“A indústria cresceu mais depressa do que o seu setor de ensino. Ela cria mais know-how e mais depressa. As escolas ficam para trás. Isso não pode acontecer”
Leia O Estado do Ensino Turístico-Hoteleiro em Portugal | O Diagnóstico (Parte I)
A indústria hoteleira é uma máquina vibrante e rápida, sempre em inovação e em crescimento acelerado. Sempre em busca de novos conceitos operacionais, sempre integrando novas tecnologias, principalmente ao nível de Vendas e Distribuição.
Por tal, a visão e doutrinas que dominaram o ensino neste setor até à data têm que ser revisitadas e completamente alteradas. A ambição tem que ser exponenciada.
Os resultados produzidos até agora são factuais, mas insuficientes. A indústria cresceu mais depressa do que o seu setor de ensino. Ela cria mais know-how e mais depressa. As escolas ficam para trás. Isso não pode acontecer.
As B-Schools líderes mundiais têm o mesmo ou mais know-how que as empresas líderes mundiais. Por isso atraem os seus líderes atuais para os seus bancos de escola, assim como os futuros líderes.
O mindset das nossas escolas tem que ser o mesmo.
Tem que haver muito maior capilaridade e vasos de comunicação entre estas escolas e o lado operacional das empresas hoteleiras de topo, quer sejam nacionais ou internacionais.
Tem que haver muito maior cross-training entre as nossas escolas hoteleiras e as nossas empresas hoteleiras. Os professores têm que ser expostos ao mundo dos hotéis e precisamos de mais hoteleiros de renome também a ensinar.
Precisamos de internacionalizar o nosso ensino e torná-lo também um profit contributor na fileira nacional do turismo.
Temos que conseguir criar 2 ou 3 escolas de referência nacionais e a nível europeu, a começar pela do Estoril (talvez até em parceria com uma escola internacional, de preferência suíça). A Swiss Hotel Management School, que está no Top 3 mundial, ou a César Ritz Colleges seriam ótimos matches.
Precisamos de conectar as nossas escolas aos Departamentos de R&D das multinacionais.
Precisamos de trazer os seus Administradores e Gestores para dentro das escolas e interagir com os alunos.
Precisamos de expor os alunos a essas pessoas, que muitas vezes nem conhecem ou nem sabem que existem.
Precisamos de trazer as marcas hoteleiras nacionais e internacionais para dentro das escolas hoteleiras nacionais.
Precisamos de capilaridade entre as escolas hoteleiras e os Departamentos de RH de todas as empresas turístico-hoteleiras.
Precisamos das nossas escolas hoteleiras a fazer formação contínua dentro das empresas hoteleiras. Ensinam e aprendem.
Precisamos dos nossos professores a fazerem imersões táticas em cadeias hoteleiras nacionais e internacionais.
Precisamos de capilaridade entre as nossas escolas hoteleiras e as Big 4 da consultoria de Administração e Gestão Geral (Deloitte, PWC, Ernst & Young, KPMG). Tal vai ajudar a criar não somente diretores operacionais de hotéis, mas também Administradores e Gestores de hotéis.
Precisamos ainda de maior capilaridade entre as nossas escolas e as empresas de consultoria em Turismo nacionais e internacionais (Neoturis, HVS, Lodging Econometrics, CoSTAR STR…).
Precisamos de trazer os principais consultores em commercial real estate (os hotéis são parte desta subclasse de ativos, dentro da classe real estate) para dentro das nossas escolas hoteleiras (CBRE, Colliers, Horwath, Jones Lang LaSalle…).
Precisamos de parcerias estratégicas entre as nossas escolas e os principais fundos imobiliários a investir em hotéis, nacional e internacionalmente.
Precisamos de parcerias estratégicas com as principais empresas de tecnologia hoteleira (Oracle Fidelio, Sihot, Newhotel, Siteminder, Rategain, Booking, Expedia, Amadeus, Sabre, IDeaS, Duetto…), para que os alunos dominem estes softwares e plataformas durante os cursos.
Precisamos de parcerias com empresas de cruzeiros (um dos trends atuais e futuros, a evidenciar grande necessidade de gestores hoteleiros). Por exemplo, Royal Caribbean, Carnival, Norwegian e a portuguesa DouroAzul.
Precisamos de trazer os principais Chefes de Cozinha e Empreendedores de Restauração do mundo para dentro das nossas escolas hoteleiras. Os principais sommeliers e wine masters. Os principais mixologists.
Precisamos de um grande instituto culinário, na linha do Culinary Institute of America, Le Cordon Bleu, École Ducasse ou Institut Paul Bocuse (hoje denominado Institut Lyfe), para formar e exportar Chefes de Cozinha modernos e disruptivos. Idem para as áreas de Pastelaria, Chocolataria e Mixologia. É necessária total ligação com os chefs estrela Michelin a operar em Portugal e no estrangeiro.
Precisamos de parcerias estratégicas com todas estas instituições e individualidades, também com as principais escolas de formação de Mordomos (as butler schools britânicas são as de maior prestígio mundial).
Precisamos de uma parceria estratégica com o nosso Ministério dos Negócios Estrangeiros, para que dominemos o protocolo oficial e o código diplomático.
Precisamos de parcerias com auditores do Guia Michelin e empresas de Service Quality Control e Reputation Management (LQA, Medallia, ReviewPro, Trust You…).
Precisamos de colocar professores e alunos na senda do BI e da IA, aplicados à indústria hoteleira.
Precisamos de parcerias estratégicas com os principais media internacionais de hotelaria, turismo e viagens (Conde Nast Traveler, AD Architectural Digest, Financial Times How To Spend It, Hotels, Lodging…). Media B2B, mas também B2C.
Precisamos de parcerias com os principais ateliers de Arquitetura e Design de Interiores (felizmente, temos ícones mundiais de nacionalidade portuguesa, Pritzker Prizes como Souto de Moura e Siza Vieira, e também temos designers de interiores com pergaminhos internacionais, como Nini Andrade Silva e outros). A profissão hoteleira tem imenso a ver com arquitetura, design de interiores, place making e afins.
Precisamos de integrar design de hotéis, também na sua componente de arquitetura e engenharia, através de parcerias com os principais ateliers e gabinetes de engenharia.
Precisamos que os líderes do Turismo de Portugal e do Ministério da Educação entendam estas necessidades e as comecem a implementar.
Precisamos que os líderes das escolas em questão sejam isso mesmo, líderes. Que tenham uma visão aspiracional e que a tangibilizem. Que consigam impelir o corpo docente a converter-se nessa mesma visão. Que o inspirem a materializar estes conceitos ambiciosos. Que gerem as escolas (o património físico) com muito maior exigência, como se se tratasse de verdadeiros hotéis de 5 estrelas. Campi ou campuses de excelência. Que venham a gerir os discentes com muito mais exigência e rigor, também ao nível do grooming e ao nível comportamental.
Provavelmente precisamos também de uma nova escola de base privada ou em parceria público-privada, com inspiração internacional, for profit, para que o know-how seja transferido automática e biunivocamente.
Tudo isto tem que fazer parte da forma como pensamos a Administração Hoteleira e, por consequência, os cursos de Administração Hoteleira de elite e de escolas que, podendo ser de elite, ainda não o são.
As mesmas têm que passar a formar talento para guindar a nossa indústria para patamares ainda mais elevados.
Para gerarmos ainda mais valor, a partir da mesma base de ativos.
Para exportarmos talento, para subirmos na cadeia de valor do ensino turístico-hoteleiro mundial.
Para estarmos no Top 10 ou 20 dos rankings internacionais. Tal como a indústria turístico-hoteleira portuguesa já está. E como muitas das nossas universidades clássicas também estão, em especial no que respeita a Economia e Gestão.
No topo de tudo isto, temos que ter uma estratégia de comunicação e marketing que evidencie o valor intrínseco deste tipo de cursos e o que os mesmos farão pelo futuro dos alunos e candidatos.
Tudo tem que ser overhyped, tudo tem que ser quantificado e comunicado, para que estas escolas subtraiam candidatos às escolas de gestão e economia, pois as perspetivas para a nossa indústria são, em geral, melhores do que para a nossa economia.
Muito foi feito. Muito há ainda por fazer. O futuro constrói-se no presente. Mãos à obra.
Por Mário Candeias
CEO do Espinas Hotel Group



