Quarta-feira, Abril 15, 2026
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Entre geopolítica e Turismo: como o conflito no Irão pode afetar Portugal

“Um eventual agravamento do conflito no Irão não seria apenas uma questão geopolítica distante. As consequências repercutir-se-iam de forma indireta, mas muito concreta, no turismo europeu”

Este ano ainda agora começou e já nos mostrou que será desafiante. A geopolítica parece caminhar para a consolidação de uma nova ordem mundial, onde três grandes blocos — Estados Unidos, China e Rússia — procuram um novo equilíbrio de poder. Na Europa, os desafios também são evidentes. O continente continua a tentar afirmar-se como um verdadeiro bloco estratégico, mas as divisões internas e a dificuldade em concertar respostas comuns em vários níveis continuam a traçar um caminho de incerteza e, talvez mais preocupante ainda, sem um rumo claramente definido.

O turismo, na sua estreita relação com a estabilidade global, também procura adaptar-se a este contexto em transformação. Sempre que o mundo treme, o nosso setor é dos primeiros a sentir o impacto. No entanto, a história também nos oferece algum conforto e ambição, pois poucos setores demonstram uma capacidade de recuperação e adaptação tão rápida quanto o nosso.

Um eventual agravamento do conflito no Irão não seria apenas uma questão geopolítica distante. As consequências repercutir-se-iam de forma indireta, mas muito concreta, no turismo europeu. Para Portugal, um país fortemente dependente do turismo internacional, este cenário levanta desafios relevantes, mas também abre novamente espaço para uma reflexão estratégica sobre o futuro do setor.

Energia: o primeiro efeito dominó

A região do Golfo Pérsico continua a ser uma das zonas mais críticas para o fornecimento global de petróleo, com o Estreito de Ormuz a desempenhar um papel central no transporte energético mundial. Qualquer instabilidade significativa nesta região tende a refletir-se rapidamente no preço da energia.

Para o turismo, isso traduz-se em três impactos imediatos:

  • aumento do preço dos combustíveis
  • subida das tarifas aéreas
  • pressão crescente sobre os custos operacionais de hotéis e operadores turísticos

Num país como Portugal, cuja procura depende fortemente de viagens aéreas, estas variáveis podem afetar a competitividade do destino, sobretudo em mercados mais sensíveis ao preço, como muitos dos nossos principais mercados emissores.

Nestes momentos, torna-se ainda mais evidente a importância de uma gestão atenta, sólida e consistente. Quem prepara os ciclos de incerteza durante os períodos de crescimento tem maior capacidade de reagir e adaptar-se quando as condições mudam.

Segurança e perceção: um fator decisivo

O turismo é impulsionado não apenas por fatores económicos, mas também pela perceção de segurança. Historicamente, quando surgem tensões noutras regiões do mundo, destinos considerados estáveis e previsíveis tendem a beneficiar. Basta recordar o impacto da Primavera Árabe e o quanto acabou por contribuir para reforçar o crescimento do turismo em Portugal.

Nesse contexto, Portugal pode sair relativamente favorecido. A sua distância geográfica dos principais focos de instabilidade e a imagem internacional de segurança e estabilidade podem reforçar o posicionamento do país como destino alternativo. Se o conflito permanecer regionalizado, é provável que destinos do Mediterrâneo oriental sofram maior impacto do que Portugal ou Espanha.

Mudanças nos mercados emissores

Uma escalada do conflito poderá também provocar alterações nos padrões de procura turística. Entre as tendências mais previsíveis está uma previsível retração temporária do mercado norte-americano nas viagens de longo curso, bem como uma redução das viagens internacionais provenientes do Médio Oriente e da Ásia. Poderá ainda verificar-se uma diminuição do turismo israelita, que muito tem crescido em Portugal, caso a instabilidade se alastre pela região.

Por outro lado, a experiência de crises anteriores demonstra que alguns mercados tendem a ganhar maior relevância nestes contextos. É expectável um reforço do turismo intraeuropeu, um maior peso do mercado ibérico e um crescimento das viagens de curta distância.

Importa ter presente que, em períodos de incerteza, os viajantes tendem a privilegiar a proximidade, a previsibilidade e a facilidade logística nas suas escolhas.

O verdadeiro desafio para Portugal

Mais do que reagir a uma crise específica, Portugal enfrenta um desafio estrutural: tornar o seu modelo turístico mais resiliente.

Nas últimas décadas, o país conseguiu afirmar-se como um destino global de excelência e diferenciado. No entanto, essa notoriedade veio acompanhada de algumas dependências que exigem reflexão:

  • forte concentração em determinados mercados emissores
  • elevada dependência do transporte aéreo
  • pressão crescente sobre infraestruturas e território
  • grande peso económico do turismo em determinadas regiões

A estes desafios juntam-se ainda fragilidades estruturais que continuam por resolver. A mobilidade interna, sobretudo ao nível do transporte público, permanece limitada em muitas zonas do país, dificultando a circulação de visitantes para além dos principais polos turísticos.

Paralelamente, a falta de planeamento e controlo na expansão da oferta turística tem contribuído para alguma instabilidade de preços e para riscos de insustentabilidade para vários agentes do setor. Soma-se ainda a dificuldade em afirmar outras regiões do país como destinos turísticos relevantes, mantendo-se uma forte concentração da procura nos destinos mais tradicionais de Portugal.

Num mundo cada vez mais volátil, marcado por crises energéticas, tensões geopolíticas e mudanças climáticas, é fundamental ter presente os impactos recentes que o país enfrentou. A sustentabilidade do modelo turístico torna-se, assim, uma questão central para o futuro.

Um setor habituado a reinventar-se

O turismo já atravessou algumas das maiores crises globais das últimas décadas: ataques terroristas, crises financeiras, pandemias e instabilidade política. Em todas elas demonstrou uma notável capacidade de adaptação. Um conflito no Irão não será exceção.

Se a situação escalar significativamente, haverá pressão sobre custos e maior volatilidade na procura. Se permanecer limitada regionalmente, o impacto poderá ser moderado e até gerar um reequilíbrio de fluxos turísticos na Europa.

No entanto, a verdadeira questão não é apenas como reagir à próxima crise, mas como preparar o setor para um mundo onde a incerteza será cada vez mais a regra. Porque, no final, viajar continua a ser uma necessidade profundamente humana, tão antiga quanto o comércio e tão resiliente quanto ele.

E os destinos que souberem antecipar o futuro, em vez de apenas reagirem ao presente, serão aqueles que continuarão a prosperar.

Que assim seja o nosso.

Por Fernando Assis Coelho

É licenciado em Geografia pela Universidade Nova de Lisboa e pós-graduado em Turismo, com formações executivas na Porto Business School, SDA Bocconi, AESE Business School e Universidade de Londres. Estreou-se como assistente de direção no grupo hoteleiro escocês Brudolff, tendo exercido funções como diretor de hotel no grupo Pestana, no Royal Óbidos Spa & Golf Resort e no Hotel Cidnay. Desempenhou funções com responsabilidade no turismo do grupo Symington e atualmente é diretor para Portugal do grupo hoteleiro Petit Palace.

4 COMENTÁRIOS

  1. Excelente reflexão. Muitas vezes olhamos para o turismo apenas pela perspetiva da procura, mas esquecemo-nos de como fatores externos como refere: energia, custos de transporte ou perceção de segurança. Num contexto geopolítico cada vez mais imprevisível, pensar a resiliência do modelo turístico português e do mundo deixa de ser apenas estratégico e passa a ser essencial. Artigo muito pertinente. Parabens Fernando

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