Domingo, Fevereiro 25, 2024
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Que turismo sem pessoas para trabalhar?


Atrair pessoas qualificadas que se enquadrem directamente nas áreas em que apresentamos défices qualificativos, tais como o turismo que vem conhecendo um agravamento da capacidade de captar e fixar profissionais, é tema pré-pandemia.

Este ano, com o sector em recuperação e com muitas das unidades fechadas – e contrariamente ao que poderíamos antecipar – as dificuldades de contratação agudizaram-se. Não se sabe quantos profissionais, em resultado da pandemia, concretizaram uma mudança de sector. Em França, a consultora francesa AKTO dá nota da conversão profissional de um em cada quatro profissionais hoteleiros. Por outro lado, fico sempre na dúvida sobre quantos profissionais formados nas nossas escolas de turismo desenvolvem carreira nesta indústria. Se no passado competiamos com ocupações fisicamente mais exigentes, hoje a realidade é diferente, e a comodidade, o conforto, as perspetivas profissionais e remunerações que as carreiras noutras áreas oferecem, tornam o nosso cenário desafiante e exigem respostas rápidas, concretas e eficazes.

Os resultados preliminares dos Censos 2021, revelados recentemente pelo INE, indicam uma quebra nos últimos 10 anos de 2% da população portuguesa. Os estudos anuais da Comissão Europeia “Ageing Report“ vêm alertando para o dramatismo da situação nacional, apontado para que, em 2060, a população portuguesa rondará os 8 milhões de indivíduos e apresentará uma percentagem de população inativa na ordem dos 90%, o que coloca muitos desafios para além da garantia de rendimento durante os anos de reforma.

Aumentar a natalidade em Portugal é um objectivo quase impossível. E mesmo que o consigamos já amanhã, o seu impacto no mercado de trabalho apenas se sentiria a longo prazo. Por outro lado, a imigração continua a ser um tema delicado que tem de ser enfrentado mais com base na realidade e menos em perceções gerais erradas. Que merece uma visão integrada, muito para além da barreira que o Mediterrâneo representa ou dos difíceis acordos sobre migrações e acolhimento de refugiados na UE. E com políticas activas que encarem de frente as resistências a uma plena integração e reconhecimento da igualdade como princípio basilar.

O sol, os vinhos, o bacalhau e o genuíno sorriso dos portugueses, não são agora suficientes para uma indústria que exige mais pessoas, com mais e novas competências e conhecimentos. É necessário encontrar soluções que respondam aos constrangimentos que vêm retirando o “charme” necessário a estas profissões. Às lideranças, exige-se a capacidade de mudar mentalidades que apliquem e apresentem resultados reais e visíveis, com retribuições atractivas e justas, que garantam a estabilidade e bem-estar dos trabalhadores do sector, acompanhada de uma formação contínua que os capacite para a cada vez maior exigência e sofisticação destes serviços. Por outro lado, importa sermos igualmente capazes de integrar quem escolhe o nosso país para viver, com especial foco na igualdade de tratamento e oportunidades.

Por Fernando Assis Coelho

É licenciado em Geografia pela Universidade Nova de Lisboa e pós-graduado em Turismo, com formações executivas na Porto Business School, SDA Bocconi e AESE Business School. Estreou-se como assistente de direção no grupo hoteleiro escocês Brudolff, tendo exercido funções como diretor de hotel no grupo Pestana, Royal Óbidos Spa & Golf Resort e Hotel Cidnay. Inicia funções em setembro com responsabilidade no turismo do grupo Symington.

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