Terça-feira, Abril 14, 2026
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Há história no Moov Hotel Porto Centro | Por Jorge Mangorrinha

Ecos do Águia d’Ouro

O Moov Hotel Porto Centro está situado na Praça da Batalha. Ocupa o antigo café e hospedaria Águia d’Ouro (1839) e o posterior teatro e cinema Águia d’Ouro (1908). Este é um espaço profundamente ligado à vida cultural e boémia do Porto. A presente narrativa cruza a experiência atual do hotel, a hospitalidade da equipa e o design do espaço com a memória do cinema. Entre arquitetura, literatura e cinema, este hotel permite uma reflexão sensível sobre a continuidade da vocação de acolhimento e espetáculo que este edifício mantém há quase dois séculos no coração do Porto.

Há lugares que parecem feitos de camadas de tempo. Não se revelam de uma vez, nem se entregam à pressa. Precisam de ser atravessados devagar, como quem folheia um álbum antigo onde as fotografias ainda conservam o cheiro da sala onde foram guardadas. O Moov Hotel Porto Centro, na Praça da Batalha, pertence a essa família de lugares: edifícios onde o presente habita com naturalidade, mas onde o passado permanece como uma respiração subterrânea.

Cheguei numa dessas manhãs em que o Porto parece ainda acordar lentamente, com a luz a descer pelas fachadas como um pano de teatro que sobe devagar. A praça continua a ter algo de palco urbano. Os elétricos passam rangendo nas curvas da colina, os turistas levantam os olhos para a igreja e para as varandas de ferro trabalhado, os moradores atravessam o espaço com a serenidade de quem conhece cada pedra. Há muito que esta zona é um coração cultural da cidade. Ali perto ergue-se o Teatro Nacional São João, enquanto a Rua de Santa Catarina prolonga-se em comércio e movimento e os cafés continuam a servir como pequenos observatórios da vida.

É nesse cenário que se ergue o edifício que hoje acolhe o hotel. Antes de ser hotel, antes de ser teatro e cinema, antes mesmo de ser memória arquitetónica, foi simplesmente um lugar de encontro.

A construção do edifício é anterior a 27 de janeiro de 1839, data da inauguração do Águia d’Ouro. Fundado por Luís Ferreira de Carvalho, foi o seu proprietário até junho de 1904, data em que passa a ser administrado pelos antigos funcionários Alberto Joaquim e Manuel Ventura Vieira de Mesquita. O café era na sala principal no rés-do-chão e a hospedaria no primeiro andar.

Localizado no antigo Largo de Santo Ildefonso, hoje Praça da Batalha, a inauguração anunciada no jornal de crítica da época, o “Athleta”, de 24 de janeiro de 1839, diz o seguinte: “Domingo 27 do corrente mez de Janeiro, no Largo de Santo Ildefonso, se abre o novo café da Águia, ao gosto moderno, onde haverá diversas bebidas com bons serviços, e Neve na estação competente. Na mesma casa há todos os dias Gelatina de mão de Vitella e raspa de veado, própria para doentes e melhor para sãos” (“Bússola do Tempo”).

Portugal vivia ainda o período de consolidação da Monarquia Constitucional, já depois do fim da Guerra Civil com a Convenção de Évora-Monte, em 1834, durante o reinado de D. Maria II. Porém, em termos internacionais, nesse mesmo mês e ano, deu-se o arranque público da fotografia moderna. No início desse mês, François Arago apresentou em Paris o processo do daguerreótipo, invenção de Louis Daguerre, anúncio geralmente apontado como um marco fundador da fotografia. A 25 de janeiro, William Henry Fox Talbot apresentou em Londres o seu próprio processo fotográfico à Royal Society. Assim, em 27 de janeiro de 1839, o mundo estava precisamente a entrar nessa nova era da imagem.

Durante a segunda metade do século XIX e início do XX, o Águia d’Ouro foi ponto de encontro de intelectuais, escritores e políticos, como Camilo Castelo Branco e Antero de Quental, que se reuniam ali para conversar, jogar dominó e debater assuntos da época. A Batalha era um dos centros sociais do Porto.

Camilo Castelo Branco, por exemplo, cruzou muitas vezes aquelas mesas. Jovem ainda, misturava-se com os filhos da aristocracia e da burguesia portuense, mas também com os boémios que faziam da noite um território de aprendizagem. Camilo vestia-se com excentricidade, cultivava o gesto romântico, apaixonava-se com intensidade quase teatral. Os escândalos amorosos tornaram-se uma das suas marcas. E talvez, sem saber, estivesse a recolher matéria para os livros que viriam. Imaginemos o rumor dessas conversas no interior do antigo café: o tilintar de copos, o fumo de charutos e a voz de um poeta improvisando versos enquanto alguém discute política ou filosofia.

Quando Antero de Quental esteve no Porto — sobretudo nas décadas de 1860 e 1870 — frequentou o Águia d’Ouro, onde se reuniam jovens intelectuais ligados ao movimento de renovação cultural português, às ideias socialistas e republicanas que circulavam pela Europa e à crítica ao romantismo tardio e à estagnação cultural do país. Essas conversas fizeram parte do ambiente intelectual que levou à geração conhecida como Geração de 70, da qual Antero foi figura central.

Viajantes, comerciantes, artistas e curiosos passavam por ali como quem atravessa uma estação de ideias. Discutia-se política, literatura, negócios e paixões. As mesas eram pequenas arenas onde o século XIX se inventava diariamente. O Águia d’Ouro tinha fama de lugar animado e por vezes turbulento. As mesas também eram ocupadas por estudantes vindos de Coimbra, jornalistas da imprensa portuense e jovens escritores que debatiam filosofia, política e poesia até tarde. Para muitos contemporâneos, o café era um laboratório de ideias. Ali se cruzavam influências de pensadores europeus como Pierre-Joseph Proudhon e Auguste Comte.

O Águia d’Ouro foi um lugar onde o burburinho da cidade se concentrava e ganhava forma, tal como o Café Guichard, similarmente. Noto que o Café Guichard foi um dos cafés mais célebres do Porto oitocentista. Ficava na antiga Praça Nova, designação pela qual era então conhecido o espaço que mais tarde se chamou Praça de D. Pedro e hoje é a Praça da Liberdade. Abriu por volta de 1833 e estava instalado no edifício que pertencera aos frades dos Congregados. Em meados do século XIX, o Guichard tornou-se um centro de tertúlia literária e boémia. Também lhe é atribuída uma pequena nota curiosa da história dos costumes urbanos, ou seja, a introdução do sorvete no Porto por um italiano chamado Trucco, então empregado do café. Este café terá encerrado em 1857, e é partir desta data que o Águia d’Ouro reforça o número de clientes.

Entre copos e discussões inflamadas, no Águia d’Ouro, conviviam morgados que faziam da boémia profissão e estudantes que consideravam os estudos uma ocupação secundária. Alguns eram, na linguagem moralizante da época, “dependados”, libertinos ou tunantes. Quando passavam pelas ruas, dizia-se que as mães aconselhavam as filhas a fechar as janelas, temendo a sedução fácil daqueles jovens que pareciam viver como personagens de romance.

O edifício continuaria, porém, a reinventar-se.

No final do século XIX, o espaço foi transformado para acolher atividades culturais, designadamente o teatro e a ópera, tornando-se numa das salas mais populares do Porto durante décadas. O cinema mudo entra depois, com a estreia do Cynematographo Edison, sendo os espetáculos divididos em três partes e vistos com um só bilhete. Em 1908, Sousa Bastos, no “Diccionário do Theatro Português” escreveu sobre o Teatro Águia de Ouro: “Tem 60 camarotes em duas ordens e duas frisas; 600 lugares de plateia e 350 de galeria”, evidenciado a capacidade de adaptação que o espaço comportava ao transformar a sala para acolher espetáculos de circo. Na ópera, algumas peças eram lembradas em placas de pedra alusivas à representação da “Tosca”, em 4 de março de 1911, e ainda outra placa, esta de homenagem a Ângela Pinto, em 10 de setembro de 1913.

Ao lado, situava-se o edifício do Club Fenianos Portuenses, por onde passaram grandes foliões do carnaval do Porto, mantendo-se até 1935. Do outro lado, ficava a Papelaria Académica, que foi um dos muitos estabelecimentos de papelaria que marcaram a vida comercial do Porto no início do século XX e era conhecida, entre outras coisas, pela qualidade das canetas de tinta permanente que vendia no balcão. Associada a esta papelaria, funcionava uma tipografia a vapor decorrente do grande momento em que o mundo começou a trocar o ritmo lento da mão humana pela cadência poderosa das máquinas.

Arquitetonicamente, o Águia d’Ouro adaptou-se ao modelo clássico das salas de espetáculos. A entrada fazia-se pela praça, conduzindo a um vestíbulo relativamente estreito. A partir dali os corredores laterais organizavam o fluxo do público, como pequenos rios que desembocavam na grande sala longitudinal. No interior estendia-se a plateia, acompanhada por balcões superiores. Ao fundo erguia-se o palco. Não era um espaço monumental como o Teatro Nacional São João, mas possuía uma escala humana, confortável, urbana.

O estabelecimento passou por remodelações ao longo dos anos, solicitadas pela Empreza de Teatro Águia d’Ouro, incluindo no palco (Consultório Técnico de M. Liebermann, Lisboa, 1922). Em 1926, destinado a receber o cinema sonoro, a Sociedade Nacional de Projecção, Lda., pertencente à família Neves & Pascaud — que mantinha o monopólio cinematográfico da cidade do Porto e era proprietária do Águia d’Ouro —, encomenda o projeto da fachada e remodelação dos seus interiores. Antes da inauguração dessa reforma, a 15 de setembro de 1930, deu-se a verdadeira inauguração do cinema sonoro com o filme “All That Jazz”. Cada lugar na plateia custava 6$00.

Em 7 de fevereiro de 1931, apresenta a nova fachada em estilo Art Deco. A encimá-la, encontrava-se um placar publicitário com a expressão Cinema Águia d’Ouro, que substituiu Teatro Águia d’Ouro, e mais tarde substituído por Cine Águia. O café, no piso térreo, manteve-se, mas a hospedaria do primeiro piso deu lugar a um salão de bilhares e outros jogos. O teatro e o cinema mantiveram-se no segundo piso do edifício.

Neste mosaico de imagens, existe uma com o Programa a anunciar os filmes “Coluna X” e “Scapa Flow” (desenho de Cruz Caldas). Numa fotografia, vê-se o anúncio do filme “The Red Mill”, filme mudo de 1927 dirigido por William Goodrich; e noutra vê-se o anúncio do espetáculo “Chang”, onde também se vê, de um dos lados, uma faixa com a seguinte informação “Brevemente reabertura com novos bilhares”; e, do outro, o edifício da cervejaria Chic.

Durante décadas, o Águia d’Ouro viveu cheio de espectadores de cinema. As pessoas entravam para assistir às histórias que chegavam de Hollywood, de Paris ou de Roma. O cinema era então um ritual coletivo. A sala escurecia, o projetor iniciava o seu zumbido metálico, e o mundo abria-se em luz sobre o ecrã.

No coração do Porto, na pulsação larga da Praça da Batalha, duas casas aprenderam a viver quase como vizinhas de sangue: Águia d’Ouro e o Batalha. Entre ambos correu, durante décadas, uma espécie de corrente invisível feita de café, conversas e luz de projetor. Quando o Cinema Batalha abriu as portas em 1947, desenhado pelo arquiteto Artur Andrade, trouxe consigo o entusiasmo de um tempo novo. A cidade ainda aprendia a viver a modernidade do pós-guerra, e o cinema surgia como um palco de sonhos onde cabiam histórias vindas de todos os cantos do mundo.

Assim, durante anos, estabeleceu-se entre os dois uma relação silenciosa, mas profunda.

O tempo, porém, e como sempre, move-se.

Nas últimas décadas do século XX, muitas salas tradicionais começaram a desaparecer. Os grandes cinemas de bairro perderam público. Multiplexes surgiram nas periferias. E o Águia d’Ouro acabou por encerrar.

O edifício entrou num longo período de silêncio. Foi comprado pela Solverde – Sociedade e Investimentos Turísticos da Costa Verde, S.A., com o intuito de abrir um bingo, porém, foi reprovado pela Câmara Municipal do Porto, ficando ao abandono e, durante anos, permanecendo como um corpo adormecido no centro da cidade. As portas fechadas e as paredes guardando ecos de aplausos antigos. No entanto, a estrutura resistiu. A volumetria manteve-se relativamente intacta, como se aguardasse um novo capítulo.

Esse capítulo começou no início do século XXI. Vendido em 2009 por três milhões de euros, ao grupo Endutex – Revestimentos Têxteis, S.A., sediado em Santo Tirso, o seu interior foi demolido, a fachada recuperada e funcionalmente transformado, primeiro, num dos hotéis da cadeia B&B e, depois, no atual Moov Hotel Porto Centro. A intervenção arquitetónica coube aos arquitetos Nélson Almeida e Rosário Rodrigues (FAA Arquitectos), entre 2010 e 2012, que enfrentaram um desafio delicado: adaptar o edifício às necessidades de um hotel contemporâneo sem apagar a memória do cinema que ali existira.

A volumetria original foi seguida, sobretudo a profundidade do lote. No interior criou-se um pátio que permite iluminar e ventilar os quartos. Estes foram organizados em torno de corredores que aproveitam a largura da antiga sala de cinema. Assim, o espaço que outrora acolheu fileiras de cadeiras passou a acolher fileiras de quartos. O hotel possui 125 quartos distribuídos por seis pisos, numa solução de hotel urbano económico, simples, mas eficaz.

E, no entanto, o cinema permanece.

Não de forma literal, mas como atmosfera. Em alguns pontos surgem referências gráficas e decorativas que recordam o antigo espaço cultural da Batalha. Retratos de estrelas clássicas surgem nas paredes, reinterpretados com intervenções contemporâneas: círculos vermelhos, cortes de cor, sinais gráficos que atualizam o passado sem o negar.

O corredor respira silêncio, como se o hotel guardasse histórias nas paredes.

À esquerda, as placas brancas apontam destinos simples e humanos: receção, pequeno-almoço, jardim, elevador, saída. São palavras de passagem e promessas discretas de movimento. Cada seta indica uma direção, como se a vida pudesse ser organizada em corredores claros: chegar, comer, subir, respirar lá fora, partir. À direita, porém, um rosto observa. O retrato suspende o tempo. O rosto elegante, os lábios entreabertos, a mão pousada junto à face. Sobre ela caem faixas de luz branca e um corte vermelho que atravessa o olhar, como se alguém tivesse rasgado a realidade e deixado ver outra camada por baixo.

Ela não aponta caminho algum.

Enquanto as placas indicam o que fazer — ir, subir e sair — o retrato pergunta outra coisa: ficar. Talvez todos os hotéis sejam assim. Lugares onde o mundo se organiza em direções práticas, mas onde, inesperadamente, uma imagem, um reflexo ou um silêncio nos obriga a parar.

Entre a seta da saída e o olhar da atriz, o viajante hesita.

Porque partir é simples. Difícil é compreender o instante em que se está, num corredor qualquer do mundo, entre um destino indicado e um mistério que não aponta para lado nenhum.

Foi assim que, ao entrar no meu quarto, encontrei um outro rosto que parecia atravessar o tempo.

O quarto estava marcado pelo signo de Vivien Leigh.

Há rostos que não envelhecem. Apenas atravessam as décadas com a mesma luz oblíqua com que foram filmados. O de Vivien Leigh é um desses. Feito de porcelana e nervo, delicado e inquieto, parecia sempre à beira de uma revelação. Nos olhos, uma lucidez febril. Nos gestos, uma fragilidade que nunca foi fraqueza, mas tensão dramática pronta a incendiar-se.

Ela foi Scarlett O’Hara em “Gone with the Wind” (E o Vento Levou), personagem que se tornou quase um furacão vestido de seda. Determinada, obstinada, sobrevivente. A frase “amanhã é outro dia” continua a ecoar como promessa. Dias antes da minha chegada, o vento tinha soprado com violência sobre o Douro. Rajadas a varrer as pontes, a desalinhar guarda-chuvas, a inclinar árvores.

Mais tarde seria Blanche DuBois em “A Streetcar Named Desire” (Um Elétrico Chamado Desejo), personagem frágil e devastadora, como um vidro prestes a estilhaçar. Também no Porto os elétricos amarelos percorrem as ruas com o seu ranger metálico e os carris conduzem histórias. A cidade parece compreender a metáfora: alguns trilhos são de ferro, outros são invisíveis e atravessam o coração.

Entre Londres e Hollywood, entre palco e ecrã, Vivien Leigh construiu uma carreira exigente. Trabalhou com gigantes, amou intensamente — o casamento com Laurence Olivier foi simultaneamente parceria artística e combustão íntima — e enfrentou a doença com coragem. Ganhou dois prémios “Oscar”, mas ganhou sobretudo algo mais raro: o direito de permanecer como imagem-símbolo de um tempo em que o cinema era também mito.

E há algo de profundamente hoteleiro na sua vida.

Os hotéis foram cenários frequentes das “tournées” e das estreias. Quartos provisórios, espelhos iluminados por lâmpadas redondas, malas nunca totalmente desfeitas. O hotel como palco temporário onde cada hóspede é alguém entre dois papéis. Talvez por isso a sua imagem habite com tanta naturalidade este hotel onde o cinema se tornou memória arquitetónica.

Dentro do hotel, a vida quotidiana mantém o seu ritmo discreto. Na receção, os nomes repetem-se como pequenas constelações humanas: João, Ricardo, Mariana, Eva, Simone, Miguel e Pedro. Rostos atentos, gestos profissionais, aquela hospitalidade que faz o viajante sentir que entrou num lugar onde o acolhimento é parte da arquitetura.

O assistente de direção, David Pinto, licenciado em Gestão Hoteleira pelo ISAG – Instituto Superior de Administração e Gestão, representa essa geração que conhece simultaneamente a técnica e a tradição da hospitalidade.

Os quartos revelam um cuidado particular, porque são surpreendentemente bem insonorizados. No centro histórico de uma cidade viva, esse detalhe transforma-se num luxo silencioso. No silêncio discreto de um quarto de hotel, há pequenos gestos que contam a história do mundo. Tudo começa com uma lembrança simples: só temos um planeta. A toalha deixada no chão torna-se um sinal. A que permanece pendurada é quase um pacto silencioso com a água, com os rios invisíveis que correm até às máquinas da lavandaria, com o planeta que respira devagar. A cada três dias, a roupa de cama renova-se como uma maré calma, lembrando que conforto e cuidado podem caminhar juntos. Há também o fio invisível que nos liga ao mundo. O mundo não para, dizem as palavras. Nunca dorme. Está todo conectado — pessoas, cidades, pensamentos — atravessando continentes através de sinais que viajam no ar. Num simples acesso à rede, um viajante pode tocar a sua casa distante, ler notícias de um outro hemisfério ou ouvir a voz de alguém que ficou longe. E depois há o ar, esse companheiro invisível. Entre dezoito e vinte e três graus vive o equilíbrio: nem frio nem calor, apenas a temperatura certa para o corpo descansar e a mente repousar. Como se o próprio quarto procurasse aprender a arte da medida, ou seja, a harmonia entre o conforto humano e o ritmo das estações.

Assim, neste pequeno espaço de passagem, desenha-se uma filosofia discreta de hospitalidade. Um hotel não é apenas um lugar para dormir; é também um lugar onde o mundo se recorda de si próprio, conectado, responsável, atento. Entre toalhas, sinais de Wi-Fi e termóstatos silenciosos, nasce uma ideia simples: cuidar do planeta pode começar num gesto quase invisível, feito dentro de um quarto onde alguém, por uma noite ou por muitas, chama casa.

No silêncio breve da casa de banho, há pequenos rituais que passam despercebidos. O instante simples de lavar as mãos tem a sua pequena poesia. Ali repousa o frasco azul-esverdeado de Luciole, palavra que em francês significa pirilampo, essas luzes mínimas que aparecem na noite como se fossem pensamentos luminosos. Talvez por isso o sabão pareça conter uma promessa discreta: voltar à origem, como diz o próprio rótulo. À sua volta, os azulejos hexagonais repetem-se como um favo de colmeia, organizando o espaço com uma geometria calma. Tudo é simples, quase minimalista — madeira clara, branco, linhas limpas — como se o quarto dissesse que o essencial basta. Quando o sabão toca a água, liberta um aroma leve, fresco, quase transparente. A espuma nasce devagar nas mãos, como uma nuvem pequena que se forma e desaparece. Não é um perfume que invade, mas um que acompanha. Um perfume de pausa. E há algo de curioso nesses objetos anónimos dos hotéis: passam por centenas de viajantes e, ainda assim, fazem sempre o mesmo gesto inaugural — acolher quem chega. Talvez por isso aquele frasco seja mais do que um simples produto de higiene. É um fragmento do ritual de habitar temporariamente um lugar. Uma lembrança de que viajar também se faz de pequenos gestos: pousar a mala, abrir a torneira, lavar o dia das mãos.

E por um instante — breve como o brilho de um pirilampo — o mundo fica limpo, silencioso e recomeça.

De manhã, desço para o pequeno-almoço. Há que não perder os bolos secos de amêndoa, saborosos com ou sem um café expresso a completar a refeição. A sala está mais luminosa e mais extensa do que em visitas anteriores. O espaço abre-se agora para o logradouro, deixando entrar uma luz suave que parece dissolver as fronteiras entre interior e exterior. Percebo que o mobiliário não é apenas matéria disposta no espaço. É uma linguagem. As cadeiras e poltronas pertencem à coleção Merano, desenhada por Alexander Gufler. Há nelas uma elegância discreta, quase silenciosa. As formas parecem responder diretamente ao corpo humano. Nada sobra, nada falta. Compensado flexível, linhas limpas, pernas precisas. As peças são inteiramente em madeira, coladas com engenho, sólidas como raízes e, ainda assim, livres de um único parafuso.

É um pequeno milagre estrutural.

Não surpreende que a coleção tenha recebido distinções como o Red Dot Design Award e o Good Design Award. Porém, a verdadeira prova está no gesto simples de sentar. O corpo reconhece imediatamente a inteligência da forma.

Alexander Gufler nasceu em 1979, em Merano, Itália, filho de um ourives. Da oficina paterna herdou o respeito absoluto pelo detalhe. Estudou na Alemanha, aperfeiçoou-se em Viena, e construiu uma carreira internacional baseada na simplicidade pensada. Entre 2020 e 2023 foi diretor criativo da marca checa TON, aprofundando o diálogo entre tradição artesanal e inovação industrial. Neste hotel, cada cadeira Merano parece guardar a memória de uma árvore transformada em gesto.

Enquanto tomo o pequeno-almoço, penso que o edifício continua fiel à sua vocação original.

Desde 1839 que este lugar acolhe pessoas. Primeiro, viajantes de diligência, depois espectadores de teatro e cinema, agora hóspedes vindos de todo o mundo.

Mudaram os tempos, mudaram os usos, mas a essência permanece: a hospitalidade.

Talvez seja isso que explica a sensação particular que se sente ao atravessar o Moov Hotel Porto Centro. Não é apenas um hotel económico no centro histórico. É um edifício que aprendeu a transformar-se sem perder a sua identidade. Café, teatro, cinema, hotel. Vidas numa só arquitetura. E quando saio novamente para a Praça da Batalha, percebo que o edifício continua a participar da vida da cidade como sempre fez.

Talvez Camilo ainda ecoe nas suas paredes.

Talvez o projetor do antigo cinema ainda murmure nas noites silenciosas.

Talvez Vivien Leigh continue a observar os hóspedes que passam pelos corredores ou no quarto 308, esperando que alguém escute a velha frase que atravessa o tempo: “amanhã é outro dia”.

Por Jorge Mangorrinha, escritor de viagens. No TNews, presentemente, com a rubrica mensal Há História no Hotel.

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