Sábado, Abril 18, 2026
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A visão da Vila Galé, Highgate Portugal e Minor Hotels para uma hotelaria mais sustentável

A sustentabilidade deixou há muito de ser apenas um conceito associado a boas práticas ambientais para se afirmar como um eixo estratégico da hotelaria. No 22.º Congresso da ADHP, responsáveis de três grandes grupos – Vila Galé, Highgate Portugal e Minor Hotels – defenderam que o setor tem vindo a integrar este compromisso de forma cada vez mais transversal, da gestão interna à relação com as comunidades locais e ao desenvolvimento equilibrado dos destinos.

No segundo dia do congresso da ADHP – Associação dos Diretores de Hotéis de Portugal, que decorre em Elvas, a sustentabilidade esteve no centro do debate num painel que reuniu Gonçalo Rebelo de Almeida, administrador da Vila Galé, Silvana Pombo, vice-presidente de Operações da Highgate Portugal, e Adriana Jacinto, diretora de Sustentabilidade da Minor Hotels. Ao longo da conversa, abordaram temas como compliance, relação com as comunidades locais, overtourism e o impacto do turismo na habitação.

Para Gonçalo Rebelo de Almeida, a sustentabilidade tem de fazer parte do ADN das empresas. “É muito mais do que um departamento da sustentabilidade. Isto tem de entrar na organização, em todos os processos, em todos os recursos humanos”, afirmou, sublinhando que não se trata de uma responsabilidade individual, mas de toda a estrutura. Nesse sentido, defendeu que cabe às lideranças “criar um ecossistema” que interligue todos os departamentos.

Uma visão semelhante foi apresentada por Adriana Jacinto, que lembrou que o trabalho da Minor Hotels nesta área tem décadas. “Trabalhamos nisto há quase 30 anos”, disse, sublinhando que a liderança é “fundamental” para criar uma cultura interna de sustentabilidade. “Diria que já não é voluntário, já não é um nice-to-have”, acrescentou.

Apesar de reconhecer que a maioria das unidades hoteleiras já implementa medidas nesta área, Adriana Jacinto admite que o setor enfrenta um desafio: a comunicação. “Fazemos muitas coisas. Não acredito que haja um hotel que não tenha medidas de sustentabilidade. Temos dificuldade em comunicar aquilo que fazemos”, explicou.

Para Silvana Pombo, a temática tem de ser assumida como uma prioridade. “Sabemos que há orçamentos para cumprir, mas temos de assumir de uma vez por todas que a sustentabilidade é um bem essencial, não é uma opção ou um luxo”, sublinhou.

“A sustentabilidade não é só para as grandes cadeias, é para cada um dos nossos estabelecimentos hoteleiros”

Adriana Jacinto, diretora de Sustentabilidade da Minor Hotels

Equilíbrio entre governance compliance

No debate sobre o papel do compliance, Silvana Pombo considera que o cumprimento de normas deve ser o “fio condutor” do processo, defendendo ser “muito importante que, a determinada altura, todas as organizações façam uma auditoria externa e isenta”.

“Ter o compliance, ter uma base que nos permite saber se estamos no caminho certo, é sem dúvida o início”, disse, acrescentando que depois cabe às organizações “fazer as escolhas certas quando definem a estratégia”.

Também Adriana Jacinto recordou que a integração destes princípios nas empresas exige visão de longo prazo. Ao recordar a criação, em 1999, de um departamento de qualidade e ambiente na marca Tivoli, destacou que essa decisão “demonstrava claramente uma visão de futuro inovadora e de criação de cultura”. Atualmente, explicou, o compliance é apenas um “ponto de partida” dentro de uma estratégia mais abrangente que inclui, no caso da Minor Hotels, medidas como “um Capex dedicado à sustentabilidade”.

Estratégias de desconcentração turística

Na visão da Vila Galé, Gonçalo Rebelo de Almeida destacou que a aposta em territórios do interior tem sido uma forma de contribuir para um turismo mais equilibrado. “Quando decidimos há 20 anos que a estratégia do grupo iria passar por desenvolver hotéis no interior do país, que recuperam o património e a cultura”, a intenção era também “evitar a massificação dos destinos” e promover a “desconcentração”, disse.

Essa abordagem, acrescentou, permite conjugar preservação patrimonial e inovação no setor hoteleiro, assente na requalificação de edifícios existentes. “Consideramos que descobrir territórios novos é uma forma de inovar no setor e de ser diferente das outras marcas. Ao recuperar património não estou a sobrecarregar o ambiente, não estou a adicionar uma nova construção”, afirmou, sublinhando que esta estratégia permite ainda criar um produto “autêntico e único”.

“Nos territórios menos explorados o impacto do hotel na cidade é muito maior do que abrir hotel na Avenida dos Aliados ou na Avenida da Liberdade”

Gonçalo Rebelo de Almeida, administrador da Vila Galé

Comunidades locais no centro da experiência

A relação entre hotéis e comunidades locais foi outro dos temas centrais do painel. Gonçalo Rebelo de Almeida destacou que, nas unidades da Vila Galé situadas no interior, muitos funcionários são naturais das regiões onde trabalham, o que os torna “embaixadores naturais” dos destinos.

“Nos territórios menos explorados o impacto do hotel na cidade é muito maior do que abrir hotel na Avenida dos Aliados ou na Avenida da Liberdade”, afirmou, referindo exemplos de destinos onde o grupo tem apostado, como Elvas, Alter do Chão, Douro, Serra da Estrela ou Ponte de Lima.

Também Adriana Jacinto sublinhou a importância de integrar “colaboradores, comunidades e clientes” na estratégia de sustentabilidade. Segundo a responsável da Minor Hotels, o setor tem a responsabilidade de “ajudar a desenvolver e influenciar as partes interessadas dos territórios” e promover iniciativas locais. “Acima de tudo, temos de vender o destino porque é isso que garante a continuidade do nosso negócio”, afirmou.

Silvana Pombo destacou ainda a mudança nas expectativas dos hóspedes. Se antes procuravam apenas conforto, hoje procuram experiências culturais. “Quando começámos na hotelaria, o cliente queria um bom quarto de hotel; hoje quer muito mais”, afirmou, acrescentando que os visitantes querem conhecer a cultura local, contactar com artesãos locais e sair dos hotéis “mais ricos, com mais cultura, com mais história”. 

“Temos de encontrar forma de abrir as portas às comunidades e de explicar aquilo que podemos fazer em conjunto, não uns contra os outros”

Silvana Pombo, vice-presidente de Operações da Highgate Portugal

Impacto do turismo na gentrificação das cidades

O impacto do turismo na gentrificação e no acesso à habitação também esteve em debate. Gonçalo Rebelo de Almeida defendeu que é necessário separar os diferentes problemas urbanos e evitar atribuir ao turismo responsabilidades que não lhe pertencem.

Portugal tem “problemas de habitação”, “problemas de gestão de limpeza das cidades”, “problemas de acessibilidades e transportes”, mas “não são causados pelo turismo”, afirmou, considerando que muitas vezes diferentes desafios são colocados “no mesmo caldeirão” e o setor acaba por ser transformado no “bode expiatório”. Defendeu ainda que, em Portugal, “nas populações ainda não se sente esta rejeição do turismo”, uma vez que “entendem que têm mais benefícios do que prejuízos”.

O administrador da Vila Galé reconheceu, contudo, que existem algumas zonas do país onde a pressão turística é mais sentida. “É óbvio que Portugal, enquanto destino turístico que está no Top 15 a nível mundial, recebe efetivamente muitas pessoas”, afirmou, apontando “pontos concretos de pressão”, como a Baixa lisboeta, a zona dos Aliados no Porto ou o Algarve durante a época alta. 

“Os desejos dos turistas são quase coincidentes com os desejos dos residentes. Ambos querem cidades limpas, jardins, museus, restaurantes, espaços de animação, boas redes de transportes, edifícios cuidados”, sublinhou, relembrando a criação de taxas turísticas em alguns munícipios para “ajudar a reforçar a capacidade de resposta das cidades na resolução destes temas”.

Como solução, apontou ainda a necessidade de “encontrar soluções inteligentes”, como alargar as zonas de atração dentro das cidades. “Criar novos pontos de atração, levar os museus para outras avenidas, criar parques temáticos, criar zonas de shopping que não estejam no mesmo ponto da cidade”, exemplificou, considerando que esta estratégia pode ajudar a reduzir a perceção de pressão turística.

Silvana Pombo reforçou que o caminho passa por trabalhar em conjunto com a população local. “Temos de encontrar forma de abrir as portas às comunidades e de explicar aquilo que podemos fazer em conjunto, não uns contra os outros”, afirmou. Para isso, é essencial “integrar a comunidade no envolvimento das decisões para o futuro”, bem como “trabalhar junto das autarquias e principais players do concelho”.

Para Adriana Jacinto, a sustentabilidade deve ser assumida por todo o setor, independentemente da dimensão das unidades. “A sustentabilidade não é só para as grandes cadeias, é para cada um dos nossos estabelecimentos hoteleiros”, afirmou, admitindo, no entanto, que os grandes grupos acabam por ter “uma responsabilidade acrescida” neste processo.

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