O Destino do Turismo | Quando o turismo pesa na economia, a qualificação deixa de ser assunto exclusivo do setor

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“Pode Portugal suportar uma economia em que quase um em cada quatro empregos depende atualmente do turismo (…) sem transformar profundamente a forma como qualifica, atrai, retém e internacionaliza o conhecimento dos seus profissionais?”

Perante a crescente dependência da economia portuguesa em relação ao turismo, continuamos a tratar a qualificação dos profissionais como se fosse apenas um problema interno do setor, quando, na verdade, se tornou numa questão estrutural para a competitividade do país.

O turismo português ocupa hoje uma posição que dificilmente pode ser interpretada apenas como sinal de recuperação ou de crescimento. Segundo o World Travel & Tourism Council, a contribuição total do turismo para a economia portuguesa atingiu, em 2025, 59,4 mil milhões de euros, correspondentes a 19,7% do PIB, e sustentou cerca de 1,22 milhões de empregos, o equivalente a 23,2% do emprego nacional. As projeções para 2036 são ainda mais expressivas, apontando para uma contribuição de 74,7 mil milhões de euros, equivalente a 21,2% do PIB, e para cerca de 1,44 milhões de empregos, correspondentes a 28% do emprego total.

Estes números são frequentemente mobilizados para demonstrar a importância estratégica do turismo, e com razão. Revelam a capacidade do setor para gerar rendimento, emprego, exportações, investimento e efeitos indiretos sobre várias atividades económicas. Contudo, também deveriam obrigar-nos a colocar uma questão mais incómoda. Pode Portugal suportar uma economia em que quase um em cada quatro empregos depende atualmente do turismo, e em que esse peso poderá aproximar-se de mais de um em cada quatro empregos até 2036, sem transformar profundamente a forma como qualifica, atrai, retém e internacionaliza o conhecimento dos seus profissionais?

Creio estarmos perante um dos debates que mais temos vindo a adiar. Falamos muito da relevância económica do turismo, da sua capacidade de recuperação, do aumento da procura internacional e da notoriedade dos destinos portugueses, mas discutimos menos as condições que permitem sustentar este crescimento no tempo. É relativamente fácil reconhecer o turismo como setor estratégico quando se analisam os seus contributos para o PIB, para o emprego ou para as exportações. Mais difícil é retirar daí as consequências necessárias em matéria de formação, gestão, inovação, carreira, governação e valorização dos profissionais.

No artigo anterior, defendia que a qualificação constitui uma verdadeira infraestrutura da competitividade turística, tal como as acessibilidades, os equipamentos ou as plataformas digitais, porque são as competências das pessoas que determinam a capacidade de um território para criar valor, adaptar-se à mudança e utilizar melhor os recursos de que dispõe. O argumento mantém-se, mas ganha agora outra escala. Se o turismo tem o peso que os dados evidenciam, então a qualificação já não pode ser vista como uma dimensão complementar da política do turismo. Deve ser entendida como uma condição estrutural da competitividade económica do país.

Creio que a leitura proposta pelo World Economic Forum, no relatório Beyond Tourism: Coordinated Pathways to Inclusive Prosperity, é particularmente relevante por contrariar a tendência de olhar para o turismo como uma soma de iniciativas dispersas, empresas isoladas ou políticas sectoriais pouco articuladas. Parte-se essencialmente da ideia de que o turismo funciona como um ecossistema que envolve visitantes, residentes, empresas turísticas, setores adjacentes, sociedade civil e governos, e que a sua capacidade para gerar prosperidade inclusiva depende da articulação entre pessoas e competências, financiamento, infraestruturas, tecnologia e inovação, política e governação.

A relevância desta reflexão para Portugal reside no facto de obrigar a distanciar o debate da quantidade de turismo que o país consegue atrair para a capacidade que tem para o gerir. Não está em causa negar o crescimento do setor, nem diminuir a importância económica que este assumiu nos últimos anos. O problema começa quando se admite que a continuidade desses resultados poderá depender sobretudo da procura, da promoção, do investimento ou da tecnologia, sem se atuar com a mesma intensidade sobre as condições que permitem transformar crescimento em valor duradouro, desde logo a qualificação dos profissionais, a capacidade de gestão das organizações, a articulação institucional e a qualidade da governação dos destinos.

Examinemos, então, três aspetos que me parecem centrais: a diferença entre crescimento económico e capacidade de desenvolvimento, a qualificação como problema nacional e não apenas setorial, e a internacionalização do conhecimento como condição para gerir uma atividade profundamente exposta aos mercados externos.

A primeira questão relaciona-se com a forma como interpretamos o crescimento do turismo. O facto de o setor contribuir de forma tão expressiva para o PIB e para o emprego é, naturalmente, um sinal de força, mas pode também transformar-se num fator de vulnerabilidade, se esse peso não for acompanhado por ganhos proporcionais de produtividade, qualificação, inovação e capacidade de gestão. Uma economia que depende fortemente do turismo não se torna automaticamente mais competitiva por receber mais visitantes ou por gerar mais dormidas. Torna-se mais competitiva quando consegue transformar essa procura em valor duradouro para as empresas, para os trabalhadores e para os territórios.

Neste domínio importa evitar um equívoco frequente. O turismo não corresponde apenas ao conjunto das empresas que contactam diretamente com os visitantes. A sua contribuição total inclui efeitos diretos, indiretos e induzidos, que envolve cadeias de fornecimento, investimento, consumo, emprego e múltiplas atividades que beneficiam da presença da atividade turística. O próprio relatório do WTTC recorda que, em Portugal, a contribuição total do turismo para o PIB é quase três vezes superior à sua contribuição direta, o que mostra bem a extensão das suas ligações económicas.

Assim, quando falamos de qualificação no turismo, não estamos apenas a falar de hotéis, restaurantes, agências, animação turística ou organizações de gestão de destinos. Estamos também a falar da capacidade de gerir cadeias de valor, relações com fornecedores, investimento, sustentabilidade, tecnologia, dados, recursos humanos, património, mobilidade, cultura, território e experiência turística. A complexidade do setor é muito superior à imagem simplificada que muitas vezes ainda dele se faz.

Como justificar, então, que um setor com este peso continue tantas vezes a depender de respostas formativas fragmentadas, de percursos profissionais pouco valorizados e de uma articulação insuficiente entre empresas, instituições de ensino, centros de investigação e entidades públicas? E como esperar que o turismo português continue a competir num mercado global cada vez mais sofisticado se a qualificação dos seus decisores e das suas equipas operacionais não for tratada como prioridade estratégica?

A segunda questão relaciona-se com o trabalho e com as competências, dimensão que ganha particular relevância quando se percebe que, segundo o Future of Jobs Report 2025, do World Economic Forum, 71% da força de trabalho portuguesa necessitará de formação até 2030, acima da média global de 58%. No mesmo relatório, são identificadas, para Portugal, competências com procura crescente como a aprendizagem ao longo da vida, a gestão de talento, a liderança e influência social, o ensino e a mentoria, e a gestão de recursos, o que mostra que a transformação em curso não se resume à aquisição de novas competências técnicas ou digitais.

No caso do turismo esta análise é especialmente relevante, porque ajuda a contrariar a ideia de que a adaptação dos profissionais ao futuro passará apenas pela literacia digital ou pela utilização de ferramentas de inteligência artificial. Naturalmente, a tecnologia continuará a transformar processos, modelos de negócio e formas de interação com os visitantes, mas as competências que ganham centralidade remetem também para dimensões humanas, organizacionais e relacionais, associadas à capacidade de aprender, liderar, formar, gerir pessoas e mobilizar recursos, justamente aquelas que permitem às organizações responder a contextos de trabalho cada vez mais incertos, exigentes e difíceis de resolver através de procedimentos previamente definidos.

A dificuldade em atrair e reter trabalhadores mostra bem a dimensão deste problema. No alojamento, alimentação e lazer, o mesmo relatório do World Economic Forum refere que 59% dos empregadores antecipam um agravamento das dificuldades de contratação, ao mesmo tempo que as empresas procuram responder através do reforço da qualificação, da contratação de novas competências, da utilização da tecnologia para complementar o trabalho humano e de medidas associadas ao bem-estar, aos salários e à progressão do talento. Isto demonstra que o problema não está apenas na falta de trabalhadores disponíveis, mas na dificuldade em criar condições para os atrair, desenvolver e manter num setor cuja qualidade continuará a depender fortemente das pessoas.

Isto significa que o turismo enfrenta simultaneamente dois desafios. Por um lado, precisa de incorporar tecnologia, dados e inovação para melhorar a produtividade e a qualidade da gestão. Por outro, continua profundamente dependente de pessoas, da sua capacidade de acolher, interpretar, adaptar, resolver problemas, comunicar e criar experiências. O erro estaria em tratar estes dois planos como se fossem alternativos, quando a competitividade futura resultará precisamente da sua articulação.

A qualificação da força de trabalho turística não pode, por isso, limitar-se à formação técnica de base, por mais importante que esta continue a ser. O setor precisa de profissionais capazes de operar com qualidade, mas precisa também de chefias intermédias preparadas para coordenar equipas, de gestores capazes de trabalhar com dados e indicadores, de decisores públicos com literacia territorial e económica, de formadores atentos às transformações internacionais e de lideranças capazes de criar condições para reter talento.

Creio que a questão da retenção é, neste domínio, tão importante quanto a da formação. Não basta qualificar pessoas se o setor não conseguir oferecer percursos profissionais suficientemente atrativos para que essas competências permaneçam e se desenvolvam. Num setor em que a experiência turística depende, em grande medida, da qualidade da interação humana, da capacidade de resolver situações imprevistas e da consistência dos serviços prestados, a instabilidade das equipas, a baixa atratividade das carreiras e a insuficiente valorização das competências acabam por produzir efeitos diretos na qualidade da oferta e na reputação dos destinos.

Há, ainda, uma dimensão que não pode ser secundarizada num setor tão dependente da procura externa. Segundo o WTTC, em 2025, 64,4% da despesa turística em Portugal resultou de visitantes internacionais, face a 35,6% associada à procura doméstica, sendo o Reino Unido, Espanha, Estados Unidos, Alemanha e França os principais mercados de chegada identificados no relatório.

Daqui resulta uma consequência que raramente é assumida com a devida centralidade. A competitividade do turismo português depende, em larga medida, da capacidade de empresas, destinos e decisores compreenderem mercados externos, alterações nos comportamentos de consumo, novas exigências dos viajantes, tendências internacionais de sustentabilidade, modelos globais de gestão e formas distintas de relacionamento com os destinos. Não se trata, portanto, apenas de comunicar em várias línguas ou de adaptar produtos a diferentes nacionalidades, mas de formar profissionais e decisores com maior exposição internacional, capacidade comparativa e entendimento das transformações que estão a redesenhar o turismo à escala global.

Importa, por isso, não reduzir a internacionalização do conhecimento à mobilidade de estudantes e profissionais ou ao contacto pontual com boas práticas internacionais. Num setor fortemente exposto à procura externa, esta dimensão deve traduzir-se numa capacidade mais ampla de acompanhar tendências globais, participar em redes de investigação e inovação, atualizar continuamente os formadores, colaborar com instituições estrangeiras e utilizar o benchmarking de forma qualificada, não para reproduzir modelos desenhados para outros contextos, mas para compreender o que pode ser adaptado aos desafios específicos do turismo português. Sem esta capacidade de leitura e interpretação internacional, o risco é continuarmos a operar num mercado cada vez mais global, competitivo e exigente, com instrumentos de análise demasiado locais e, por isso, insuficientes para antecipar mudanças, compreender novos comportamentos da procura e qualificar a resposta das empresas, dos destinos e das instituições que formam os profissionais do setor.

Também neste domínio, a internacionalização do conhecimento não deve ser confundida com a importação acrítica de modelos ou com a reprodução de respostas concebidas para realidades distintas. O que está em causa é, antes, reforçar a capacidade de Portugal para comparar experiências, selecionar referências relevantes, adaptar soluções e aplicar conhecimento internacional aos seus próprios desafios, reconhecendo que a competitividade não resultará da adesão automática a tendências globais, mas da capacidade de perceber quais fazem sentido, em que condições podem ser incorporadas e que efeitos produzem sobre empresas, trabalhadores, residentes e territórios.

A utilidade da abordagem ecossistémica proposta pelo World Economic Forum está precisamente em contrariar a tendência para gerir o turismo como uma soma de iniciativas isoladas, quando os principais problemas do setor atravessam empresas, instituições, políticas públicas e diferentes escalas de decisão. As dificuldades de recrutamento não se resolvem apenas dentro das empresas, tal como a sustentabilidade não se concretiza apenas através de certificações, a inovação não resulta apenas da incorporação de tecnologia e a qualidade dos destinos não depende apenas da promoção. Depende, inegavelmente, da forma como se articulam transportes, habitação, cultura, ambiente, formação, investimento, trabalho e governação, porque é nessa relação entre dimensões aparentemente autónomas que se decide a capacidade do turismo para gerar valor duradouro.

Também a sustentabilidade deve ser compreendida a partir desta relação entre crescimento, qualificação e capacidade de gestão. O relatório do WTTC indica que, em 2024, o turismo representava 23,9% das emissões de gases com efeito de estufa da economia portuguesa, ao mesmo tempo que a intensidade carbónica por unidade de PIB turístico diminuiu face a 2019, passando de 0,41 para 0,34 kgCO₂ e por dólar de PIB, e que a matriz energética associada ao setor continuava fortemente dependente de combustíveis fósseis. Estes dados mostram que a discussão sobre sustentabilidade não pode ficar limitada à comunicação institucional, à adesão a referenciais ou à definição de compromissos públicos, porque a redução de consumos, a gestão eficiente dos recursos, a adaptação dos modelos de negócio, a incorporação de critérios ESG e a resposta aos impactos ambientais exigem profissionais capazes de medir, interpretar e decidir. Sem esta capacidade instalada nas organizações, a sustentabilidade corre o risco de permanecer como intenção estratégica, mas sem expressão suficiente nos processos, nas práticas e nas decisões que estruturam a atividade turística.

A resposta deve partir do reconhecimento de que Portugal construiu uma parte muito significativa da sua economia sobre o turismo e que, para sustentar esse posicionamento no tempo, terá de investir de forma continuada no capital humano, técnico, científico e institucional que permite ao setor ser pensado, gerido e qualificado. Assumir a competitividade futura do turismo português implica ir além da resposta imediata à falta de trabalhadores e das formações avulsas que procuram resolver urgências pontuais, para que a preparação daqueles que decidem, daqueles que formam e daqueles que, todos os dias, operacionalizam a atividade turística passe a ser tratada como prioridade estratégica.

A construção desta capacidade dificilmente ocorrerá se a relação entre escolas profissionais, instituições de ensino superior, empresas, organizações de gestão de destinos, centros de investigação e entidades públicas continuar a depender de contactos pontuais, protocolos formais ou projetos que desaparecem quando termina o financiamento. A qualificação do turismo exige uma articulação mais estável e consequente, capaz de valorizar quem está na operação, qualificar quem decide, internacionalizar o conhecimento de quem forma e criar condições para que a aprendizagem acompanhe a velocidade com que se alteram os mercados, as tecnologias e os modelos de gestão turística.

O turismo português poderá continuar a crescer, e tudo indica que continuará a ter um peso muito significativo na economia e no emprego nacional. A questão decisiva, porém, é saber se esse crescimento será acompanhado por mais conhecimento, melhores decisões e maior capacidade para transformar procura, investimento e reconhecimento internacional em desenvolvimento duradouro para as empresas, os profissionais e os territórios.

Um setor com esta dimensão não pode depender apenas da procura que consegue atrair, nem da força acumulada da sua imagem externa. Depende, cada vez mais, da qualidade das pessoas que o pensam, que o decidem, que o ensinam, que o gerem e que, todos os dias, lhe dão forma na relação concreta com os visitantes, as comunidades e os lugares.

Por Rúben J. P. Feijão*
Professor na Escola superior de Hotelaria de Turismo do Estoril (ESHTE)
Formador na Rede de Escolas do Turismo de Portugal
Investigador no CiTUR (Centre for Tourism Research, Development and Innovation)

*O Destino do Turismo é a rubrica de opinião de Rúben J. P. Feijão, professor da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril (ESHTE), investigador no CiTUR e formador da rede de Escolas do Turismo de Portugal. Mensalmente, propõe uma reflexão crítica sobre as pressões que atravessam o setor e sobre as escolhas estratégicas que estão a moldar o futuro do turismo, dos destinos e das comunidades.

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