The Portuguese Buddy quer afastar-se da “marginalização” dos tuk-tuks e reforçar viagens à medida e eventos

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A The Portuguese Buddy quer afirmar-se cada vez mais como uma empresa de turismo integrada, reduzindo a dependência da operação de tuk-tuks em Lisboa e reforçando áreas como viagens à medida e eventos corporate. A estratégia surge numa altura em que os fundadores consideram que o setor dos tuk-tuks enfrenta um problema de reputação causado pela falta de regulamentação e pela massificação da atividade na capital.

Criada em 2015, a empresa começou com tours turísticos em Lisboa e opera atualmente com nove tuk-tuks elétricos, uma van de nove lugares, uma agência de viagens e uma área dedicada a eventos e team buildings corporativos.

“Hoje já não somos apenas uma empresa de tuk-tuks. Queremos ser vistos como uma empresa de turismo que concentra várias experiências e serviços diferentes”, explicou Rui Pardal, diretor comercial da The Portuguese Buddy, em entrevista ao TNews.

A empresa emprega atualmente cerca de 13 guias turísticos, cinco pessoas na estrutura interna e sete travel designers ligados à agência de viagens.

“O problema dos tuk-tuks foi a falta de regulamentação”

Ao longo da entrevista, Carlos Bagulho, fundador da empresa, mostrou-se particularmente crítico em relação à forma como o setor dos tuk-tuks evoluiu em Lisboa nos últimos anos. “O grande problema foi a ausência total de regulamentação. Durante muito tempo qualquer pessoa podia abrir uma empresa de animação turística, comprar um tuk-tuk e começar a operar sem qualquer formação ou controlo”, afirmou.

Segundo os responsáveis, essa falta de regras contribuiu para o crescimento descontrolado da atividade, originando problemas de trânsito, estacionamento, ruído e conflitos entre operadores.
“Assistimos a situações de caos no setor. Há demasiada gente, poucos lugares de estacionamento e demasiadas empresas sem preparação”, afirmou Rui Pardal.

Carlos Bagulho considera que o problema acabou por afetar também empresas que procuram diferenciar-se pela qualidade do serviço. “Para o turista, é tudo um tuk-tuk. É muito difícil perceber a diferença entre empresas que fazem um trabalho sério e outras que não fazem”, afirmou.

Os responsáveis defendem também a criação de formação obrigatória para operadores e guias turísticos de tuk-tuk. “Uma coisa é conduzir um tuk-tuk. Outra é fazer uma visita guiada e explicar a história da cidade”, afirmou Carlos Bagulho, defendendo maior profissionalização do setor.

Nos últimos meses, a operação tornou-se ainda mais desafiante com as restrições impostas pela Câmara Municipal de Lisboa à circulação e estacionamento de tuk-tuks em várias zonas da cidade. Segundo Rui Pardal, existem atualmente “cerca de 337 ruas” com restrições à circulação ou estacionamento.

Ainda assim, defendem que o conceito faz sentido numa cidade como Lisboa. “Lisboa é uma cidade de colinas, difícil de percorrer em dois ou três dias, sobretudo para pessoas mais velhas. Os tuk-tuks surgiram para responder a essa necessidade”, afirmou Rui Pardal.

Operação quer afastar-se da “rua” e apostar em parceiros

A The Portuguese Buddy reconhece que a atividade atravessa atualmente um momento mais difícil do que em anos anteriores. “2024 foi o nosso melhor ano nesta área. Em 2025 tivemos uma ligeira quebra”, explicou Carlos Bagulho, atribuindo parte dessa descida ao desgaste da imagem do setor e também à alteração do perfil do turista que visita Lisboa.

“Achamos que Lisboa perdeu alguma qualidade turística. Hoje há mais turismo de passagem, mais mochileiros e menos turistas com capacidade financeira elevada”, afirmou. Apesar disso, os responsáveis garantem que o negócio continua sólido e que 2026 arrancou acima dos resultados do ano anterior.

A estratégia passa agora por reduzir progressivamente a dependência da venda direta na rua e apostar mais em reservas antecipadas, hotéis, plataformas e parceiros internacionais. “O futuro passa cada vez mais pelas parcerias e pelas marcações. O cliente sente muito mais confiança quando a atividade é recomendada por um hotel ou por uma plataforma com avaliações”, explicou Rui Pardal.

Atualmente, a empresa trabalha com plataformas como Viator, GetYourGuide e Civitatis, além de hotéis e agentes de viagens internacionais, sobretudo dos Estados Unidos.

Os principais mercados da empresa acompanham os mercados emissores de Lisboa: norte-americano, britânico, francês, espanhol e brasileiro.

Tours apostam em experiências diferenciadoras

Embora os circuitos clássicos continuem a ser os mais procurados, como os tours históricos de Alfama ou os passeios em Belém, a empresa tem apostado cada vez mais em produtos diferenciadores. Entre eles estão tours de street art, food tours e experiências corporativas como “tuk papers” ou karaoke em tuk-tuk. “Queremos criar elementos diferenciadores e mostrar Lisboa de uma forma mais autêntica”, explicou Rui Pardal.

Os responsáveis destacam também o papel dos guias turísticos como principal fator diferenciador da experiência. “Se tivermos os mesmos tuk-tuks e os mesmos percursos, o guia é o que faz a diferença”, afirmou Carlos Bagulho.

A empresa garante apostar fortemente na formação e recrutamento de pessoas ligadas à cidade e com conhecimento cultural. “Temos pessoas ligadas à História de Arte, economia, artes e cultura. Isso nota-se muito na qualidade da experiência”, acrescentou Rui Pardal.

Rita Marques, guia da The Portuguese Buddy.

O TNews acompanhou ainda um dos passeios históricos da empresa em Lisboa, conduzido por Rita Marques, guia da The Portuguese Buddy há nove anos. Antiga psicoterapeuta, decidiu dedicar-se em exclusivo aos tuk-tuks e garante continuar apaixonada pela profissão e pela cidade. Ao longo do percurso por alguns dos pontos mais icónicos de Lisboa – como a Sé, a Mouraria, o Panteão Nacional, o Miradouro da Senhora do Monte ou as Portas do Sol – foi partilhando referências históricas, curiosidades e episódios da cidade, defendendo uma maior valorização da atividade e da qualidade do serviço prestado.

Segundo explicou, muitas vezes é difícil para os turistas perceberem as diferenças entre operadores apenas pelo preço. “É difícil explicar porque cobramos 100 euros por uma experiência quando há quem faça metade do preço, mas a experiência não é a mesma”, afirmou, defendendo também modelos mais regulados e preços mais uniformizados, à semelhança do que acontece no Porto.

Agência de viagens cresce com aposta em destinos “menos massificados”

A diversificação do negócio ganhou força durante a pandemia, período em que os responsáveis decidiram dedicar-se em exclusivo ao projeto e expandir a atividade para novas áreas do turismo.

Em 2023 nasceu a agência de viagens da empresa, especializada sobretudo em viagens personalizadas para destinos do Sudeste Asiático, África e América do Sul. “Nós não trabalhamos muito o produto tradicional de pacote turístico. Apostamos mais em viagens à medida, experiências autênticas e destinos menos massificados”, explicou Rui Pardal.

Embora a maioria dos clientes da agência continue a ser portuguesa, a empresa trabalha também com viajantes estrangeiros, sobretudo através das restantes áreas de negócio e de clientes que procuram uma experiência integrada em Portugal.

Tailândia, Indonésia, Vietname, Japão, safaris em África, Peru, Bolívia e Costa Rica estão entre os destinos mais procurados atualmente.

A empresa trabalha com travel designers especializados por regiões e garante que privilegia equipas com conhecimento direto dos destinos. “Queríamos pessoas que conhecessem realmente os locais que vendem. A maior parte da equipa já viajou para os destinos que trabalha”, explicou.

O conflito no Médio Oriente teve impacto direto em alguns mercados asiáticos. A empresa chegou mesmo a cancelar uma viagem de grupo ao Sri Lanka por motivos de segurança.

“A procura pela Ásia abrandou temporariamente e houve um desvio para destinos como Brasil, África, Panamá ou Costa Rica”, afirmou Rui Pardal.

Corporate e eventos são a aposta mais recente

A mais recente área de expansão da The Portuguese Buddy é a organização de eventos corporate, lançada no final de 2024. A empresa organiza team buildings, incentivos, conferências e eventos empresariais, integrando muitas vezes as restantes áreas do grupo.

“Hoje conseguimos acompanhar um cliente estrangeiro em toda a experiência: viagem, hotel, evento e atividades em Lisboa”, explicou Rui Pardal.

Os eventos são desenhados de raiz, incluindo conceito criativo, logística, catering, espaços e animação.

Segundo os responsáveis, esta área ainda está numa fase inicial, mas deverá assumir um peso crescente nos próximos anos.

Apesar da aposta atual passar sobretudo pela consolidação das diferentes áreas de negócio, a internacionalização continua a ser uma hipótese em aberto.

Os responsáveis admitem que chegaram a estudar a expansão dos tuk-tuks para cidades como Madrid ou Sevilha. “Pensámos várias vezes em abrir operações noutras cidades, sobretudo em Espanha. Não é uma hipótese fechada”, revelou Carlos Bagulho.

Para já, o foco está na consolidação do crescimento atual. “Temos muita coisa para consolidar primeiro. Mas somos inquietos por natureza, por isso provavelmente vão surgir novas ideias no futuro”, concluiu.

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