e investi-la bem, na minha modesta opinião, e os resultados estão à vista: a atividade económica continua a crescer e Cascais continua a ganhar notoriedade.

A ESHTE vai integrar a NOVA de Lisboa. Isso vai significar um novo capítulo. Quais são as expectativas?

Era algo que almejávamos há muito tempo: que a Escola pudesse ser integrada na NOVA.

Acredito que teremos melhor formação em turismo. Com melhor formação, conseguiremos captar melhores alunos e, eventualmente, fixá-los no território. Fixando talento, Cascais desenvolve-se ainda mais.

Os territórios que mais crescem são os que conseguem captar, fixar e desenvolver talento. Tal como aconteceu com a Nova SBE, acredito que a integração da Escola Superior de Hotelaria na Universidade Nova nos permitirá ter melhores serviços na área do turismo, com base numa educação reforçada.

Portanto, qualidade, qualidade, qualidade — é isso que esperamos para o concelho de Cascais.

NOVA ESHTE: “Acredito que teremos melhor formação em turismo. Com melhor formação, conseguiremos captar melhores alunos e, eventualmente, fixá-los no território. Fixando talento, Cascais desenvolve-se ainda mais”

Cascais tem apostado num portfólio sólido de eventos. Como evolui a estratégia de captação de grandes eventos e que impacto procura maximizar?

Tenho dito que os eventos são reflexo da estratégia do território, e a estratégia também se reflete nos eventos que temos.

Sabemos que eventos queremos, em que áreas e quais fazem falta a Cascais. Temos vindo a captar pelo menos um novo grande evento internacional por ano. Este ano teremos o evento europeu da Harley-Davidson; no ano passado tivemos as Superbikes. Para o próximo ano já temos outro evento internacional, a anunciar brevemente, em parceria com o Turismo de Portugal e o Governo.

Investimos em eventos ligados ao espírito do território — este Cascais para toda a vida, o best place to live for a day or a lifetime — eventos de lifestyle, de vida saudável, alinhados com os valores de Cascais.

É uma estratégia que tem dado resultados muito positivos para a hotelaria, restauração, comércio local e para Cascais como um todo.

Como está a relação com o Turismo de Lisboa?

Diria que está melhor do que nunca. Cascais integra a direção do Turismo de Lisboa e temos excelentes relações.

Houve uma mudança na liderança: Vítor Costa reformou-se e deixou saudades. Estamos muito esperançosos com a nomeação de António Valle, alguém que conheço há cerca de 20 anos.

Já estamos a desenvolver mais projetos em conjunto, como uma ativação no Rio de Janeiro e a preparação de eventos internacionais, tal como aconteceu com a Maratona.

É uma nova liderança, de outra geração, com grande ambição e ideias claras para Lisboa. Não poderia estar mais satisfeito com esta nomeação.

Sobreturismo e gestão de fluxos

Cascais posiciona-se como “capital da qualidade de vida”. Como se equilibra esse posicionamento com o crescimento turístico, evitando fenómenos de saturação ou rejeição por parte da comunidade local?

Não aceito que se fale em sobreturismo. Não existe sobreturismo em Portugal. Existe, isso sim, má gestão de fluxos turísticos. São coisas completamente diferentes.

Se olharmos, por exemplo, para o Mosteiro dos Jerónimos às nove da manhã e virmos três mil pessoas em frente ao mosteiro, podemos achar que há sobreturismo. Mas, se houvesse realmente sobreturismo, Lisboa teria uma taxa de ocupação de 100% ao longo do ano. Não tem. Está nos 60 e tal por cento.

Se estivéssemos a falar de sobreturismo, Cascais teria uma taxa de ocupação de 100%. Não tem. Está nos 65 e qualquer coisa por cento.

Portanto, não me preocupa nada, nada, essa relação entre sermos capital da qualidade de vida e essa ideia de sobreturismo, que não existe em Cascais. Nós projetamos Cascais para os cascalenses, na esperança de que os turistas vejam isso como uma externalidade positiva.

Privilegiamos a autenticidade, a sustentabilidade e este espírito cascalense, aquilo que é viver como um cascalense. Não estamos posicionados como um destino turístico massificado, nem queremos lá chegar. Essa massificação está muito longe de acontecer.

E, caso viesse a acontecer um aumento desmesurado dos fluxos turísticos — o que não é esperado — estamos preparados para isso. Existem diversas formas de gerir fluxos turísticos através de inteligência artificial, Internet of Things e outras ferramentas que ainda não estão a ser utilizadas de forma generalizada.

As urbes do futuro poderão ser geridas com base em inteligência artificial, e essa gestão de fluxos permitirá também uma dispersão dos turistas dos centros hoje mais reconhecidos. Imagine-se um exemplo simples: se alguém estiver a caminho do Museu A e, através de uma aplicação, de um painel informativo ou de outro sistema, for informado de que tem 45 minutos de espera, mas que durante esse tempo pode visitar o equipamento B e que, quando regressar, terá entrada direta, essa pessoa não ficará simplesmente parada à espera.

É esse tipo de gestão inteligente que pode fazer a diferença.

“Não aceito que se fale em sobreturismo. Não existe sobreturismo em Portugal. Existe, isso sim, má gestão de fluxos turísticos. São coisas completamente diferentes”

Admite que não está a acontecer, que não está a correr muito bem?

Essa gestão de fluxos não está a acontecer plenamente, admito. E também não é apenas uma questão de perceção errada das pessoas.

Existe, de facto, má gestão de fluxos. São coisas diferentes. Não é uma questão de haver turistas a mais, é uma questão de como se distribuem e de como se gerem esses fluxos.

Houve um estudo da Fundação Manuel dos Santos, que não foi muito abordado no turismo, com resultados pouco abonatórios. As pessoas reconhecem que o turismo é necessário, mas gostariam de ser mais ouvidas. O turismo não está a querer olhar para isto?

O turismo, se calhar, nem sempre está a ouvir suficientemente as suas populações. Territórios que se focam apenas no turismo e não se focam na sua população vão ter um backlash imediato.

Estamos muito longe disso acontecer em Cascais. Temos uma política totalmente focada no cascalense, que privilegia o cascalense.

Já fizeram algum tipo de estudo?

Está a decorrer neste momento. Para a certificação total do Green Destinations é obrigatório realizar esse estudo, e ele está em curso.

E quando é que saberemos os resultados?

Diria em abril.

Quais são as expectativas?

As minhas expectativas são que o cascalense considere o turismo algo positivo para o seu território. É essa a minha expectativa.

Existe um investimento muito grande por parte do município na qualidade de vida dos cascalenses.

Como por exemplo?

Transportes gratuitos para toda a gente. Museus gratuitos. Estacionamento gratuito.

Através do cartão Viver Cascais, tem-se acesso a uma série de vantagens territoriais: veterinário gratuito ao telefone para esclarecimento de dúvidas, consultas online, vários apoios sociais. Temos centros de saúde a funcionar — estamos aqui a olhar para um.

Estar em Cascais tem uma série de vantagens competitivas face a outros territórios. Temos coisas que outros não têm. Estão a ser agora negociadas também condições para os comboios, para quem cá vive, estuda ou trabalha.

Existe um retorno grande. Temos espaços verdes cuidados, ruas limpas. Não se vê lixo na rua ao andar por Cascais. É Cascais como um todo. E isso é uma vantagem muito grande.

Que expectativas tem para 2026 em termos de procura, mercados emissores e desempenho turístico de Cascais? Espera um ano de crescimento, consolidação ou maior contenção?

Espero mais um ano de crescimento. Não crescimentos a dois dígitos, como aconteceu há três, quatro ou cinco anos, mas este crescimento consolidado que temos vindo a registar, tanto em preço médio como em RevPAR.

Quais são as três grandes prioridades estratégicas deste novo mandato à frente do Turismo de Cascais?

Sustentabilidade. Que o Cascais for Tomorrow seja um exemplo mundial e possa ser replicado por vários destinos pelo mundo fora.

Um Cascais mais unido do ponto de vista empresarial, para que possamos continuar a crescer em conjunto, com os empresários alinhados na luta por um crescimento comum de Cascais.

E a terceira prioridade é a estabilidade política internacional. Preocupa-me muito o impacto da política norte-americana sobre o continente europeu. Preocupa-me a instabilidade contínua no Médio Oriente alargado, o Irão e tudo o que estamos a assistir.

Preocupa-me esta instabilidade e este jogo político internacional muito assente no medo futuro do uso de armas. Está-se constantemente a ameaçar com armas, com declarações sobre o uso de urânio enriquecido para investigação científica, ou com ameaças de invasões.

Esse clima de medo que está a ser passado pelos líderes políticos mundiais às suas populações influencia as viagens e a confiança. E isso preocupa-me bastante.

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