Sábado, Dezembro 10, 2022
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Entrevista: “Estamos no bom caminho para atingir os 27 mil milhões de euros de receitas em 2027, mesmo sem o novo aeroporto

O verão ‘quente’ que o turismo atravessa em Portugal não deve arrefecer até ao final do ano. É o que estima a secretária de Estado do Turismo, Comércio e Serviços, olhando para as previsões disponíveis até à data. No entanto, em entrevista ao TNews, Rita Marques reconhece que vivemos tempos voláteis e garante que o governo está a acompanhar atentamente a evolução da conjuntura política e económica internacional, de modo ajustar as suas políticas, incluindo o Plano Reativar o Turismo 2027, se a situação assim o exigir.

A recuperação do turismo é evidente no primeiro semestre. Será possível continuar este crescimento no segundo semestre do ano, apesar dos constrangimentos da aviação?

As previsões do Banco de Portugal no Boletim Económico de junho último apontam para a consolidação da tendência de crescimento das receitas turísticas no resto do ano, o que permitira terminar o ano de 2022 com o volume de receitas turísticas superiores em 4,2% aos resultados de 2019.

Os dados que dispomos em termos de procura turística para os próximos meses são bastante animadores. A ForwardKeys prevê um crescimento dos lugares disponíveis em voos para Portugal nos próximos 3 meses superior em 3,2% à capacidade aérea nos meses homólogos de 2019, o que demonstra uma dinâmica de mercado positiva.

“atravessamos um período de enorme disrupção, o que exige uma monitorização constante das flutuações de mercado”

Os números da atividade turística nos meses de verão poderão sofrer algum impacto pelos problemas da aviação?

A instabilidade do tráfego aéreo nas últimas semanas está a repercutir-se em termos da tomada de decisão de marcação de viagens pelos turistas, que acompanham as notícias e ajustam as suas decisões em função da conjuntura. As dificuldades recentes nos aeroportos naturalmente poderão ter alterado o momento em que as reservas são efetuadas, mas não quererá dizer que essas intenções de viagem desaparecem.

Um artigo recente da ForwardKeys sinalizava efetivamente uma quebra das reservas realizadas na semana de 4 a 10 de julho para os meses de julho e agosto na Europa de 44% (-27% para Portugal). No entanto, a mesma pesquisa realizada hoje indicia uma quebra muito inferior para as viagens na Europa (-12%), sendo que para Portugal a tendência já é inclusivamente positiva (+6,0%).

Acresce ainda que os mercados asiáticos começam a dar sinais de abertura, o que poderá indiciar a recuperação de mercados relevantes como o Japão ou a China, que ainda estão longe dos resultados de 2019.

Em suma, atravessamos um período de enorme disrupção, o que exige uma monitorização constante das flutuações de mercado.

“Tudo o que possa ter uma repercussão no aumento dos encargos para as famílias, incluindo naturalmente as taxas de juro, não é, à partida, favorável para o consumo”

A subida das taxas de juro na Europa poderá ter impacto na procura no segundo semestre?

Tudo o que possa ter uma repercussão no aumento dos encargos para as famílias, incluindo naturalmente as taxas de juro, não é, à partida, favorável para o consumo. Acredito, no entanto, que outros fatores importantes, como a motivação para viajar ou o interesse do nosso destino, possam contribuir para que os mercados internacionais que estão mais dinâmicos para Portugal, assim continuem no futuro próximo.

Novo modelo de contratualização da promoção turística externa

Quais são as grandes diferenças práticas do novo modelo da contratualização da promoção turística externa para 2023-2025?

Gostava em primeiro lugar de relevar que o nosso modelo da contratualização pode ser considerado um sucesso e um dos fatores que tem contribuído para a afirmação de Portugal como um destino turístico internacional competitivo. É um modelo único no contexto dos nossos principais concorrentes e por isso mesmo alvo de frequente estudo por parte de muitos países onde o turismo é uma importante atividade económica.

Há, no entanto, que melhorar e evoluir, para que continuemos competitivos e possamos continuar a ser exemplo. Nesse sentido, estamos a proceder a alguns ajustes, como por exemplo aumentar o envolvimento dos privados, promovendo um maior grau de intervenção das empresas no planeamento e na implementação das ações de promoção externa regional realizadas; ntensificar a articulação entre os parceiros públicos quer ao nível nacional/regional como ao nível regional/regional para que possamos atuar mais em rede, com melhor eficiência coletiva e aproveitando bem sinergias possíveis de explorar no âmbito das atividades promocionais que os diversos interlocutores levam a cabo;  melhorar os processos de monitorização de execução de atividades e de resultados, incluindo na definição mais clara de indicadores e de objetivos. O princípio da accountability é sempre um bom princípio na gestão.

Este novo modelo recolheu aprovação e o consenso do CEPT?

Está a fazer o seu caminho. Na recente reunião do CEPT, e com base numa primeira proposta, recebeu-se um conjunto de comentários relativamente aos aspetos críticos a ajustar, ficando o Turismo de Portugal, as Entidades Regionais de Turismo, as Secretarias Regionais com os pelouros do Turismo das Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores, e as Agências Regionais de Promoção Turística, de trabalharem agora os pormenores de forma a que, em breve, se possa assinar o novo protocolo da Contratualização da Promoção Turística. É indispensável que em janeiro de 2023 possamos promover Portugal no exterior ao abrigo deste novo protocolo cujo período de vigência se prolongará até 2025.

Com os tempos incertos que vivemos, este “novo modelo” será ágil e flexível o suficiente para adequar a promoção externa às tendências de mercado? Por exemplo, os especialistas apontam uma correlação entre a paridade do euro/dólar e o aumento da procura para a Europa, o que supõe mais viagens dos americanos ao continente europeu. Temos capacidade para rapidamente apontar baterias a determinados mercados em função de estarem mais ou menos predispostos a viajar?

O modelo da contratualização da promoção externa na área do turismo é muito flexível. Todos os intervenientes podem, a qualquer altura do ano, ajustar as suas estratégias e os seus planos em função de uma situação concreta que se verifique. Por exemplo, quando há uns anos tivemos a Primavera Árabe em certos destinos no norte de África muito populares em mercados europeus, imediatamente tivemos a capacidade de orientar a promoção em função dessa conjuntura. Houve flexibilidade e agilidade da parte do modelo para acomodar essa alteração. Podemos ainda assim melhorar? Sim, com certeza. E é também para o conseguir, que estamos a ajustar o protocolo.

Plano Reativar o Turismo

“iremos terminar 2022 com um crescimento das receitas de 3% ou 4% face a 2019”

O Plano “Reativar o Turismo” (PRT2027) foi lançado em 2021, mas passado um ano a conjuntura é completamente diferente: se por um lado há um ritmo de recuperação do turismo que não era esperado, por outro há vários fatores de incerteza: guerra na Ucrânia, inflação, aumento dos preços dos combustíveis. Tendo em conta esta nova conjuntura até que ponto este plano é suficientemente flexível para se ajustar às necessidades das empresas decorrentes desta nova conjuntura?

O PRT2027 é um plano com objetivos muito concretos de curto e médio prazo e também de longo prazo. Os 4 eixos estratégicos e as 51 medidas em que está assente, conferem-lhe uma abrangência muito grande de atuação para as empresas. Tem medidas direcionadas desde o robustecimento da situação financeiras das empresas, até à inovação e digitalização das suas atividades, passando pelas questões da sustentabilidade, da capacitação dos recursos humanos e da internacionalização. Portanto, um espectro muito alargado de intervenção, permitindo a cada empresa escolher em cada momento onde necessita de se focar.

Naturalmente que vivemos em tempos muito voláteis e por isso o Governo, por um lado, está a monitorizar a execução do PRT2027 e a avaliar o seu impacto no setor, e por outro, a acompanhar atentamente a evolução da conjuntura política e económica internacional, de modo ajustar as suas políticas, incluindo o PRT2027, se a situação assim o exigir. Há que estar sempre muito atenta e vigilante, em contacto próximo com o setor.

O PRT tem por objetivo ultrapassar os 27 mil milhões de euros de receitas turísticas em 2027. Sem um novo aeroporto e sem obras no aeroporto da Portela essa meta será alcançada?

Há cerca de um ano, o prognóstico mais comum era de que apenas atingiríamos o valor de receitas de 2019 no ano de 2023 ou 2024. Sentimos neste momento, atendendo ao extraordinário ritmo de recuperação da atividade turística em Portugal, que iremos terminar 2022 com um crescimento das receitas de 3% ou 4% face a 2019. Tudo visto, penso que estamos no bom caminho para conseguir atingir o objetivo dos 27 mil milhões de euros de receitas em 2027, mesmo sem o novo aeroporto de Lisboa. Agora, tal não significa que não queiramos um novo hub na capital. Esta é uma reivindicação que me parece legítima de todo o setor.

Está preocupada com o impacto que a seca pode ter na atividade turística? Hoje, mais do nunca, está claro que as empresas turísticas precisam de apostar na sustentabilidade e na redução da pegada ecológica?

 O turismo tem em vigor o plano Turismo + Sustentável 2023 com metas ambiciosas para cada uma das suas 3 vertentes: económica, social e ambiental. No domínio da sustentabilidade ambiental, temos objetivos concretos para a redução do consumo dos recursos hídricos. Há exemplos extraordinários em Portugal de gestão inteligente da água que precisam de ser conhecidos para poderem instigar outros operadores económicos a replicá-los. Por outro lado, no âmbito do PRT 2027, lançamos também o programa Empresa Turismo 360º, pioneiro a nível internacional, cujo objetivo é apoiar as empresas nacionais do setor a incorporar os indicadores ESG nas suas estratégias de desenvolvimento. Estamos a liderar no domínio da sustentabilidade.

Mão de obra

“Os empresários também estão a assumir o seu papel: pagando melhor e favorecendo instrumentos de regulamentação coletiva de trabalho”

O Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC) e a Comissão Europeia de Viagens (ETC) alertam que a recuperação do setor de Viagens e Turismo pode ser colocada em sério risco se quase 1,2 milhões de postos de trabalho permanecerem vagos em toda a União Europeia (UE). Em Portugal, o problema da falta de pessoas disponíveis para trabalhar também se tem vindo a agravar. Que dados tem sobre o avanço na contratação de trabalhadores estrangeiros, nomeadamente provenientes dos PALOP?

A falta de trabalhadores no setor do Turismo era algo que já se começava a sentir antes da pandemia. Em 2020 e 2021 com a forte travagem da atividade turística, muitos trabalhadores acabaram por sair do setor, alguns dos quais para novos ramos de atividade. Agora que a retoma se consumou, a um ritmo bastante mais rápido do que o esperado, temos de facto falta de mão de obra no setor, um desafio que reclama medidas urgentes. Sobre a captação de talento, o governo está a trabalhar na agilização de vistos para os cidadãos oriundos da Comunidade de Países da Língua Portuguesa. Em julho, a Assembleia da República aprovou alterações à «Lei dos Estrangeiros», alterações que nos ajudarão a preparar muito em breve uma missão a Cabo Verde para testar o modelo de concessão de vistos. Os empresários também estão a assumir o seu papel: pagando melhor e favorecendo instrumentos de regulamentação coletiva de trabalho.

Em que outras dimensões está o Turismo de Portugal/SET a trabalhar para mitigar este problema?

O Turismo de Portugal gere, como é sabido, 12 Escolas de Hotelaria e Turismo dispersas por todo o país, as quais assumem uma resposta extraordinariamente importante na capacitação dos nossos profissionais. Em paralelo, estamos a trabalhar com outras entidades para que, de forma mais articulada, possamos disponibilizar ainda mais formação especializada incrementando, de forma significativa, o número de pessoas a estudar e a fazer formação em turismo.  O programa Formação+Próxima, realizado com as Escolas do Turismo de Portugal em estreita articulação com os municípios, é também um excelente exemplo de um outro projeto colaborativo. Até ao momento foram protocoladas parecerias entre o TdP e 101 municípios de norte a sul, cujo objetivo é formar os profissionais do setor nos temas mais prementes para cada local do território. Apostamos muito na formação porque entendemos que sem profissionais do setor bem qualificados e bem preparados, não será possível oferecer um destino de qualidade e competitivo. Finalmente, estamos também a trabalhar na construção de projetos de valorização das profissões do turismo, em cooperação com as entidades de formação, com as associações do setor, e com as empresas, evidenciando o valor social e económico das profissões do turismo.

Desde março é secretária de Estado do Turismo, Comércio e Serviços. Como é que tem sido gerir esta secretaria tripartida?

É exigente, mas absolutamente fazível. Há sinergias evidentes entre o Turismo, o Comércio e os Serviços que devem ser exploradas em prol do bom desenvolvimento de todos estes setores. Matematicamente falando, há que elevar à potência de três estes setores.

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