Greenpeace: Voar na Europa continua mais barato que viajar de comboio (mesmo sendo até 80 vezes mais poluente)

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Um novo relatório da Greenpeace veio expor aquilo que muitos viajantes já suspeitavam: na maior parte da Europa ainda é mais barato apanhar um avião do que viajar de comboio, mesmo que a ferrovia seja incomparavelmente mais amiga do ambiente.

A análise comparou 142 rotas em 31 países e concluiu que, nas viagens internacionais, apenas 39% das ligações eram mais baratas de comboio, enquanto nos percursos domésticos o panorama é mais favorável, com 70% dos casos a favorecer o comboio.

O relatório destaca ainda diferenças gritantes entre países. França lidera a lista negra, com 95% das rotas internacionais mais caras de comboio, seguida por Espanha (92%), Reino Unido (90%) e Itália (88%). No extremo oposto, a Lituânia e a Polónia mostram que a ferrovia pode ser não só mais ecológica como também mais acessível: nestes países, quase todas as rotas analisadas eram mais baratas de comboio.

Um exemplo extremo surge na ligação Barcelona–Londres, onde um bilhete de avião custava 14,99€, contra 389€ no comboio – uma diferença de 26 vezes. Greenpeace acusa as companhias aéreas, sobretudo as “low cost”, de práticas de preços agressivas, facilitadas por um sistema fiscal desigual. “Uma das principais razões para esta disparidade são as tarifas absurdamente baixas oferecidas por companhias aéreas low cost como a Ryanair e a easyJet, com preços a partir de apenas 12,99 €. A estes níveis, as operadoras ferroviárias simplesmente não conseguem competir. Ao contrário das companhias aéreas, os operadores ferroviários na maioria dos países europeus estão sujeitos a vários impostos, incluindo impostos sobre energia, portagens ferroviárias e IVA. Além disso, em contraste com as low cost, tendem a manter padrões laborais significativamente mais elevados – por exemplo, empregando diretamente todos os trabalhadores em vez de recorrer a freelancers”, refere o relatório.

Segundo a Agência Europeia do Ambiente, um avião emite em média quase cinco vezes mais gases com efeito de estufa do que um comboio na mesma rota. Mas quando se incluem os efeitos indiretos da aviação – como as emissões em altitude e a formação de nuvens artificiais – o impacto real pode ser mais de 80 vezes superior.

O caso português

No caso de Portugal, a Greenpeace analisou quatro rotas (duas domésticas e duas internacionais). A boa notícia é que a ligação Porto–Lisboa foi sempre mais barata de comboio. Já em Porto–Faro, a opção mais económica depende do dia.

Nas rotas internacionais, há sinais de progresso: a ligação Lisboa–Madrid foi predominantemente mais barata de comboio, embora a viagem ainda exija duas mudanças e dure muito mais do que o voo. Já em Porto–Madrid, os bilhetes de comboio mostraram-se geralmente mais caros, apesar de a diferença ser relativamente pequena.

Apesar destas melhorias face a 2023, a Greenpeace sublinha que a rede ferroviária luso-espanhola continua limitada e fragmentada, obrigando frequentemente à compra de bilhetes separados, o que encarece e complica a experiência para os passageiros.

Num sinal positivo, a análise encontrou uma ligeira mudança a favor do transporte ferroviário: comparando com 2023, houve mais rotas em que o comboio foi mais barato do que o avião. No entanto, o transporte aéreo continuou a ser a opção mais barata em mais de metade das ligações internacionais – e em muitas viagens o bilhete de comboio custava mais de 10 vezes o preço do avião.

Para que esta tendência positiva se transforme numa realidade, em que o “comboio seja sistematicamente mais barato do que voar”, a Greenpeace defende que: “Os decisores políticos têm de enfrentar o desequilíbrio regulatório entre ferrovia e aviação. Um primeiro passo significativo seria introduzir impostos sobre voos em classe executiva e primeira classe. Em segundo lugar, é necessário aumentar substancialmente os subsídios para bilhetes de transporte público, incluindo a criação de “bilhetes climáticos” acessíveis a nível nacional e europeu”.

O financiamento “poderia vir, em parte, de taxas sobre a aviação e de um imposto sobre a riqueza dos super-ricos. Este último teria potencial para gerar receitas públicas enormes, especialmente se fosse implementado a nível global, como está atualmente em discussão sob a égide da ONU”.

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