Na segunda parte da entrevista ao TNews, o presidente do Turismo de Portugal, Carlos Abade, destaca o sucesso do Programa Integrar para o Turismo, um projeto que alia formação profissional à integração de migrantes, com impacto social e económico positivo. A iniciativa, que na primeira edição contou com mais de 1.200 ofertas de estágio e 555 migrantes já formados, deverá ter nova edição em 2026, com ajustamentos que reforcem a ligação entre oferta formativa e necessidades reais do mercado.
Carlos Abade avança ainda que a requalificação das 12 escolas de hotelaria e turismo, um investimento superior a 30 milhões de euros cofinanciado pelo PRR, estará concluída até ao final de 2026. Além disso, o Turismo de Portugal prepara-se para expandir a sua rede através de acordos de cogestão com países da CPLP, como Angola, Moçambique, São Tomé e Cabo Verde, o que poderá marcar uma nova etapa de internacionalização na formação turística portuguesa.
Qual é o balanço do Programa Integrar para o Turismo?
Primeiro, o Programa Integrar para o Turismo teve, até agora, a primeira edição de um projeto que eu diria ser extraordinário. Não é só um projeto de formação; é um projeto cujo objetivo é, claro, ter um contributo muito expressivo na integração dos imigrantes nas nossas comunidades, fazendo-o através do turismo.
Tem muito a ver com a transformação positiva que o turismo quer ter nas sociedades. Ou seja, o turismo quer ser um motor de transformação positiva das sociedades. E, para ser esse motor, a dimensão da imigração tem de estar, obviamente, associada, num momento em que, do ponto de vista demográfico, Portugal enfrenta o desafio de perda de população e a imigração é absolutamente necessária para que o país continue a desenvolver-se e a crescer.
Este programa teve, na primeira edição, 1.299 ofertas de estágio nas empresas, e já formámos, neste momento, 555 migrantes. Destes, cerca de 300 já estão nos seus estágios, e os restantes entrarão muito brevemente. Agora estamos a iniciar a formação de cerca de 400 migrantes, para que, até ao final do ano, possamos atingir as 1.299 vagas, que era o objetivo inicial.
O que percebemos, primeiro do lado dos migrantes, foi uma enorme adesão e envolvimento neste processo, que incluiu não só a formação em competências relacionadas com técnicas de alojamento e preservação, mas também enquadramento histórico, cultural e social, incluindo ensino de línguas.
Naturalmente, faremos uma avaliação no final do ano, para perceber quantos dos participantes acabaram por permanecer nas empresas. Mas, independentemente disso, aquilo que percebemos agora, tanto pelos testemunhos dos migrantes como pelas empresas, é que se trata de um projeto de grande sucesso. Por isso, não temos dúvidas de que em 2026 haverá uma nova edição.
Essa nova edição poderá ter ajustamentos, resultantes da análise da procura. Ou seja, será necessário aproximar a oferta de formação à procura de trabalho, considerando que em algumas regiões do país houve maior procura de empresas do que de migrantes, o que implica, dentro do próprio programa, ajustar a oferta à procura.
É um projeto que, do ponto de vista de integração, formação e transformação positiva na sociedade, considero exemplar. Seria bom que outros setores desenvolvessem projetos idênticos, e o Turismo de Portugal está disponível para colaborar nesse efeito.
É importante salientar que este projeto resulta de uma cooperação muito forte entre o Turismo de Portugal, a AIMA, a Confederação do Turismo de Portugal e as empresas do setor. Sem essa cooperação, seria impossível levar o programa a cabo. Portanto, é sempre relevante destacar que a cooperação no turismo existe — neste caso, com a AIMA, porque há vários fatores essenciais para que o turismo continue a crescer da forma desejada, e, se queremos acelerar esse crescimento, a cooperação é absolutamente essencial. Este é um exemplo claro de projeto desenvolvido em cooperação.
“o Programa Integrar para o Turismo teve, até agora, a primeira edição de um projeto que eu diria ser extraordinário. Por isso, não temos dúvidas de que em 2026 haverá uma nova edição”
Qual é a necessidade atual de mão de obra qualificada no setor do turismo? É menor face ao ano passado?
A perceção que temos é que, com a pandemia Covid-19, houve efetivamente um conjunto de profissionais do turismo que, em 2021 e 2022, acabaram por sair do setor. Portanto, o setor teve, por um lado, uma grande necessidade de repor o capital humano que tinha, e, por outro lado, uma grande necessidade de fazer face a um crescimento muito significativo no período pós-pandémico.
Aliás, foi um período de crescimento tão grande que fez com que atingíssemos, em 2024, o valor de receitas de turismo que tínhamos previsto para 2027. Isso, claro, resulta do trabalho das empresas, e quem trabalha nas empresas são as pessoas.
Durante esse período, houve uma necessidade muito grande de crescimento ao nível do capital humano, acompanhada de um processo de valorização remuneratória. É bom ver que o crescimento dos salários médios no setor do turismo foi praticamente o dobro do crescimento do salário médio da economia nacional, resultando deste encontro entre a procura e a oferta de recursos humanos.
A necessidade de recursos humanos continua a existir. Não consigo dar um número exato, mas, de facto, continua, porque o setor continua a crescer e, portanto, continua a necessitar de recursos humanos. Se é já aquilo que era em 2022? Já não é o mesmo volume, mas hoje continua a existir esta necessidade.
Tanto assim é, que a Confederação esteve connosco neste projeto para que, também do lado dos migrantes, pudesse haver o recrutamento de mão-de-obra qualificada para o turismo.
Persistem dificuldades na atração de estudantes para o ensino superior em turismo. A que se deve este desinteresse e como se pretende resolver?
Para já, deixa-me dizer o seguinte: a rede de escolas de hotelaria e turismo teve um crescimento de quase 15% de matrículas face ao ano passado. Isso significa que, neste universo de rede de escolas de hotelaria e turismo — que é uma rede técnico-profissional —, houve um aumento de alunos do turismo.
Depois, temos de analisar um pouco mais profundamente a situação, quer relativamente às áreas de formação, porque também percebemos que, nos territórios do interior, a situação é mais complicada do que noutros territórios. Portanto, há dimensões que temos de trabalhar de forma a incentivar cada vez mais a entrada nos cursos, não só nos cursos de turismo, mas também em outros cursos que ficaram aquém do número de vagas abertas.
Aquilo que lhe posso dizer é que, para o turismo crescer, precisamos cada vez mais de capital humano qualificado — ponto um — e de continuar a ser um setor atrativo para quem procura formação e uma carreira. É nisso que estamos absolutamente focados.
Estamos focados na valorização dos profissionais do turismo, porque só valorizando os profissionais é que conseguiremos que alunos e jovens queiram ingressar na carreira do setor. Aliás, tivemos recentemente uma campanha de valorização dos profissionais do turismo, abrangendo uma enorme diversidade de funções no setor.
Essa valorização passa, por um lado, pela perceção pública sobre a profissão. Teremos a oportunidade de demonstrar o valor dos profissionais de turismo na campanha que vamos iniciar em outubro, que será itinerante por todo o país. Nesta campanha, vamos valorizar os profissionais do turismo — tanto quanto à perceção pública, quanto ao seu valor, quanto à valorização salarial, que é um caminho que tem vindo a ser seguido, mas que precisa de ser continuamente aprofundado —, e também para a captação de alunos para as escolas do ensino superior e para a rede de escolas de hotelaria.
“Para oferecer um serviço de excelência e captar um mercado de maior valor acrescentado, precisamos cada vez mais de ter um serviço de excelência, e um serviço de excelência exige condições de trabalho excelentes”
Continua a existir a perceção que na hotelaria e no turismo se paga mal?
De acordo com a Conta Satélite do Turismo — que é de onde retiramos os dados oficiais, feita pelo Instituto Nacional de Estatística —, a última conta de satélite apontava, por exemplo, que no setor do alojamento a percentagem, face à média da economia nacional, era de 97%. Ou seja, a média das remunerações no setor do alojamento é 97% da média nacional, o que significa quase a média nacional.
Portanto, de facto, há uma perceção por parte da sociedade. Digo isto porque ouvimos constantemente comentários sobre os salários, mas que não refletem exatamente a realidade. Claro que o setor é composto por vários subsetores de atividade, e as médias de cada subsetor são diversas. Quando comparamos as diferenças, percebemos que não são assim tão significativas.
Esta questão da perceção, em si, não me preocupa. O que nos preocupa é sempre a mesma coisa: como podemos acrescentar valor e melhorar o rendimento das pessoas.
Isso significa que o setor do turismo deve crescer de forma assente na valorização dos seus profissionais. Essa valorização tem duas dimensões muito claras: uma, a valorização profissional, e outra, a valorização salarial. Este é um processo que o turismo acelerou de forma muito significativa após a crise pandémica e que terá de continuar.
Para oferecer um serviço de excelência e captar um mercado de maior valor acrescentado, precisamos cada vez mais de ter um serviço de excelência, e um serviço de excelência exige condições de trabalho excelentes.
Há planos para aumentar a rede de Escolas do Turismo de Portugal?
Nós temos um plano, primeiro, que é o plano de requalificação de toda a nossa rede de escolas de hotelaria e turismo, que são 12, ao longo de todo o país. Temos um plano ambicioso, de mais de 30 milhões de euros de investimento, que está neste momento a ser concretizado, com 20 milhões de euros do PRR. Um plano uer ao nível das infraestruturas, quer ao nível da tecnologia, dos equipamentos hoteleiros e do mobiliário. Portanto, toda essa dimensão está a ser desenvolvida neste preciso momento, com intervenções muito grandes, nomeadamente ao nível de escolas como a de Faro, Coimbra, Lamego e Óbidos, que será uma escola nova, a futura Academia Internacional de Chocolate.
“Temos um projeto de criar escolas de hotelaria e turismo em cogestão com parceiros de países estrangeiros, nomeadamente países da CPLP, para criar nesses países escolas em cogestão”
Qual é o plano de conclusão desta requalificação?
O plano de conclusão tem datas diferentes para cada dimensão, mas eu diria que a grande parte será concluída em junho de 2026. O que não for feito até junho de 2026 será realizado entre junho e 31 de dezembro de 2026. Portanto, durante este período, até ao final do próximo ano, todo o investimento ao nível da requalificação das escolas de hotelaria e turismo estará concretizado.
Naturalmente, temos, por outro lado, um projeto de criar escolas de hotelaria e turismo em cogestão com parceiros de países estrangeiros, nomeadamente países da CPLP, para criar nesses países escolas em cogestão. Será uma forma de expansão da nossa rede, não pela construção de novas escolas, mas sobretudo por acordos e protocolos de cogestão de escolas que já existem ou que vão nascer — temos conversas muito desenvolvidos com Angola, Moçambique, São Tomé e Cabo Verde. Portanto, é algo que vai evoluir rapidamente.
Ao nível nacional, estamos interessados, sobretudo, em perceber o ajustamento das profissões do turismo, do ponto de vista de competências, ao longo dos próximos anos. Isto é importante porque vai definir a oferta formativa que Portugal deve ter e os ajustamentos necessários no edifício formativo dentro do país.
O Turismo de Portugal não se preocupa apenas com a rede de escolas de hotelaria e turismo, da sua responsabilidade direta. Enquanto autoridade turística nacional, está atento a que a oferta formativa em Portugal esteja alinhada com as necessidades e exigências de competências dos profissionais do turismo no futuro.
Por isso, temos o objetivo de, seja através de acordos de cooperação — como já fizemos com municípios, por exemplo o Marco de Canaveses —, seja através da eventual criação de novas infraestruturas em determinadas regiões, contribuir para que a oferta formativa seja o mais adequada possível às necessidades do setor.
O que isto significa? Que não vemos a expansão da rede de escolas de hotelaria e turismo como algo que tenha de ocorrer exclusivamente através da construção de novas escolas. Devemos aproveitar a dinâmica existente nos territórios, em estabelecimentos de ensino, e ver como podemos cooperar, estabelecendo protocolos de cooperação com essas escolas.
Dessa forma, podemos oferecer o nosso aporte em termos de conhecimento, marca e gestão, assegurando que, em regiões onde a formação do setor não existe, esta possa passar a existir. Isto pode ser feito através de protocolos com instituições de ensino existentes ou com algumas que ainda vão surgir. Caso se identifique uma falha concreta, estaremos naturalmente disponíveis para avançar com a criação de uma nova escola.
“O Turismo de Portugal não se preocupa apenas com a rede de escolas de hotelaria e turismo, da sua responsabilidade direta. Enquanto autoridade turística nacional, está atento a que a oferta formativa em Portugal esteja alinhada com as necessidades e exigências de competências dos profissionais do turismo no futuro”
Quando estima que os acordos com com os países da CPLP se efetivem?
Esperamos que, ainda em 2025, se efetive, e que em 2026 a situação acelere para outros países. A avançar será com um destes que se referiu porque é o que está em cima da mesa.



