Quinta-feira, Março 12, 2026
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Rent-a-car. “Podemos ter as melhores máquinas, mas se não tivermos as melhores estradas, nada disto adianta”

A VI Convenção Nacional da ARAC, em Torres Vedras, debateu esta sexta-feira, 24 de outubro, como a mobilidade pode impulsionar o turismo em Portugal e a necessidade de colmatar a falta de investimento que ainda limita o setor, destacando a importância de descentralizar a oferta turística pelo território e de desenvolver as infraestruturas em destinos além de Lisboa.

O evento juntou esta sexta-feira, 24 de outubro, os principais protagonistas do turismo, da mobilidade e da economia nacional, em Torres Vedras, sob o mote “Locação – Resposta para a Nova Mobilidade”.

O terceiro painel do evento, intitulado “O Turismo como Motor Global de Desenvolvimento”, contou com a participação de António Trindade, presidente do Grupo Porto Bay, Luís Martins, presidente da Entidade Regional de Turismo do Porto e Norte de Portugal (TPNP), e Pedro Costa Ferreira, presidente da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo (APAVT).

A ligação ao território e a importância da inovação

António Trindade começou por sublinhar que “há um fator que é determinante para a oferta turística, que é a sua ligação ao território”. Para o responsável do Grupo Porto Bay, é essencial que as empresas consigam identificar cada produto com o seu território, assumindo uma postura proativa e inovadora. 

“A inovação faz sempre muito mais quando a oferta estimula a procura do que quando reage à procura”, afirmou, defendendo que o setor deve ser “audaz e visionário” para não perder competitividade num contexto em que “os ciclos de inovação e os ciclos de vida de todos são cada vez mais curtos”.

Foi neste contexto que destacou a importância de “parcerias por parte da oferta que potenciem esta dispersão e representatividade nos diferentes territórios”, com vista a descentralizar o turismo. “Não é só seguir para aqueles territórios que já são suficientemente maduros, mas estimular esta dispersão de afirmação da oferta por todo o território nacional”.

No contexto da mobilidade, acrescentou ainda a relevância do setor hoteleiro em Lisboa para impulsionar o crescimento: “se se conseguir que Lisboa tenha, por exemplo, um dia mais de estadia, o que é que isso pode potenciar [em termos de] oportunidades para o rent-a-car?”.

O empresário apontou ainda o papel do aeroporto de Lisboa não só como infraestrutura que serve a capital, mas como “um hub que distribui mercado para todo o país”, defendendo que este “tem de ser um fator de diferenciação positiva em relação à mera utilização do aeroporto”.

“Para nós, agentes de turismo, valorizar o hub de Lisboa quando o cliente usa só o aeroporto e vai para outros destinos é manifestamente diferente do que usar o hub como paragem em Lisboa”, defendeu António Trindade.

Ainda mais, alertou que este problema não é exclusivo a Lisboa. “Tem-se subestimado as capacidades do aeroporto do Porto e do aeroporto de Faro como distribuidores de mercado”, frisou.

Infraestruturas subaproveitadas e desequilíbrios territoriais

O tema dos investimentos nas infraestruturas foi retomado por Luís Pedro Martins, que sublinhou a necessidade de olhar para a mobilidade como um todo. “Podemos ter as melhores máquinas e disponibilizar a quem vai aos rent-a-car os melhores automóveis, mas se não tivermos as melhores estradas, nada disto adianta”, afirmou o presidente da TPNP.

“É verdade, os números [do setor do turismo] são bons, mas podíamos fazer mais. A questão é que não fazemos mais porque dependemos de outras áreas”, acrescentou, referindo “desde logo a questão do aeroporto”.

Luís Pedro Martins destacou o potencial subaproveitado dos aeroportos além do de Lisboa, lamentando a falta de investimento. “Só olhando para o que está a fazer a entrada da United no Algarve, pode-se ver a diferença de um pequeno investimento”, exemplificou.

“Cabe-me a mim continuar a insistir que, para haver investimento daqui a dez anos, é preciso começar a falar hoje porque estamos escaldados com o que tem acontecido em Lisboa”, sublinhou.

O presidente da TPNP disse ainda que, mesmo “com esta falta de carinho”, o aeroporto do Porto chega a 2026 com 130 rotas e a atrair companhias como a Delta Airlines e a Ethiopian Airlines – sendo que esta última está “a entrar em Portugal pela primeira vez por aquele aeroporto”. No entanto, “poderiam ser muitas mais”, frisou, sublinhando que o aeroporto poderia atingir os 40 milhões de passageiros “sem termos de deslocalizar”.

No campo rodoviário, Martins alertou que, “ao dia de hoje, são cerca de 936 estradas, pontes, linhas de ferrovia a necessitar de intervenção urgente”. Para o dirigente, a precariedade das infraestruturas está a limitar a expansão turística para o interior. “Eu quero que eles vão para o Douro, quero que eles vão para Trás-os-Montes, quero que eles vão para o Minho. Como é que estamos a tratar das nossas estradas regionais?”, questionou, apontando também a “miserável” situação da ferrovia e o atraso na modernização da linha do Douro.

O responsável lamentou ainda a concentração excessiva do turismo no Porto, referindo que há atualmente “120 pedidos de novos hotéis para o Porto, 67 autorizados e um aumento de dez mil camas”.

“Não entendo como é que hoje podem estar a ser construídos hotéis em cima de hotéis na cidade do Porto”, defendeu. “Tenho uma região que tem 21 mil quilómetros quadrados. Como é que vou ajudar também a melhor distribuição de turistas e conseguir que o turismo impacte o território? Deixá-los todos em cima da Avenida dos Aliados? Não. Vamos distribuir melhor. O que é que podemos fazer para isso? Zero”.

Relação entre rent-a-cars e agências de viagens

De acordo com Pedro Costa Ferreira, o setor da locação automóvel “está muito presente já nas ofertas das agências de viagens”, uma vez que “dá resposta a um determinado tipo de procura – que é mais independente, procura maior liberdade de movimentos e quer uma maior personalização da sua experiência”.

No entanto, o presidente da APAVT considera que a prioridade deve ser o foco no cliente. “O que a locação automóvel tem a fazer para melhorar a relação com a agência de viagens é não se preocupar muito com essa relação e tratar do cliente”, aconselhou.

Pedro Costa Ferreira lembrou que “todos nós — hoteleiros, agentes de viagens, locação automóvel — olhamos para o mesmo cliente”, partilhando uma cadeia de valor onde cooperação e concorrência coexistem. “Todos disputamos o cliente. Portanto, quem quer progredir e ter mais peso nos diversos universos com quem se relaciona, tem que tratar de melhorar a experiência do cliente”, sublinhou.

No caso particular da locação automóvel, apontou que o setor deverá “melhorar o processo e torná-lo mais simples, ter as respostas mais rápidas, ter a informação mais transparente, desmaterializar mais as tomadas e as largadas das viaturas, acompanhar melhor o cliente ao longo da viagem e personalizar mais a sua experiência”.

“Quando fizer isso, vai atrair mais clientes e, quando atrair mais clientes, as agências de viagens vão integrar mais a locação automóvel com os seus clientes”, concluiu.

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