Sábado, Abril 20, 2024
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Estará a hotelaria moribunda? Restauração e Hotelaria do Séc. XXI com pés de barro.

É preciso coragem para assumir o que está de errado na nossa indústria.

Há uns dias, estive na Bolsa de Empregabilidade que decorreu em Lisboa, onde estavam cerca de sessenta marcas ligadas à hotelaria e à restauração.

No final da visita, eu e os colegas das outras empresas saímos do espaço com ar de derrotados e com a certeza de que já não se pode cair para um patamar mais baixo, no que diz respeito ao interesse e recrutamento de ativos para a indústria da hotelaria e do turismo.

Confesso que nunca me tinha sentido assim, frustrado.

Estou longe, muito longe de ter algo contra a contratação de imigrantes. Não é isso que está em causa. Também nós em Portugal fomos, num grande período da nossa história, emigrantes. A diferença é que, enquanto os portugueses exportaram e continuam a exportar recursos humanos e qualidade de trabalho e conhecimento, verificamos diariamente que importamos a chamada mão de obra sem qualquer qualificação cujas evidências se revelaram na referida Bolsa de Empregabilidade. Muitos emigrantes oriundos de paragens como Paquistão, Índia ou Nepal, através de redes de tráfico, outros fugidos das diversas guerras pelo mundo, muitos deles ilegais e sem documentos, a grande maioria nem inglês fala quanto mais português, sem qualquer tipo de formação na área hoteleira ou sequer em qualquer outra área, simplesmente desesperados por uma oportunidade de trabalho, por qualquer tipo de trabalho, à procura de um futuro melhor.

Este é o paradigma de recrutamento para qualquer atividade, desde os serviços de retaguarda como as copas ou o housekeeping, passando pelas centenas e centenas de nativos oriundos das mesmas paragens que circulam nos transportes denominados TVDE até chegarmos aos trabalhos chamados ‘menores’ a que estes cidadãos se sujeitam para sobreviver. Sim, porque ninguém contrata estas pessoas para o serviço de Restauração e Bebidas, o chamado F&B, ou para o Front Office, que é como quem diz para a Receção, ou mesmo para Sales

A pergunta que eu faço é: Onde estão os nossos, os nossos trabalhadores? Os que enchiam as Escolas de Hotelaria? O que se passou? Lamento, mas todos sabemos a resposta.. e garanto-vos que não é a desculpa que “os jovens não querem  trabalhar”.

Este paradigma só existe porque existe a Lei da Oferta e da Procura. Neste caso, como a oferta é muita e a qualidade é muito pouca ou nula, os recrutadores e líderes de empresas do setor aproveitam para esmagar os salários, criando uma política de pagar pouco por pouca qualidade, o que se vai traduzir num reflexo salarial que abrange os recursos qualificados nacionais ou internacionais formados nas escolas de hotelaria e turismo. Ou seja, quem nivela os valores salariais são os trabalhadores pouco qualificados, o que acaba por se tornar uma bola de neve que só tende a agravar o problema.

É o grande problema da hotelaria: a falta de investimento na própria hotelaria.

Para dar um exemplo, neste momento o valor que um Ajudante de Pastelaria ou de Cozinha, saído de uma Escola de Hotelaria e Turismo, (um profissional  com 2 anos de formação e propinas pagas), volto a referir para se entender bem – um profissional  com 2 anos de formação e propinas pagas – aufere mensalmente o mesmo que um ajudante ou copeiro recrutado nas condições que atrás mencionei. Raramente mais do que o salário mínimo nacional. Uma promoção para Pasteleiro ou Cozinheiro de 2ª difere, regra geral, em muito pouco.

Neste sentido, continuamos a perceber que a evolução nas cadeias hoteleiras e nas empresas é sempre temporária e em grande parte por forma aos imigrantes conseguirem ter o tão almejado contrato de trabalho que lhes permite obter o tão desejado ‘Titulo de Residência’ e, em última instância, o titulo de cidadão europeu, permitindo que Portugal seja um país de transição para outras paragens mais apetecíveis criando uma relação win-win em que os imigrantes obtém a legalização a troco de míseros ordenados e precárias condições de vida.

Aproveito esta minha reflexão para deixar uma mensagem a quem lê, na esperança de que deixem de fazer promoção ao housekeeping como alguém de vassoura na mão.

Housekeeping é muito mais que isso, é o cuidado para com o hóspede, o detalhe na limpeza e na apresentação do quarto. É exatamente por esse motivo que cada vez mais esta atividade vai sofrendo com a falta de recursos humanos de excelência, sobrevivendo na maior parte das vezes através de trabalhadores temporários que nem fazem ideia do que vão fazer nem conhecem a cultura do local onde trabalham. Sendo este um dos serviços que mais tem primado pela mediocridade serve de referência a todos os outros que lhe seguem os passos, como por exemplo as cozinhas, como já atrás referi.

Há dois anos terminei um artigo da seguinte forma:

É preciso que as pessoas tenham alegria em ir trabalhar para poderem transmitir essa alegria ao hóspede. Esta é a regra mais básica e mais importante da hotelaria, porque não é para o dono do hotel que se trabalha. É para os hóspedes.”

Esse artigo, que por acaso (ou talvez não) foi o artigo mais lido no ano de 2021 no TNews, chama-se: Restauração e Hotelaria no Séc. XXI com pés de barro – A escravatura do milénio.”, onde na altura alertei para o que iria acontecer dois anos depois.

Tais profetas da desgraça, como muitos me chamaram (aqueles que preferem não ver), aí está à vista de todos o resultado da falta de política de investimento na hotelaria, em especial como na altura referi, “nos seus ativos mais importantes, os funcionários.”

Este é o investimento que importa, além de boas e modernas instalações. Investimento de formação a longo prazo. Investimento na imagem e no orgulho em vestir a farda da instituição que representam. Investimento em que os funcionários (como se diz na empresa que eu represento neste momento) tenham orgulho em dizer:  “Somos Senhoras e Senhores ao serviço de Senhoras e Senhores”. Não somos nem mais nem menos.

E para isso não basta apenas dizer palavras bonitas, é preciso passar a mensagem, é preciso que os funcionários se levantem de manhã com orgulho em ir para o seu local de trabalho, cuidar dos seus hóspedes. Infelizmente, esse orgulho e essa vontade é cada vez mais escassa.

Pergunto: Hoje em dia onde anda a paixão pela hotelaria? Onde está a paixão pelo bem receber?

Esta é hoje a minha pergunta para os que da minha geração iniciaram estudos nesta área da hotelaria com uma verdadeira paixão, a de serem hoteleiros.

Pergunto-vos, a vós, minha geração – diretores, chefes, agentes de turismo, etc. – onde está essa paixão? Ponham a mão na consciência, e tentem recordar-se do vosso início na hotelaria.

Já escrevi imenso sobre este assunto nos últimos dois anos sobre liderança, sobre a falta de recursos humanos, sobre a falta de gestão de carreiras, sobre falta de objetivos, falta de sonhos. Enfim, sobre tudo o que vai faltando e que é essencial para termos uma indústria digna.

Neste dia, na Bolsa de Empregabilidade ficou patente o caminho que a hotelaria está a seguir. Um caminho escuro, como eram as cozinhas nos primórdios dos fogões de lenha, nada agradável de ver, e nós continuamos a enfiar a cabeça na areia como avestruzes à espera que a poeira assente. Mas não vai assentar, infelizmente!

Continuamos a brincar aos prémios de hotelaria, comprados na maior parte das vezes, mas no fundo o que é necessário é assumir que não estamos bem.

Neste momento, os departamentos de recursos humanos estão a sofrer uma pressão enorme, sem CVs. As Escolas de Hotelaria sem alunos, os hotéis sem funcionários. E acreditem que não tem apenas a ver com a falta de dinheiro, tem também a ver com o respeito, mudança de mentalidade. É preciso coragem para assumir o que está de errado na nossa indústria, e tal não se deve à falta de vontade dos trabalhadores para trabalhar. Nós é que já não conseguimos transmitir essa paixão pela profissão.

Quando vamos parar de esconder a cabeça na areia como avestruzes, e queixarmo-nos da falta de funcionários.

Não somos todos responsáveis pelo estado da situação atual? Todos nós, diretores, escolas, chefs,…?

É necessário e muito urgente também que as Escolas de Hotelaria tomem as ações necessários, logo a montante do processo, de pensar no futuro da hotelaria, antes que seja tarde de mais.

Todos os anos abrem novos hotéis, este ano mais 60 aproximadamente, se cada hotel empregar 10 cozinheiros, são precisos 600 cozinheiros; nas Escolas de hotelaria de Portugal forma-se uma média de 400, se ninguém desistir, logo ficamos em défice, ano após ano.

Caros colegas hoteleiros, caros diretores das Escolas de Hotelaria, caros dirigentes das associações profissionais e do setor tais como a AHRESP, AHP, ADHP, APAVT, está na hora, sentemo-nos para debater o assunto de maneira séria. Basta de andar a promover nas feiras e similares uma hotelaria em que já ninguém se revê, nem quer trabalhar. Vamos dando motivos aos alunos que ainda vamos tendo, já que poucos querem seguir hotelaria. Tentem perceber o motivo desta já não ser uma área apetecível.

Vamos investir a sério na essência da paixão pela hotelaria que neste momento está abandonada.

Este artigo foi escrito por alguém preocupado com o setor onde trabalha há 25 anos, que conhece bem o setor da hotelaria e o da formação, e os seus problemas; e por aquele a quem muitos de vós liga a pedir trabalhadores.

Lembrem-se:

O grande problema da hotelaria é a falta de investimento na própria hotelaria.

Por Francisco Siopa

É Chefe Executivo de Pastelaria e Formador.

5 COMENTÁRIOS

  1. Caro colega,

    Não posso estar mais ao teu lado!
    Anda tudo a fazer de conta e a exigir os mínimos para pagar os mínimos e ganhar os máximos.
    É também minha a tua tristeza e decepção.
    Somos hoje, aqueles que se manifestam, um inconveniente…
    Abraço-te

  2. Grande Chef!!!!
    Muito bem descrito o grande problema atual que se passa com o nosso País, a conscialização de quem tem responsabilidades tem de partir dos (Patronato, Empresários, Governo e todas organizações), que lucram com a arte de bem receber!
    Tem de existir união e enfrentar o problema para poder resolvê-lo!
    O difícil será sempre mudar as mentalidades!

  3. Caro colega
    Tem toda a razão ,mas os responsáveis são mesmo os grupos hoteleiros que não teem vocação para a hotelaria…. que não a sentem mas somente se interessam por o lucro a QQ custo…..eu fiz a minha formação em Inglaterra trabalhei em hotéis de ótima qualidade…por lá existe um racio de empregados hóspedes dependendo da classe do hotel …. empregados efectivos com formação seria…. Não empregados vindos de empresas de trabalho temporário em que pouco recebem sem experiência sem qualidade os chamados eventuais fazem umas horas…(já todos esqueceram o que aconteceu no Corinthians em que foi assinado um colega em pleno serviço) por alguém que ninguém conhecia vindo de uma QQ empresa de trabalho temporário…. empresas essas que cobram muito dinheiro aos hotéis por cada trabalhador e dando ao mesmo uns misseros euros á hora para que os hotéis não tenham despesas legais com os empregados e fujam as suas responsabilidades….. que serviço se dará com um sistema desses?qual a qualidade dará um empregado que saltita de hotel para hotel…. tudo isso acontece às claras em hotéis de referência do nosso país…. quinta da Marinha…Lisboa….etc……eu trabalhei com gestores hoteleiros que tinham paixão pelo que faziam e tudo faziam para ter um serviço de excelência para os seus hóspedes.,.. pondo em segundo plano o lucro….

    Rui serafim …. chef de cozinha

  4. Empresas que praticam preços absurdos, que exigem serviços de excelência, e que nada apostam nas pessoas, seja em salário, seja em formação, seja no que for!!!
    A hotelaria bateu no fundo, quem tem 2 braços e 2 pernas, entra na hotelaria, sem as empresas quererem saber se sabe ou não trabalhar, os salários não sobem, as horas extras não são pagas, e depois exigem mundos e fundos!!!
    Não são os administradores que têm que parar, são os diretores que têm que ter coragem e parar a hotelaria e exigir que as condições de trabalho sejam as melhores, que a formação seja a adequada, mas enquanto isso não acontece, tudo vai ser igual, uma vergonha!!!!
    Ninguém, mas mesmo ninguém tem coragem para fazer algo diferente!!!
    Não existe mão de obra qualificada para os hotéis que temos, e ainda mais 60 novas unidades estão prestes a abrir, com que recursos humanos????
    Enfim!!!

  5. Caro Francisco Sioppa.
    Foi uma grande alegria ler o seu artigo tão realista no que respeita a situação ds hotelaria em Portugal. Quase diria que voltámos ao século passado, mas fingindo que tudo sr passa na narrativa de um conto de fadas. Os portuguses (as) são por natureza de carácter agradável e sempre prontos a proporcionar uma experiência agradável ao cliente. Mas a maior parte dos trabalhadores da hotelaria são cidadãos estrangeiros que se sujeitam a salários de miséria. Quem enche os bolsos? É fácil adivinhar. Mas a médio e longo prazo este estado de coisas vai sair mais caro e talvez irreversível. Cabe às autoridades do sector do turismo tomar medidas para reverter esta situação, e quanto mais cedo melhor. Serviços sem qualidade resultam num tremendo falhanço sem remissão.

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