PERFIL | Ana Mendes Godinho: a mulher de várias missões que não acredita em impossíveis

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Foi secretária de Estado do Turismo, ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social e dedica-se hoje a aproximar a academia das empresas enquanto diretora da Estratégia de Turismo da Universidade Nova de Lisboa. Ana Mendes Godinho não vê o seu percurso como uma carreira política, mas como uma sucessão de missões, todas com o mesmo fio condutor: a “entrega total”. Entre decisões difíceis, projetos que ficaram por concluir e uma vontade permanente de transformar o país, acredita que não há impossíveis quando existe uma estratégia e um propósito. Nesta conversa com o TNews, revisita os momentos mais marcantes da carreira, fala sobre a liderança feminina, os desafios do turismo português e revela uma faceta menos conhecida: a mulher que gosta de cantar Lara Li e de terminar os dias mais intensos a dançar no Jamaica.

Em 2017, Ana Mendes Godinho embarcou numa viagem até Phu Quoc, no Vietname, para receber um prémio que viria a tornar-se uma das memórias mais marcantes da sua carreira: a primeira distinção de Portugal como Melhor Destino do Mundo nos World Travel Awards, conhecidos como os “Óscares do Turismo”. Foi também a primeira vez que um país europeu conquistou este galardão.

A deslocação durou cerca de 24 horas, praticamente sem tempo para descansar. “Cheguei em jet lag completo para entrar na sessão da atribuição dos prémios e depois voltei logo embora”, recorda.

Foi esta a viagem que mais a marcou, não apenas pela “loucura total” de uma deslocação tão breve, mas sobretudo pelo significado de receber uma distinção em nome de todos aqueles que tinham contribuído para o crescimento do turismo português. “Senti que estava a dar a cara a milhares de pessoas que estavam a trabalhar e que simbolicamente naquele dia foram reconhecidas mundialmente”, afirma.

É também um episódio que ajuda a compreender a forma como Ana Mendes Godinho vive cada desafio: com intensidade, um forte sentido de missão e a convicção de que os resultados se alcançam através do trabalho e da mobilização de pessoas em torno de um objetivo comum.

“Não acho que a minha vida seja uma vida de política. Se se entender política como uma missão de compromisso com a sociedade, sou uma política a 100%”

Uma vida que nunca quis ter rotina

Aos 18 anos, Ana Mendes Godinho não tinha uma profissão em mente. Tinha várias. Pensou em ser diplomata, professora, cantora ou juíza. Chegou também a considerar estudar Relações Internacionais, atraída pela possibilidade de conhecer outros mundos e continuar a aprender. Havia, contudo, uma certeza: não queria uma vida previsível. “Sempre gostei que a vida fosse sem rotina. Sempre foi o meu sonho ter uma vida entusiasmada”, conta.

Acabou por estudar Direito e iniciar a carreira profissional com o estágio de advocacia, o primeiro passo de um percurso que viria a ser marcado por diferentes “missões” de vida.

O primeiro contacto com o turismo aconteceu quando Cristina Siza Vieira, então subdiretora-geral do Turismo, a convidou para trabalhar na Direção-Geral de Turismo. O desafio passava por repensar processos e encontrar novas formas de cumprir a missão da administração pública. Aceitou e encontrou naquela experiência uma das primeiras grandes influências profissionais. “É uma mulher extraordinária, desde logo, porque em 1997 eram poucas as mulheres que assumiam cargos de liderança no turismo”, recorda, destacando o espírito visionário e pragmático de Cristina Siza Vieira. Foi com ela que consolidou uma convicção que ainda hoje orienta a sua forma de trabalhar: “não devemos aceitar a rotina instalada como uma forma de vida e devemos sempre questionar”.

Seguiram-se outras experiências, incluindo a de inspetora do Trabalho, onde aprendeu a colocar-se no lugar dos outros e a procurar soluções através do diálogo e da mediação entre interesses aparentemente opostos.

Em 2005, surgiu outro convite determinante. Bernardo Trindade, então secretário de Estado do Turismo, procurava constituir uma equipa com experiências profissionais diversificadas e convidou-a a integrar o seu gabinete como adjunta. Foi a sua primeira experiência “verdadeiramente associada a um cargo político”, ainda que numa função de assessoria técnica.

Bernardo Trindade tornar-se-ia outra das figuras marcantes do seu percurso. Ana Mendes Godinho destaca-lhe a capacidade de identificar game changers e de concentrar esforços nas medidas com verdadeiro potencial transformador. “Selecionar muito bem os alvos das medidas que, a nível político, queremos implementar. Não perder tempo com o ruído, nem perder tempo com pequenas afinações que não fazem diferença nenhuma”, destaca.

Ao longo dos anos seguintes, desempenhou diferentes funções na administração pública, incluindo a de chefe de gabinete de Bernardo Trindade, administradora da Turismo Capital e da Turismo Fundos, vice-presidente do Turismo de Portugal e diretora dos Serviços de Apoio à Atividade Inspetiva da Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT).

Até que, em 2015, recebeu o convite que a levaria a assumir o seu primeiro cargo governativo. António Costa, então primeiro-ministro, desafiou-a a ser secretária de Estado do Turismo. “Foi uma missão de entrega total ao país: utilizar o turismo como um instrumento de recuperação económica, de criação de emprego e desenvolvimento do país”, recorda.

Ainda assim, recusa olhar para o seu percurso como uma carreira política. “Não acho que a minha vida seja uma vida de política. Se se entender política como uma missão de compromisso com a sociedade, sou uma política a 100%. Mas não me vejo como uma pessoa com uma carreira política. Vejo-me com missões em cada momento, em que os cargos políticos foram algumas missões da minha vida”, sublinha.

Ana Mendes Godinho

O turismo ensinou-lhe que não há impossíveis

Entre 2015 e 2019, enquanto secretária de Estado do Turismo, Ana Mendes Godinho esteve ligada à construção da Estratégia Turismo 2027, “encabeçando a verdadeira parceria público-privada”, um processo que identifica como um dos momentos mais importantes do seu percurso.

Quase dez anos depois do início desse trabalho, considera particularmente gratificante observar os resultados. “É extraordinário ver como foi possível, através da concentração de interesses e de mobilização de recursos, criar objetivos para o país do ponto de vista de desenvolvimento turístico, medir estes objetivos, colocar programas no terreno e agora ver os resultados dez anos depois”, recorda.

Para Ana Mendes Godinho, o turismo deixou-lhe três grandes ensinamentos. O primeiro foi que “é essencial deitar abaixo muros de desconfiança”, apontando o setor turístico em Portugal como “o melhor exemplo de uma parceria público-privada sem desconfiança entre o setor público e o setor privado”.

O segundo foi a convicção de que é possível contrariar aquilo que parece inevitável. “Foi o turismo que me mostrou que não há fatalidades que não se consigam ultrapassar quando temos uma estratégia bem definida e objetivos muito claros para atingir”, refere. “É um exemplo concreto do que aconteceu ao turismo nos últimos 20 anos. Portugal posicionou-se de uma forma extraordinária a nível internacional, fruto do trabalho de muitos”.

O terceiro foi a importância do planeamento. A evolução do turismo português, sublinha, não resultou apenas da capacidade dos empresários para desenvolverem uma oferta atrativa, mas também de um trabalho continuado na captação de rotas aéreas, na identificação de mercados estratégicos e na promoção internacional do destino. “Nada cai do céu”, frisa. “Gerir à deriva é perder tempo”.

“Vale a pena ter uma estratégia de médio e longo prazo, com objetivos muito bem direcionados e com mobilização dos stakeholders para o mesmo caminho. Isso é a grande lição que o turismo dá ao país. É essa também a grande lição, nomeadamente com a Estratégia 2027, que levei e levo sempre na minha vida: o turismo ensinou-me que não há mesmo impossíveis”, afirma.

“Se chega? Não, não chega. É evidente que não chega. Neste momento temos de estar já no passo seguinte”, acrescenta, defendendo a necessidade de uma nova “estratégia conciliada e negociada entre todos” para os próximos dez anos.

“Foi o turismo que me mostrou que não há fatalidades que não se consigam ultrapassar quando temos uma estratégia bem definida e objetivos muito claros para atingir”

Uma das decisões que mais a orgulha foi a aposta no desenvolvimento turístico dos territórios do interior, numa altura em que muitos consideravam que o investimento público deveria concentrar-se nos destinos com maior procura e retorno imediato.

“Toda a gente dizia que era impossível que o turismo fosse um instrumento de desenvolvimento no interior, porque não era isso que o mercado estava a mostrar. Se o turismo funcionava nas zonas já tradicionalmente procuradas, não valia a pena desperdiçar recursos públicos no interior”, afirma. “Essa foi uma decisão difícil: assumir que um dos grandes objetivos que tínhamos era desconcentrar a procura ao longo do território e ao longo do ano”.

Foi nesse contexto que nasceu o programa Valorizar, em 2016. Hoje, aponta exemplos como as praias fluviais, os passadiços, as ecopistas, a Estrada Nacional 2 e os Caminhos de Fátima como demonstrações do impacto desses investimentos. “É espetacular andar por todo o país e ver como estes projetos transformaram o interior”, realça.

Outra transformação que destaca é o crescimento da procura turística fora dos períodos tradicionais de maior afluência, nomeadamente através da captação de mercados que viajam durante a época intermédia. “Há dez anos, os Estados Unidos estavam em décimo lugar na procura turística em Portugal e este ano estão em segundo. Isto não caiu do céu. Resultou de um trabalho profundo de posicionamento do país, transporte aéreo e promoção turística”, refere.

A decisão mais difícil da carreira: assumir o risco em plena pandemia

Em 2019, Ana Mendes Godinho deixou a Secretaria de Estado do Turismo e assumiu o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social. Poucos meses depois, o mundo enfrentava a pandemia de Covid-19. Foi, admite, o período mais desafiante da sua carreira. “Foi um momento em que tudo colapsa e ninguém estava preparado para responder”, recorda. Mas foi também uma experiência que, segundo a antiga ministra, “mostrou que era possível fazer as coisas de uma forma muito mais simples” do que até então.

A resposta à pandemia obrigou a encontrar soluções numa escala e a uma velocidade sem precedentes. Uma das principais foi a criação do layoff simplificado, destinado a proteger os postos de trabalho e os rendimentos durante a paralisação da atividade económica. “Se olhássemos para a história, por exemplo, durante o período da Troika, a opção tinha sido: vamos deixar que os subsídios de desemprego funcionem. A nossa opção foi radicalmente diferente. Foi: vamos assumir o risco de o Estado ser um parceiro ativo em ultrapassar este momento difícil de crise”, refere.

Ana Mendes Godinho recorda que um processo que, em condições normais, poderia demorar anos a operacionalizar teve de ser colocado em funcionamento em poucas semanas. “Um layoff tradicional demorava dois anos a colocar no terreno. Nós conseguimos que em 20 dias estivessem a ser pagos [apoios] a dois milhões de trabalhadores”, relembra. “É uma sensação extraordinária do poder da sociedade que, quando quer, resolve”.

A decisão mais difícil da sua carreira aconteceu precisamente na véspera das transferências bancárias. O sistema tinha sido construído em tempo recorde, com base nas declarações apresentadas pelas empresas e num princípio de confiança. Existia, por isso, uma margem de erro que o Estado teria de aceitar para garantir que os apoios chegavam aos trabalhadores. “Tive de tomar a decisão de se estávamos disponíveis a aceitar esse risco para proteger dois milhões de pessoas. Foi uma decisão muito difícil, mas hoje olho para trás com um orgulho brutal de ter assumido o risco”, afirma.

A passagem pelo Ministério ficou também marcada por projetos de “transformação estrutural da administração pública”, como a digitalização da Segurança Social, a gratuitidade das creches através do programa Creche Feliz e o investimento em equipamentos sociais, com financiamento de 800 milhões de euros através do Plano de Recuperação e Resiliência. “No fundo, utilizar o investimento social como um grande catalisador de desenvolvimento do país. Aparentemente são áreas muito diferentes, mas são áreas que também se tocam muito”, salienta.

Mas nem todas as missões de Ana Mendes Godinho ficaram concluídas. Entre os projetos que deixou em curso, identifica a Agenda do Trabalho Digno. “Foi o primeiro passo, mas havia muito para fazer a seguir, nomeadamente a dimensão de antecipar as tendências do futuro do trabalho”, destaca. “Precisamos de valorizar os trabalhadores. Precisamos também de antecipar o que é o trabalho do futuro para, de uma forma inteligente, não irmos a reboque quando houver despedimentos massivos. Identificar as áreas-chave que vão desaparecer do ponto de vista das profissões e aquelas que até vão ser mais valorizadas, e perceber como é que a inteligência artificial pode trazer produtividade ao negócio”.

Outra área que considera ter ficado por desenvolver é a Estratégia para a Longevidade, que defende como um “grande desígnio nacional”, abrangendo todas as fases da vida e não apenas o envelhecimento da população. “É como pensamos a longevidade em Portugal desde a infância, com as alterações demográficas que o país tem”, explica.

Se pudesse regressar ao início da experiência governativa, admite que teria procurado acelerar ainda mais os processos de mudança. No Ministério, chegou a criar duas equipas distintas: uma dedicada à gestão dos problemas quotidianos e outra à inovação. Olhando para trás, considera que deveria ter criado esta última logo no início do mandato, em vez de esperar dois anos. “Isso teria permitido fazer mais mudanças, mais rapidamente. Teria imprimido mais ritmo e mais mudança”, reconhece, embora sublinhe que “só me arrependo do que não fiz”.

Layoff simplificado: “Tive de tomar a decisão de se estávamos disponíveis a aceitar esse risco para proteger dois milhões de pessoas. Foi uma decisão muito difícil, mas hoje olho para trás com um orgulho brutal de ter assumido o risco” 

Uma missão inacabada que a levou de volta ao turismo

Hoje, Ana Mendes Godinho encontra na Universidade Nova de Lisboa uma oportunidade para regressar a um projeto que tinha deixado por concluir enquanto secretária de Estado do Turismo. “Em 2019, uma das últimas coisas que fiz foi lançar o Campus Internacional de Turismo do Estoril, numa parceria com a Organização Mundial do Turismo (OMT), a Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril (ESHTE) e o Turismo de Portugal. Foi uma missão inacabada, mas que agora vim para a Nova exatamente para a concluir”, afirma.

Atualmente, enquanto diretora da Estratégia de Turismo, dedica-se a aproximar dois universos que considera ainda demasiado afastados: a academia e as empresas. “São mundos que estão completamente desligados e a minha missão tem sido precisamente ligá-los”, realça.

A primeira prioridade passou por “ligar o mundo académico entre si”, estabelecendo parcerias internacionais com universidades de referência na área do turismo. Identificou dez instituições com as quais pretendia desenvolver relações estratégicas e, até ao momento da entrevista, tinham sido celebrados seis acordos internacionais.

Já o segundo objetivo é criar uma relação mais próxima entre a investigação académica e o “mundo real da indústria do turismo”. “O interesse é tão grande na construção destes projetos comuns que uma das coisas que estamos a prever para o Campus Internacional do Estoril são Living Labs, para que a contaminação entre empresas e a academia aconteça de uma forma real. As empresas identificam os problemas, a academia ajuda a encontrar soluções, e os alunos praticam as soluções, testam e dão novas ideias”, adianta.

Para Ana Mendes Godinho, esta articulação será determinante para o futuro do turismo português, sobretudo num contexto de transformação tecnológica e de crescente utilização da inteligência artificial. No entanto, faz questão de sublinhar que a tecnologia não deve substituir aquilo que distingue a hospitalidade portuguesa. “É este humanismo que o turismo em Portugal tem que deve ser cada vez mais escalado e articulado com as novas tecnologias, para que as novas tecnologias deixem cada vez mais espaço para que este humanismo se cumpra na sua plenitude”, defende.

Há outra preocupação que identifica no contacto com os estudantes: a necessidade de criar mecanismos que permitam aos jovens participar efetivamente nas decisões, tanto nas instituições públicas como nas empresas. “Como é que criamos canais mais efetivos para que os jovens participem mais ativamente e tenham verdadeiramente capacidade de decisão? Este é um repto grande do ponto de vista até democrático, porque a inspiração que me têm dado no terreno é brutal”, destaca.

Quanto às prioridades que deixaria aos atuais responsáveis pelo turismo, aponta três: reforçar a transferência de conhecimento e inovação entre a academia e as empresas, assegurar a sustentabilidade da atividade turística a longo prazo e valorizar os trabalhadores como forma de atrair e reter talento. O objetivo, defende, é garantir que o turismo continua a gerar valor para quem vive e trabalha nos destinos.

Ana Mendes Godinho

“Sou uma mobilizadora por propósitos e missões”

Em 2018, durante um congresso, em Ponta Delgada, Ana Mendes Godinho apercebeu-se de um pormenor que não estava disposta a ignorar. Ao longo dos dois dias do encontro, todos os oradores previstos para os painéis eram homens. As únicas duas mulheres que iriam subir ao palco eram representantes políticas: a própria, então secretária de Estado do Turismo, e a secretária regional do Turismo dos Açores.

Quando chegou a sua vez de intervir na sessão de abertura, decidiu fazer algo inesperado. Em vez de se limitar ao discurso preparado, lançou um desafio às mulheres que estavam na plateia: que subissem ao palco. “Pensei que ninguém o fosse fazer com vergonha, mas de repente uma massa humana de mulheres sobe ao palco com um sorriso rasgado de felicidade por demonstrarem que estavam lá. Porque a plateia estava cheia de mulheres, só não estavam era no palco”, recorda.

O momento ficou-lhe gravado na memória. À medida que as participantes se juntavam no palco, ouviu-se uma voz masculina a pedir que parassem: “por favor, não subam mais mulheres ao palco, senão o palco vai abaixo”. Ana Mendes Godinho recorda o episódio com uma mistura de humor e orgulho. “Esta é a minha coroa de glória, quase uma anedota, mas é real”, afirma.

Recentemente, voltou a deparar-se com um painel composto exclusivamente por homens. Desta vez, fez questão de impor uma condição para participar. “Exigi que só participaria se o painel estivesse equilibrado com mais mulheres, e assim foi. Temos de exigir. As mulheres também têm de tomar o palco”, sublinha.

Há ainda outro episódio que recorda a propósito da representação feminina na política. Cerca de dois anos depois de assumir funções como secretária de Estado do Turismo, recebeu uma mensagem nas redes sociais de alguém que lhe perguntava se já tinha reparado que aparecia nas fotografias sempre rodeada de homens. “Nunca tinha tido consciência. Comecei a olhar para trás e a pessoa estava cheia de razão”, relembra.

A partir desse momento, começou a insistir para que as mulheres presentes nos eventos também aparecessem nas fotografias, em vez de permanecerem nos bastidores. “Isso foi um alerta: perceber que, às vezes, estamos tão empenhados na rotina e nos ambientes que normalizámos que nem percebemos que, sem querer, estamos a continuar o status quo da exclusão”, refere.

Em 2018, durante o 44.º Congresso da APAVT, em Ponta Delgada, Ana Mendes Godinho lançou um desafio às mulheres que estavam na plateia: que subissem ao palco.

São exemplos de inúmeras experiências que a tornaram particularmente consciente dos obstáculos que continuam a existir para as mulheres em cargos de liderança. Reconhece que existe uma pressão acrescida, mas garante que nunca deixou que isso condicionasse a forma como exercia as suas funções. “Se me perguntar se sinto que há uma maior pressão de demonstração de resultados por parte de uma mulher, por exemplo, numa mesa negocial, não tenho dúvidas nenhumas. Mas também nunca corri o risco de não ir muito bem preparada”, afirma.

Ainda assim, não se define pela condição de mulher nos cargos que desempenha. “Sinto que, quando estou nestas funções, não sou nem mulher nem homem. Sou uma pessoa que faz o melhor que pode e que sabe”, sublinha.

Questionada sobre as mudanças necessárias para aumentar a presença feminina em cargos de liderança, Ana Mendes Godinho aponta, desde logo, a educação. Na sua perspetiva, “as mulheres são culturalmente educadas para não assumirem cargos de destaque”, mas antes para assumir responsabilidades familiares e papéis de conciliação.

A mudança, acredita, exige também uma intervenção ativa das próprias mulheres, nomeadamente através do incentivo e do apoio mútuo. Recorda, a este propósito, a realidade que encontrou quando assumiu o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social: “cerca de 70% dos trabalhadores eram mulheres, mas aproximadamente 70% dos cargos dirigentes eram ocupados por homens”.

Ao longo do mandato, procurou incentivar as mulheres a candidatarem-se aos concursos para funções de liderança. “Quando saí do Ministério, esta representação estava em 70% de mulheres dirigentes e 70% de mulheres trabalhadoras. Isto significa que temos que ser intencionais”, acrescenta.

“Se me perguntar se sinto que há uma maior pressão de demonstração de resultados por parte de uma mulher, por exemplo, numa mesa negocial, não tenho dúvidas nenhumas. Mas também nunca corri o risco de não ir muito bem preparada”

Quando lhe pergunto como define o seu estilo de liderança, Ana Mendes Godinho descreve-se como “uma mobilizadora por propósitos e missões”. “Assumo missões de equipas e acredito que as minhas equipas vão até ao fim do mundo para as fazer”, acrescenta.

Prefere dar autonomia total às pessoas com quem trabalha, até porque o gosto pela presença no terreno a impede de estar presente em todos os momentos. Para isso, considera essencial rodear-se de “equipas muito fortes”, capazes de tomar decisões e concretizar objetivos sem dependerem constantemente da sua intervenção. Chama-lhes “equipas de superheróis”, unidas não apenas pelo trabalho, mas também pela confiança e por objetivos partilhados. Mas é exigente, reconhece, consigo própria e com os outros. “Talvez demais”, aponta.

No trabalho, há uma palavra que repete vezes sem conta: porquê? “Por que estamos a fazer isto? Por que vamos fazer aquilo? Isso é o que nos dá o sentido de missão e aquilo que nos permite fazer o teste do algodão, de perceber se vale a pena o esforço ou se aquele não é o caminho certo”, explica.

Se tivesse de identificar um defeito profissional, a resposta seria outra: “querer saber tudo”. Já nas pessoas com quem trabalha, valoriza sobretudo “o espírito de entrega e a transparência”. Há também algo que não tolera: “deslealdades”.

“O meu oxigénio vem do terreno. É no terreno que encontramos os problemas que precisam de resposta, mas também é lá que encontramos as soluções”

Entre o terreno, os livros e as noites no Jamaica

Há uma característica que Ana Mendes Godinho nunca perdeu: a aversão à rotina. “Adoro que os meus dias sejam atípicos. Odeio a rotina”, afirma. Os dias começam cedo, ainda em casa, com a leitura das notícias e dos e-mails. Depois, a agenda divide-se entre as responsabilidades na Universidade Nova de Lisboa, as funções como vereadora sem pelouro na Câmara Municipal de Sintra, reuniões e visitas pelo país.

Apesar de manter reuniões semanais de planeamento e avaliação de resultados, procura reservar pelo menos um dia por semana para sair da capital, “para que não fique viciada no curto-circuito da centralidade de Lisboa”. Numa semana pode estar no Porto, noutra na Guarda. O importante é não perder o contacto com as diferentes realidades do território. “O meu oxigénio vem do terreno. É no terreno que encontramos os problemas que precisam de resposta, mas também é lá que encontramos as soluções”, defende.

Ao longo do seu percurso, foi construindo uma vasta rede de contactos, com quem procura manter uma relação próxima. Partilha o número de telemóvel com quem conhece e continua a receber mensagens, alertas e sugestões de pessoas com quem se foi cruzando ao longo dos anos. “Isto vem das várias vidas que tenho vivido, em que procuro muito dizer sempre ‘sim’. A minha palavra mais habitual é dizer ‘sim’ a quem me desafia”, revela.

Por isso, admite que a fronteira entre a vida profissional e a pessoal nem sempre é clara. Durante os anos no Governo, essa separação era ainda mais difícil. A intensidade das responsabilidades e a pressão das decisões deixavam pouco espaço para desligar.

Hoje, recuperou alguns hábitos que tinham ficado para trás, como passar mais tempo com os amigos, ler e sair à noite. Quando lhe pergunto o que faz para descontrair depois de um dia particularmente intenso, a resposta surge sem qualquer hesitação. “Vou para uma discoteca a dançar. Adoro o B.Leza. Encontram-me no Jamaica várias vezes”, revela.

Há também uma paixão menos conhecida: cantar. “Adoro cantar. Sou uma ótima imitadora da Lara Li. Desde pequena que adoro cantar e nas festas assumia sempre esse papel”, refere. Os amigos, conta, conhecem-na particularmente bem pela interpretação de “Telepatia”.

A leitura é outro dos seus grandes interesses, embora tenha ficado praticamente suspensa durante os anos em que esteve no Governo. “Não conseguia desligar para me concentrar num livro. Agora consegui reconquistar este privilégio”, afirma. Gosta especialmente de romances policiais, já leu todos os livros de Agatha Christie e, entre as leituras mais recentes, destaca a trilogia Faye da autora sueca Camilla Läckberg. “Gosto de uma história que me prenda e me faça querer ler sem parar. E interessa-me essa ideia de que uma pessoa pode ter muitas vidas que se vão reinventando”, acrescenta.

Também gosta de contemplar o mar e há um lugar ao qual regressa sempre que precisa de abrandar: Santa Cruz. “É o meu local de infância, onde associo a presença da minha mãe, que já morreu em 2010, mas que me acompanha todos os dias”, destaca. A família continua a ocupar um lugar central na sua vida. Descreve-a como muito envolvida nas diferentes missões que vai assumindo, sendo simultaneamente uma fonte de inspiração e de crítica.

Quando lhe pergunto o que a faz rir, responde: “o meu marido.” E o que a tira do sério? “Passividade”. Não surpreende, por isso, que se considere uma pessoa de decisões rápidas, que prefere agir a ficar à espera de que as circunstâncias mudem.

A mesma inquietação acompanha-a nas viagens. Mesmo quando está de férias, dificilmente consegue desligar o olhar profissional. “Estou sempre com o radar ligado. Vou com um olhar crítico, a absorver e a aprender como fazem e como é que podíamos fazer melhor, e também como podiam fazer de outra forma”, afirma. Apesar dos vários destinos que já conheceu, há dois lugares que ainda gostaria de visitar: o Japão e a Lua.

“Sou uma mulher de várias missões e de várias vidas, mas acredito que o fio condutor é sempre o mesmo: a entrega total e acreditar que a vida é tão curta que tem de ser vivida com uma intensidade muito grande”

Uma mulher de várias vidas

Ao longo da entrevista, Ana Mendes Godinho regressa várias vezes à mesma ideia: a vida é demasiado curta para ser vivida de forma passiva. É uma convicção que ajuda a explicar a diversidade do seu percurso e a forma como encara cada novo desafio. “Sinto sempre um frio na barriga. Sinto sempre uma inquietude permanente”, admite.

Não tem um plano definido para os próximos anos, nem identifica um cargo específico que gostaria de assumir. O que a move é a possibilidade de abraçar novos projetos e contribuir para transformar alguma coisa. “Sou uma mulher de várias missões e de várias vidas, mas acredito que o fio condutor é sempre o mesmo: a entrega total e acreditar que a vida é tão curta que tem de ser vivida com uma intensidade muito grande”, sublinha.

Olhando para trás, acredita que as experiências acumuladas em diferentes áreas se complementam. O turismo ensinou-lhe que não há impossíveis, a inspeção do trabalho mostrou-lhe o valor do diálogo, a experiência governativa confrontou-a com decisões de grande responsabilidade e a universidade permite-lhe agora aproximar o conhecimento académico da realidade das empresas.

“Todas estas missões a que me tenho entregue cruzam-se e uma área vai-me deixando mais rica para a área seguinte. O espírito de uma missão eterniza-se em missões diferentes”, acrescenta.

Se pudesse dar um conselho à Ana Mendes Godinho que estava a começar a carreira, seria precisamente o de nunca se conformar com a rotina ou com a ideia de que as coisas têm de continuar como sempre foram. “Nunca aceitar o ‘sempre se fez assim’ como resposta e ter sempre um espírito transformador”, afirma.

E se pudesse voltar atrás, sabendo tudo o que sabe hoje, teria procurado fazer ainda mais, mais depressa. Não por desvalorizar aquilo que conseguiu, mas por acreditar que há sempre espaço para acelerar a mudança e que o tempo disponível para o fazer é limitado.

Quando lhe pergunto como gostaria de ser recordada daqui a 20 anos, a resposta é breve, mas parece resumir grande parte da conversa: “uma mulher que acreditava em Portugal”.

Talvez seja essa a melhor síntese de uma vida feita de diferentes funções, responsabilidades e desafios, mas orientada pelo mesmo propósito. Afinal, quando lhe peço uma palavra para definir a forma como trabalha, escolhe “intensa”. Para resumir a forma como encara a vida, basta-lhe outra: “missão”.

PERFIL é uma rubrica mensal dedicada às personalidades que marcaram e continuam a marcar o turismo em Portugal. Mais do que entrevistas, estes perfis procuram dar a conhecer o percurso, a personalidade, as rotinas e a visão dos líderes que ajudam a construir o setor.

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