Eleições CTP: “Não tenho o menor problema em ganhar ou em perder. O meu problema é não contribuir para a solução”

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Depois de quase 15 anos à frente da APAVT, Pedro Costa Ferreira prepara-se para deixar a presidência da associação e avançar para um novo desafio: a candidatura à presidência da Confederação do Turismo de Portugal (CTP). A candidatura conta, desde o primeiro momento, com o apoio da Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP), da Associação do Alojamento Local em Portugal (ALEP), da Associação Portuguesa de Empresas de Congressos, Animação Turística e Eventos (APECATE), da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo (APAVT), da Associação Rodoviária de Transportadores Pesados de Passageiros (ARP) e da Everything is New. A iniciativa surge num momento que Pedro Costa Ferreira identifica como um “novo ciclo turístico”, que exige, na sua perspetiva, uma CTP com “novas ambições e outras agendas”. Não aponta, contudo, falhas à atual direção: reconhece o percurso de Francisco Calheiros e considera que a CTP que este entrega é “mais forte, mais capaz, mais representativa” e financeiramente mais sólida. A mudança que defende resulta antes da necessidade de responder às novas condições do setor, com uma agenda mais diversificada, maior participação das associações e uma relação mais próxima com os associados. É também nesse contexto que defende uma CTP “menos presidencial”, com maior intervenção da direção e dos seus membros, e uma representação mais abrangente da cadeia de valor do turismo.

Em entrevista ao TNews, Pedro Costa Ferreira fala sobre as razões que o levaram a avançar para a CTP, a decisão de não apresentar a candidatura através da APAVT, o modelo de governação que pretende para a Confederação, os desafios de um turismo que considera estar num “planalto” e a relação entre crescimento turístico e os problemas de desenvolvimento. Fala ainda sobre a disputa eleitoral e sobre a existência de duas listas, que considera fazer parte da democracia.

Em algum momento da sua carreira pensou: “quero ser presidente da CTP”?

Não, nem sei se presentemente isso acontece. Em primeiro lugar, a minha candidatura não é pessoal. A verdade é que eu fui sensibilizado e a minha anuência em protagonizar uma candidatura — protagonizar uma ideia é diferente de candidatar — tem a ver com considerar que responder a esse desafio é o cumprimento de um dever. É igual ao cumprimento do dever que tive durante a presidência da APAVT. Em segundo lugar, não é apenas, e não é principalmente, uma candidatura. O que aconteceu foi que um conjunto alargado de intervenientes na cadeia de valor — a distribuição turística, a animação turística, o alojamento local, a restauração, os transportes turísticos, a cultura — tomaram uma decisão ou perceberam uma realidade. A centralidade da atividade turística é a experiência turística e isso obriga a que as associações cada vez mais se relacionem, trabalhem e formem ideias para o futuro em conjunto. Foi isso que nós decidimos fazer. Julgo que a candidatura à CTP é mais uma coincidência temporal. Vai haver uma eleição e uma das expressões deste trabalho em conjunto pode ser a candidatura, mas, para falar com franqueza, nem a considero o principal, nem este conjunto de intervenientes importantes na cadeia de valor turístico acham que seja a principal. O principal é a nossa proximidade, a nossa aproximação e a nossa vontade de trabalhar juntos.

O que é que estas associações viram em si para entenderem que poderia ser a pessoa certa para protagonizar este projeto?

Não gosto de falar em causa própria, mas provavelmente o exemplo de 15 anos de liderança associativa permitiu que julgassem, ou tivessem confiança, que pudesse protagonizar estas ideias de conjunto. E certamente que não seria o único a poder protagonizar, apenas um possível.

A independência face à APAVT

Já decidiu através de que associação se vai candidatar à presidência da CTP?

Ainda não. É importante que já tenha decidido que não é através da APAVT, porque isso tem uma mensagem política forte. Isto não é uma candidatura de agentes de viagens. É uma candidatura da cadeia de valor do turismo e que tem que ser presidida por alguém que vem de um setor. É para nós benéfico que haja a separação entre a família de origem e a pessoa.

Do que é que depende essa decisão?

A eleição não é amanhã. Como são vários os elementos que protagonizam este movimento, temos que olhar uns para os outros e decidir entre todos qual é a associação ou a empresa que faz sentido suportar a minha candidatura.

Não se candidatar pela APAVT é uma questão de independência ou é também uma questão de estratégia eleitoral?

É uma assinatura de independência que é importante dar a todos os setores do turismo. Exclusivamente.

“Isto não é uma candidatura de agentes de viagens. É uma assinatura de independência”

No manifesto diz que “a próxima fase exige uma nova ambição”. O que é que considera que falta hoje à CTP e que gostaria de mudar?

Hoje não considero que falte nada à CTP. Francisco Calheiros fez um bom percurso, foi o meu presidente, foi o nosso presidente. Entrega uma CTP melhor do que aquela que recebeu, entrega uma CTP mais forte, mais capaz, mais representativa, mais sólida financeiramente também. O que nós entendemos é que vamos viver um novo ciclo turístico e que esse novo ciclo turístico provoca a necessidade de uma CTP com novas ambições e com outras agendas.

A verdade é que a atual fase do novo ciclo turístico obriga, sobretudo, a que as associações trabalhem mais em conjunto, portanto, tenham mais intervenção, todas elas, na política da CTP. A agenda deve ser mais diversificada e mais densa. A relação com os associados deve ser mais próxima e consideramos que a CTP se deve aproximar mais não apenas de uma atitude reivindicativa, mas da centralidade estratégica do turismo, ou seja, participar mais naquilo que é a estratégia do turismo.

“Vamos viver um novo ciclo turístico e esse novo ciclo turístico provoca a necessidade de uma CTP com novas ambições e com outras agendas”

Quando diz que a agenda deve ser mais diversificada, está a dizer que a agenda atual da CTP está demasiado centrada no aeroporto?

A agenda do futuro não deve estar centrada apenas no aeroporto. A agenda do futuro tem de estar centrada em 10 aeroportos e em duas concessões. Tem de estar centrada na mobilidade e no TGV. Tem de estar centrada em estimular a inovação. Tem de estar centrada nos problemas de mobilidade nas cidades. Deve estar centrada em diminuir a burocracia. E não apenas a burocracia no licenciamento de um hotel, mas a burocracia na tutela da animação turística mais pequena e no mais recôndito interior. Tem que contribuir para todos os aspetos transversais do turismo: a organização das cidades, a saúde, a limpeza, a segurança, cada vez mais algo absolutamente transversal. Portanto, a agenda tem que ser mais diversificada e tem que ser mais densa.

Fala também numa CTP mais próxima das associações e das regiões. Que modelo de governação pretende implementar para garantir que essa proximidade não fica apenas como uma intenção?

Julgo que a CTP precisa de ter, no futuro, um modelo menos presidencial.

O que é que isso significa na prática?

Significa maior participação da direção da CTP, maior disponibilidade dos seus diretores e maior proximidade com o associado. É muito importante que esta mensagem seja passada. Não é nenhuma crítica, é um momento. O que penso é que a tradição diz que é importante ser diretor para se ter mais conhecimento. Julgo que os diretores da CTP não devem lá estar, a partir de agora, para ter mais conhecimento, mas para trabalhar mais, porque o conhecimento deve ser igual para todos os associados e a preocupação deve ser igual para cada um dos associados e para os problemas de cada um.

“A CTP precisa de ter, no futuro, um modelo menos presidencial”

A sua candidatura defende uma CTP “mais agregadora” e que represente toda a cadeia de valor do turismo. O que significa, na prática, essa mudança de representação?

A base é a ideia de que estas associações todas que referi devem trabalhar mais em conjunto. Essa foi a base. Portanto, na CTP esta ideia tem que ser alargada. Todos os subsetores devem estar mais presentes na agenda, que é mais densa e mais diversificada. Não devemos olhar apenas para um subsetor ou especialmente para um subsetor. Isso não é condizente com a atual situação do turismo, do ciclo que atravessamos e que vamos atravessar. Vamos atravessar um ciclo especialmente exigente. Não podemos analisar mais a atividade turística reduzindo-a a contar hóspedes, estadas, número de passageiros ou quartos e muito menos receita por quarto.

Temos que falar em valor acrescentado porque nós estamos num planalto, num momento de maior maturidade em que vai ser muito mais difícil crescer e vai ser mais difícil atrair novas procuras. Temos é que inovar, crescer em qualidade e falar de valor acrescentado. Falar de valor acrescentado é falar de toda a densidade turística junta. Não podemos falar apenas de um subsetor. E, portanto, a CTP deve ser espelho da atual situação do ciclo turístico.

Em que fase está neste momento a preparação da candidatura?

Aquilo que nos uniu foram as respostas aos problemas atuais. Portanto, cada coisa tem o seu tempo. A constituição da lista e a ida a eleições será uma consequência deste trabalho de base. Estamos em trabalho de base. Julgo que o mais importante é perceber quais são os problemas que cada um de nós enfrenta, quais é que podem ter uma resposta conjunta e, com isso, formar uma abordagem organizada daquilo que pode ser a atividade da CTP. Estamos mais preocupados com isso do que com nomes, com listas e muito menos com votos.

A candidatura de Bernardo Trindade anunciou que reúne declarações de apoio correspondentes a cerca de 60% do universo eleitoral da CTP. Como é que a sua candidatura pretende construir uma lista competitiva perante esta realidade?

Com toda a honestidade, não estamos neste momento a contar votos, nem é isso que nos persegue. O que nos persegue é a nossa posição no diálogo sobre o futuro do turismo em Portugal. É para isso que nós nos reunimos e é para formar essa posição tendente a melhor progredirmos em termos da gestão da atividade turística, do que propriamente uma eleição. Volto a dizer: não nos juntámos para contarmos votos nem para irmos a votos. Juntámo-nos por causa dos nossos problemas e dos problemas ao longo da cadeia de valor, juntámo-nos para melhorar a gestão desses problemas, juntámo-nos para contribuir para o progresso do turismo português e uma das gavetas desta cómoda parece ser uma eleição à CTP. Não é a nossa principal preocupação.

Mas o facto de a candidatura adversária dizer que já reúne cerca de 60% do universo eleitoral não o demove?

De todo. Quem me conhece pessoalmente e quem conhece a minha posição neste processo sabe que não tenho o menor problema em ganhar ou em perder. Tenho um problema em me afastar dos problemas e em não contribuir para a sua solução.

O presidente da CTP, Francisco Calheiros, considera negativo que existam duas listas até ao fim e defendeu que uma associação representativa não deveria ficar de fora da futura direção. Como olha para esta disputa eleitoral e para a necessidade de garantir uma CTP representativa depois das eleições?

Olho de uma maneira diferente. Nenhuma associação fica de fora da CTP se a relação entre o associado e a direção for uma boa relação. A ideia de que se fica fora da CTP ficando-se fora da direção é uma ideia que não comungo.

“Nenhuma associação fica de fora da CTP se a relação entre o associado e a direção for uma boa relação. A ideia de que se fica fora da CTP ficando-se fora da direção é uma ideia que não comungo”

Turismo em “planalto” e os desafios para o setor

Está preparado para governar uma CTP com condições de turismo muito diferentes daquelas que aconteceram nestes últimos anos, com um grande peso na economia, mas entrando agora numa fase diferente?

As condições são completamente diferentes, mas veja: primeiro, sinto-me preparado a integrar uma equipa. Não é um ato isolado. Depois, defender os interesses do turismo não tem nada a ver com o momento do setor. Podemos defendê-los em crescimento, podemos defendê-los em planalto e podemos defendê-los em decréscimo. A ideia é sempre a mesma: é melhorar face às circunstâncias. Até porque o momento do turismo é diferente, mas não é um mau momento. Estar em planalto em cima dos melhores números de sempre é uma coisa boa, não é uma coisa má.

Mas há desafios. Há quem defenda que há turismo a mais.

Há desafios, sim. No caso desse ataque, julgo que há uma pergunta mal colocada, que é comparar as coisas boas que aconteceram por causa do turismo com os problemas de desenvolvimento que são inerentes. Eu não devo perguntar se há turismo a mais. A própria pergunta dificulta a gestão do problema, porque não é compaginável com o crescimento, a realização ou o desenvolvimento que houve nas cidades antigas que se modernizaram, o bem-estar económico, os novos negócios, o aumento do rendimento. Isso não é compaginável com não haver turismo, isso vem com o turismo. Trabalhei na cidade antes de haver turismo. Uma das razões pelas quais o incêndio do Chiado se propagou é por não haver residentes em Lisboa. Era mentira que houvesse habitação antes do turismo. Havia degradação, prostituição, droga e algum comércio. Agora há comércio modernizado e há habitação. São coisas diferentes.

Há problemas em alguns pontos da cidade sobre os quais deve haver reflexão? Claro que sim. Mas a reflexão não é se há mais ou menos turismo, é como é que protegemos os vencidos do desenvolvimento do turismo. Porque o desenvolvimento em sociedades abertas gera sempre vencedores e vencidos. Temos de ter mais atenção aos vencidos. Se calhar, um bom exemplo é trabalhar a taxa turística junto das comunidades com mais capilaridade, por exemplo, junto das Juntas de Freguesia. As Juntas de Freguesia percebem bem quem são os vencidos e quem é preciso ajudar. A taxa turística podia ser utilizada para, junto com as Juntas de Freguesia, resolver esses problemas. Há um segundo aspeto em relação a este assunto que é importante vocalizar. O turismo trouxe as coisas boas, não tem que resolver tudo. Temos um poder local, temos câmaras e a responsabilidade, até porque os rendimentos das câmaras aumentaram, querem impostos, querem taxa turística. A organização das cidades e a reflexão sobre aqueles que mais têm que ser ajudados é uma reflexão que não tem que ser feita só pelo turismo.

Vai candidatar-se à CTP para um mandato ou vê esta candidatura como um projeto de mais longo prazo?

Não faço ideia. Uma vez mais, a candidatura à CTP não é a centralidade da nossa aproximação. E, portanto, ela vai acontecer naturalmente, ou está a acontecer naturalmente. A acontecer e a ganharmos nas urnas, as circunstâncias depois da sua execução são elas mesmas. Não necessito de muitos mandatos, nem estou a dizer que apenas vou fazer um.

Se for eleito presidente da CTP, qual será a primeira prioridade que quer colocar em cima da mesa e, ao fim dos primeiros dois anos, que mudança gostaria que o setor pudesse identificar como resultado da sua presidência?

Gostava que o setor do turismo fosse claramente conotado com a sua centralidade estratégica e que a CTP fosse reconhecida por ter contribuído, antes de os problemas surgirem, para a definição e execução da estratégia do setor.

Para finalizar, a existência de duas listas é, para si, um sinal de pluralidade democrática ou de cisão dentro do setor?

É democracia. Julgo que a unicidade não pode ser um fim em si mesmo, pode ser o resultado de uma convergência de opiniões ou não. Acho que o importante é a boa-fé das opiniões e a democracia que as junta.

Leia a primeira parte da entrevista aqui: “Espero que a nova direção faça tudo de forma diferente, porque é isso que a APAVT precisa”

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