Tempestades provocam “quebras abruptas de faturação” e colocam turismo em alerta

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O agravamento das condições meteorológicas em várias regiões do país, associado às tempestades Ingrid, Kristin e Leonardo, está a provocar impactos relevantes no turismo, com quebras de faturação, interrupções de atividade e danos em infraestruturas. Ouvidas pelo TNews, associações e entidades do setor alertam para uma dispersão territorial dos efeitos, fragilidades ao nível dos mecanismos de apoio e riscos acrescidos para empresas de menor dimensão, num contexto ainda marcado por elevada incerteza quanto à recuperação.

De acordo com o levantamento preliminar realizado pela Turismo Centro de Portugal, até às 13h00 de 4 de fevereiro responderam ao inquérito 277 empresas turísticas, maioritariamente dos setores do alojamento e da restauração. Segundo a entidade regional, “cerca de 81% das empresas referem ter sofrido danos nas instalações físicas”, sendo que “47% indicam uma paragem total da atividade e 33% uma paragem parcial”.

A Turismo Centro de Portugal indica que “as perdas materiais estimadas ascendem já a cerca de 6,5 milhões de euros e as perdas de faturação ultrapassam os 2,6 milhões de euros”, sublinhando que estes valores são ainda preliminares, uma vez que “muitas empresas referem não conseguir, nesta fase, quantificar totalmente os prejuízos”.

Segundo a mesma fonte, os dados recolhidos apontam para um maior número de ocorrências comunicadas em concelhos como Leiria, Alcobaça, Coimbra, Tomar, Figueiró dos Vinhos, Lourinhã, Figueira da Foz, Lousã, Nazaré, Pombal, Marinha Grande e Ourém, refletindo a abrangência geográfica da tempestade Kristin. A entidade regional alerta, no entanto, que “estes resultados são preliminares e condicionados por fatores como falhas de comunicações em algumas localidades”, estando o levantamento ainda em curso.

“Cerca de 81% das empresas referem ter sofrido danos nas instalações físicas (…) e 47% indicam uma paragem total da atividade.”

Turismo Centro de Portugal

Também a Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) confirma um impacto imediato severo nas empresas de restauração, bebidas e alojamento. Em declarações ao TNews, a secretária-geral da associação, Ana Jacinto, afirma que os efeitos têm sido “severos” e traduzem-se “em interrupções forçadas de atividade, com muitos estabelecimentos total ou parcialmente encerrados por razões de segurança, falta de energia, água ou comunicações, e danos estruturais que impedem o funcionamento normal”, situação que resulta em “quebras abruptas de faturação”.

Segundo dados preliminares do inquérito nacional da AHRESP, “cerca de 68% dos prejuízos reportados concentram-se na restauração e similares, face a 32% no alojamento turístico”, diferença explicada pela maior exposição destes estabelecimentos, nomeadamente esplanadas e localizações em frentes marítimas ou “centros urbanos mais vulneráveis”. A associação alerta ainda para danos em estruturas, equipamentos elétricos e áreas exteriores, bem como para a perda de stocks e mercadorias, “especialmente crítica na restauração, onde a matéria-prima é perecível”.

A AHRESP sublinha que os impactos das tempestades ultrapassam as zonas inicialmente abrangidas pela situação de calamidade, assumindo já uma expressão alargada a nível nacional. “Do ponto de vista geográfico, os relatos têm aumentado diariamente, com incidência relevante em concelhos como Leiria, Alcobaça, Coimbra, Sertã, Bombarral e Alcácer do Sal, mas também já com situações registadas em Mafra, Lisboa e Almada, entre outros”, refere a associação, considerando esta dispersão “particularmente preocupante”.

“Os impactos têm sido severos, traduzindo-se em interrupções forçadas de atividade (…) e quebras abruptas de faturação.”

Ana Jacinto, secretária-geral da AHRESP

Além dos danos físicos, a associação alerta para o risco de rutura financeira em muitas empresas, sobretudo num setor caracterizado por margens reduzidas. A AHRESP defende que, perante prejuízos que em alguns casos já ascendem a dezenas de milhares de euros, “é essencial que os apoios cheguem às empresas com rapidez”, salientando que a eficácia das medidas anunciadas depende da sua celeridade, simplicidade e desburocratização. A associação chama ainda a atenção para situações de empresas e empresários em nome individual que, estando fora das zonas formalmente abrangidas pela calamidade ou dos critérios de elegibilidade, enfrentam dificuldades idênticas sem acesso efetivo aos mecanismos de apoio.

Hotelaria e alojamento local sob pressão operacional

No alojamento local, a Associação do Alojamento Local em Portugal (ALEP) reconhece fortes constrangimentos operacionais, ainda que com impacto económico imediato mitigado pela época baixa. O presidente da associação, Eduardo Miranda, refere que “a atividade na região está muito limitada, talvez não tanto pelos impactos diretos nas propriedades, mas sim porque não há procura”. Acrescenta que, nesta fase, “não há dados ainda de quebra de reservas ou impacto financeiro por perda de receitas turísticas”, lembrando que a maior parte da oferta no Centro está concentrada em destinos de praia e verão.

A ALEP chama, contudo, a atenção para a vulnerabilidade dos operadores diretamente afetados. Segundo Eduardo Miranda, muitos proprietários “estão excluídos dos apoios previstos para a recuperação de casas” e enfrentam dificuldades em acionar seguros, defendendo soluções semelhantes às aplicadas durante a pandemia, que permitam o acesso a apoios mediante prova de atividade económica.

“A atividade na região está muito limitada, talvez não tanto pelos impactos diretos nas propriedades, mas sim porque não há procura”

Eduardo Miranda, presidente da ALEP

No terreno, os efeitos são visíveis em unidades hoteleiras como os Hotéis Eurosol, em Leiria, onde se registaram danos significativos em coberturas, fachadas, sistemas técnicos, elevadores e áreas inundadas, bem como perdas de equipamentos armazenados. A unidade confirma pedidos de alojamento associados a ações de apoio e emergência, a par de cancelamentos de reservas existentes antes da depressão. Embora o fornecimento de energia e água tenha sido entretanto restabelecido, as limitações nas comunicações e a necessidade de avaliar danos adicionais continuam a condicionar a operação e a gestão da recuperação.

Quanto à evolução da procura, a Turismo Centro de Portugal considera que ainda é “prematuro quantificar de forma rigorosa os efeitos ao nível dos cancelamentos e das reservas futuras”, sublinhando que a perceção externa do destino dependerá “da capacidade de resposta, da rapidez na recuperação e da comunicação clara sobre a normalização das condições de segurança e de acolhimento”. A entidade assegura que está a trabalhar em articulação com o Turismo de Portugal e a tutela, através do envio de relatórios contínuos, para apoiar a definição de medidas ajustadas à realidade do setor.

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