Terça-feira, Fevereiro 10, 2026
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Ensino Superior em Gestão Hoteleira e Turística perde atratividade e especialistas pedem mudança de paradigma

Nos últimos anos, algumas instituições de ensino superior portuguesas, tradicionalmente referências na formação em turismo e gestão hoteleira, registaram uma queda significativa no número de alunos inscritos para 2025.

O TNews.pt analisou 20 cursos de turismo e hotelaria em Portugal (tabela abaixo) e comparou os resultados de colocação de alunos entre 2024 e 2025, revelando uma tendência preocupante. Em 2024, dos 815 lugares disponíveis nos cursos monitorizados, 454 alunos foram colocados, correspondendo a uma taxa de ocupação média de 55,7%. Já em 2025, apenas 378 alunos se inscreveram, deixando 437 vagas por preencher e reduzindo a ocupação média para 46,3%. Estes números confirmam uma queda significativa no interesse pelos cursos, especialmente em Gestão Hoteleira e Gestão Turística, embora os cursos tradicionais de Turismo também apresentem vagas sobrantes consideráveis.

Comparação Agregada 2024 vs 2025

AnoVagas TotaisColocadosVagas SobrantesTaxa de Ocupação Média
202481545436155,7%
202581537843746,3%

A reflexão sobre esta situação foi trazida à luz por Vítor Toricas, Managing Partner da Toricas – Negócios e Gestão, através de uma publicação recente no LinkedIn, que rapidamente gerou uma ampla discussão entre profissionais do setor e ex-alunos. O profissional, que foi durante três décadas docente do Ensino Superior, questiona o que terá levado escolas outrora com procura acima da oferta a enfrentar este défice. Entre as causas apontadas estão modelos de ensino considerados “anacrónicos” e “indigentes”, distantes da realidade prática da hotelaria moderna. “O problema não são os preços dos quartos nem os candidatos, mas o modelo em si que tresanda a bafio, gerando forças centrifugas nos mais jovens em vez de forças centrípetas”, afirma.

Profissionais do setor destacam que a formação prática e a gestão de pessoas são áreas críticas em falta nos currículos atuais. Luis Carmo Costa, da consultora Neoturis, aponta como exemplo positivo o Hotelschool The Hague, onde cursos como “Business Intelligence” oferecem uma preparação mais alinhada com as necessidades do mercado. Outros especialistas salientam que o distanciamento entre academia e realidade do setor contribui para a perda de interesse entre os jovens. Rui Fajardo, Regional Operations Manager da Livensa Living, refere que a estagnação da mentalidade de alguns players e a legislação desatualizada refletem-se na forma como os futuros profissionais percebem a atratividade da hotelaria.

Questões como a escolha de provas de ingresso também são apontadas como fatores limitativos. Eunice Gonçalves, professora na ESHTE, sublinha que determinadas disciplinas exigidas excluem potenciais candidatos de áreas como ciência e tecnologia, reduzindo ainda mais o universo de futuros estudantes. Além disso, a falta de valorização do conhecimento especializado nas empresas é um obstáculo adicional. Mariana de Matos Araújo comenta que muitos jovens optam por outros caminhos profissionais porque percebem que as licenciaturas em gestão hoteleira não se traduzem em oportunidades reais de liderança e reconhecimento.

A análise do TNews.pt mostra que os cursos mais afetados são, sobretudo, de Gestão Hoteleira e Gestão Turística, enquanto cursos tradicionais de turismo apresentam maior estabilidade, embora ainda com ocupação abaixo do ideal. De forma geral, há um aumento expressivo de vagas sobrantes em quase todos os cursos analisados, indicando um declínio generalizado no interesse por esta área de formação.

O consenso entre os profissionais é de que uma atualização radical e disruptiva dos modelos de ensino é urgente. Gil Maia Santos, hotel manager do grupo Rosewood, sugere ” a implementação de seis meses de gestão de pessoas com role-play e seis meses de estágio prático, preparando profissionais aptos a responder às exigências do setor moderno”.

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3 COMENTÁRIOS

  1. Qual a percentagem de pais que ambiciona uma carreira profissional na hotelaria ou gastronomia para os filhos?
    R: Presumo que muito baixa
    Existe equilíbrio entre a vida profissional e profissional nestas áreas ?
    R: Pouco
    Discutir o modelo de ensino e conteúdos é sempre interessante e necessário, mas não é a causa deste fenómeno.
    Depois os cursos de gestão hoteleira devem ser o mais idêntico ao curso de gestão geral, para que os alunos possam ter mais saídas profissionais. ao contrário do que o autor dá a entender.

  2. É natural que, com a profissionalização do setor, o aumento de escala das empresas (fusões e aquisições) e a entrada e novos players internacionais /globais no mercado, as empresas turísticas em Portugal se modifiquem. Até considero isto salutar.
    Para competências globais – como gestão, contabilidade, comercial, recursos humanos . as nossas empresas turísticos têm que conseguir atrair e recrutar o talento de escolas, institutos e universidades gerais. Já no que se refere às competências técnicas e operacionais, têm que se desenvolver e formar, à sua medida, no seu contexto empresarial. Tal como fazem as empresas em todos os setores em Portugal – financeiro, moda, seguros, telecomunicações, têxteis, distribuição alimentar… Só assim vamos renovar os nossos quadros e voltar a atrair os melhores talentos para a nossa indústria.

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