Sábado, Fevereiro 14, 2026
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Há história no Savoy Palace | Por Jorge Mangorrinha

UMA HOMENAGEM À MADEIRA

Num dos melhores destinos insulares do mundo, o Savoy Palace impõe-se no mesmo lugar de antigos hotéis Savoy, de grande memória para quem os conheceu e vivenciou. O Savoy Palace observa a mesma panorâmica soberba, mas ainda mais arrebatadora do mar, da montanha e da cidade do Funchal. A sua grandeza permite ao cliente uma diversidade de opções espaciais e de experiências, como sejam a variedade de restaurantes e bares, as piscinas e o spa com reconhecimento mundial. À primeira vista, a sua forma parece um navio de cruzeiro e o seu ondulado inspira-se nas vagas do oceano. Até já apelidaram este edifício de matrioska, por ser dois em um.

No percurso do aeroporto Cristiano Ronaldo ao hotel, o taxista não esperou muito para perguntar se eu conhecia a Madeira. – “Não venho à Madeira há 35 anos”, respondi. “Então, não conhece a Madeira”, pronunciou este pragmático prestador de serviço. Estava definida a minha estada, ou seja, conhecer e escrever sobre um hotel, mas estar atento às transformações da ilha.

Sabia de antemão que as pontes estabelecidas com as antigas instalações do Savoy e com a ilha da Madeira foram as inspirações concetuais do Savoy Palace, onde a história e a paisagem estão de mãos dadas. Não se tinham esquecido das raízes, nem do território que envolve um hotel para os turistas, mas aberto à comunidade madeirense, embora o seu início tenha tido uma pitada de discussão. À primeira vista, tenho uma impressão positiva, independentemente do cerne dessa discussão, ou seja, referente à sua imponência. Até podemos considerar essa volumetria como metáfora, que signifique firmeza contra todos os ventos cruzados que caracterizam a ilha e, em particular, a zona do aeroporto. O que mais me importaria era verificar ao vivo o valor da história neste empreendimento, a qualidade do acolhimento em todos os setores e o movimento aberto aos meus olhos.

O Savoy Palace é membro de The Leading Hotel of the World e coloca-se num posicionamento que vai ao encontro de mercados de rendimento alto. Este 5 estrelas superior não só é a maior unidade hoteleira do Grupo AFA como também do Funchal.

Noto que o local deste hotel corresponde ao eixo poente da expansão da cidade, a que o crescimento do turismo internacional não foi alheio. O Plano Geral de Melhoramentos do Funchal (arquiteto Ventura Terra, 1913-1915) veio trazer conceitos modernos, embora a sua concretização em obra não fosse total. Ainda assim, a denominada “Avenida do Oeste” foi prevista para casas de luxo, até ao Lido, dando depois origem a hotéis de grande escala, abertos sobre as falésias e a costa, com piscinas litorais: Madeira Sheraton (1972), Madeira-Palácio (1973), Casino Park (1976), expoentes da hotelaria na ilha durante o século XX.

A palavra Savoy remonta ao Palácio Savoy, a maior residência nobre medieval de Londres, que foi destruída na Revolta Camponesa (1381). A sua fachada ficava voltada para a Strand, no local onde se encontram o Teatro Savoy (1881) e o Hotel Savoy (1889). Este último tornou-se conhecido pela sua inovação e pelos padrões elevados de serviço e de luxo, inspirados nos hotéis americanos da época. Até que o nome chegou a Portugal.

O primeiro Savoy Hotel (Savoy I) foi aberto em 1912, composto por uma “vila” com poucos quartos. À entrada do portão e do jardim, havia um letreiro com “Savoy Hotel” e outro com a mensagem “To The Savoy’s Private sea Bathing”. Nesse ano, registou-se uma grande afluência de turistas ao porto do Funchal, “essas populações cosmopolitas, costumadas a percorrer as terras mais civilizadas do velho e do novo mundo” (“Diário de Notícias”, 1 de janeiro de 1912), o que era prometedor para novos investimentos em hotelaria. Era seu proprietário José Dias do Nascimento, natural de Santa Cruz, que, em 1909, adquirira terrenos limítrofes ao Hotel Royal, com escritura de promessa de venda em 28 de junho e escritura de compra a 20 de agosto de 1912. Esta propriedade manter-se-ia na família até 1988, atingindo a 4.ª geração.

As obras de ampliação do Savoy Hotel (Savoy II), edifício marcado por duas torres, dá-se no final dos anos 20. Abre a 31 de dezembro de 1928, em “soft opening”. A propriedade é da Sociedade José Dias do Nascimento e Herdeiros. Em 1932, o proprietário solicitou à Câmara Municipal do Funchal a autorização para completar o balneário das Águas Doces (Pavilhão Marinho) e construir as piscinas do Savoy Hotel, inaugurados em dezembro de 1932. A Madeira recebia cerca de 2 000 turistas. Nesse mesmo ano, foi criado o Imposto de Turismo. Porém, José Dias do Nascimento morreria a 18 de julho de 1934, dedicando-lhe o “Diário de Notícias” as seguintes palavras: “Fez do seu modesto hotel um grande estabelecimento turístico. Realisou [sic] uma grande obra e deu execução ao seu sonho de tantos anos.” (“Diário de Notícias”, 19 de julho de 1934).

No ano seguinte, deu-se a inauguração da nova sala de jantar, cujo projeto é do arquiteto Edmundo Tavares, e iniciaram-se as obras da avenida do Infante. O hotel tinha a portaria com acesso pela rua Imperatriz Dona Amélia, mas depois da obra passou a ter a ligação principal na avenida. Em 1936, a Madeira foi classificada como Estância de Turismo e criada a Delegação de Turismo da Madeira. O Estado dava contexto aos investimentos privados. A partir de 1940, os gibraltinos foram acomodados no Savoy, porque, durante a II Grande Guerra, ali se refugiaram a expensas do governo britânico, através do seu cônsul no Funchal. Conta-se que, no dia da rendição germânica, a festa foi de tal ordem entre os hóspedes que o hotel ficou do avesso.

Esta unidade hoteleira foi transformada em 5 estrelas nos anos 60 (Savoy III), aproveitando a chegada dos primeiros aviões “charters” do norte da Europa, quando era gerida pela Sociedade Imobiliária de Empreendimentos Turísticos – Savoi, à qual passou a pertencer o Savoy Hotel. Presidia Carlos Dias do Nascimento, membro da família e comerciante no Funchal. A partir de finais de 1963, começaram as obras, que se estenderiam até 1969 (edifício principal) e 1971 (piscinas). A presidência do Conselho de Administração passa, sucessivamente, para Aida Paciana Dias Andrade Drummond Borges e Rui Oliveira Dias do Nascimento.

Na época, começou um período de intensa promoção do turismo da Madeira e o Savoy atinge capacidade para 750 hóspedes. Os mais velhos lembram a fineza de trato do diretor António Borges, bem como os prémios do Rallye da Madeira, as festas dos estudantes, os conjuntos musicais que atuaram ao longo dos anos, as jovens estrangeiras e as altas personalidades. O pessoal mudava de roupa numa das torres: farda, luvas e sapatos brilhantes. A lancha do Savoy transportava os clientes. O artista Tony Cruz era presença habitual no Galáxia e ainda hoje é lembrado.

As diferentes fases do Savoy tornaram-no um símbolo da hotelaria regional, nacional e internacional, ao longo de diferentes gerações de familiares, colaboradores, hóspedes e outros clientes. Beneficiou com a inauguração da Escola Hoteleira da Madeira Basto Machado, recrutando recursos humanos formados.

Porém, a família proprietária vendeu-o, em 1988, a José Berardo e Horácio Roque, com fortunas ligadas à África do Sul e interesses no BANIF – Banco Internacional do Funchal, S.A., tendo em vista cotá-lo na bolsa, porém, sem sucesso. O hotel já era um edifício de acrescentos e labiríntico, de difícil manutenção, diz quem lá trabalhou ou o frequentou. Passou de uma unidade de prestígio para uma vulgar unidade hoteleira. E cresceu a ideia de o demolir para construir um outro ainda mais proeminente. Alguma desconfiança se gerou na comunidade local, pelo facto de um novo hotel, com novas dimensões, ficar junto de moradias do início do século XX e ao lado de um hotel desenhado pelo arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer (Casino Park Hotel).

Neste contexto, foi polémica a decisão de demolir o hotel com quase 100 anos e 13 pisos, pois envolveu o despedimento coletivo de quase uma centena de trabalhadores e apagou da cidade uma unidade histórica, onde estiveram personalidades internacionais como Margaret Thatcher, que passou a lua de mel e as bodas de ouro. No exterior, era protegido por um gradeamento. Fechou portas a 11 de maio de 2009, sendo que a aprovação do novo investimento, avaliado em 170 milhões de euros, só foi possível porque a Câmara Municipal do Funchal elaborou o Plano de Urbanização do Infante, que entrou em vigor a 9 de abril de 2008, abrangendo um aumento do índice de construção apenas no quarteirão do Savoy, com um índice de construção de 3.0.

As obras começaram, mas a empreitada acabou por parar, em 2011, por falta de financiamento e pelos problemas internacionais com a Banca, que afetaram o acionista José Berardo e por quezílias familiares após a morte do sócio Horácio Roque, além de outros entraves burocráticos. A obra não passava das escavações e com parte das fundações.

O Grupo AFA, fundando em 1981 na Madeira e com as vertentes de construção, hotelaria e imobiliário, adquiriu a marca Savoy, em 2015, a José Berardo e aos herdeiros de Horácio Roque, integrando o Calheta Beach e o Saccharum, ambos localizados na Calheta. O Grupo AFA tinha na construção o “core business”, principalmente as grandes obras públicas (rede viária, túneis e infraestruturas portuárias). Com um vasto portfólio de obras no continente português, Açores, Senegal, Mauritânia e Angola, o Grupo AFA começou a diversificar as áreas de atuação. O principal acionista da empresa, Avelino Farinha, assumiu sozinho os investimentos.

Avelino Farinha é natural da Calheta. Depois de ter iniciado a sua formação no Seminário Dehoniano (Sacerdotes do Coração de Jesus), onde estudou durante cinco anos no Funchal e aos quais se seguiram mais dois em Coimbra, começou a sua atividade profissional como topógrafo no Gabinete de Apoio às Autarquias Locais. Cedo deu os primeiros passos enquanto empresário, constituindo, com apenas 20 anos, a empresa Avelino Farinha & Agrela, Lda., à qual se seguiram outras em diversos setores. No Grupo AFA, obteria reconhecimento e fortuna.

Em 2019, o setor da hotelaria do Grupo passou a designar-se Savoy Signature, uma marca de assinatura com uma coleção de hotéis: Savoy Palace –Tribute Cosmopolitan Resort, The Reserve, também membro da The Leading Hotels of the World na Madeira; Royal Savoy – Heritage Sea Resort; Saccharum – Wellness Design Resort; Calheta Beach – Fine Sand All-Inclusive Resort; Gardens – Panoramic Adults-Only Hotel; NEXT – Connected Ocean Hotel. Segundo informações recolhidas: “o objetivo é que cada um dos hotéis transporte o viajante para lugares e histórias únicas, oferecendo conceitos de alojamento com qualidade de arquitetura, oferta e serviço”.

Aberto a 1 de julho de 2019, foi a 19 de julho de 2021 que o Savoy Palace (Savoy IV) foi inaugurado pelo presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, conjuntamente com o NEXT Hotel. Esta inauguração contou com a presença do presidente do Governo Regional da Madeira, Miguel Albuquerque, do presidente da Assembleia Legislativa da Madeira, José Manuel Rodrigues, do representante da República para a Região Autónoma da Madeira, Ireneu Cabral Barreto, e do proprietário do hotel, Avelino Farinha.

Sob o traço de Saraiva+Associados, o Savoy Palace destaca-se na paisagem, tendo 309 quartos de diferentes tipologias e suites, sete restaurantes, ginásio, spa e centro de congressos. O investimento atingiu mais de 200 milhões de euros. Segundo a Saraiva+Associados: “Uma abordagem contemporânea que se funde na paisagem pela delicada ondulação da fachada proporcionando aos seus hospedes desfrutarem de diferentes cenários da ilha”. O edifício recebeu um dos prémios imobiliários do ano 2020 na categoria de Turismo pelo jornal “Expresso” e pela SIC Notícias.

Presentemente, o edifício, na sua globalidade, incorpora duas unidades hoteleiras, Savoy Palace, propriamente dito, e The Reserve, daí ser considerado uma matrioska de hotéis.

The Reserve foi um sonho do proprietário. Trata-se de uma oferta ainda mais restrita, que valeu cerca de 4 milhões de euros, já tendo duas Chaves Michelin. Pertencem-lhe as Pool-Suites e a Suite Presidencial (17º piso). Este boutique-hotel abriu em “soft opening” a 1 de dezembro de 2024. Entra-se para um espaço de receção e de promoção do vinho da Madeira, com uma amostra de antigas peças de prata e de louça Vista Alegre, pertencentes ao antigo Savoy, que, aliás, continuam a servir em eventos exclusivos com o máximo de 25 pessoas, sendo que, por outro lado, a Vista Alegre continua a ser o fornecedor do atual Savoy Palace. Também se observam peças com a marca Bordallo Pinheiro. O “check-in” é personalizado num dos pisos superiores de The Reserve ou mesmo no quarto com a equipa de GEPA – Guest Experience Personal Assistants, uma espécie de mordomo ou assistente pessoal, que fica encarregado de dar apoio personalizado durante toda a estada do cliente. Sobe-se por um elevador panorâmico e cada quarto tem uma fotografia vintage da Madeira, incluindo do antigo Savoy. Os clientes de The Reserve têm acesso a qualquer espaço do Savoy Palace, mas os clientes do Savoy Palace não têm acesso a The Reserve, exceto para o restaurante asiático Nikkei. O restaurante Jacarandá Club é exclusivo dos hóspedes alojados em The Reserve. Ambos dirigidos pelo “chef” Bruno Borges. No exterior, em frente da porta de entrada, o Rolls Royce branco transporta o cliente, com bombons e taças de champanhe, mediante um pagamento adicional.

Voltando ao Savoy Palace, a impressão é, desde logo, de monumentalidade, quando se entra no “lobby”. Um balcão comprido abriga os rececionistas, tendo por trás uma cortina vermelha de dimensões colossais. No “check-in”, ficou estabelecido que o quarto seria no 11º piso, com vista para o mar. Um “Drink Vaucher” permitiria consumir uma das três bebidas escritas e um mapa para me guiar, assinalado, aliás, pela simpática rececionista. Seguiu-se uma oferta especial: uma poncha em copinho de chocolate.

No “lobby”, também, João Pedro Saldanha é uma figura presente e prestável em todo o lado. Madeirense por nascimento, contou algumas das facetas desta ilha e do hotel, sobre o qual destacou as peças de mobiliário e de decoração, provenientes do demolido clássico Savoy, e as mais de 700 espécies de flora no hotel, muito por interesse do proprietário. João Pedro considera que “um hotel é um edifício, mas o que faz um verdadeiro hotel é o serviço, as pessoas e alguns fatores, como a decoração e a atmosfera”. Contou a sua experiência ao visitar o Carlton de Cannes e o Copacabana Palace do Rio de Janeiro, segundo o próprio, os melhores em que esteve, mas, logo diz, que “o serviço português de hotelaria e de cuidar das pessoas, em particular, é muito bom, porque se trabalha com o coração”.

O diretor-geral do hotel é José Pereira, formado na Suíça e com larga experiência em diferentes hotéis, em Portugal e no estrangeiro. Eu estava preparado para conhecer um diretor com vasta cultura hoteleira e sentido humano. João Pedro Saldanha tinha-se referido a isso: “Alguém que transmite liderança de uma forma como deve ser feita. Nos dias que correm não é só dar ordens, é preciso cativar as pessoas. Um hotel com 309 alojamentos não é para qualquer diretor.”

José Pereira iniciou a sua função desde o período de pré-abertura do hotel, um ano antes do evento e quando ainda estava em construção: “Ainda guardo o meu capacete, o meu colete e as minhas botas de biqueira de aço no armário do escritório”. No exterior do Lobby Lounge, numa mesa servida por João Ramos, conversámos sobre o passado e o presente desta unidade hoteleira. A sua amabilidade ficou desde logo traçada. Refere-se ao período prévio à abertura: “Todos metemos mãos na massa. Toda a gente entrava nos contentores para descarregar material. Quem está cá desde o início ainda se lembra, foi muito divertido, passámos bons momentos naquela altura. Isso também é humanizar, porque aproxima as pessoas.”

O seu entusiasmo era evidente nesta conversa, por exemplo, quando se lembra dos trabalhos de decoração realizados pelas equipas da designer madeirense Nini Andrade Silva, com os RH+ Arquitetos, em sintonia com os recursos humanos do hotel: “Foi uma aventura muito grande abrir um hotel desta dimensão na Madeira. Foi um desafio em termos de recursos humanos para o número de quartos e o número de restaurantes e bares que nós temos, e continua a ser cada vez mais. Um dos grandes desafios da indústria hoteleira, ou mesmo o maior desafio, é a formação técnica, a formação de postura e de atitude, a formação de português e inglês. E não se aplicar a palavra você, muito menos o tu, que é proibido, o você não existe, é o senhor ou a senhora, os senhores ou as senhoras. Temos esse problema, que é educação de base”.

Conta que o acionista e proprietário tem uma predileção por jardins e paisagismo e se tornou o mais entusiasta construtor dos jardins deste hotel. Segundo informações recolhidas, há 610 variedades de plantas no hotel. Com uma área total de 23.000 m² e cerca de 90.000 plantas, o Savoy Palace orgulha-se de ter o maior jardim da coleção de hotéis da Savoy Signature. Este jardim é composto por mais de 1000 espécies botânicas provenientes de todos os continentes, incluindo da Macaronésia, 12 endémicas da Madeira, como o “Laurus nobilis” (loureiro), “Ocotea foetens” (conhecido como tilo), “Calluna vulgaris” (urze), “Geranium madarense” (gerânio da madeira) e “Vaccinium padifolium” (uveira-da-serra). Além disso, conta com 40 tipos de trepadeiras e múltiplas espécies originárias de África, Europa, América, Ásia e Oceânia.

Conta o seu diretor-geral: “O hotel ainda estava em construção e as palmeiras imperiais já estavam plantadas. O jardim vertical também já estava a ser plantado. É uma pessoa espetacular, uma pessoa com uma visão muito à frente, viaja muito, lê muito, é um ‘filósofo’, que nos faz uma ‘homilia’ e ficamos de boca aberta. Uma pessoa extraordinária. É ele que nos alimenta e nos faz evoluir.” José Pereira também se refere a Roberto Santa Clara: “Um CEO espetacular”. E adjetiva o hotel, também, como espetacular: “Em produtos, estamos facilmente no Top 3 nacional”. Adiantando que, no hotel, “há um produto excecional, mas o que toca muito é a interação humana, com os nossos funcionários, com os nossos colaboradores, e é isso que o nosso cliente de luxo procura cada vez mais, porque luxo existe em todo o lado, a experiência, a sustentabilidade, o orgânico. As pessoas apreciam muito o que nós fazemos, por exemplo, um pequeno-almoço ao nascer do sol no Pico do Areeiro. Isso é o luxo.”

E remata com esta frase: “Tudo isto é uma homenagem à Madeira”. Os jardins são cuidados por uma equipa própria e mostram uma estética orgânica e apontamentos de floresta. Os bordados de linho e algodão, nos quartos, nas guardas da ponte sobre a grande piscina exterior e da escada circular interior e nos grandes tapetes de Nini Andrade Silva. Os vimes estão presentes em mobiliário espalhado por diferentes áreas. As levadas e os furados antigos ou túneis atuais, serpenteantes na ilha e expressos nas formas de tetos.

A primeira conversa com o diretor-geral do Savoy Palace estava concluída, ainda assim foi possível ouvir de si: “Estes jovens têm a vida facilitada. Quem quiser fazer carreira na hotelaria é muito mais fácil, porque há muita falta de mão de obra e há muito mais unidades hoteleiras do que no meu tempo inicial. Digo aos jovens que têm potencial para verem mundo: viajem, nem que seja de férias, economizem, vejam capitais, cidades secundárias, outras culturas…”

A propósito destas últimas palavras de José Pereira, na minha deambulação por este hotel encontrei Margarida Gomes, uma jovem funcionária do setor F&B (Food and Beverage), presente no espaço público para ajudar os clientes. Troquei umas curtas palavras sobre a sua função. Ela é licenciada em Turismo pela Escola Superior de Turismo e Tecnologias do Mar e fez o mestrado em Gestão Hoteleira na Universidade da Madeira, com uma tese sobre as competências técnicas e psicológicas dos colaboradores de hotelaria (o caso de estudo da Savoy Signature). O estudo aponta soluções futuras, porque “é muito importante sabermos as competências técnicas e psicológicas dos colaboradores para conseguir o melhor de si e a melhor experiência possível ao cliente.” Neste nosso encontro, a Margarida contou histórias relacionadas com casamentos grandes, desafiantes para todos os setores do hotel, nomeadamente na decoração e na gastronomia. O hotel nunca fechou durante estes eventos. A finalizar, lembrou um anterior subdiretor geral, Álvaro Aragão, que implicava muito com o facto de se dizer “você”. Eu gostei de ouvir estas palavras por parte da Margarida, que sublinhou que cada cliente não é mais um cliente, mas é o cliente.

Noto que a realidade de colaboradores provenientes de outros países é evidente e, segundo me foi dito, tem vindo a crescer. Só de origem nepalesa há mais de uma centena a trabalhar no quadro dos mais de 500 colaboradores do Savoy Palace e de The Reserve, seguindo-se brasileiros, indianos, paquistaneses, bangladeshianos, filipinos, ucranianos, moldavos e bielorrussos, por exemplo, e mais portugueses de origem venezuelana e ainda ingleses e nórdicos. Sorriem e parecem satisfeitos. Apesar de a legislação atual lhes conferir esse direito, é muito pouco provável assistirmos a uma greve, tal como a que aconteceu no longínquo ano de 1972, no anterior Savoy, por causa da admissão da primeira mulher na cozinha principal. Hoje, vejo-os a andar por todo o lado, nos espaços exteriores e nos interiores.

O quarto que me coube está virado para a grande piscina, o mar e a cidade do Funchal – o quarto 1145.

A porta é igual a todas as outras, robusta e com um toque estético original pelo folheado a imitar a raiz de freixo, e com óculo. Ao entrar, deparo-me com uma mesa plena de cortesia, com fruta, doces, água mineral de Luso e vinho da Madeira (Blandy’s Duke of Clarence). Uma misteriosa caixinha de madeira, em forma de arca e pertencente à pastelaria do hotel, tem este escrito: “The Story of… The Palace of Tomorrow and the Days Before”. Por dentro, tem biscoitos. A cerâmica italiana de parede e pavimento a imitar mármore branco impera, porque se encontra em todo o hotel, que é uma tendência na hotelaria nacional e internacional. Os “amenities” da Castelbel, um toque da tradição portuguesa desde o Porto, deixam um perfume agradável a banana e maracujá, exclusivos do Savoy Palace. E há um menu de almofadas à disposição, porque esta é “uma história nascida de frente para o mar, que, a cada noite” me fará flutuar.

Um bloco e um pequeno livro para a escrita têm o mesmo mote: “Be part of our story”. Espero que o meu objetivo de escrita venha cumprir esse convite.

A escrita adoçou-se ainda mais quando, no âmbito do Dia Mundial do Chocolate (7 de julho), assisti a uma iniciativa que aliou arte, gastronomia e responsabilidade social. A ocasião marcou o lançamento do Bombom Solidário Savoy Signature, a assinatura oficial de um protocolo de colaboração com a CASA – Centro de Apoio aos Sem Abrigo e a criação ao vivo de uma escultura em chocolate. A obra, com cerca de 1,50 metros de altura e composta por 120 quilos de chocolate, evoca “M. Gastron”, personagem do universo Savoy Palace, que personifica a experiência sensorial dos restaurantes e bares do hotel. Provei e gostei dos bombons. O que me vale é a balança presente no quarto para controlo do peso, se ainda assim for possível neste contexto, com tantas coisas boas para comer. A evocação a “M. Gastron” foi concebida e executada pelo “chef” ovarense Jorge Cardoso (bicampeão mundial da Culinary World Cup), bem como pelo “chef” executivo de pastelaria do Savoy Palace, Pedro Campas, e pelo “chef” corporativo da Savoy Signature, Celestino Grave. Este é o nome de quem superintende toda a gastronomia dos hotéis Savoy. Celestino Grave teve várias experiências nacionais e internacionais, onde assumiu cargos de liderança em cozinhas de hotéis de 5 estrelas e de restaurantes, em Portugal, em Macau e em Moçambique. Chegou aos hotéis Savoy para criar memórias gustativas e fidelizar o cliente, porque “muito da experiência é sabor”, refere. Por sua vez, Renato Camacho é o “chef” executivo do Savoy Palace e de The Reserve. Ele é quem compõe as maravilhas gastronómicas de cada restaurante.

O restaurante Pau de Lume tem este nome numa referência aos antigos palhetes ou pauzinhos de lume, anteriores aos fósforos. Quando estes apareceram, como muitas pessoas não conseguiam dizer a palavra fósforo, então, o uso do pau de lume manteve-se até aos tempos presentes. Com a direção na cozinha do “chef” Hugo Freitas, apreciei o espaço informal e luzente no primeiro jantar da estada. Regada com um Adega Mãe Tinto 2022, a refeição começou com bolinhas de rabo de boi e, como prato principal, um delicioso peixe da lota no Josper (grelhador e forno num só), com manteiga Mordomo.

O restaurante Alameda recebeu o nome de um dos restaurantes do antigo Savoy e nele comi polvo, em disputa com o bom dente. Trata-se de um restaurante em ambiente de natureza, junto à grande piscina, que serve refeições completas e ligeiras com um toque mediterrânico. Pertencente a este espaço de restauração, a geladaria é uma pequena construção com deliciosos gelados e bolas de berlim.

Do Terreiro apenas ficou a minha memória da visita “en passant” e de um espaço mais íntimo, bem como do ar rígido do funcionário. Noto que este restaurante se encontra a promover uma proposta gastronómica ao ar livre, atualmente às sextas e aos sábados à noite, com os jantares “Fire Pit”, envoltos pelos aromas fumados da grelha e pela proximidade dos presentes, que são convidados a interagir e a aprender alguns segredos desta arte de cozinhar no fogo, segundo a organização. O restaurante está instalado numa espécie de quintinha madeirense, no antigo jardim do Savoy, com acesso pela rua ou, para quem está alojado, através de uma ponte pedonal sobre a rua Imperatriz D. Amélia.

O verdadeiro prazer gastronómico da minha experiência neste hotel foi no Galáxia, em particular no Galáxia Skyfood. Pelo nome, trata-se de uma homenagem à antiga e famosa discoteca de igual nome que existia no antigo Savoy. O acesso é feito por dentro do hotel e, para quem não é hóspede, há dois elevadores panorâmicos e uma receção própria que acolhe os clientes externos. Do alto do 16.º piso, o que se vê é notável e lá em baixo, aos pés deste hotel e junto ao mar, a casa de Cristiano Ronaldo e o Royal Savoy. Já à noite e de olhos postos no brilho do céu, usufruí de uma experiência gastronómica superior. Sob a batuta do “chef” de cozinha Roberto Barros, os 9 Momentos Galáxia da carta de jantar foram servidos por Victor Dias e Tânia Tavares e o vinho por André Ferraz que me serviu um delicioso Pommery Champagne e um Colombo Justino’s Reserva Tinto 2023 da Madeira. Mais de 90% dos vinhos deste restaurante são portugueses, o que é de louvar, mas a água de mesa foi da nascente de Aqua Panna, da Toscana, que não fica atrás das águas portuguesas. A Tânia começou por servir brioches, pães diversos, manteigas caseiras e azeite virgem de Vila Meã (Douro). Desses momentos, sublinho o salmonete da costa, o arroz selvagem de morcela e uma “cereja” no topo de uma taça convexa. A Bruna Capelo foi a jovem que serviu o gelado, que era uma obra de arte, com rendilhado a imitar o bordado da Madeira e estava absolutamente delicioso. Após o jantar, nada melhor do que apreciar o ambiente no Galáxia Skybar, um espaço de relaxamento e com um copo na mão.

No Hibiscus, deliciei-me com um dos melhores pequenos-almoços em hotel. Quando este espaço enche, é aberto o Orchidaceae Atelier, sendo neste que se preparam, sempre, as deliciosas omeletes e o melhor “caffè latte” do mundo. Seja no interior ou no exterior, a dinâmica dos empregados de mesa tem um ritmo absolutamente extraordinário, sempre atentos, sempre com um sorriso contagiante, como por exemplo a Cristiane Silva, com seu cabelo preto e farto, uma figura icónica, direi eu. Do Nepal estão muitas destas simpatias que se cruzaram comigo. Nota-se que todos foram instruídos no ato de servir bem e que sabem manter a postura. A maior parte dos hóspedes parece ter surgido de terras de semeadura, com bastante adubo, tal são as estaturas de homens e mulheres nórdicos, germânicos, eslavos e norte-americanos. Lá surgem uns mais contidos nos centímetros, a evidenciar a predominância. E muito a custo se ouve falar português de Portugal. São portugueses – e nota-se em tudo!

Neste hotel, além dos espaços exteriores e dos próprios quartos com as suas esplêndidas varandas abertas ao mar ou à serra, há um dos mais notáveis spas do mundo.

Com os espantosos 3 100 m2 de área, o Laurea Spa é um espaço verdadeiramente único e belo, uma descida da montanha verde e primitiva até ao centro nevrálgico dos sentidos, segundo o cuidado catálogo, que apresenta as “sensações incríveis, embebidas com produtos de alta qualidade das melhores marcas de spa do mundo”. Numa das salas de tratamento, o fisioterapeuta Renato tentou resolver os impossíveis do meu corpo, mas fiquei melhor, sob os efeitos calmantes do tratamento. A sala de descanso é absolutamente surpreendente, desenhado por Nini Andrade Silva, a designer de interiores que projetou a decoração do hotel. Mónica Mendes, uma das assistentes de Susana Correia, a spa manager que estava de folga nesse dia, fez uma visita guiada a este grande espaço matizado de tons de verde e turquesa, lembrando a floresta de Laurissilva, com sugestões dos túneis existentes na ilha, das levadas e das lagoas do Caldeirão Verde e do Alecrim.

Muitos dos utentes estrangeiros e experientes afirmam: “Isto é outra coisa!”

O conceito nasce do próprio proprietário e da decoradora. A visita começou pela sala de haloterapia, onde durante 20-30 minutos me detive, depois da visita, com um calor confortável e uma atmosfera impregnada de partículas de sal dos Himalaias, o que é excelente para a terapia de afeções do foro respiratório e para reforçar o sistema imunitário. A respiração sente-se mais leve, até porque a lição que se leva da utilização desta ambiência é que todo o corpo se torna mais leve depois de uma frequência regular. Embora seja considerada uma terapia complementar, não possui suporte científico robusto para comprovar a sua eficácia.

Mónica contou a circunstância de um médico cardiologista ter perguntado se esta técnica terapêutica teria algo a ver com as doenças do coração. O impacto foi tão grande na saúde desse cliente que ele passou a investigar o tema em sede da sua universidade, mantendo uma frequência regular, enquanto a investigação decorria. No outro lado da sala de aromaterapia descansavam corpos negros africanos, que talvez se tenham esquecido do tempo. O spa está aberto a clientes externos, para sentirem as sensações da diversidade de oferta, como por exemplo, o chão sensorial feito com a calçada típica da Madeira e com água quente e fria consoante o trilho e a emersão nas piscinas a 30,9º de temperatura. Uma sala de descanso está aberta à reflexão de cada cliente, que também pode ler um livro ou recuperar o sono perdido. Uma outra sala é dedicada às crianças que não podem usar o spa, porque a idade mínima é 16 anos, na qual têm diversas atividades, por exemplo, confecionam bolachas, que depois são cozidas no restaurante Alameda, com a presença dos próprios. O Laurea Spa é um espaço em que, também, a ilha da Madeira está representada e é inspiração plena.

O que importa sublinhar é que a construção desta nova versão do Savoy teve alguns contratempos e suscitou espantos. Faz parte da natureza do português criticar o sucesso do outro, a bilhardice, como se diz na Madeira. Porém, como nos diz o diretor-geral José Pereira: “Este hotel veio revolucionar a hotelaria da Madeira, nos conceitos, nas tarifas e na restauração”. E sente-se que é uma escola hoteleira e de vida, tal como foram os seus antecessores (Savoy I, II e III). Nota-se uma diversidade de clientes. Todas as faixas etárias estão representadas. Um folheto do hotel identifica-as. Por curiosidade, sou Geração X, que equivale aos nascidos entre 1965 e 1976, ou seja, pais e avós mais novos que circulam por estes espaços.

A visita a este hotel revelou, absolutamente, o trabalho para a excelência e a paixão por criar experiências autênticas como expressão viva da identidade e do compromisso com a criatividade. A entrega individual de cada pessoa foi extraordinária. Desde o contato com Catarina Nunes, public relations manager na Savoy Signature, ao icónico trintanário Paulo Correia, ao “concierge” André Jardim e ao bagageiro Márcio Silva, vestidos a rigor com uniforme completo. A todos, eu entregaria o Quality Card da Savoy Signature, reconhecendo o funcionário da minha preferência.

Para finalizar, sabemos como a hotelaria enfrenta desafios de vária ordem. Pergunto: – Em que medida a hotelaria madeirense continua a diferenciar-se para não perder quota de mercado e a ser concorrencial com outros destinos mais próximos do centro da Europa? – E como é que se responde em termos de um preço por quarto concorrencial, mantendo os parâmetros de qualidade, designadamente da mão de obra? A Madeira foi o primeiro destino turístico português e mantêm níveis altos de procura. Ao contrário de outras zonas, optou-se por qualidade, em vez de quantidade, a que se junta a identidade. Porém, a inflação de preços na hotelaria e na restauração em Portugal deve traduzir-se, sempre, por elevar a oferta a padrões elevados de qualidade, no produto e no serviço, bem como o pagamento ao pessoal com base no que está estipulado nas tabelas salariais.

Fazer bem em hotelaria tem sempre retorno.

Por esses dias da minha estada, os hotéis Savoy Palace, Saccharum, Royal Savoy, NEXT e Calheta Beach, da Savoy Signature, foram reconhecidos com o galardão internacional Green Key 2025, uma distinção que valoriza o compromisso com práticas ambientais e sociais responsáveis no sector do turismo. A Savoy Signature reforça, assim, a sua estratégia de investimento contínuo em sustentabilidade, com medidas que integram desde eficiência energética à valorização dos recursos locais e promoção de comportamentos responsáveis entre hóspedes e colaboradores. No início do ano, já a representação da Savoy Signature, na BTL – Better Tourism Lisbon Travel Market, fora distinguida na categoria Sustentabilidade nos Prémios Melhor Stand BTL 2025, o que é entendido como “um reconhecimento do compromisso com a inovação ambiental e a criatividade responsável”, segundo os responsáveis do Grupo Savoy. No ano passado, o Savoy Palace foi reconhecido como o World`s Leading Luxury Hotel 2024, prémio que corresponde ao melhor hotel de luxo do mundo, numa organização dos World Travel Awards 2024, e, em Portugal, foi distinguido nos Prémios Líderes do Turismo, como melhor Luxury Hotel.

O regresso a Lisboa foi no avião “Madeira” da TAP, uma coincidência, ou talvez não seja por acaso. Nesta partida, lembro-me de frases que ouvi na música ambiente do hotel: “And it’s more than fancy meeting you right here” (Rosemary Clooney & Bing Crosby, “Fancy Meeting You Here”); “Our moment is swift, like ships adrift” (Hank Mobley, “Peckin’ Time”); e “Blue skies smiling at me” (John Tesh, “Blue Skies”).

Cortando o céu azul, estas são parte das memórias que ficam de uma ilha encantada que está em constante transformação como um organismo vivo e de uma casa mágica que reúne a história e as tradições com as novidades como um “Palácio do Amanhã e dos Dias Passados”, cumprindo a homenagem à infinidade do que é maravilhoso na vida.

*Jorge Mangorrinha é pós-doutorado em Turismo, doutorado em Urbanismo, mestre em História Regional e Local (especialização em Património) e licenciado em Arquitetura. Autor multifacetado recebeu o Prémio José de Figueiredo 2010 da Academia Nacional de Belas-Artes. Com experiência no planeamento turístico, em Portugal e no estrangeiro, exerceu, também, como gestor técnico na Parque Expo’98 e como presidente da Comissão Nacional do Centenário do Turismo em Portugal (1911-2011). Colabora com o TNews, tendo sido o autor da rubrica “A Biblioteca de Jorge Mangorrinha”, a que se seguiu “Há História no Hotel”.

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