A hotelaria nacional registou uma paragem no ritmo de crescimento durante o Carnaval e entra na Páscoa com níveis de reserva ainda moderados, num contexto marcado pela instabilidade geopolítica e por fatores conjunturais que continuam a pressionar a procura.
Os dados resultam do inquérito “Balanço Carnaval & Perspetivas Páscoa 2026”, apresentado esta quinta-feira pela Associação da Hotelaria de Portugal (AHP).
No período do Carnaval (13 a 17 de fevereiro), a taxa de ocupação média situou-se nos 65%, em linha com 2025, enquanto o preço médio (ARR) fixou-se nos 112 euros, menos um euro face ao ano anterior. O RevPAR manteve-se nos 73 euros.
Apesar da estabilidade global, o período ficou marcado por assimetrias regionais, com impacto das condições meteorológicas adversas registadas no final de janeiro e fevereiro.
“Não esquecer […] aquilo que foi a desgraça que se abateu […] no nosso país, nos finais de janeiro”, referiu Cristina Siza Vieira, presidente executiva da AHP, sublinhando os efeitos na mobilidade e na procura interna.
As regiões do Oeste e Vale do Tejo e do Norte foram das mais penalizadas, enquanto o Centro interior — nomeadamente a Serra da Estrela — apresentou um desempenho mais positivo. No Algarve, não se registaram grandes oscilações, e a Grande Lisboa conseguiu sustentar a ocupação, apesar da descida do preço médio.
Portugal voltou a liderar entre os principais mercados emissores, seguido de Espanha e Reino Unido, confirmando a tendência habitual para este período.
Páscoa com reservas ainda moderadas e forte dependência do last minute
Para a Páscoa, o setor apresenta um arranque ainda incerto. À data do inquérito (20 de março), as reservas para o período das férias escolares (27 de março a 12 de abril) situavam-se nos 55%, com um preço médio de 132 euros.
No fim de semana da Páscoa (3 a 5 de abril), a taxa de reservas sobe para 57%, com o ARR a atingir os 147 euros.
Ainda assim, a AHP alerta para a necessidade de cautela na comparação com 2025, devido às diferenças no calendário das férias e no momento de recolha dos dados. “Do ponto de vista estatístico, não é válido fazer esta comparação”, sublinhou Cristina Siza Vieira.
A Madeira volta a destacar-se, com níveis de reserva significativamente superiores à média nacional, seguida pela Grande Lisboa e pelo Algarve. Já regiões como o Oeste e Vale do Tejo e os Açores continuam a evidenciar maior fragilidade na procura.
O mercado interno mantém-se como principal motor, sendo apontado por mais de 70% dos inquiridos, seguido de Espanha e Reino Unido. Em sentido contrário, os Estados Unidos apresentam sinais de abrandamento, sendo referidos por apenas 22% dos hoteleiros para o fim de semana, abaixo dos 38% registados no ano anterior.
Quanto às perspetivas, mais de metade dos inquiridos aponta para estabilidade na estada média, enquanto 54% antecipam melhoria dos proveitos totais, sobretudo no fim de semana.
Ainda assim, o setor mantém-se dependente da evolução das reservas de última hora. “Não esquecer […] o last minute é esta tendência”, afirmou a responsável.
Instabilidade geopolítica já impacta reservas
O inquérito evidencia também os primeiros efeitos da instabilidade no Médio Oriente no comportamento da procura.
Questionados sobre o impacto no ritmo de reservas para a Páscoa, 24% dos hoteleiros reportam aumento de cancelamentos ou abrandamento, enquanto 60% indicam manutenção e 16% referem mesmo um aumento da procura, associado ao desvio de fluxos turísticos.
“Há alguns fluxos, algum desvio que está a acontecer”, referiu Cristina Siza Vieira, admitindo que destinos como Portugal poderão beneficiar, no curto prazo, da instabilidade em mercados concorrentes.
Ainda assim, deixou um alerta: “é um sol de pouca dura”, sublinhando que a incerteza global poderá vir a afetar a procura turística de forma mais abrangente.



