Uma sociedade estruturalmente materialista, que é a humanidade de hoje, tecnologicamente avançada, que é uma das conquistas por ela mais glorificada, e em que a grandeza do número é o indicador civilizacional, demonstrou estar totalmente impreparada perante a menor das dimensões, sem volume visível e sem ruído mediático: um vírus, de momento, o SARS_CoV_2.
Não fora uma comunidade científica, irmanada de espírito cooperativo e de partilha de saber que lhe são próprios, coadjuvada com empenho e abnegação dos profissionais de saúde, mais extenso teria sido o caminho para a descoberta de terapia e do tratamento e maior o sofrimento da humanidade.
A necessidade de preparação para os imponderáveis da vida em sociedade e a acutilância na leitura dos primeiros sinais de alteração do contexto nas suas mais diversas dimensões são, assim, a primeira lição a reter e que tão importante se revelarão em outras questões e crises, já presentes, como sejam as alterações climáticas e a preservação das condições de sustentabilidade da nossa casa comum.
Os Estados e as comunidades políticas regionais – não obstante os apelos das organizações mundiais (ONU e OMS) – fiéis à sua matriz fundacional, fecharam-se sobre si próprias, ergueram muros nas suas fronteiras e privatizaram os seus problemas. O mais que conseguiram foi projectar uma percepção de agregação resultado de uma actuação mimética e repetitiva. Numa era de globalização, que em boa medida ajudaram a sedimentar, foram os primeiros a enveredar por particularizar medidas e a não cuidar de agregar e delinear soluções à esfera planetária, com o consequente arrastamento da crise e prejuízos na vertente social e económica. Reside aqui uma segunda lição prática: sem uma coordenação reconhecida sob a égide dos organismos de regulação mundial, sem a consequente acção comum das nações, os problemas globais com que a humanidade de confronta e virá a deparar-se, não encontrarão solução, antes potenciarão desigualdades já hoje inaceitáveis.
É por demais patente que áreas do conhecimento, apesar dos enormes avanços nelas alcançados, se deparam com insuficiência de perspectiva, de enquadramento metodológico, de abordagem multidisciplinar e de alargamento de horizontes. Mormente, a título meramente de exemplo, na ciência económica, em que falta escrever, por mínimo, um novo capítulo no que ao funcionamento de mercado diz respeito aquando de uma total e abrupta interrupção, simultânea, da procura e da oferta. Uma terceira lição: a necessidade de estender e aprofundar conceitos, como resulta claro no caso do conceito de “segurança” passar a integrar uma dimensão sanitária, emocional e psíquica às suas clássicas componentes de integridade física ou material.
O turismo, enquanto actividade globalizada, decorrente da essência do Homem, de descoberta, vivência e conhecimento do outro e de tudo o que o rodeia, não é, nem pode estar, tanto na vertente económica como sociocultural, sanitária e patrimonial, alheio às circunstâncias ou ocorrências que atingem a sociedade.
Resulta importante reter das três lições apontadas (não esgotando o leque dos ensinamentos que se retiram da presente pandemia) que o turismo não poderá continuar a ser exercido na base meramente de exploração de recursos, mais ou menos abundantes, grande parte deles de natureza pública, antes deverá incorporar base de planeamento, acção política alargada e congregada dos Estados e/ou de comunidades políticas regionais, com fundamento, critério e socialmente confiável na identificação (e concretização) de prioridades ambientais, de sustentabilidade e distribuição de riqueza, previamente gerada, pela actividade turística por toda a sociedade, nos planos económico-social, cultural e de coesão digna planetária.
Por António Abrantes
Docente do Departamento de Turismo da Universidade Lusófona



