Torel Boutiques cresce até 10% e antecipa fase de consolidação: “Em 2028 ou 2029 pode voltar a haver crescimento”

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O grupo Torel Boutiques mantém uma trajetória de crescimento, com uma evolução do negócio entre 8% e 10% face ao ano passado, e prevê uma fase de consolidação após a expansão recente para novos destinos em Portugal, embora com projetos em pipeline. “Estamos em linha com o ano passado, em alguns casos até acima”, afirmou Pedro Serra, diretor de operações do grupo, em entrevista ao TNews, apontando, no entanto, para um contexto de maior incerteza e decisões de reserva mais tardias por parte dos clientes.

Com um portefólio atual de oito unidades – distribuídas por Lisboa, Porto, Douro, Açores e Guimarães – o grupo reforçou a sua presença em 2025 com três novas aberturas. Segundo o responsável, esta fase marcou sobretudo um crescimento do portefólio e do reconhecimento da marca, ainda que algumas unidades estejam numa fase inicial de maturação.

“Eu diria que este ano, ou no próximo ano, talvez seja um ano de alguma consolidação, podendo ainda haver uma novidade”, referiu Pedro Serra, acrescentando que “2028, 2029, pode voltar a haver aqui algum crescimento”.

Apesar do contexto internacional, o grupo mantém níveis elevados de ocupação, especialmente nos destinos urbanos. “Lisboa e Porto continuam com ocupações muito altas, acima dos 85% quase todo o ano”, explicou Pedro Serra, sublinhando que, mesmo nos meses de época baixa, as taxas se mantêm entre os 50% e os 60%, o que evidencia uma “sazonalidade cada vez menos acentuada”.

Ainda assim, o comportamento da procura tem vindo a mudar. “Sempre que há alguma instabilidade, os mercados esperam mais tempo antes de reservar. O pick-up está cada vez mais próximo das datas”, afirmou, apontando para uma tendência observada nos últimos anos.

Os principais mercados emissores incluem Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, França e Portugal, sendo que o grupo continua a ter uma forte exposição internacional.

“Eu diria que este ano, ou no próximo ano, talvez seja um ano de alguma consolidação, podendo ainda haver uma novidade”

A entrada, em 2025, em destinos como a Ilha Terceira, nos Açores, e Guimarães trouxe desafios distintos face aos mercados urbanos. No caso dos Açores, Pedro Serra destacou a forte dependência da conectividade aérea e a elevada sazonalidade. “Há limitações nos voos e isso condiciona o crescimento”, afirmou, referindo que a saída da Ryanair “cria um transtorno adicional” e pode atrasar o desenvolvimento do destino.

O responsável considera que a Terceira tem potencial ainda por explorar, mas carece de maior investimento em acessibilidades. “É um destino muito completo, com natureza, mar e experiências, mas falta oferta de voos ao longo de todo o ano”, disse, acrescentando que se trata de um destino que “ainda é um pouco menosprezado”, apesar de permitir experiências diversificadas em qualquer estação.

Já Guimarães apresenta um perfil diferente, mais ligado ao turismo de proximidade e ainda em fase de afirmação. “Existe como destino turístico, mas ainda precisa de se afirmar como um destino para pernoitar e não apenas de passagem”, explicou, sublinhando o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido a nível local para reforçar a atratividade da cidade.

Apesar destes desafios, o grupo tem identificado dinâmicas positivas entre unidades. “Temos hóspedes que combinam diferentes hotéis do grupo, por exemplo no continente e depois nos Açores, mesmo sem ser esse o objetivo inicial”, referiu, apontando para um crescimento da ligação entre destinos e da complementaridade do portefólio.

“Sempre que há alguma instabilidade, os mercados esperam mais tempo antes de reservar. O pick-up está cada vez mais próximo das datas”

Personalização e “ligação emocional” como diferenciação

O posicionamento do grupo continua centrado na personalização e numa abordagem de hospitalidade próxima e emocional. “Tentamos ao máximo criar experiências e fazer um engagement até de alguma forma mais emocional do que só [oferecer um] serviço regular”, afirmou Pedro Serra, sublinhando que o objetivo é ir além da prestação de serviço tradicional.

Essa estratégia traduz-se na operação diária através de experiências à medida, ajustadas ao perfil de cada hóspede. “Tudo aquilo que conseguimos ler por parte dos hóspedes materializamos em personalização”, explicou, apontando exemplos que vão desde “a criação de roteiros individualizados na cidade” até workshops e atividades desenhadas em função dos interesses de cada cliente.

A procura por experiências mais autênticas e participativas tem vindo a intensificar-se. “Os hóspedes querem coisas hands-on, querem meter as mãos na massa”, referiu, dando exemplos como “aprender a fazer um pastel de nata” ou, no caso dos Açores, “ir para o meio das vacas tirar leite”, numa lógica de contacto direto com o destino.

O responsável sublinhou que esta diferenciação passa também pela cultura interna. “Prefiro alguém com a atitude certa e capacidade de criar essa ligação do que apenas competência técnica. A componente emocional é um dos nossos principais pilares”, disse. Nesse contexto, admite que a contratação continua a ser um dos principais desafios operacionais. “Gostaríamos de trabalhar sempre com pessoas ultraqualificadas, mas o mais importante é encontrar pessoas com a atitude certa”, referiu.

“Prefiro alguém com a atitude certa e capacidade de criar essa ligação do que apenas competência técnica. A componente emocional é um dos nossos principais pilares”

Nova marca aposta em design e novo perfil de cliente

Paralelamente, o grupo está a desenvolver uma nova marca, a Coterie Collection, criada pelos mesmos fundadores, que surge como uma evolução do posicionamento no segmento premium. Segundo Pedro Serra, o objetivo passa por complementar a oferta existente e atrair um perfil de cliente distinto. “Sentimos que fazia sentido criar algo diferente da abordagem mais clássica da Torel, para chegar a pessoas com outros gostos”, explicou.

A nova marca aposta num conceito mais contemporâneo, centrado no design, na arte e na curadoria cultural. “Coterie significa um grupo de pessoas com os mesmos interesses, mais exclusivo, e quisemos trabalhar essa ideia também ao nível do produto”, referiu, destacando uma estética mais minimalista e orientada para o design de autor.

A primeira unidade, no Porto, está a ser desenvolvida com esse posicionamento, procurando captar um público potencialmente mais jovem e com afinidade por arte contemporânea e arquitetura. “Achamos que vamos ter hóspedes diferentes, com outro tipo de interesses, mais ligados ao design e à arte”, afirmou.

Apesar da ambição de diferenciação, o grupo pretende avançar de forma gradual. “Vamos abrir, testar, afinar e depois logo ver”, disse, afastando para já planos concretos de expansão da nova marca para outras geografias.

coterie collection:

“Sentimos que fazia sentido criar algo diferente da abordagem mais clássica da Torel, para chegar a pessoas com outros gostos”

Crescimento seletivo e oportunidades em novos destinos

Embora não esteja a procurar ativamente novos projetos, o grupo admite analisar oportunidades que surjam e confirma que existem projetos em pipeline. “Não estamos proativamente à procura, mas vão surgindo abordagens e desafios interessantes que analisamos”, referiu Pedro Serra, sublinhando que a decisão depende do enquadramento de cada ativo.

Entre os destinos potenciais, o Algarve surge como uma possibilidade, ainda que sem projetos concretos em desenvolvimento. “O Algarve podia ser um desafio interessante”, afirmou, ressalvando que o grupo só avançará “se surgir a oportunidade certa, no momento certo”.

O responsável destacou ainda que a escolha de novos destinos nem sempre segue os mercados mais óbvios, apontando exemplos como Guimarães ou a Ilha Terceira. “Há momentos em que sentimos que um destino pode crescer e que podemos estar no sítio certo na altura certa”, explicou, acrescentando que esse potencial está muitas vezes dependente de fatores como a acessibilidade, nomeadamente no caso de destinos insulares.

Quanto ao mercado de Lisboa, Pedro Serra considera que ainda existe margem de crescimento, apesar do aumento da oferta. “Há espaço para crescer, há vários projetos em pipeline para os próximos três ou quatro anos”, afirmou, defendendo que a capital portuguesa continua a posicionar-se de forma competitiva face a outras cidades europeias. “Estamos bem, mas ainda há margem para crescer, sobretudo em valor”, acrescentou.

No geral, o grupo mantém uma estratégia centrada na diferenciação pela experiência e na consolidação do posicionamento no segmento de luxo. “Acreditamos que, trabalhando cada vez mais a personalização e essa ligação emocional, conseguimos distinguir-nos ainda mais”, concluiu.

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