O desempenho do setor hoteleiro no Médio Oriente registou uma quebra acentuada nas últimas semanas, com a ocupação em destinos-chave como o Dubai e Abu Dhabi a recuar para níveis não vistos desde o início da pandemia, à medida que o conflito com o Irão interrompe a conectividade aérea e trava a procura internacional.
De acordo com uma análise da Hotel Management Network, a ocupação hoteleira em várias geografias da região caiu para mínimos desde a primeira vaga da Covid-19, refletindo o impacto imediato da disrupção nos voos, a redução das viagens internacionais e a necessidade de controlo de custos por parte dos operadores hoteleiros.
Dados citados pela CoStar indicam que a taxa de ocupação no Dubai desceu para 22,8% na semana terminada a 14 de março, depois de ter registado 84,8% nos dois primeiros meses de 2026. Em Abu Dhabi, a ocupação fixou-se em cerca de 39,5%, evidenciando a dimensão da quebra num curto espaço de tempo.
O setor tinha iniciado o ano com sinais positivos. A Deloitte dava conta de uma procura turística ainda acima dos níveis pré-pandemia. No entanto, a escalada do conflito alterou rapidamente as perspetivas, com a Oxford Economics a prever agora uma queda entre 11% e 27% nas chegadas internacionais à região em 2026.
Já o World Travel & Tourism Council (WTTC) estima que o impacto financeiro no turismo está a custar cerca de 550 milhões de euros por dia em gastos de visitantes internacionais.
Perturbações aéreas travam procura
A quebra da procura hoteleira está diretamente associada à disrupção no transporte aéreo, mais do que a uma mudança estrutural no comportamento dos viajantes. Os principais hubs da região – como Dubai, Abu Dhabi, Doha e Bahrein – recebem normalmente cerca de 526 mil passageiros por dia, o que os torna particularmente vulneráveis a cancelamentos e alterações de rotas aéreas.
A Reuters reporta que a região enfrenta a mais grave crise na aviação desde a pandemia, com interrupções significativas, passageiros retidos e uma deterioração da confiança nas viagens.
Segundo dados da CoStar, o impacto desenvolveu-se em três fases: uma descida sazonal associada ao período do Ramadão, seguida de uma breve recuperação impulsionada por voos de repatriamento e passageiros retidos, e, por fim, uma quebra mais acentuada à medida que a disrupção nas viagens se prolongou.
O CEO da Ryanair, Michael O’Leary, citado pela Reuters, já observou um “grande colapso nas reservas para o Médio Oriente”, sublinhando o impacto na confiança dos viajantes.
Dubai entre os mercados mais afetados
O Dubai destaca-se como um dos mercados mais afetados, dada a sua forte dependência de fluxos internacionais, passageiros em trânsito e viagens corporativas. Depois de uma taxa média de ocupação de 81,1% em 2025, o destino registou uma queda abrupta para 22,8% em meados de março, o seu nível mais baixo desde abril de 2020.
Apesar de uma ligeira recuperação durante o Eid al-Fitr (celebração que assinala o fim do Ramadão), os hotéis continuam a enfrentar pressão sobre as tarifas e receitas, incluindo nos segmentos de alimentação e bebidas.
No entanto, o impacto é transversal à região. No Bahrein, registaram-se quebras anuais de até 70%, conforme noticia a Hotel News Resource. Já a Reuters prevê perdas entre cerca de 29 mil milhões e 50 mil milhões de euros em receitas turísticas no Golfo em 2026, dependendo da duração do conflito.
No total, a Oxford Economics estima que entre 23 e 38 milhões de turistas possam deixar de visitar o Médio Oriente este ano, face ao anteriormente previsto.
Por outro lado, cidades como Jeddah têm demonstrado maior resiliência, sustentadas pela procura interna e pelo turismo religioso, mantendo níveis de ocupação em torno dos 57%. A diferença evidencia que destinos menos dependentes do tráfego internacional poderão resistir melhor a choques geopolíticos de curto prazo.



