Sábado, Novembro 26, 2022
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Jovens pelo mundo: André Coelho, o jovem de 24 anos que é rececionista no Luxemburgo

Em 2019, um em cada três jovens passou pelo menos duas semanas no estrangeiro para trabalhar ou em formação, de acordo com o Euronews. Cada vez mais jovens abandonam Portugal para procurarem melhores condições de trabalho no estrangeiro. Esta é a história de André Coelho, um jovem de 24 anos, da Quinta do Conde, com licenciatura e mestrado em Turismo, que decidiu emigrar este ano para o Luxemburgo para procurar melhores condições de trabalho na sua área. Atualmente, é rececionista no Park Inn by Radisson Luxembourg City Hotel.

Que curso tiraste?

Tirei dupla licenciatura de Turismo e Gestão Hoteleira na Universidade Europeia. No total são quatro anos, três anos de licenciatura em Turismo em que são incorporadas algumas unidades curriculares da licenciatura em Gestão Hoteleira. O quarto ano é para terminar a segunda licenciatura.

Antes de ires para o Luxemburgo, chegaste a ter alguma experiência de trabalho em Portugal?

No primeiro ano da licenciatura quis ir voluntariamente para um estágio para começar a ganhar experiência de trabalho. Fui empregado de mesa no Lisbon Marriott Hotel durante dois meses, foi um estágio de verão. A partir daí comecei a trabalhar e a estudar ao mesmo tempo. Continuei a trabalhar no Marriott como empregado de mesa, através da Talenter, uma empresa de trabalho temporário, em regime de extras.

No terceiro ano da licenciatura em Turismo, fiz um estágio curricular, também de dois meses, no Lisbon Marriott Hotel, mas desta vez no departamento de Front Office, em que aprendi todas as funções de housekeeping, de telefonista, concierge e de bagageiro. O Marriott é uma grande cadeia hoteleira e aprendi imenso, é um hotel com quase 500 quartos, com um serviço de excelência e rigor.

Durante o curso ainda fiz um estágio extra-curricular de seis meses numa agência de viagens para jovens, a VidaEdu, que tinha um escritório na minha universidade. Era uma agência para jovens que queriam procurar experiências fora de Portugal – estágios, voluntariado, gap year’s – e eu tratava do marketing e vendas da agência.

Fizeste muitos estágios enquanto estavas a estudar, como é que conseguiste gerir o tempo?

Sempre segui o lema que se soubermos gerir bem o nosso tempo, temos tempo para tudo. Era jovem, só queria ter experiências no currículo, porque quanto mais experiência tivermos, mais conhecimento conseguimos adquirir e também nos enriquece como pessoas, não só profissionalmente, mas também a nível pessoal.

Enquanto estava a tirar as licenciaturas, ainda estava a fazer extras no Marriott mas comecei à procura de um contrato de trabalho que não fosse temporário, mas naquele momento o Marriott não estava interessado. Por isso, decidi sair da empresa de trabalho temporário e rumar a um novo desafio. Procurei noutros hotéis um emprego em Front Office, porque era o departamento que me suscitava mais interesse. Gosto de usar computadores e de utilizar o sistema hoteleiro (no Marriott utilizava o Ópera), e, ao mesmo tempo, gosto do contacto com o público e de satisfazer as necessidades do cliente.

Tive uma entrevista no Ramada Lisbon Hotel, que pertence ao grupo Wyndham, e consegui um contrato de seis meses para trabalhar na receção, que foi renovado novamente passado seis meses. Comecei a trabalhar lá em 2019, mas entretanto chegou a covid-19, em 2020, e estive em layoff durante dois meses, mas depois não me renovaram o contrato, porque estavam a cortar pessoal.

Depois de ter terminado as licenciaturas, fiz um mestrado também na Universidade Europeia, em Gestão de Turismo e Hotelaria, que terminei em maio de 2022. O mestrado, ao contrário da licenciatura, era mais direcionado para a área da gestão.

“era jovem, só queria ter experiências no currículo, porque quanto mais experiência tivermos, mais conhecimento conseguimos adquirir e também nos enriquece como pessoas, não só profissionalmente, mas também a nível pessoal”.

E querias seguir a área de Gestão Hoteleira?

O meu sonho sempre foi um dia ser diretor de um hotel, espero um dia alcançá-lo. Acho que ainda tenho muito pela frente e ainda sou jovem, tenho tempo para lá chegar. Sempre ouvi dizer que subindo cada degrau chegamos até ao topo.

Entretanto, enquanto estava no mestrado, tive uma proposta de emprego na área backoffice na Teleperformance, em que tinha de trabalhar no projeto da Galp. Não trabalhava diretamente com o cliente, mas tinha de responder a emails, fazer contratos de gás e eletricidade para as empresas, era um projeto B2B e também fazíamos cobranças. Estive lá até junho de 2022. Era um trabalho numa área muito diferente da minha, não tinha nada a ver com o que aprendi na universidade. A utilização de sistemas operativos e o conhecimento de gestão financeira e de contabilidade eram os únicos pontos em comum.

Entretanto, casei-me em maio de 2022. Eu e a minha mulher já vivíamos juntos há dois anos em Portugal e decidimos que queríamos mudar de vida este ano, porque em Portugal é muito difícil, mesmo com uma licenciatura e mestrado. Quando acabei o mestrado, o meu objetivo era fazer um estágio para ter alguma experiência na área da gestão de hotéis, mas como não são remunerados – e com o casamento e ter de pagar despesas – não foi possível escolher o estágio, por isso optei pela dissertação de mestrado.

Depois de ter defendido a tese e de ter casado, decidi mudar de vida. No início de junho mudámo-nos para o Luxemburgo.

“O meu sonho sempre foi um dia ser diretor de um hotel, espero um dia alcançá-lo. acho que ainda tenho muito pela frente e ainda sou jovem, tenho tempo para lá chegar.”

Porquê o Luxemburgo?

André Coelho no Luxemburgo

Primeiro, porque o ordenado mínimo é superior, é mais de dois mil euros. As condições de vida são outras. Apesar dos custos de vida serem elevados, em termos de habitação por exemplo, o ordenado que recebemos é suficiente para conseguir aliviar as despesas. E também porque tenho família que já vive aqui há alguns anos. Eu e a minha mulher viemos cá no Natal do ano passado, para sabermos mais sobre o país e percebemos que é uma coisa completamente diferente. Há quem diga que o Luxemburgo é Portugal com mais qualidade de vida. Mais de metade do país são portugueses.

“Eu e a minha mulher já vivíamos juntos há dois anos em Portugal e decidimos que queríamos mudar de vida este ano, porque em Portugal é muito difícil, mesmo com uma licenciatura e mestrado.”

Quando foste para o Luxemburgo já tinhas arranjado trabalho?

Queria ter arranjado trabalho antes de vir para aqui, no entanto, percebi que seria complicado, porque precisava de estar presente para fazer as entrevistas de trabalho e os custos das viagens não eram muito baratos. Por isso, viemos numa aventura.

Já tínhamos arranjado casa, com a ajuda dos nossos familiares, então pegámos nas nossas coisas e viemos. Só quando cheguei é que comecei à procura de emprego na minha aérea. Queria trabalhar na área do turismo, por isso candidatei-me a uma vaga para agente de operações no aeroporto, no entanto, pelo que me disseram, a minha candidatura não correspondia aos requisitos exigidos. Nunca tive uma experiência em turismo, porque nunca me deram essa oportunidade, mesmo em Portugal. Não sei se algum dia vou ter emprego na área do turismo, porque é difícil, sempre disse aos meus professores e familiares: se alguém quiser ter experiência na sua área mas se não lhe deram uma oportunidade para tal, como é que consegue adquirir experiência ou currículo?

Fala-se muito da questão da falta de mão-de-obra no turismo, qual é a tua opinião?

Acredito que tenha a ver com as condições de trabalho. Quando vamos a uma entrevista, as condições que nos dão não correspondem às expetativas. Posso dar um exemplo, tive uma entrevista de emprego via telefone – nunca me tinha acontecido – para um hotel em Grândola que estava a recrutar um rececionista. Gostaram do meu currículo, e disseram que estavam muito interessados. Falaram-me das condições e disseram-me que o ordenado seriam 700€ brutos por mês e que não me davam alojamento – perguntei se davam, visto ser muito longe da minha habitação. Nessa altura, como já tinha alguns anos de experiência e já estava licenciado, disse que não podia aceitar 700€, porque tinha de me deslocar de carro diariamente até Grândola. Propus subir o ordenado para 800€, mas disseram-me que o máximo que me podiam pagar eram 750€ e que, mesmo assim, ia receber mais do que as pessoas que já lá estavam a trabalhar há vários anos. Agradeci a oferta, mas disse que não estava interessado, porque tinha as minhas despesas e tinha de fazer as deslocações diárias.

“Se alguém quiser ter experiência na sua área mas se não lhe derem uma oportunidade para tal, como é que consegue adquirir experiência ou currículo?”

Voltando ao Luxemburgo, continuaste a procurar trabalho no turismo?

Como não consegui trabalho no aeroporto, tentei na hotelaria. Candidatei-me a um hotel de três estrelas do grupo Radisson, o Park Inn by Radisson Luxembourg City Hotel, e na mesma semana em que fiz a candidatura chamaram-me para uma entrevista. É um hotel de cidade com 99 quartos, que não tem uma grande variedade de serviços, tem um restaurante, um bar e um ginásio.

Uma semana depois da entrevista, voltaram a chamar-me a apresentaram-me um contrato de efetividade para a receção, com seis meses à experiência. Fiquei bastante contente por ter ficado logo na primeira entrevista que tive no Luxemburgo e, além disso, darem-me um contrato de efetividade. Isto demonstra que a empresa valoriza os funcionários e isso para mim é muito importante.

Há quanto tempo estás nesse emprego? Foste bem recebido?

O meu contrato começou a meio de julho, devido a burocracias – para trabalharmos no Luxemburgo temos de ter título de residência e conta bancária. Fui muito bem recebido pelos meus colegas, tenho uma colega portuguesa, outra luxemburguesa, tenho um colega belga, outros franceses. No início só falava inglês com os meus colegas mas agora falo maioritariamente em francês, para praticar. Porque sem falar francês, é difícil arranjar trabalho no Luxemburgo.

“Fiquei bastante contente por ter ficado logo na primeira entrevista que tive no Luxemburgo e, além disso, darem-me um contrato de efetividade. Isto demonstra que a empresa valoriza os funcionários e isso para mim é muito importante.”

Estás satisfeito com as condições de trabalho?

Sim, como é um hotel de 3 estrelas as condições são diferentes dos hotéis de 4 e 5 estrelas. Trabalhei em hotéis de 4 e davam refeições, prémios de caixa e de línguas. Aqui não dão refeições, só o subsídio de alimentação. Mas de resto estou satisfeito, ainda não fiz as equivalências para receber como mestre. Depois, legalmente têm de aumentar o meu ordenado.

O que estás a valorizar mais nesta experiência?

As pessoas, os meus colegas têm sido uma grande ajuda. No quarto dia de trabalho já estava a trabalhar sozinho na receção. Depositaram confiança em mim, o meu chefe quis deixar-me sozinho para ver como lidava com as situações. Aqui, aos domingos à tarde, quem trabalha no front office está a trabalhar ao mesmo tempo no bar, tem de tratar dos dois departamentos.

Quais são as maiores desvantagens?

A maior desvantagem é não ter a minha família e os meus amigos aqui, que são importantes. Temos um familiar, do lado da minha mulher, e dois amigos que vivem cá há alguns anos, mas não é a mesma coisa. Sou mais apegado à minha família do que a minha mulher, mas para pensar no futuro, na minha saúde, bem-estar e nos meus futuros filhos, tive de ser egoísta. Foi por isso que quis sair de Portugal. Antes de casar tive de ter dois empregos para conseguir juntar dinheiro, trabalhava de dia e à noite.

A trabalhar na hotelaria em Portugal não ias conseguir pagar despesas e formar família?

Não. Depois de acabar esta grande vaga de covid-19, em 2021, recebi uma proposta para trabalhar novamente no Ramada Lisbon Hotel mas o ordenado era o mesmo. Estar a deslocar-me até Lisboa – eu vivia perto de Sesimbra – não era vantajoso para mim.

Quais é que são as maiores diferenças do Luxemburgo para o mercado português?

Em termos de mercado de trabalho, as condições são completamente diferentes. A maioria das empresas dá seguro de saúde e carro da empresa. Os transportes públicos são gratuitos, o que é bastante vantajoso. Antes da covid-19 eram pagos, mas agora já não são. Os ordenados são muito melhores, quem trabalha numa empresa (que não esteja ligada à hotelaria) pode ganhar cerca de cinco mil euros. Quando chegamos aqui pensamos: ‘Uau, como é que é possível? Não estamos assim tão longe do Luxemburgo e a diferença é enorme’. As rendas são caras, enquanto que em Portugal recebemos 700/800€ de ordenado e pagamos mais do que isso por um T1 no centro de Lisboa, aqui vivo numa vila, num T1 em que tenho a estação de transportes a cerca de 20 minutos a pé de casa, e pago 1000€ de renda, mas o meu ordenado vai rondar os 2500€. É uma diferença enorme, dá perfeitamente para ter emprego e ter vida social. O mercado de trabalho aqui é completamente diferente. Para quem quer crescer profissionalmente e assentar num país, este é o local ideal para tal.

Pensas ficar aí?

Quero ter uma boa estabilidade financeira, aprender outras línguas e formar a minha família. Quem sabe um dia possa voltar a Portugal. Quando me perguntam nas entrevistas onde é que me vejo daqui a cinco anos, digo que o meu sonho é ser diretor de um hotel. Obviamente que pode ser difícil mas nunca devemos desistir, devemos sempre lutar pelos nossos sonhos e objetivos.

“O mercado de trabalho aqui é completamente diferente. para quem quer crescer profissionalmente e assentar num país, este é o local ideal para tal”.

*Durante as próximas semanas, iremos partilhar experiências de jovens portugueses a trabalhar no setor do turismo no estrangeiro.

Leia a história da Mariana, a jovem de 25 anos que é Island Host nas Maldivas; da Matilde, que estagiou no resort Bulgari no Dubai; da Marisa Brandão, a jovem que é estagiária em Las Palmas, nas Canárias; e do Miguel Matos, um português que é Product Manager em Berlim.

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