Sexta-feira, Abril 10, 2026
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Há história na Pousada Mosteiro de Amares | Por Jorge Mangorrinha

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A pureza secular dos espaços

Por Jorge Mangorrinha

O Mosteiro de Santa Maria do Bouro era a “casa de todos” antes de a sua reabilitação ter feito nascer uma nova Pousada de Portugal na década final do século XX. Com antecedentes seculares beneditinos (1148) e cistercienses (1195), este edifício “serviu” mais recentemente a comunidade de um modo peculiar. Presentemente, a Pousada é vista como uma “casa” que traz gente de todas as partes do mundo, que não só se encantam com os espaços do antigo Mosteiro como se assomam à envolvente. Da comunidade local vieram alguns dos recursos humanos para esta unidade hoteleira e na vila há coisas para provar e levar. É a economia a funcionar, graças a um grande investimento para devolver a este edifício a dignidade patrimonial e colocar a região no mapa do turismo. O Grupo Pestana mantém, com desvelo, a lucidez da operação atenta aos pormenores e um ambiente de tranquilidade nos espaços interiores e exteriores em sintonia com a atmosfera monástica e misteriosa em que neles se respira.

Durante grande parte do século XX, o Mosteiro – abandonado – acolhia a comunidade em registos inimagináveis. A D. Clotilde foi a parteira de serviço da comunidade e tinha um quarto no Mosteiro preparado para esse fim. Muitos dos nascidos em Santa Maria do Bouro vieram à luz dentro das quatro paredes desse compartimento. O que pouca gente sabe é que o espaço desse quarto viria a ser, precisamente, o quarto-modelo da nova Pousada durante a obra.

Os 32 quartos dispõem-se no modelo planimétrico que se terá conservado sem grandes roturas ao longo dos séculos. Atualmente estamos na presença de um edifício novo com paredes antigas, tal como o arquiteto Eduardo Souto Moura costuma caracterizar esta sua obra. Na fachada principal, que se desenvolve perpendicularmente à Igreja, encontram-se, entre as varandas superiores, cinco estátuas de personagens importantes da história do País e do próprio Mosteiro, com pequenas inscrições anexas: o presumível Conde D. Henrique, D. Afonso Henriques, D. Sebastião, Cardeal D. Henrique e D. João IV. Por sua vez, a Sagrada Família alude ao desterro e à época anterior à Congregação Autónoma, que a galeria dos reis também celebra.

Com a extinção das ordens religiosas, em 1834, os monges foram expulsos e o Mosteiro foi vendido em leilão. Começou, então, o lento processo de degradação do edifício, salvando-se a Igreja por se ter tornado paroquial. Em 1986, o Mosteiro foi adquirido pela Câmara Municipal de Amares, por 200 contos, para de seguida o doar ao Estado. Se bem que a Câmara Municipal propusesse a instalação de uma Escola Agrícola, em 1980 a Secretaria de Estado do Turismo propôs a utilização do Mosteiro como Pousada integrante da ENATUR – Empresa Nacional de Turismo, S.A. Um projeto dos arquitetos Eduardo Souto Moura e Humberto Vieira foi elaborado, em 1989, para a adaptação das antigas dependências monacais. A obra iniciou-se em 1994, sendo concluída três anos depois. Em 2003, na sequência da privatização da ENATUR, a Pousada passou a ser gerida pelo Grupo Pestana.

Chegado à Pousada e depois do “check-in” feito por Sérgio Antunes, circulei pelos espaços – primeiro sem guia – para me aperceber – solitário como um eremita – da espacialidade e dos pormenores deste edifício de modelo beneditino, com fachadas maneiristas e claustro com arcada plena. Na adaptação das dependências do Mosteiro, foi opção dos arquitetos a recuperação do imóvel mantendo a imagem natural que ostentava nos últimos anos, preferindo não colocar nenhum telhado na cobertura, mas uma esteira vegetal com espécies decumbentes, e utilizando nas janelas apenas vidro com um filete de ferro como caixilharia. No interior, manteve-se praticamente toda a compartimentação original, optando-se pelo despojamento dos materiais, das formas e da decoração. Às salas intercomunicantes foram retiradas as portas, deixando apenas os vãos, sendo algumas das originais usadas como painéis decorativos nas paredes, como memória da decoração passada e do que restou.

Trata-se de um edifício com três pisos, consoante os corpos, devido ao declive do terreno. No primeiro piso do corpo em L, existem dois grandes salões, que correspondiam à adega e às tulhas, um rebocado e pintado de amarelo e outro em granito à vista, um para salões de festas e outro para auditório. O piso superior tem acesso principal por vestíbulo que comunica com a receção, os lavabos, as salas intercomunicantes, para televisão e bilhar, bar e alguns dos quartos, com tetos em aço Corten e chão em solho. No topo Este, encontra-se o vestíbulo com lavabo de granito, de acesso à cozinha velha, usada como restaurante, que apresenta paredes em granito à vista, com três espaços definidos por arcos abatidos, de diferentes dimensões. Colateralmente ao arco que dá acesso ao espaço do topo Este, coberto pela grande chaminé, estão dois lavabos iguais, com espaldar inscrito em arco pleno, bica circular e taça bojuda. O espaço central tem uma grande mesa de pedra retangular, com tampo monolítico, e porta de acesso ao antigo refeitório, usado como sala de banquetes. O acesso entre pisos é feito por elevador na receção e por escadaria de pedra no corpo em L. O último piso corresponde unicamente a quartos e duas suítes, com corredor a percorrer todo o edifício.

Por todas estas dependências fiz uma segunda volta, já acompanhado por Joana Carvalho, assistente operacional. A vantagem desta companhia é que pude entrar em espaços privados, como a zona de serviços. Foi aí que conheci grande parte da alma humana deste complexo hoteleiro, como por exemplo a “chef” Conceição Cunha, que orienta toda a produção gastronómica. A Joana explicou-me aspetos interessantes, tais como o sistema de abastecimento de água que vem da montanha da Abadia e perpassa pelo Mosteiro através das levadas, as laranjeiras que dão o fruto que faz sumo e é ingrediente principal das deliciosas tortas, a piscina que é a maior da região construída em mármore, as rãs do lago que no verão fazem uma sinfonia de sons e os grupos de clientes que chegam para períodos de recolhimento e de retiro espiritual sobretudo em épocas baixas da procura turística convencional. No exterior, sobressaem três zonas: a da piscina, enquadrada pelo olival e pela leira do moinho, animada pela levada; a do prado, com a recuperação de um antigo percurso sob ramadas; e a do laranjal, que imprime não só um acrescento de produção da Laranja do Bouro como também contribui para uma boa estabilidade visual da antiga cerca.

No primeiro dia de estada soube que haveria um casamento no seguinte. O tempo estava chuvoso, mas havia confiança, por parte de todos os presentes, de que o sol irradiaria no dia certo, ou, talvez, bastasse esperar os efeitos da cooperação de São Pedro ou dos ovos na conta do dia do mês dispostos no altar da Rainha Santa Isabel, em Coimbra. Na Pousada, tudo estava a ser preparado nos espaços interiores e exteriores. Os casamentos não são o “core business” desta unidade hoteleira, mas quando acontecem são primorosamente preparados pelas equipas.

Depois das visitas, sentei-me no bar, em ambiente tranquilo, pontuado por uma luz com intensidade baixa e adequada. Estava eu e um outro hóspede, também sozinho, quais turistas solitários. De vez em quando, ele levantava-se, como que um pouco inquieto, ou talvez fosse impressão minha. E voltava ao mesmo sítio. Demos dois dedos de conversa, enquanto eu iniciava um suculento hambúrguer, porque na Pousada também se servem refeições ligeiras. O jantar mais composto estava agendado para o dia seguinte. De vez em quando passavam casais de estrangeiros, quase sempre curiosos com a imponência dos espaços, fazendo-nos uma ligeira vénia como cumprimento.

Recolhi-me no aposento que me coube ao fundo de um grande corredor, mas sem que antes recorresse à simpática rececionista Jacinta Macedo para disponibilizar-me um carregador de telemóvel. Lá fora chovia copiosamente, e o meu fio ficara dentro do carro. De pronto comecei a dar energia ao aparelho para o dia seguinte. Pela janela do quarto, com o número 202, vi a chuva e a luz regular dos relâmpagos, enfrentando assim a noite e adormecendo com esses sons que, apesar do mau tempo, nos acalmam a alma. É que, nestas circunstâncias e nestes lugares, é bom que os caixilhos não cortem, de todo, os sons da natureza, mais os dos sinos da Igreja.

No dia seguinte, o espectro do casamento já se sentia na dinâmica das equipas. Esperava-me o pequeno-almoço na antiga cozinha. A mesa central congregava quase tudo. Sentei-me em local privilegiado, não apenas porque da minha mesa tinha uma vista panorâmica da sala de refeições, mas porque fiquei bem perto das saídas do som ambiente – “Everything to me”, de Greg Grant, ou “You are the one”, de Brion James, são exemplos do que ouvi. Estas duas canções são paradigmas de que a música pode funcionar tão bem para reforçar a magia da experiência, desde logo como complemento daquilo que se ingere em cada repasto. A combinação do pequeno-almoço e da música foi tão perfeita que não havia razão para começar o dia de outro modo, e a direção da Pousada previu isso. Logo pensei que os noivos anunciados para aquele dia merecessem ouvir da boca de cada um deles o título desta última canção, que está incluída no álbum intitulado “Heal”.

A propósito deste último título, confirmo que estes são espaços de cura para cicatrizar as agruras e para enfrentar a vida, tanto nos dias de chuva, como nos dias de sol. A vida é, afinal, uma sequência disso mesmo. O importante é saber escolher, o melhor possível, quem nos acompanha e os espaços em que nos confrontamos com a nossa existência. E seguimos, de preferência sempre por bom caminho, nesta circunstância até Santa Maria do Bouro e daqui para as origens, mais purificados pela experiência num ambiente salutar.

A Pousada estava engalanada para o casamento que se concretizaria da parte da tarde. Até lá, repeti a visita ao restaurante mais afamado da vila, o Cruzeiro, em segunda geração e com o almoço simpaticamente servido pelo funcionário mais antigo, Manuel Antunes Vieira, que representa o melhor da hospitalidade à portuguesa e faz o turista voltar. Afinal, nem a Pousada se deve fechar em si mesma, nem a oferta turística da vila deve ser entendida como concorrencial, mas complementar para reforço do destino.

De volta, vi que já se perfilavam as coisas próprias do casamento, com os funcionários rigorosamente vestidos e os convidados a circularem. A noiva esperava o tempo da entrada, de braço dado com o progenitor, cujo rosto não me era estranho. Afinal, o outro turista solitário da noite passada era o seu pai, João Lucas Emílio, proveniente de Aveiro. O casamento da Joana e do Miguel decorreu de forma paralela e perfeitamente pacífica com a estada dos restantes utentes da Pousada. No espaço exterior dispuseram-se as cadeiras para a cerimónia civil e na sala de banquetes as duas mesas corridas para o jantar sob três grandes candelabros e ao fundo um Cristo sem braços em madeira policromada do século XIII.

O outro turista solitário estava agora bem acompanhado, e eu na sala do lado mantinha-me na mesma condição. Num desenho de luz tranquilo, a antiga cozinha apenas estava iluminada com os candeeiros de pé concebidos pelo arquiteto Álvaro Siza Vieira, aliás, que desenhou todo o mobiliário e muitos dos quadros espalhados pela Pousada. Pela primeira vez, bebi o vinho verde tinto por uma taça, um Encosta da Abadia, de Amares, que recomendo. E mais uma vez a música esteve presente a acompanhar e a tornar o ambiente verdadeiramente mágico – “Smooth Department”, de Jens Buchert, por exemplo.

O turismo e a música têm esta particularidade em comum – unem as pessoas independentemente da raça, da nacionalidade, da classe, da cor ou do credo. E devem buscar a excelência, tal como Jens Buchert tem conseguido na música, amplamente reconhecido como um dos principais produtores mundiais de sons ambientais e eletrónicos. A Pousada sabe escolher e propiciar aos seus clientes estes ambientes de comunhão.

Este é o espírito que envolve as Pousadas de Portugal, para uma experiência inesquecível por parte dos seus clientes, expressa desde a amabilidade recebida ao chegar ao quarto, com um carrinho de chá repleto de coisas boas por cortesia da diretora de operações, Graça Pinto, ou, na partida, com a gentileza de Tiago Soares, mandarete das malas, por me ter acompanhado até ao carro para me proteger da chuva, mostrando um largo sorriso e ciente de que o seu gesto representava o reconhecimento de toda a equipa.

Clique na fotogaleria para ver imagens da Pousada Mosteiro de Amares

*Jorge Mangorrinha é pós-doutorado em Turismo, doutorado em Urbanismo, mestre em História Regional e Local (especialização em Património) e licenciado em Arquitetura. Autor multifacetado recebeu o Prémio José de Figueiredo 2010 da Academia Nacional de Belas-Artes. Com experiência no planeamento turístico, em Portugal e no estrangeiro, exerceu, também, como gestor técnico na Parque Expo’98 e como presidente da Comissão Nacional do Centenário do Turismo em Portugal (1911-2011). Colabora com o TNews, tendo sido o autor da rubrica “A Biblioteca de Jorge Mangorrinha”, a que se segue “Há História no Hotel” durante 12 crónicas.

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