Sábado, Fevereiro 14, 2026
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Do turismo “extrativista” à experiência à medida: como a tecnologia e a IA estão a redefinir o setor

O turismo precisa de deixar de ser visto como um setor “extrativista”, associado ao stress e à ansiedade, e passar a recorrer à tecnologia – em particular à inteligência artificial (IA) – não só para eliminar os “atritos” de uma viagem, mas também para criar valor duradouro para pessoas, economias e territórios. A ideia foi defendida esta sexta-feira por David Rowan, editor-chefe fundador da revista Wired no Reino Unido, no Boost 2026.

Para Rowan, a perceção pública do setor está cada vez mais associada à ansiedade e ao stress. “Penso que as viagens e o turismo têm cada vez mais uma reputação que deixa as pessoas ansiosas. São extrativistas, causam stress”, afirmou, sublinhando que “é tempo de colocar o amor no centro do que é o turismo”. Nesse contexto, a tecnologia surge como um facilitador essencial, “não só porque a IA pode eliminar os atritos de uma viagem, mas também porque nos permite personalizar a experiência e a expectativa com base no indivíduo”.

O editor-chefe da Wired UK destacou que o setor tem agora capacidade para trabalhar à escala da individualização. “É possível absorver enormes quantidades de dados e oferecer milhões de experiências individuais”, disse, defendendo que a era do turismo de massas como produto indiferenciado chegou ao fim. “Antes de termos tecnologia que pudesse personalizar [experiências], as viagens eram um produto básico que se vendia e tinha de ser um produto de massas. Essa era já passou”.

Rowan alertou, no entanto, para o peso da “narrativa mediática” negativa, associada aos protestos contra o turismo de massas em países como Espanha. “Precisamos de contar uma história mais envolvente, de que o turismo não é extrativista”, reiterou, defendendo uma reformulação estratégica que permita mostrar que “trazer pessoas de outro lugar para Portugal é uma oportunidade de crescimento, de regeneração ambiental, de atração de talento que pode ficar [no país] a longo prazo, de investimento”.

Essa mudança passa, segundo o orador, por usar a tecnologia para levar visitantes a nichos específicos e criar comunidades de interesse. “Podemos levar as pessoas a nichos de mercado específicos, a locais que não lhes foram apresentados com base nos seus objetivos e desejos pessoais”, explicou, dando como exemplo o impacto indireto de eventos como o Web Summit, que atraem empreendedores que acabam por se fixar no país.

Desta forma, torna-se possível “construir comunidades de interesse que não são comercializadas em massa como produtos turísticos, mas que utilizam os benefícios especiais deste ecossistema como uma plataforma sobre a qual o talento se pode desenvolver”, afirmou. Segundo o responsável, esta abordagem implica também “ligar pessoas – não [manter os] turistas isolados, mas integrá-los com base nos seus interesses nas comunidades locais”, reforçando o papel do turismo como catalisador de inovação e desenvolvimento a longo prazo.

David Rowan, editor-chefe fundador da revista Wired no Reino Unido, no Boost 2026.

A inteligência artificial (IA) assume um papel central, sobretudo na redução da fricção associada às viagens. “Uma das primeiras coisas que me vem à cabeça quando penso em IA é que facilita a interação e reduz a fricção”, disse Rowan, referindo exemplos como os e-gates biométricos em aeroportos ou a tradução automática, que ajudam a diminuir “a ansiedade de ser um estranho noutro lugar”.

Mas a tecnologia, defendeu, deve também potenciar momentos de “encantamento”. Rowan partilhou experiências pessoais, como a chegada às Bahamas, onde “há bandas e músicos” no aeroporto, transformando “o stress de uma viagem de 10 a 11 horas num deleite inesperado”, ou a personalização em hotéis, que cria “essa sensação de ser compreendido”. “E é por isso que as pessoas estão dispostas a pagar mais. É isso que as fará voltar. Porque não queremos um produto comum, queremos experiências”, frisou.

O keynote abordou ainda novos modelos de negócio no setor, desde hotéis que funcionam como espaços de coworking gratuitos, como o Hotel 25hours, no Dubai, até estratégias de fidelização na aviação. Citando um artigo do The New Yorker, Rowan apontou o exemplo da Delta, onde os cartões de crédito emitidos pela transportadora vão “render oito mil milhões de dólares este ano porque [os clientes] têm acesso ao lounge”, o que, segundo o orador, obriga a repensar “qual é o negócio das companhias aéreas”. “As pessoas querem esse estatuto, vão pagar, vão tornar-se fiéis, e não pela viagem em si”, sublinhou.

No domínio do trabalho e da inovação, Rowan deixou um alerta sobre a adoção da IA, citando o co-CEO da Netflix: “a IA não vai roubar o seu emprego, mas alguém que saiba usar bem a IA pode”. Para o orador, este é um desafio transversal aos setores, incluindo o turismo, até porque “a capacidade da IA para executar uma tarefa está a duplicar a cada sete meses, aproximadamente. E ainda estamos nas fases iniciais”.

O futuro do turismo, concluiu, passa por usar estas ferramentas para criar empregos qualificados, ligar visitantes às comunidades locais e posicionar Portugal como referência. “Porque o custo de recolher, processar e tomar decisões com base nestes dados está a descer para zero, mas a expectativa do cliente é que tenha uma experiência mágica, que se possa apaixonar [pelo destino] sem qualquer atrito”, afirmou.

A 4.ª edição do Boost, promovido pela NEST – Centro de Inovação de Turismo, decorre esta sexta-feira, 16 de janeiro, no Pavilhão de Portugal, em Lisboa, sob o tema “Seizing the Future”.

Leia também: Boost 2026: “O fator humano será, e já é, o mais disruptivo e transformador nas experiências”

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