Terça-feira, Fevereiro 20, 2024
Terça-feira, Fevereiro 20, 2024

SIGA-NOS:

Hoti Hoteis desenvolve novos conceitos para responder aos futuros padrões da procura

Aberto há um mês, o hotel Moxy Lisboa Oriente é a mais recente unidade gerida pelo grupo Hoti Hoteis. Com um conceito e decoração jovem e irreverente, características da marca Moxy, a unidade identifica a geração millennial e os nómadas digitais como o seu target principal. Para a Hoti Hoteis significa o aumento das marcas que tem em portfólio: a Moxy junta-se às contratadas Meliá e Tryp, e à marca própria do grupo pensada para ser ela própria uma cadeia de hotéis, a Star Inn.

A estratégia do grupo passa agora por concentrar todos os novos projetos nestas quatro marcas, de modo a aumentar a presença de cada uma no território nacional. “Não vamos continuar a expandir muito mais o conjunto de opções que temos, porque, entre marcas contratadas e próprias, temos um leque vasto de conceitos que podemos oferecer a proprietários e que permite a sua adequação em função da localização e do tipo de produto. O objetivo é termos, aos poucos, um peso significativo por marca no território nacional, a ideia é que os produtos Meliá estejam ligados à Hoti Hoteis, e o mesmo com a Tryp, se possível”, refere Miguel Proença, CEO da Hoti Hoteis. Em entrevista ao TNews, o responsável fala sobre a nova unidade hoteleira e a estratégia do grupo em resposta às mudanças que a pandemia imprimiu no setor hoteleiro.

Preparado para abrir há já vários meses, e concluído o período de formação exigido pelos padrões da Marriott, o Moxy Lisboa Oriente só não abriu mais cedo devido à “total falta de condições de mercado em Lisboa”.

Moxy Lisboa Oriente

“As cidades são definitivamente os mercados que foram e continuam a ser os mais afetados pela pandemia. O turismo de cidade, da forma como era trabalhado até agora, não era um fenómeno natural, mas sim construído com redes de distribuição”, refere. Ou seja, “nasce de um conjunto de operadores que, mais ou menos concertados, conseguiram a maximização do fenómeno do turismo das cidades. O turismo de cidade vai precisar muito de ser trabalhado de novo, porque de forma natural não vai surgir”, constata.

No pós-pandemia, o CEO da Hoti Hotéis considera que surgirão dois tipos de procura diferentes: “Quando existirem condições de segurança mais claras, vai existir aquilo que já se apelidou como os novos loucos anos 20. Existirá esta necessidade muito maior e premente de retomar o convívio e ambientes que devolvam convivências e acelerem a necessidade das pessoas estarem juntas. Acredito também que exista, por outro lado, uma necessidade de recolha maior das pessoas, assim como a necessidade de encontrarem dentro do hotel portos seguros e quartos mais confortáveis”.

“Quando existirem condições de segurança mais claras, vai existir aquilo que já se apelidou como os novos loucos anos 20. Existirá esta necessidade muito maior e premente de retomar o convívio e ambientes que devolvam convivências e acelerem a necessidade das pessoas estarem juntas.”

O Moxy Lisboa Oriente está “muito preparado para esta primeira valência”, permitindo que “as pessoas estejam em zonas comuns, a trabalhar e/ou a tomar um copo com amigos. É um hotel que não está só destinado a clientes mas também a atrair clientes de fora”.

A Hoti Hotéis tem estado, no entanto, a trabalhar noutros produtos para dar resposta ao segundo tipo de padrão de procura identificado: os clientes que procuram maior refúgio no hotel e no quarto. Isso significa pensar e implementar mudanças . “Temos estado a trabalhar componentes como a ergonomia e a luz dentro dos quartos, tentar ter ambientes mais claros. Por exemplo, abandonarmos a ideia do aparador por um móvel que esteja colocado a uma altura que torna confortável largos períodos de trabalho ou lazer dentro do quarto. Privilegiar, por vezes, mesas comunitárias que permitam ter duas ou três pessoas dentro do quarto. Temos estado a trabalhar diversos conceitos, porque, por um lado, existirá um conjunto de mercado que está muito focado em voltar a viver a vida em conjunto, mas, por outro lado, existirão pessoas que quererão estar mais tempo recolhidas dentro do quarto e estarem mais confortáveis como se estivessem em casa”.

Novas formas de viver o hotel

É com a marca Meliá que o grupo está, por agora, a desenvolver estes conceitos. “A Meliá é um produto que nos permite trabalhar com maior flexibilidade, não é um produto tão fechado. No caso do futuro Meliá Lisboa Oriente (atual Tryp Lisboa Oriente) é um produto que tem características naturais que permite esta vivência. Tem muita luz dentro dos quartos, os quartos são muito grandes. Permite-nos pensar à partida o que pode ser uma estadia de qualidade e de muito tempo dentro do próprio quarto”.

Os processos de remodelação do Tryp Lisboa Oriente e do Tryp Lisboa Aeroporto – que vão passar para a marca Meliá – estão já a ser pensados nesta nova lógica. “Se por um lado, temos de pensar nesta ideia de fundir zonas no hotel – que era um fenómeno  que já se estava a verificar antes da pandemia – , dentro dos quartos este é um trabalho novo que estamos a fazer e que vai no sentido de perceber que muitos clientes terão interesse em passar essa experiência para dentro do quarto: não terem uma mesa que seja excessivamente alta, terem braços nas cadeiras que sejam confortáveis para poderem estar a trabalhar várias horas, pensarmos na dimensão das televisões, na quantidade de luz, o ambiente não ser desnecessariamente escuro e optarmos por cores mais claras. Isto são tudo opções que estamos a ponderar à medida que aos poucos vamos fazendo remodelações e vamos testando, começando no Meliá Lisboa Oriente”.

Miguel Proença, CEO da Hoti Hoteis, e Fernando Amorim, diretor do Moxy Lisboa Oriente

A remodelação do futuro Meliá Lisboa Oriente está a ser efetuada por fases. Até ao final de agosto, serão remodeladas todas as áreas comuns e todos os quartos  virados para o rio. Um mês depois estará finalizada toda a zona dos jardins, que se encontra na zona sobrelevada do hotel. “É um piso completamente novo, onde vamos ter um conjunto de salas novas que podem ser pensadas, entre outras coisas, para cowork, um pequeno spa, ginásio, tudo isto com uma comunicação muito direta com as zonas sobrelevadas de passeio público que foram criadas na altura da Expo’98 e que estão niveladas com a Estação do Oriente”. Adicionalmente, o hotel passará a ter “uma zona de qualidade superior de F&B que vai permitir complementar todo o serviço de alimentação e bebidas, que já era feito na zona de restaurante”.

Considerado nos primeiros anos o melhor hotel Tryp do mundo, o Tryp Lisboa Aeroporto “estava numa fasquia de qualidade francamente maior do que é a maioria dos hotéis Tryp”. A ideia, com a sua renovação, “é que as pessoas percebam que o hotel foi trabalhado relativamente ao produto que existia, nos quartos vamos incidir sobre algumas áreas para atualizar a forma como o cliente sente o quarto: TVs de maior dimensão, garantir que em todo o quarto existem tomadas e fichas de USB, iluminação de cama, renovação de colchões e colchões maiores. São aspetos que aumentam o conforto do cliente no quarto durante mais tempo, mas que são de caraterísticas mais pontuais e que se destinam a melhorar tecnicamente o quarto e a forma como está preparado para o cliente”.

Digitalização e Sustentabilidade

As restrições impostas pela pandemia aceleraram os processos de digitalização nas empresas e a hotelaria não foi exceção. “O tema da digitalização foi um tema para o qual tivemos de olhar de forma quase imediata, para minimizar o contacto do cliente com superfícies e o contacto entre o cliente e o staff”. O desenvolvimento da app tem como objetivo “maximizar a própria relação do cliente com o hotel”. “Ao implementarmos sistemas de pré check-in e sistemas de check-in que minimizem o contacto com as equipas permite-nos criar soluções de filas de entrada rápida no hotel com o objetivo de criarmos, aos poucos, “uma via verde” de entrada e saída do hotel, reduzindo os períodos de espera”, algo que acontecia em alguns hotéis em Lisboa e no Porto, “face àquilo que é o uso de um hotel em ambiente de city break – estadias curtas , com muitas entradas e saídas – hoje me dia não se justifica. É um trabalho que começámos a endereçar no início da pandemia e que agora aos poucos começamos a afinar”.

“Sempre que forem pensadas remodelações e projetos, teremos em conta, estruturalmente, o impacto da presença do hotel”.

Já quanto ao tema da sustentabilidade, cada vez mais presente na vida das empresas, Miguel Proença adianta que a Hoti Hoteis vai criar uma estrutura interna responsável por implementar procedimentos operacionais que garantam um impacto significativo na diminuição da pegada dos hotéis. “Sempre que forem pensadas remodelações e projetos, teremos em conta, estruturalmente, o impacto da presença do hotel”.

E se é verdade que tem havido um trabalho menos estruturado em termos de investimento, preparação, equipamentos e sistemas que permitam reduzir o impacto no ambiente, a Hoti Hotéis vai contrariar essa tendência com a criação desta estrutura. “O princípio é este: enquanto decisores empresariais, sem sacrificar a vivência do cliente, termos a capacidade de fazer com que, aquelas 24 horas que o cliente passa no hotel, tenham muito menos impacto do que teria se estivesse noutro hotel ou em sua casa”. No caso do Star Inn Peniche foram já implementados vários procedimentos com resultados:  “A introdução de mobiliário exterior feito em plástico reciclado permitiu retirar do circuito comercial 90 mil sacos de plástico. A colocação de painéis solares permitiu que, entre julho e final de setembro, deixássemos de ter necessidade de recorrer à rede desde as 10h00 até às 18h00 da tarde”.

Alteração da estratégia de desenvolvimento?

A pandemia foi “claramente um acelerador de tendências” para a hotelaria, considera Miguel Proença. Perante as alterações da procura, impõe-se a questão: o que vai mudar na estratégia de desenvolvimento do grupo que tem em carteira vários projetos? “Já estávamos a verificar que os destinos secundários estavam a tornar-se progressivamente mais interessantes”.

No entanto, o CEO alerta para o longo período entre a tomada de decisão e a abertura da unidade hoteleira. Na maior parte das vezes não se coaduna com mudanças rápidas de investimento. “A questão que se levanta, com as decisões de investimento, é que estas implicam um tempo de maturação que é claramente excessivo. Desde que temos o terreno até ter o hotel aberto há um período enorme de amadurecimento, de autorizações, ou seja, há um conjunto de decisões que já tomámos, algumas delas, felizmente, são coincidentes com estas novas tendências, que são o caso destes produtos para destinos secundários”, afirma, dando como exemplo os projetos para Famalicão, São João da Madeira e Viana do Castelo. São projetos pensados e orientados à imagem “daquele que tem sido um projeto de grande sucesso”, o Meliá Ria Aveiro. Unidades entre 100 a 120 quartos, com spa, piscina interior e exterior que ostentam a marca Meliá. “A marca Meliá consegue comunicar muito melhor o segmento de lazer, mesmo o lazer urbano, do que a marca Tryp, que está mais associada a segmentos de trabalho”. Existem, no entanto, outros projetos que têm de sofrer adaptações. “Temos um projeto na Boavista que resultou de um terreno que foi comprado há muitos anos. É um projeto de grandes dimensões. Inicialmente, estava previsto um hotel de quase 300 quartos e depois a ideia foi passar para uma dimensão mais pequena, com 200 quartos, e conferir uma componente maior de escritórios que possa complementar a totalidade da oferta do espaço”.

“Já estávamos a verificar que os destinos secundários estavam a tornar-se progressivamente mais interessantes”.

Famalicão, São João da Madeira, Viana do Castelo e outros estão nesta altura em design de projeto ou em aprovação. “O desenvolvimento vai depender de qual é o fenómeno de recuperação”. “No caso do centro de Braga, temos um projeto muito interessante, que tem uma componente de integração histórica. É um hotel que terá 100 quartos e ficará no centro histórico de Braga”.

“O desenvolvimento vai depender de qual é o fenómeno de recuperação”.

Segundo Miguel Proença, neste conjunto de novos projetos, a Hoti Hotéis irá medir a velocidade de arranque em função do desenvolvimento do mercado. “Pusemos algum travão ao desenvolvimento: em alguns projetos que íamos fazer o kick off mais cedo, iremos analisar com calma e mais cautela quando os vamos iniciar, até porque o mercado de financiamento está muito bloqueado neste momento, temos de ter cautela com o avanço”.

A Hoti Hotéis pretende continuar a pensar os projetos com a racionalidade de sempre e que permitiu que as contas não entrassem no vermelho em 2020. “O facto dos nossos produtos terem sido sempre pensados com racionalidade, permitiu-nos colocar travão e reduzir muitos custos de operação. Mesmo assim, no ano passado, conseguimos terminar com um GOP de 3,2 milhões de euros e com um EBTIDA de zero, já pós-pagamento de rendas. Não perdemos valor. Em 2020, é possível que consigamos terminar um pouco acima disto”. O que se torna “preocupante”, afirma Miguel Proença, “são as moratórias e os custos de financiamento”. “[As moratórias] permitiram que, perante toda a situação complexa e extraordinariamente difícil, manter ao nível do EBITDA na linha de água, mas daí para baixo, tudo o que respeita à atividade financeira é muitíssimo preocupante para a nossa atividade que é de capital intensivo”. “As moratórias bancárias terminam em setembro, mas as moratórias dos programas de incentivos já terminaram. O prolongamento das moratórias bancárias e conseguir que as moratórias dos programas de incentivo sigam a mesma passada são aspetos muito importantes. Se no plano de incentivos não for garantido este adiamento vamos ter problemas gravíssimos para a oferta nacional”.

DEIXE A SUA OPINIÃO

Por favor insira o seu comentário!
Por favor, insira o seu nome aqui

-PUB-spot_img
-PUB-spot_img