Sexta-feira, Junho 14, 2024
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Uma viagem, uma história | Por César Clemente

Por César Clemente, director de Grupos e Incentivos da TIME4TRAVEL

Apesar de não ter muitos anos nesta área, uma das áreas em que trabalho é no acompanhamento dos grupos, nomeadamente dos programas organizados por mim.

Um dos tipos de programas que organizo e acompanho são os grupos de turismo sénior em que, muitas vezes, nos confrontamos com clientes com muita falta de atenção. O que vos vou descrever é apenas relativo a um cliente numa viagem.

Tudo começa quando no segundo dia de viagem depois de me ter dito no primeiro dia que estava com dor de cabeça mas que não tomava nenhum remédio à mais de 30 anos porque é muito rijo me pede para ver se alguém no grupo teria um Ben-u-ron. Fiquei admirado mas arranjei-lhe o Ben-u-ron. Nesse dia à noite não estava bem porque, segundo palavras do próprio, o Ben-u-ron estava fora do prazo (coisa que não era verdade porque quer eu, quer a pessoa que o tinha dado tínhamos atestado que estava dentro do prazo).

No dia seguinte, não estava bem e, ao final do dia, (todo ele passado em visitas e em viagem de autocarro) comunica-me quando chegamos ao local do jantar que não pode jantar com o restante grupo porque está pior e pensa que estará com COVID (já perceberam em que altura foi este grupo).

Arranjei uma mesa apenas para ele ao ar livre.

Depois de ter sido visto por dois médicos que participavam nesta viagem o diagnóstico dos dois foi igual, o senhor não tinha nada.

Entretanto, e como no dia seguinte iríamos fazer teste COVID porque no dia subsequente iriamos embarcar num cruzeiro, sossegou e acalmou.

Fez o teste COVID (cujo resultado foi negativo) e passou o dia todo bem.

No dia seguinte logo após embarcar no navio (ainda tratava eu de formalidades de embarque com outro participante da viagem, aparece-me a dizer que tinha que ir ao hospital do navio, que não estava bem, que estaria com 40º de febre (no mínimo, segundo palavras do mesmo) e que se tinha estado a espumar no camarote (nem sei como teria tempo para tudo).

Fui logo de imediato com ele ao médico do navio a quem expliquei o que se passava. Pequeno pormenor, o cliente não fala inglês e o médico não fala português.

Depois de ler a temperatura na testa (que era de 37º) o médico pergunta o que fazer. Peço para medir novamente e dá 36º. Digo ao cliente e ele diz-me que é dos termómetros modernos que se for dos que se enfia no ouvido vai dar no mínimo 40º porque ele sabe muito bem como se sente.

Disse isso ao médico que me retorquiu que tem desses e de outros que se enfiam noutro lado. Ao ler a temperatura no ouvido (37º) ele questiona-me o que fazer. Pedi para ler novamente (37º novamente). Comuniquei ao cliente que me disse que só poderia ser erro porque sabe como se sentia. O médico deu-me o mesmo diagnóstico que os dois médicos no dia anterior (o cliente não tinha nada) mas pedi para lhe receitar alguma coisa para acalmar o senhor.

O médico fez então uma mistura que me pediu para dizer ao senhor que era antibiótico para ele se acalmar (apenas pelo efeito placebo).

Viemos embora.

No dia seguinte, ao ir em direção ao pequeno almoço cruzo-me com o cliente a quem questiono se se sente melhor, ao que me retorquiu que estava muito melhor e que o pequeno almoço era muito bom e tinha comido bastante. Perguntei se ia sair com o grupo ao que me retorquiu que não, que iria para o camarote descansar.

Depois da visita, quando regresso ao navio, cruzo-me com outra cliente que me comunica que tenho que ver urgentemente o que se passa com o Sr. X porque por volta das 11 horas tinha-se cruzado com ele e que ele de repente começou a cambalear e o filho teve que o levar amparado até ao bar para lhe dar um chá e uma torrada porque o senhor lhes disse que esteve muito mal, que tinha estado a espumar-se no camarote e que já não comia nada há 36 horas.
Aconselhei a senhora a não se cruzar mais com ele e expliquei que ele tinha comido o pequeno almoço e o que se estava a passar.

No dia seguinte, na hora de sair do navio para mais uma visita, faltava o senhor. Ligo para o telemóvel, nada. Ligo para o camarote, nada. Vou ao camarote, bato à porta e nada. Vou à receção, explico a situação e peço para abrirem a porta ou que a iria deitar abaixo porque não sabia o que se passava com o cliente.

Abrem-me a porta, entro a chamar pelo senhor até que ele acorda e me diz “Que é, César, és um chato, já me ligaste para o telemóvel várias vezes, não me deixas dormir…”
Percebi a mensagem e deixei-o a dormir.

A cereja no topo do bolo foi no último dia já fora do navio quando vamos almoçar (estavam 35º) e pedi água gelada colocada nas mesas apenas quando os clientes estivessem a entrar no restaurante).

O mesmo cliente vem pedir-me se não pode ter água natural que aquela estava muito fria. Acedi e pedi água natural. Dois minutos volvidos, vem-me dizer que a água natural estava mais quente do que normalmente está em Portugal se não arranjava intermédia.
Expliquei que se estão 35º é normal que a água natural não esteja fresca e que se uma estava muito fria e a outra muito quente, bastava juntar um pouco das duas para acertar a temperatura.
Resposta do cliente: “E misturar as duas não vai estragar a água…”

Lembrem-se que isto é apenas um cliente numa viagem de uma semana…

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