Sexta-feira, Julho 1, 2022
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Stern Travel reforça equipa e quer abrir nova agência até ao final do ano

Após ter aberto há um ano, em plena pandemia, a agência de viagens de Felgueiras, Stern Travel, criada por David e Sofia Pinheiro, faz um balanço positivo do primeiro ano de atividade. De tal forma, que a empresa já aumentou a equipa e está a trabalhar na abertura de uma segunda agência até ao final do ano. Em entrevista ao TNews, David Pinheiro fala da expansão da empresa e dos desafios que se colocam ao setor da distribuição no pós pandemia.

David Pinheiro começa por alertar para o problema da perda de recursos humanos durante a pandemia. “É com tristeza que assisto a toda a degradação que o setor da distribuição sofreu. Fomos muito estoicos na forma como conseguimos ultrapassar muitos problemas, mas transversalmente estamos com um problema enorme em mãos. Estamos com muito dificuldade em obter gente de qualidade, porque muitos se reformaram e outros foram para outras atividades, e não há gente em número suficiente para conseguir um bom trabalho”, refere. David não tem dúvidas que há pessoas “de extraordinária qualidade que, para terem uma atividade, tiveram de optar por outras áreas e já não voltam para o turismo. Ficámos muito mais pobres com a pandemia”, constata.

Como que em contra-ciclo com o que está a suceder no mercado, a Stern Travel recrutou uma colaboradora já este ano e prepara-se para aumentar novamente a equipa em julho. “Neste momento já somos três e vamos passar a quatro no próximo mês”, conta.

Quando abriu a empresa em julho do ano passado, um dos vaticínios de David Pinheiro era este: “O mercado ia começar devagar e, quando começasse, não iríamos ter capacidade de resposta para tudo”. Passado um ano, é com alguma tristeza que confirma esta situação: “Se por um lado, estou a trabalhar para poder construir com tempo a nossa casa, em termos humanos fico tristíssimo por ver que o mercado não está a fazer o mesmo, porque têm medo que haja outros problemas, e estão a perder-se clientes por falta de resposta”, lamenta.

O principal foco da Stern Travel continua a ser a área corporativa e David Pinheiro explica porquê: “Por uma razão, quem vai de viagens de negócios faz férias, e os empresários que fazem férias compram hotéis caros. Por sua vez os funcionários também gostam de ir para boas unidades hoteleiras. Atrás da área corporativa vem a área de lazer, que é, de facto, aquela que mantém o negócio da distribuição turística em pé. Muitos deixaram, no pós covid, de fornecer empresas por não terem capacidade financeira. Enquanto nós temos essa capacidade financeira de fornecer empresas”. A estratégia da Stern Travel obteve sucesso no ano passado, visto que a agência fechou o ano com resultados positivos, ultrapassando os 550 mil euros de volume de negócios e, este ano, já ultrapassaram um milhão de euros em volume de negócios.

Expansão

Além de reforçar a equipa, a intenção da Stern Travel é alargar a sua rede até ao final do ano, com mais uma loja. “As grandes redes abandonaram muitas cidades por esse país fora, porque não puderam manter as redes que tinham, era insustentável. Sabíamos que umas sustentavam as outras, se ninguém está a pagar ninguém, as que não se pagam tinham mesmo de fechar. Mas não quer dizer que não haja mercados nesses sítios”, defende. Questionado sobre quais as cidades em que estão interessados em abrir uma agência, David revela apenas que se trata de “uma cidade altamente industrializada, na zona norte do país”. A ideia será contratar equipas de pessoas experientes e com know-how no negócio. “Estamos a tentar recuperar para o turismo pessoas com carteiras de clientes, que conhecem o mercado, sabem como funcionam e querem voltar”, explica. A ideia é “capitalizar esse material humano, porque julgo que vai fazer a diferença para podermos crescer de forma sustentada”.

“As grandes redes abandonaram muitas cidades por esse país fora”

Ao mesmo tempo, a Stern Travel fez, no princípio deste ano, um investimento de quase 15 mil euros em sistemas de informação para controlo de gestão. “Ao contrário das grandes redes, não é minha intenção encher a empresa de pessoas na área administrativa e financeira, é aí que quero cortar, não é nos comerciais”, afirma, completando com a necessidade de investimento em formação das pessoas.

Constrangimentos e desafios da operação

Na Stern Travel ainda não se vendem viagens para o verão. “Estou a vender para a próxima semana”, responde David Pinheiro, quando questionado sobre como estão as vendas para o verão. Há uma razão para isso. “O cliente procura garantir que não vai haver problemas e, portanto, marca o mais tarde possível, mesmo que seja mais caro. Ou seja, no meu mercado, os clientes não estão a marcar verão ainda, porque não sabem como vai ser o verão”.

Os desafios chegam logo na escolha de destinos para viajar. “Os operadores têm alguma operação, mas tudo muito calculado, estes desdobramentos de charters creio que vão continuar a existir, vão ser necessários, porque não há produto que chegue para todos os consumidores. Mais uma vez, vamos ter que nos superar a nós próprios”, afirma. “Ainda há muitas barreiras relacionadas com a covid-19, países com dificuldades na entrada, a Europa está a funcionar a dois tempos. E nós temos de fazer parte da solução não do problema. Nenhum dos nossos clientes sai para esses países sem ter os formulários preenchidos, somos nós que os preenchemos. É aí que está o valor agregado da viagem. Portanto, parte do nosso sucesso também se focou em nos termos virado para o cliente, olhar para os problemas dele, perceber as suas necessidades e colmatá-las antes sequer que ele pense que tem uma dificuldade. Temos de fazer mais e melhor pelos clientes”, defende.

“Os aeroportos portugueses são um problema político enorme e as filas de espera desesperantes, assim como a dificuldade em obter passaportes”

Por sua vez, o responsável da Stern Travel aponta também problemas operacionais nos aeroportos e na obtenção de passaportes. “Os aeroportos portugueses são um problema político enorme e as filas de espera desesperantes, assim como a dificuldade em obter passaportes – em alguns sítios obtém-se ao fim de uma semana, noutros três semanas não chega, há muitas dificuldades governamentais para por o turismo a funcionar no período pós-covid”, enumera o responsável, acrescentado a questão do SEF e “a pressão política para se fazer um novo aeroporto”. “Ninguém está a querer resolver este problema, porque querem resolver um problema muito maior, que é a construção do aeroporto. Se resolvem o problema do Aeroporto Humberto Delgado, não precisam de construir novo aeroporto. Portanto, aquilo é um problema que tem de ser gerido e não resolvido, e vai dar cabo das nossas empresas”, defende. “Na zona Norte temos uma mais valia muito grande que é o aeroporto de Barajas. Admito que para Lisboa e outros sítios seja mais complexo”.

Negócio das agências de viagens

Fruto da pandemia e dos problemas criados, David Pinheiro diz olhar “para o mercado com a insatisfação de perceber que alguns agentes de viagens não são empresários, são agentes de viagens que têm empresas” e explica porquê. “São pessoas que não querem que as empresas tenham uma vida longa e não perceberam que a destruição que a covid-19 causou poderia ser uma oportunidade para reconstruir e não para ter as mesmas más atitudes que se tiveram antes da covid-19”, esclarece, dando um exemplo em seguida: “São empresas com dificuldades sobejamente conhecidas que ganham 25 euros por taxa de emissão por cada reserva”. “Mantenho as mesmas estratégias comerciais de criar valor, não faço descontos, mas se um cliente precisar que o leve ao aeroporto, eu levo. O cliente dá valor a isso, porque não há quem o faça. É óbvio que isto é possível numa pequena empresa, admito que numa grande rede isso não é possível, mas é por isso que as pequenas empresas têm de se fazer valer das suas características boas”, sublinha. “Se continuarmos a fazer isto, não vamos criar clientes fiéis e que queiram serviço”, remata.

“Olho para o mercado com a insatisfação de perceber que alguns agentes de viagens não são empresários, são agentes de viagens que têm empresas”

Futuro

David Pinheiro acredita que o negócio das viagens corporate vai manter-se no futuro, pelo menos no mercado em que a Stern Travel atua. “Estamos numa cidade industrial e, fruto desta dificuldade de abastecimento, as fábricas de calçado e têxtil estão a rebentar de trabalho, porque as grandes marcas internacionais deixaram de poder produzir na China. No entanto, nós somos só fabricantes, não temos matérias-primas. Portanto, prevejo um grande crescimento nas viagens dos nossos empresários”, explica. “As feiras de calçado nunca tiveram tanta procura como agora, vamos ter três feiras seguidas em setembro, já temos mais de 200 passageiros previstos para essa altura, que é tradicionalmente de época baixa para as agências. Como o setor do calçado está com uma grande produtividade, neste momento, antevejo um final de ano a faturar na ordem de 1,6 milhões de euros e fechar com resultados positivos”.

Já quanto ao aumento das taxas de juro e as consequências que pode ter no consumo de viagens de lazer a médio prazo, David Pinheiro afirma que poderá afetar o segmento do lazer das grandes empresas de distribuição, mas não o segmento que a Stern Travel trabalha. “O tipo de cliente que tentámos alcançar é um cliente que, com o aumento das taxas de juro, recebe mais pelos seus depósitos a prazo, portanto, vai ter mais dinheiro disponível. As grandes redes, pelo contrário, apostam no mercado de volume, que não tem depósitos a prazo, pelo contrário, tem empréstimos bancários, esses vão ter um emagrecimento nas suas receitas que vai provocar um decréscimo na procura turística no próximo ano. Sem falar da questão dos combustíveis e das matérias primas. Creio que vai ser mais uma disrupção para as grandes redes, que vão ter de repensar o seu modelo de negócio, criando valor, e não dando descontos”, aponta.

“Devíamos ter mais gestores à frente das nossas empresas, para poder gerar uma mais- valia adicional”

Outro desafio que David Pinheiro receia é a situação financeira das agências de viagens. “A guerra na Ucrânia não afetou diretamente a venda de viagens, mas creio que vai afetar as empresas como organismos vivos, tenho muito medo dos empréstimos que foram feitos e que vão ter de ser pagos, indexados a uma Euribor que está a subir. Tenho muito receio pelas empresas do nosso setor. Se um empresa minha congénere não está bem, é uma questão de tempo até eu não ficar bem”, lamenta, concluindo com um desejo: “Devíamos ter mais gestores à frente das nossas empresas, para poder gerar uma mais-valia adicional. Hoje em dia há apoios à contratação, à criação de valor, temos de criar valor. Na na cadeia de distribuição todos têm de ganhar. Não procuro fornecedores pelo que eles me dão a ganhar pessoalmente, procuro fornecedores que me fazem crescer sustentadamente e que eu deixo que me utilizem para, também eles, cresceram sustentadamente”.

2 COMENTÁRIOS

  1. Excelente avaliação da realidade da actividade turística feita pelo Sr. David Pinheiro. Uma análise concisa e real, certamente alicerçada numa vasta experiência pessoal.

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